31 dezembro 2010

Feliz Ano Novo


Meus queridos leitores,
Última postagem do ano e só poderia ser, pra desejar um Feliz Ano Novo.
Agradeço por vcs me acompanharem o ano todo.
Desejo à todos vocês um 2011 cheio de paz, saúde, prosperidade, harmonia, união, sucesso, realizações, alegria e que cada um de vocês encontre a tão desejada felicidade.

É 2010 acabou mas 2011 ta aí para novas oportunidades, para mais contos, para renovar a esperança... para seguirmos em frente na grande caminhada da vida... e espero que vocês me acompanhem nela por muito tempo.
Obrigada por existirem,

Milly Pellegrini
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26 dezembro 2010

Festas de Final de Ano

Queridos Leitores
Eu sei que o blog anda desatualizado, e nem preciso dizer que é por conta das festas de fim de ano, né? rsrs
Gostaria de deixar avisado que essa semana pretendo atualizar o blog, caso eu não consiga então será só em 2011 ... rsrs ...
Aliás como não desejei antes ... Espero que todos vocês tenham tido um Feliz Natal e desejo uma ótima passagem de ano. Que 2011 seja um ano de muita paz, conquista e realizações.


Meus sinceros cumprimentos,


Milly Pellegrini
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29 novembro 2010

A Casa Xadrez

outono3Devia ser uma tarde de maio. Não tenho certeza, minha memória já anda velha e gasta, mas lembro que fazia frio. Então devia ser maio; maio sempre faz frio. Não sei ao certo o que eu buscava, não acreditava mais em alívio ou respostas. Só lembro de andar pelas ruas a esmo. Mas entenda, isso já faz muito tempo, então talvez houvesse sentido na época. Algumas de minhas lembranças foram modificadas, outras perdidas e decerto carrego umas tantas inventadas. Os anos esculpem nossa memória sem muito compromisso com a verdade.
Mas lembro perfeitamente do instante em que a avistei pela primeira vez. Guardei a imagem em um relicário cuidadosamente protegido das artimanhas do tempo. A Casa Xadrez, assim a batizei, exatamente como os vizinhos chamavam minha casa dos tempos de menino. Era revestida por quadradinhos de cerâmica brancos e pretos, que lhe conferiam o inusitado visual. Parei para observá-la por alguns instantes e notei que as semelhanças com minha antiga residência não se limitavam ao quadriculado de seu revestimento — a porta cor de marfim, o pequeno canteiro de margaridas que ornamentava a entrada, o velho portão enferrujado que meu pai vivia dizendo que trocaria — tudo era rigorosamente idêntico, como se alguém houvesse construído uma meticulosa réplica da moradia de meus pais, que há muito fora demolida.
Sim, sim, eu deveria imaginar que havia algo de errado com aquela espantosa descoberta. Se estivesse à luz de minha consciência, talvez houvesse escapado de meu destino. Mas quem, em meu estado de espírito, poderia se guiar pela razão? Aproximei-me da casa como um bebê que corre para os braços da mãe. A cada passo, um vislumbre de reconhecimento; o rangido do portão, o cheiro suave das flores, a terra fofa do quintal que parecia fugir de meus pés.

MaçanetaBati na porta sem saber ao certo o que esperar como resposta. Ninguém atendeu. Insisti; nada. Girei então a pequena maçaneta redonda e dourada — detalhe que eu mesmo escolhera quando menino — e, como num passe de mágica, estava em minha antiga sala de estar, caminhando sobre o piso que seguia o padrão quadriculado do exterior, admirando o grande lustre do século XIX que meu pai trouxera da Europa.
Fiquei maravilhado. Não havia um único detalhe no interior da nova Casa Xadrez que fugisse à original. Visitei cada cômodo como se relesse um velho diário de infância. A disposição dos móveis, a antiga máquina de costura de minha mãe, os discos empoeirados de meu pai. Nem mesmo as imperfeições foram esquecidas; a porta da despensa continuava emperrada e o sofá ainda exibia a enorme mancha de café que me valera uma boa surra. Eu podia até sentir o cheiro dos cigarros que jamais saiam da boca do meu velho e, se fechasse os olhos, ainda ouvia o barulho ritmado da máquina de costura que por tanto tempo me atormentou, mas que naquele momento soava como uma antiga música que rememorava bons tempos.
Subi ao primeiro andar para visitar os quartos e o escritório de meu pai. Revi, com uma prazerosa melancolia, a prateleira de miniaturas que minha mãe colecionava e a máquina de escrever em que meu pai virara noites e noites, em seu árduo ofício de jornalista. No meu quarto, encontrei a mesma cama bagunçada e os aeromodelos que eu construía. Percebi, naquele momento, que não havia outro lugar no mundo para mim. Ali, cercado por minhas confortáveis memórias, poderia recomeçar. Sentia-me seguro, protegido, como se voltasse para o útero materno.
Decidi ficar na casa até que o proprietário aparecesse, então lhe faria uma proposta irrecusável pelo lugar. Venderia tudo o que tinha se preciso fosse, pagaria o triplo do valor do imóvel, mas não podia viver fora dali. Estava resolvido. Porém, nada disso foi necessário — o dono, seja lá quem fosse, jamais apareceu para reclamar a posse do local.

Nas primeiras semanas, tudo correu bem. Sentia-me disposto, revigorado. Dedicava horas à exploração de cada recanto da casa, embriagando-me com minhas boas recordações. Recuperei inspiração e ânimo para escrever. Há meses que eu não criava uma linha sequer, mas, quando sentei na pesada cadeira em que meu pai datilografava, foi como se tirassem a pedra que obstruía a nascente de minhas ideias, e o som que as teclas da máquina faziam ao serem golpeadas parecia ser o combustível para que a fonte não mais secasse.
Fiquei tão maravilhado com a transformação que a Casa Xadrez operava em meu ser que sequer reparei que não saíra de casa desde o dia em que cruzei a porta marfim. Tampouco me ocorreram os problemas de ordem prática que a casa resolvia por si mesma: a geladeira estava sempre cheia, o chão e os móveis limpos e os lençois da cama renovados.
Meu processo criativo jamais fora tão rápido. Em pouco mais de dois meses, terminei meu primeiro livro na Casa Xadrez — um romance narrando a história de um homem amargurado que volta para casa após saber da morte dos pais e reencontra ali o prazer de viver. Era uma ode à minha nova casa. Não pensei em publicá-lo, o mundo externo já não me interessava. Escrevia para mim mesmo, para celebrar minha nova vida. Tudo ia tão bem que decidi que era hora de expurgar meus demônios. Escreveria sobre as trevas que me assolavam antes de eu encontrar a casa. Era esse o momento de libertar-me de todo o peso que carregava em minha alma.
Revirar as memórias que eu vinha tentando soterrar até então era tarefa das mais doloridas e nem mesmo o conforto da Casa Xadrez impediu que alguns fantasmas lamuriassem por terem sido despertos de seus jazigos. Nos momentos mais sombrios, eu deixava o escritório, acendia um cigarro e mergulhava novamente no oceano de lembranças que a casa me proporcionava.

Numa dessas pausas, após remontar uma passagem de minha vida que me perturbou particularmente, fui ao meu quarto, em busca de uma melhoria em meu estado de espírito. Fiquei um tempo brincando com os velhos aeromodelos quando notei uma porta de mogno próxima ao armário de brinquedos, a cor avermelhada contrastando com o azul infantil que coloria as paredes. Aquela porta nunca estivera ali antes. Passei dias explorando cada milímetro daquele lugar e tinha plena convicção disso.
Hesitei durante um tempo, não apenas pelo inusitado do fato, mas porque aquela porta, seja lá para onde desse, representava uma ruptura que podia desequilibrar meu paraíso espiritual e imaginativo. Era minha Caixa de Pandora. Mas seria impossível não abri-la; não poderia conviver com aquela nova passagem me atormentando dia e noite, sem saber que destino ela guardava. Girei a fria maçaneta e entrei.
A porta dava para um cômodo totalmente escuro. Um perfume familiar infestava o ambiente, mas eu não o reconhecia. Tateei pela parede até encontrar um interruptor, apertei-o e uma forte luz alva me cegou. Quando meus olhos se habituaram à iluminação, vi que estava numa pequena sala totalmente branca, de paredes lisas. O chão estava quase completamente coberto por pelos, mas, por baixo deles, podia ver finas marcas de pneus. Abaixei-me e peguei um punhado daqueles pelos amarelados. Era dali que vinha o cheiro — o perfume do xampu de Duque, meu primeiro cachorro. Eu o matara por acidente, enquanto aprendia a andar de bicicleta. Jamais me recuperei do incidente, jurara a mim mesmo que não mais pilotaria algo que pusesse em risco a vida de alguém. Daí minha fixação por aviões — achava que no ar nada de mal poderia acontecer.

Saí da sala desorientado, entre lágrimas e tropeços. A dor daquela lembrança me valeu uma noite ardendo em febre. Meu refúgio fora maculado por uma mancha sangrenta que eu fizera questão de enterrar em meu passado. A paz que outrora a Casa Xadrez me oferecia agora se transformara em pânico — que outras passagens ela poderia conter? Onde elas me levariam? Eu estava novamente à mercê das memórias de que fugia até então.
No dia seguinte voltei ao quarto e constatei que a porta vermelha não estava mais lá. Percorri o restante da casa; tudo parecia ter voltado ao normal. Porém, a sensação de desconforto não me abandonou. A cada passo que dava, em cada cômodo que entrava, pressentia que algo estava prestes a acontecer, como se a casa me espreitasse em busca do momento certo para uma nova estocada.
Decidi sair um pouco de casa, caminhar pela rua, fumar um cigarro e espairecer a mente. Foi só nesse momento que percebi que não saia de casa há meses. Olhei ao meu redor, perplexo, imaginando como tudo se mantera em ordem até então. Mas não estava disposto a divagar por muito tempo e atravessei a sala a passos largos, repentinamente ansioso para ter contato com o mundo exterior.
Quando cheguei à porta marfim, senti meus músculos travarem — sim, aquela deveria ser a porta que me daria acesso ao jardim de margaridas, mas a maçaneta era ovalada e negra. Alguma memória devastadora deveria me esperar para além daquela porta, mas resolvi abri-la mesmo assim. Porém, o que encontrei foi algo que superava totalmente minhas expectativas — a mesma sala que acabara de atravessar. Não que a sala anterior houvesse desaparecido; permaneci estático na porta por alguns instantes, olhando para as salas idênticas.
combinadodesalasEra como se eu estivesse dentro de um espelho, olhando imagem e reflexo.
Não havia outra coisa a fazer a não ser atravessar essa nova sala, em busca da maçaneta dourada. A vertigem da situação me enjoava e o padrão xadrez do piso começou a me deixar tonto. Parei por um momento, em busca de ar. Ergui a cabeça e notei, aterrorizado, que na nova sala não repousava o antigo lustre. Em seu lugar, rodando vagarosamente, estava um gigantesco móbile para berços, ornamentado por aviões de brinquedo. Era o móbile que eu construíra para o berço de Lara.
Meu estômago se contraiu com violência e eu senti que perderia os sentidos. Antes que eu viesse a desfalecer, disparei em direção à nova porta marfim, ainda esperançoso em encontrar a saída. Mas a porta me levou à outra réplica da sala. Atravessei-a sem olhar ao redor. E o destino era outra sala idêntica. Devo ter atravessado mais de dez vezes a mesma sala até finalmente cair, exausto, o rosto encharcado por suor e lágrimas.
Não sei ao certo se adormeci ou desmaiei, só posso afirmar que no outro dia acordei em minha cama, agasalhado em minhas cobertas, tudo perfeitamente em ordem. Mas a Casa Xadrez não mais me enganaria. Eu precisava fugir dali. Estava disposto a fazer qualquer coisa, enfrentar as artimanhas da casa — destruí-la se preciso fosse — mas eu não podia viver sob o peso de meu passado, ou da loucura a que ele me levaria.
Foi então que a tormenta começou. A casa não me deixava partir. As janelas não se abriam, nem era possível quebrá-las; as pessoas que passavam pela rua não podiam me ver ou ouvir. Com o tempo percebi que a paisagem do lado de fora mudava constantemente, embora eu não pudesse precisar se a casa alterava o seu entorno ou a minha percepção. Também não havia um padrão para dia e noite. Por vezes ficava mergulhado em trevas por semanas, noutras, o sol parecia jamais se pôr.

Tentar encontrar a porta de saída era uma tarefa inútil. A casa criava novos cômodos, replicava outros, construía labirintos intransponíveis. Sempre que eu chegava à porta marfim, não era a maçaneta dourada que me esperava. Percebi que também não havia como destruí-la. Eu podia quebrar o que quer que fosse, a casa reconstruía assim que eu virasse as costas. Nem mesmo minha tentativa de incendiá-la trouxe algum resultado.
Quanto mais eu tentava fugir daquele lugar, mais a casa me castigava. Minhas piores lembranças saltavam das portas, das gavetas, do fundo dos armários. A Casa Xadrez, que imaginei ser minha salvação, mostrou-se o mais cruel de todos os infernos — uma prisão assombrada pelos piores fantasmas que um homem pode carregar — os fantasmas de seu passado.
Passaram-se anos sem que houvesse um dia sequer em que eu não buscasse uma forma de ludibriar a casa e libertar-me de meu cativeiro. Com o tempo, a esperança foi me abandonando, junto com qualquer sentimento que ainda pudesse habitar em minha alma. As memórias ruins, que a casa desencavava de meu peito e esculpia ao meu redor, quase não me afetavam. Eu somente vagava pela casa, olhando pelos cantos, buscando um pequeno brilho dourado que me trouxesse de volta à vida.
Quando eu já imaginava que nada de novo poderia acontecer — ou me afetar — a casa me mostrou a última de suas revelações. Eu estava no quarto dos meus pais, observando as miniaturas que minha mãe colecionava, tentando imaginar o significado que cada uma possuía para ela. Fui tirado de minhas elucubrações por um estrondo ensurdecedor, um trovão vindo do teto. Algo devia ter atingido a Casa Xadrez. As paredes estremeceram furiosamente, vários móveis foram ao chão, espelhos se espatifaram. Eu me encolhi no chão, sem saber o que esperar. Talvez finalmente a casa estivesse morrendo.

O pandemônio durou alguns minutos, depois tudo voltou à calmaria. Ergui-me e olhei ao redor, sem conseguir distinguir o que sentia, tamanho era o tempo em que não sentira nada. Saí do quarto; uma escada aparecera no corredor. Durante todos esses anos, nunca surgira um segundo andar. Então onde daria a escada? No teto? Estaria a casa me oferecendo uma chance de sair? Os questionamentos circulavam em minha mente enquanto eu vencia, lentamente, os degraus.
sótaoQuando cheguei ao topo, vi que estava numa espécie sótão. Por toda parte havia destroços de um pequeno avião, um ultraleve. Eu já estivera em meio a esses mesmos destroços antes, mas inconsciente. Caminhei por eles, as lágrimas me escapando pelo rosto, embora eu não me sentisse triste, apenas vazio. Perto de um pedaço grande de uma das asas, encontrei o corpo de Irene. Um corte profundo lhe retalhava o rosto, mas ainda era bonita. Tomei-a em meus braços e beijei-lhe os lábios frios. Em seguida encontrei Lara. Ela estava caída de bruços, o cabelo castanho manchado de sangue. Usava o vestido azul que eu lhe dera de natal. Não tive coragem de virá-la, apenas pedi desculpas e saí. Naquele dia entendi que a casa jamais me deixaria ir embora.
Hoje já estou velho e fraco. Não odeio a Casa Xadrez; o ódio demanda muito esforço e estou cansado demais para alimentá-lo. A casa para mim é como uma velha companheira que aprendi a me acostumar com o tempo. Acredito que não tornarei a ver o mundo lá fora — e nem sei se o mereço. Às vezes ainda perambulo pelos cômodos, correndo os olhos pelos cantos, em busca da velha maçaneta dourada. Mas — me pergunto — e se a encontrasse, ainda seria capaz de cruzar mais uma porta?





Autor: Felipe Falconeri
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27 novembro 2010

Quem vence a guerra é quem tem a melhor estratégia

“Toda guerra tem seu preço que é a morte de pessoas inocentes.”

vampira

Sophie era alta, magra, cabelos negros e compridos, tinha um nariz fino, uma boca pequena e uma sobrancelha bem desenhada. Sua aparência era de uma garota meiga, carinhosa, tímida e atenciosa, no entanto ela escondia um segredo sombrio.
Trabalhava em uma loja de conveniências em um posto de gasolina vinte e quatro horas, à beira da estrada nos arredores da pequena cidade.
Conan era o gerente do posto. Alto, gordinho, cabelos castanhos e bagunçados. Um homem muito simpático e sorridente.
Chegou a troca de turno, era uma hora da madrugada. Sophie e Conan pegaram suas coisas e se despediram de Claire e Bob. Sophie como sempre recusou a carona de Conan, pois costumava ir a pé para casa, passando vez ou outra por algumas florestas e terrenos abandonados.
Caminhando mata adentro e perdida em seus pensamentos, ela se depara com restos do que pareciam ser sete vampiros. Ela ficou irada com tal cena, deu meia volta e foi pedir carona à beira da estrada. Um carro, parou a sua frente.
    - Boa noite! – ela falou gentilmente. – será que o senhor podia me dar uma carona até a minha casa? – completou com um sorriso.
    - Claro, entre. – o motorista respondeu.
    Ela sentou no banco de trás.  O motorista se virou para Sophie.
    - Onde você mora? – perguntou.
    - Próximo da saída 27.
    Enquanto dirigia, Sophie leu os pensamentos do homem que revelou a verdadeira intenção dele. “Garota gostosa, vai ver o que vou fazer com você quando chegarmos na rota 27”. Sophie não gostou do pensamento do sujeito e se posicionou de um jeito que um humano qualquer refletiria no espelho retrovisor. Alguns minutos depois, o homem percebeu algo errado com sua passageira. Ele olhava no retrovisor e ela não aparecia no espelho, contudo quando olhava para trás ela estava lá. Parou o carro bruscamente.
    - O que diabos é você? – ele perguntou horrorizado.
    Ela percebeu que seu plano tinha dado certo. Sem responder e em uma velocidade incrível ela foi para o banco da frente. Os olhos dela estavam pretos e os do homem arregalaram. Ele tentou sair do carro e ela o segurou com força.
    - Aonde pensa que vai, querido? – ela satirizou.
    - Me larga criatura do inferno.  – ele disse desesperado.
    - Ah, não posso deixar alguém tão suculento como você sair assim, além do mais você irá comprometer minha verdadeira identidade. Seu sangue deve ser muito bom, deixe-me prová-lo. – ela falou se aproximando da veia saltada do pescoço do homem.
    Ele tentou se desvencilhar e ela começou a espancá-lo, deixando-o inconsciente, porém vivo, pois ela ouviu os batimentos cardíaco dele, o que aumentou mais ainda a sua sede de sangue. Com o homem desacordado ela investiu contra o pescoço dele, bebendo daquele líquido rubro que satisfazia-lhe a fome. Após constatar que o homem realmente estava morto ela jogou seu corpo inerte no banco traseiro, ocupou o lugar que outrora era daquele pobre homem e dirigiu até a mansão de Christopher. Pelo caminhou encontrou um homem muito bonito pedindo carona. Sophie deixou-o entrar e ele sentou no banco do carona.
    - Para onde você vai, querido? – ela perguntou gentilmente.
    - Eu vou um pouco a frente da saída 27.
    Enquanto ela dirigia o passageiro examinava o carro e notou o corpo do homem no banco traseiro e pelo sangue espalhado na roupa, deduziu que ele estivesse morto e se sobressaltou perante a situação. Sophie percebeu e parou o carro.
    - O que foi?
    - O que aconteceu com o homem que está no banco traseiro? – ele perguntou inseguro.
    - Nada, só está dormindo, provavelmente bêbado.
    - E esse sangue todo é o que então?
    “Garoto curioso demais, droga”, Sophie pensou. “Vou ter que agir agora”, concluiu.
    Ela não respondeu e empurrou a cabeça dele contra o vidro, fazendo-o bater o nariz e ficar inconsciente. Ela aproveitou e bebeu o sangue dele, matando-o. O corpo dele foi fazer companhia para o outro morto no banco traseiro.
    Na saída 27 ela tinha que subir uma serra. Alguns quilômetros antes da mansão ela parou o carro e carregou os corpos até o barranco, deixando-os cair na imensidão escura. Ela seguiu dirigindo e finalmente chegou ao seu destino.
   
Werewolf_by_GinasaA mansão tinha um aspecto abandonado com um jardim arruinado. Com uma força descomunal ela abriu o portão emperrado, passou pelo jardim e foi surpreendida por dois lobisomens. Ela atacou-os e correu para dentro da mansão. Ao entrar percebeu que o interior negava o aspecto pavoroso do lado de fora, à direita era a sala de estar com sofás vermelhos posicionados em “L”, na frente de uma lareira acesa, à esquerda ficava a cozinha e a despensa e em cima tinha os quartos. Passou pela sala de estar e foi até a sala de jantar, bem requintada, com móveis de madeira maciça e objetos de ouro, adornavam aquele cômodo. Na ponta da comprida mesa de jantar estava Christopher desfrutando de um banquete, rico em carne. Ele era alto, magro, tinha cabelos negros e curtos, olhos azuis, vestia uma calça preta com uma blusa branca justa que modelava seus músculos. Ao me ver franziu o cenho.
    - O que seus vira-latas sarnentos andaram aprontando, Christopher? – Sophie perguntou irada.
    - Não sei do que você está falando. A propósito, boa noite Sophie.-  ele respondeu calmamente.
    - Ah, boa noite! Não se faça de cínico. Então como você explica os vampiros estraçalhados que encontrei na floresta?
    - E o que você quer que eu faça? – perguntou displicente.
    - Que tal, colocar uma coleira nesses seus vira-latas?
    - Não nos chame de vira-latas. – ele retrucou irado, cerrando o punho direito na mesa. – sua vampira nojenta.
    Na velocidade dos vampiros ela pegou-o pelo pescoço e derrubou-o de costas no chão.
    - Então, não se meta com a minha espécie. – ela bradou.
    - Me solta sanguessuga. – ele arranhou seu peito e empurrou-a.
    Ela colocou a mão na ferida que jorrava sangue e doía muito.
    - A próxima eu não vou errar seu pescoço. – ele falou nervoso.
    - Você está provocando uma guerra em que os lobisomens irão sucumbir. Esteja dia 7 de julho no centro da cidade, às vinte e duas horas.
    - É o que veremos, estaremos lá.
Ela saiu batendo os pés. E Christopher ficou pensativo “Até parece que os vampiros vão vencer a gente, somos mais fortes e mais espertos. Essa vadia verá do que sou capaz”.
    A guerra evitada por séculos estava prestes a acontecer, no centro de uma cidade pequena, com o intuito de causar impacto. Sophie pensou no acordo feito entre seu pai e o pai de Christopher, mas com os lobisomens atacando os vampiros, esse acordo estava rompido e organizou o maior exército de vampiros jamais visto, todos armados com armas carregadas com balas de prata. Ela tinha em mente de que os militares interviessem e exterminassem os lobisomens, afim de que os vampiros se livrassem dessa espécie que ameaça a existência deles.
    Na data marcada, Sophie chegou atirando e derrubando alguns lobisomens. Christopher deu a ordem à centenas de lobisomens que o obedeciam:
    - Matem cada um desses vampiros fétidos que dividem a terra conosco.
   
combinelobomaisvamp

Os lobisomens com tochas nas mãos, partiram pra cima dos vampiros que atiravam compulsivamente. Os humanos que estavam dormindo acordaram com o barulho dos tiros. Tentaram fugir ao ver o que estava acontecendo, mas foram capturados por vampiros e lobisomens, sendo os mais fracos servindo de alimento e os fortes transformados. Casas foram destruídas com o peso dos lobisomens que vez ou outra eram lançados pelos vampiros.
    Os humanos que tinham passado despercebidos pelos “monstros”, tentavam fugir da cidade e avisar as autoridades. O exército foi acionado e não demorou a chegar. Em primeira instância o exército não sabia de que se tratava de uma guerra entre vampiros e lobisomens, e pensou que os vampiros eram humanos se defendendo dos monstros, e passaram a atacar os lobisomens com bombas.
    Muitos lobisomens e vampiros morreram. Sophie era muito ágil e esquivava com facilidade dos golpes de Christopher, que tinha que desviar das balas de prata. Christopher acertou um golpe no abdômen de Sophie, atravessando-o, ela caiu, por sorte não foi decepada, uma bomba provinda do exército caiu entre ela e Christopher, lançado-os em direções opostas. Ela notou que Christopher estava distraído com a fumaça da bomba e não estava vendo-a, Sophie aproveitou tal oportunidade e atirou acertando seu coração.
    Ele morreu e ela foi ajudar os vampiros que estavam em desvantagem, matou outros tantos lobisomens e levou vários arranhões. Sophie e seus vampiros precisavam se esconder, pois estava prestes a amanhecer e eles iriam desaparecer.
- Vamos voltar! – ela gritou. – está amanhecendo.
    Os lobisomens agora teriam uma vantagem, o sol, portanto tentaram impedir que os vampiros fugissem. O exército que não entendeu o motivo dos supostos humanos estarem se retirando, atiraram contra os lobisomens, que os perseguiam.
    Alguns vampiros se esconderam em construções abandonadas, outros fugiram para a mata. Sophie se escondeu em um galpão abandonado no meio da floresta. Ela acordou às dezessete horas do dia seguinte. O sol já estava se pondo e não podia mais matá-la. Ela não sabia o que tinha acontecido durante o dia. Então ela subiu em uma pedra, com as armas em punho e avistou a cidade, alguns prédios tinham desmoronado, outros resistiram às bombas do exército, que já tinha se retirado, e não era possível ver nenhuma pessoa ou lobisomem. Sophie descobriu, que muitos lobisomens sucumbiram nas mãos do exército, outros sobreviveram, vivendo escondidos e os humanos que outrora fugiram, voltaram a pequena cidade para reconstruir suas vidas.

Autora: Milly Pellegrini

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19 novembro 2010

Mirra

meninaajoelhada

“Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que às vezes poderíamos ganhar pelo medo de tentar.”
"Quanto maior a dificuldade, tanto maior o mérito em superá-la. (H W Beecher)"

Ler aquelas frases espalhadas pelo quarto não me incentivavam nem um pouco. Eu olhava e tinha vontade de reduzi-las a migalhas. O quarto pintado de lilás me causava náuseas, pedras espalhadas por pontos estratégicos e aquele cheiro nauseabundo de mirra me deixava irritada, não sei como era possível alguém suportar permanecer naquele local. No criado mudo vejo o livro do momento “O poder da paciência”, levanto as sobrancelhas assustada, nada é pior que livros de auto – ajuda . As cortinas esvoaçantes escondem o dia nublado, eu adoro dias assim sinto me renovada. Ainda na porta do quarto leio mais uma destas frases que com certeza estragam meu dia, cada letra contem uma cor e um desenho patético que ajuda a coisa toda ficar pior. Por pouco não arranco aquilo, mas serei paciente. Saio do inferno colorido, do lado de fora sinto cheiro de café fresco, como é doce este cheiro. Caminho devagar até a cozinha e sou surpreendida por uma mão conhecida.
—Não mocinha, nada disto, você não pode! -Diz uma voz delicada que retira a xícara da minha mão.
—Maninha o que houve com você? –Alguém de voz jovial bate de leve em meu ombro.

Olho furiosa para as duas e me retiro da cozinha. Obrigo-me a retornar para o inferno colorido. Revejo a decoração, o tapete floral perto da cama eu não havia notado. Uma canção melosa começa a fluir, o cheiro de mirra aumenta. Olho ao redor e misteriosamente tudo começa a ficar escuro, estou nua, começo a me apavorar. O dia nublado se foi, ouço apenas um lamento persistente. Apoio a mão nas paredes, não existe abertura, quero sair daqui, por favor. Ponho as mãos no rosto e o desespero toma conta de mim, tento andar, mas não existe espaço para isto. As paredes estão me sufocando, serei esmagada aqui. Respiro fundo e solto o ar, não funciona. As paredes estão se aproximando, elas vão me esmagar, preciso sair. Grito com a plena força dos meus pulmões, o lamento aumenta e eu grito mais alto que ele, ele persiste e eu começo a sentir dor na garganta. O lamento se torna insuportável e então eu paro de gritar. Aos poucos ele vai diminuindo. Sento e abraço meus joelhos, permaneço imóvel e o lamento some por completo, um silêncio perturbador envolve minha mente.
—Mãe não existe mesmo nada que possamos fazer? –A voz jovial fala num sussurro.
—Não filha, ela deve fazer tudo sozinha, as coisas só melhoram de dentro para fora. –A voz da mãe sai desta vez com menos docilidade.
—Tenho pena de minha irmã, a senhora viu como ela estava vestida? Será que esta terapia está fazendo efeito? – Diz a irmã com o olhar fixo na xícara da mãe.
—Deve estar querida, não viu como ela retornou para o quarto assim que falei com ela?
—Sim, ela parecia em transe quando eu a toquei. – A irmã contornava a borda da xícara com o indicador.

A mãe suspira e olha para o relógio, sente saudades de sua filha sorridente. A irmã se levanta e devagar vai até o quarto, entreabre a porta e olha com carinho para Lara. A moça esta sentada com as pernas cruzadas em forma de lótus, de seus lábios rosados sai um lamento quase indecifrável.
incensoO incenso de mirra queima vigoroso, criando uma atmosfera mística. A janela entreaberta revela um dia ensolarado, convidativo. O vento bate de leve nos adornos entoando um som calmante, ela inspira o ar com vontade, soltando-o devagar, sem pressa. O lamento cessa, ela abre os olhos e descruza as pernas. Levanta-se devagar, troca a roupa e sai.
—Como se sente mana? –Pergunta a irmã curiosa
—Obrigada Lóris, seu toque ajudou-me muito hoje. –Responde Lara sem sorrir

A garota caminha para a cozinha, cumprimenta a mãe com um beijo e dirige-se para a geladeira. Toma um copo de leite gelado e sai despedindo-se da mãe e jogando um beijo para a irmã . Pega a bolsa e sai para a realidade. Em sua mente alguém sofre sozinho, incompreendido. Ela trancou por mais alguns momentos aquele baú, caminha decidida e sem pensar na outra. Trancada em sua própria prisão ela finge ter algo que jamais possuirá.

Autora: Val

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08 novembro 2010

Campanha: Blogueira Educada ... faça parte também!!!

Caros leitores essa postagem não é um conto, nem um relato... é algo que deve ser exercido por todos e que vale a pena divulgar ... !


Campanha da Blogueira Educada. Se você também quer aderir tal campanha acrescente o selo abaixo em seu blog com o link para a postagem das 15 dicas da arte de comentar nos blogs.



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03 novembro 2010

Boa Noite

mae-lendo-filhoMamãe costumava me contar histórias para dormir. Toda noite, sentada em uma velha cadeira de balanço ao lado da minha cama, lia um capítulo de um livro grosso e sem desenhos, enquanto afagava meus cabelos, até eu cair no sono. É, assim que era. Mas então, um dia, mamãe parou de ler para mim. Papai disse que ela havia viajado para muito longe. Fiquei triste por ela não ter me levado, e acho que ele também, porque o vi chorando várias vezes. Daquela noite em diante, tive que dormir sem história nenhuma.
Seguiram-se meses, e nada de mamãe voltar. Papai já quase não ficava em casa, e, quando aparecia, carregava normalmente um cheiro forte, enquanto falava e andava de um jeito engraçado. Não gostava quando ele voltava assim. Quase sempre, apanhava. Nas noites em que percebia a mudança, corria para o meu quarto, fechava a porta e fin-gia ter dormido. Na maioria das vezes, funcionava.
Pai e filho 2Em um desses dias, perguntei a ele onde mamãe estava. Só pude sentir sua mão se chocando com meu rosto. Com a panca-da, cai e perdi um pedaço do meu dente. No dentista, papai disse que cai da escada. Nunca tinha visto ele bravo assim. Decidi não falar mais sobre a mamãe com ele.
Com o tempo, eu o via cada vez menos, havendo noites em que papai nem dormia em casa. Foi em uma delas que acordei com um barulho no andar de baixo. Decidi ver se era ele que havia chego. Segui devagar até a porta do quarto, abrindo-a uns três dedos para olhar pela fresta recém criada. Não conseguindo ver muita coisa, sai em direção ao corredor, seguindo para a escada que daria na sala de estar. Tudo estava muito escuro! Preferi não acender a luz para que papai não me visse acordado. Apenas a luz da cozinha e uma parca claridade vinda dos postes da rua faziam a tarefa de iluminar o local. Corri meus olhos pelo lugar todo, mas não achei nada. Foi então que ouvi o barulho de alguém mexendo na louça. Por pouco não voltei para o meu quarto. Tomei coragem, me ajoelhei e fui engatinhando até a porta da cozinha, atravessando a sala.

Quando cheguei perto da cozinha, fiquei imóvel, sentado ao lado da porta com o ouvi-do esperando alguma coisa, mas nada veio. Coloquei então aos poucos minha cabeça para dentro do cômodo, e foi ai que a vi. Era ela! Mamãe! De pé, parada em frente a pia. Corri em sua direção. Chegando ao seu lado, abracei-a pela cintura. Não foi um abraço normal. Mamãe não era assim fria antes. Mamãe era quente, cheirosa e macia. Sua roupa estava suja e esfarrapada. Nem sapatos estava usando! Ela continuou parada. Dei alguns passos pra trás e a chamei. Nada. Gritei novamente, enquanto puxava a barra do seu vestido. Foi ai que ela olhou para mim. Corri de volta para a porta. Aquela não era a mamãe!
z-mascaraSua pele estava toda cinzenta, com umas manchas escuras. Sua boca era apenas um risco esfumaçado negro, sem dentes, nem língua, nem nada. Seus olhos tinham su-mido, ficando apenas dois vazios. Continuou virada para a pia, mas olhava para mim, e não mexeu mais um músculo sequer. Eu já estava quase sem ar, me comprimindo contra a parede, e assim que consegui mexer de novo minhas pernas, corri até a escada. Che-gando lá, parei e olhei para a porta da cozinha. Passo a passo, a imagem de mamãe ia aparecendo, até que pude ver todo o seu corpo. Lentamente, virou-se em minha direção. Ficamos assim por minutos, apenas ao som da minha respiração e do meu coração. De súbito, seus braços começaram a erguerem-se lentamente, como se oferecesse um abraço. Por um instante, pensei em ir a seu encontro, mas logo mudei de idéia, pois ela partiu em disparada em minha direção, correndo desesperada em meio a tropeços. Subi o mais rápido que pude a escada e me joguei para dentro de meu quarto. Tranquei a porta e sentei no chão com os joelhos próximos ao meu corpo, prendendo minha respiração. Logo pude ouvir os passos arrastados passando ao lado da porta, seguindo o corredor.

Decidi fugir para a casa da vovó Nina. Abri a porta com cuidado, para evitar barulho. Coloquei a cabeça para fora e, pela escuridão, pude ver o vulto de mamãe parado em frente à janela do seu quarto. Olhava para a rua. O quê, eu não sei, mas aproveitei a o-portunidade para ir até a escada. Cada passo parecia ensaiado pra evitar ruídos. Cheguei até a escada com sucesso, e quando já confiante, pisei em falso um degrau, o que acabou fazendo baque alto. Mamãe virou-se imediatamente pra mim, com aqueles buracos no lugar dos olhos, me procurando. Desci trêmulo em direção à porta, enquanto ouvia os passos enlouquecidos de mamãe atrás de mim. Já nos últimos degraus, senti seus dedos frios segurando meu tornozelo. Cai. Tentei me arrastar em direção a porta, mas ela me puxava em sua direção. Aos poucos, seu rosto foi se aproximando do meu. Suas mãos comprimiam o meu peito contra o chão, e logo ela já tinha me dominado usando o peso de seu corpo. Mantinha o seu rosto disforme a poucos centímetros do meu, quando me olhou nos olhos e com sua mão magra começou a brincar com meus cabelos.
“Mamãe?”
maeefilhoEm seguida, só me lembro de sua imagem vindo contra mim. No começo, doeu muito. Minha pele, meus músculos, meus ossos. Tudo parecia machucado, quebrado, torcido. Ai, vieram o vermelho e o frio. Depois, não veio nada. As dores sumiram, o calor voltou. Agora eu podia ver mamãe. A mamãe com olhos, sorrisos e perfume. A mamãe de verdade. Agora já não apanho mais. Agora ela me abraça e brinca com meus cabelos. E todas as noites, tenho histórias para dormir.

Autor: Vítor

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02 novembro 2010

Jack Barbazul

barbazulEra uma vez, há muito tempo, quando o Brasil ainda tinha um Imperador, um casal de prósperos fazendeiros, Dona Maria e Seu Félix Torres de Medeiros. Eles tinham quatro filhos: uma menina e três meninos. A menina, a mais velha dos quatro filhos, era muito feia. Os pais tentavam ver em Cláudia algo que pudessem enaltecer, mas era difícil: o ralo cabelo de um louro pálido, a pele marcada por inúmeras verrugas, os dentes tortos, que apodreceram muito antes do esperado, além da triste sina de mancar da perna esquerda, faziam com que a tentativa não tivesse muito sucesso. Aos quinze anos, a moça era conhecida como “Cláudia, a coxa”. A menina cresceu, ciente de sua feiúra, pois ninguém a deixava esquecer disso.
Quando ela completou quinze anos, sua mãe engravidou novamente e, meses depois, deu à luz a uma linda menina. “Essa será diferente! Posso ver sua beleza desde agora!”, dizia para si mesma, comparando as duas filhas. Ao pensar naquilo, viu surgir diante de si uma mulher que proferiu as seguintes palavras:


— Sou a Fada Madrinha de sua filha que acabou de nascer! Ouve bem meus conselhos, para que a pequena tenha uma vida feliz!
E aproximando-se do bercinho da menina falou, diante de Dona Maria:
— Será a perfeição em forma de pessoa. Mas ouve bem o que vou dizer: para ser feliz ela deverá se casar com o homem mais estranho que já viu em sua vida, um estrangeiro que virá de muito longe, de além mar! Este homem sim, saberá valorizar sua beleza. Não precisará procurar por ele, pois ele baterá à vossa porta!

08021201_blog_uncovering_org_belezaCom o passar dos anos, as palavras maternas e as da Fada se materializaram: Rosália era a moça mais linda que qualquer pessoa já tinha visto: os cabelos loiros da cor do trigo, os olhos azuis da cor do céu, a pele alva e perfeita, o sorriso capaz de emocionar, as mãos delicadas, a voz melodiosa como o canto dos pássaros! Não havia como não comparar: como Cláudia e Rosália podiam ser irmãs? Como?Faltava agora aparecer o tal homem estranho... Intimamente, Dona Maria não desejava um casamento daqueles para Rosália, queria-a casada com um bom moço, tão belo quanto ela. Por outro lado, tinha medo de que a filha não fosse feliz.
Os três filhos homens do casal já tinham formado suas famílias e ido morar em suas próprias fazendas quando Seu Félix faleceu de um ataque do coração. A mãe ficou só com as duas filhas na propriedade da família. Ela não se importava muito com o que Cláudia fazia com o seu tempo livre.

A filha mais velha costumava passar algumas noites em um orfanato onde era voluntária, cuidando das crianças e Dona Maria não se incomodava. Ia e voltava sozinha, em uma carruagem. Esse deveria ser o destino de Cláudia, pensava Dona Maria: viver para a caridade, pois certamente não se casaria. O tempo em que não estava no orfanato, Cláudia devotava-o todo a Rosália, era tal qual um anjo-da-guarda, uma companheira para todos os momentos.
Um dia estavam Dona Maria e Rosália sentadas debaixo do alpendre da casa, bordando, quando viram um homem estranho se aproximar, tão estranho que até possuía uma barba azul! Ele desceu de seu cavalo, fez uma reverência e começou a falar:


— Boa tarde! Chamo-me Jack Barbazul Knife e venho de longe, dos Estados Unidos da América, mas minha mãe nasceu aqui. Moro no Brasil há dez anos e mudei-me para esta vila recentemente. Para minha alegria, descobri que é aqui que mora a única mulher nesse mundo que há de me fazer feliz!
Rosália e Dona Maria estremeceram. A primeira, porque não tinha gostado nem um pouco do jeito daquele homem: grande, com cabelos pretos ensebados, presos na nuca e a barbicha azul reluzente. Não, ele não se parecia em nada com o príncipe que sonhara para si! A segunda, porque teve a certeza de que era aquele homem o tal estranho que a Fada tinha mencionado. E que criatura estranha! Além da feiúra, o desgraçado fedia!
— O que desejas aqui, Sr. Barbazul?
— Desejo pedir a mão de vossa filha mais nova em casamento! Amo-a, desde que a vi sair da igreja, na missa de domingo.
— Não, mamãe, não! - suplicou Rosália, gritando. - Eu não quero me casar com esse homem!
Dona Maria começou a chorar. Estava dividida, mas a Fada dissera...
— Dar-vos-ei a resposta em três dias, precisarei pensar. - pediu a senhora, tristemente.
— Eu retornarei, com a certeza de que meu pedido será aceito! Sou um homem riquíssimo, capaz de realizar todos os desejos daquela a quem eu desposar!
E foi-se embora, deixando Rosália em prantos, nos braços da mãe. Quando Cláudia retornou, ao cair da tarde, a mãe contou tudo à filha mais velha. Também contou sobre a aparição da Fada Madrinha e do que havia profetizado, algo que não havia contado a ninguém até então. Cláudia parecia encantada com o fato da irmã mais moça ter uma Fada Madrinha. Ela, pelo visto, não tivera a mesma regalia!
— Se o destino de Rosália deve ser esse, minha mãe, de minha parte prometo-te que, se quiseres, poderei ir viver com Rosália quando ela se casar! Serei tal qual uma guardiã, protegendo-a! Deixarei até mesmo minhas atividades no orfanato para estar com ela todo o tempo! - assegurou Cláudia à mãe.
A mãe tranquilizou-se um pouco mais e, no dia combinado, lá estava Jack Barbazul Knife de volta à fazenda dos Torres de Medeiros. As três mulheres o aguardavam no alpendre.
— Concedo-vos a mão de Rosália, minha filha mais nova, porém com a condição de que minha filha mais velha, Cláudia, acompanhe-a quando forem morar em vossa casa.
— Muito justo. Aceito a condição! Obrigado, Senhora, farei de sua filha a mais amada entre as mulheres! Adianto que não desejo esperar muito tempo. Farei correr os proclamas imediatamente.

Jack partiu rápido, para providenciar tudo o que fosse necessário à união com Rosália.
Cláudia consolou a irmã, dizendo que o tal Jack certamente haveria de ter qualidades que compensariam aquela aparência.

— Acalma-te, irmã... Para tudo dá-se um jeito. Se ele te ama, com certeza fará o que pedires! Aquele fedor sairá com banhos aromáticos, aposto. Algo poderá ser feito também para retirar aquele sebo do cabelo... Se ele cortar a barbicha sempre, quem dirá que ela é azul? Ele não parece ser como eu, no meu caso não há remédio, sou feia e assim morrerei!
— Cláudia, tens razão... Se é esse o meu destino, tentarei cumpri-lo, fazendo o que me sugeriste... Mas não sejas tão dura contigo mesma! Se não tens a beleza exterior, certamente és bela no amor que devotas aos entes a quem deseja o bem! Estou feliz de tê-la ao meu lado!
Enfim, em poucos dias casaram-se. Não houve uma grande festa, Jack levou as duas irmãs para sua fazenda e a vida de Rosália como Senhora Barbazul Knife começou, sem o povo entender como uma mãe tivera a coragem de dar a própria filha em casamento a um homem como aquele.
— Nem mesmo é católico! Passa longe da porta da igreja! Quem sabe não foi uma promessa desesperada? Viram como escarrava quando a carruagem deles passou por aqui? - comentavam os moradores.


Meses depois a vila, antes tão calma, tornou-se agitada com as notícias que chegavam da capital da província. Crimes horrendos começaram a acontecer, sem nenhuma explicação. Durante seis noites de lua cheia, separadas por um intervalo de poucos dias, seis cortesãs foram brutalmente assassinadas em São Paulo: todas evisceradas, os úteros arrancados e, o pior, todas degoladas, sem que nenhuma das seis cabeças tivesse sido encontrada. A notícia de que um assassino de cortesãs agia em São Paulo deixou o povo daquela vila amedrontado: estariam seguros ali, separados por apenas uma hora de viagem da capital?


— Ao menos sabemos que ele ataca somente cortesãs, as moças de família estão a salvo!- foi o comentário feito por um moralista.

Rosália passava muito tempo sozinha com a irmã, pois o marido tinha negócios a tratar em outras cidades. Rosália não entendia o porquê, depois de pouco mais de dois meses, do marido não demonstrar a mínima intenção em consumar o casamento. Até fazia questão de que dormissem em aposentos separados. Como ela não tinha conseguido ainda fazer com que Jack Barbazul modificasse seus hábitos de higiene, Rosália não reclamava daquela condição. Ainda mantinha a pureza virginal, para sua felicidade. Jack era bem mais velho que ela, ele poderia morrer... E ela estaria livre! Uma ideia passou a ocupar sua mente todo dia, sempre que o via fazer uma refeição: ele comia como um porco! E se o envenenasse, lentamente? Já não tinha cumprido a vontade da mãe e da Fada Madrinha? Só não sabia como faria aquilo, pois Cláudia a vigiava em todos os momentos, salvo quando estava dormindo. Se saísse na calada da noite, talvez conseguisse encontrar algum veneno! Talvez uma das mucamas pudesse ajudá-la nesse sentido. Antes, porém, precisava estar muito segura de que não seria descoberta. Mucamas não lhe pareciam confiáveis. Deveria tentar então contar com Cláudia para o que planejava? Seria tão fiel a irmã, a ponto de ser sua cúmplice?

porta_fechadaUma das coisas que intrigava Rosália era uma sala que vivia sempre fechada e somente Jack Barbazul tinha a chave. Ele passava muito tempo ali, sozinho, sem deixar que ninguém entrasse nela além dele. Quando ele retornava de uma viagem, era para lá que se dirigia em primeiro lugar.
Iniciava-se o mês de março e Jack começou a se preparar para viajar novamente. Daquela vez, chamou Rosália para lhe fazer um pedido:

— Rosália, desta vez demoro mais dias para voltar. Deverei ficar o mês todo fora. Aqui estão todas as chaves da casa, caso necessite abrir uma das portas. Peço-te, porém, que não use esta chave prateada. É a chave que abre minha sala particular, onde somente eu devo entrar, compreendes? Deixo as chaves contigo para que eu não corra o risco de perdê-las nessa longa temporada fora. Se resolveres desobedecer-me eu saberei, estejas certa! Adianto-te que, caso isso aconteça, tu e tua irmã serão severamente punidas, entendeste?
— Sim, senhor meu marido. - assentiu Rosália, abaixando a cabeça, em sinal de obediência.
Jack Barbazul partiu, deixando as irmãs sozinhas com os criados.


Conforme os dias passavam, a curiosidade de Rosália só aumentava. Aquela porta fechada, misteriosa, fazia nascer em sua mente uma curiosidade maior a cada dia. Já fazia mais de uma semana que o marido partira e ela não resistiu, por fim. Disse a si mesma que apenas abriria a porta, olharia para dentro, veria como era a sala e a fecharia novamente. Assim tentou fazer, porém quando abriu o cômodo, um vento gelado tal qual a morte pareceu escapar de lá, quase fazendo-a desistir. Estava muito escuro e ela não conseguia enxergar nada. Pegando um candelabro com uma vela acesa entrou, prometendo a si que seria por apenas um minuto. Não mais que um rápido minuto. Haviam, nessa sala, apenas uma cadeira e uma mesa, muito comprida. Em cima da mesa, diversos apetrechos, cuja serventia Rosália desconhecia. Estranhos, pareciam objetos usados por médicos. Ao olhar para sua esquerda, viu a cortina que cobria quase toda a parede. Uma cortina vermelha. O que teria atrás dela? Um quadro muito valioso, talvez? “Só mais alguns segundos”, pensou ela, afastando a cortina com cuidado. Porém, tão grande foi seu susto que, na tentativa de abafar seu grito, deixou o candelabro cair ao chão, fazendo com que um pequeno incêndio começasse. Rosália controlou as chamas, porém uma parte da cortina tinha ficado danificada, com as pontas enegrecidas.

— Senhor! Não pode ser verdade...


Diante dela, em três prateleiras, estavam seis cabeças de mulher, dispostas duas a duas. Todas com os olhos abertos, petrificados. Todas sorrindo, um sorriso que devia ter sido produzido por Jack, com as ferramentas estranhas. Todas sorriam exatamente igual!
Saiu correndo, nem pensando se tinha colocado a cortina no lugar. Agora não importava mais. Precisava sair dali o quanto antes. Avisaria Cláudia de sua descoberta e as duas iriam para a casa da mãe e depois, contariam às autoridades o que ela tinha visto. Encontrou Cláudia lendo na biblioteca:


— Minha irmã, precisamos sair daqui. Jack, ele... É ele o assassino, o matador de cortesãs, o ladrão de cabeças femininas, ou sei lá como o chamam. É ele!
— O que dizes? Como...
— Sim, Cláudia, é ele! Abri a tal sala misteriosa, com a chave prateada. Estão lá, as seis cabeças... Ele faz algo com elas, tem muitos objetos lá dentro estranhos... E ele vai saber que o desobedeci, a cortina ficou chamuscada quando deixei a vela cair... Vamos sair daqui agora, não posso continuar nesse lugar. Vamos, por favor! — falava a moça, sem controle.
— Sim, claro que vamos... Vá ao meu quarto, pegue uma valise que tenho lá, dentro do armário. É mais cômodo para carregarmos apenas o necessário, não podemos usar os baús de seu quarto. Nem pensemos em roupa nenhuma agora. Onde está o molho de chaves? Dê-me para que eu possa verificar se tu fechaste mesmo a porta da sala...
— Sim, eu nem sei se a fechei... Cláudia, estou apavorada! Esse homem... Ainda bem que nós nunca... Nunca... - disse Rosália, em desespero, entregando as chaves à irmã.
Rosália foi ao quarto de Cláudia e abriu o armário, procurando pela valise. Foi sem demora que ouviu o barulho da porta se fechando atrás de si e sendo trancada por fora.
— Cláudia?
Correu para tentar abri-la, mas estava mesmo trancada.
— Cláudia! Cláudia! Foste tu? Deixe-me sair!
Ouviu a voz da irmã do lado de fora:
— Eu deixarei que saia na hora certa. Não adianta gritar, Rosália. Aguarda tua hora.

Não adiantavam os gritos de Rosália. A janela tinham tábuas por fora, como ela conferiu, ao tentar encontrar uma saída. Do lado de fora, dois escravos da maior confiança montavam guarda. E nenhum dos outros ousaria contar a alguém de fora que a esposa do “Barão” Knife tinha enlouquecido, sob pena de ir para o tronco. Rosália não teve outro destino a não ser esperar, sem entender a atitude da irmã.
No madrugada de 17 de março, precisamente, Jack Barbazul retornou. A porta do quarto onde a esposa estava se abriu e ele entrou, junto com Cláudia. Ele trazia uma valise e, de dentro dela, tirou um facão afiado.

JackEstripador— Na verdade, Rosália, eu sabia que não conseguirias deixar a curiosidade de lado. Isso é um grande defeito das mulheres belas e sensíveis, como tu. Saibas, porém, que teu destino já estava traçado, desde o teu nascimento. Era teu destino servir em um lento e mágico ritual. A sétima mulher, a sétima a ser degolada. A sétima que, diferente das outras, deve ser virgem. O sangue da sétima, ao ser derramado por um varão, deve libertar a Rainha Anoli do mundo das almas errantes. E ela reinará de novo, no Reino de Aknon.
— Piedade, senhor meu marido... Piedade! - suplicou Rosália. Foi quando viu aparecer diante deles aquela que deveria ser a sua Fada Madrinha, pela descrição que a mãe lhe tinha feito. Sim, só podia ser ela, que tinha vindo ajudá-la naquele horripilante momento!
— Rosália, que bom vê-la! - disse a Fada.
— Ajoelha-te diante da Rainha Anoli! - gritou Cláudia, gargalhando.
— Rainha Anoli? Mas ela é... - Rosália não conseguia entender.
— A sua Fada Madrinha? - perguntou a mulher, gargalhando, enquanto se transformava completamente. Seus cabelos cresceram até o chão, tornando-se negros e volumosos. O vestido era negro, colado ao corpo, uma capa vermelha caía de seus ombros, tão vermelha quanto eram os seus olhos impiedosos. - Sinto que tenha descoberto em péssima hora que você não tem fada madrinha! Sinto que tenha descoberto que tua irmã é uma das minhas mais fiéis servas, junto a teu marido, aquele que tomou para si a missão de me devolver ao meu reino! Até que viveste muito, Rosália. O suficiente para ser admirada. Agora, eu tenho milênios à minha frente para serem aproveitados, depois de milênios trancafiada em outra dimensão... Corte-lhe a garganta, agora! Já se passaram exatamente treze horas do eclipse anular solar!
Jack cumpriu a ordem, separando a cabeça de Rosália de seu corpo com apenas um golpe. A Rainha banhou-se no sangue da irmã de Cláudia, enquanto um tremor sacudia o local. Após alguns minutos, um portal de fogo se abriu, a passagem para Aknon, um dos reinos malditos das profundezas. Antes de partir, a Rainha fez um pedido:


— Deixo a cargo dos dois que consigam mais servos para adorarem a mim e ao Reino de Aknon, em algum lugar onde estejam a salvo. Quando tudo estiver pronto, voltarei para dar-vos novas ordens. Adeus!
E a Rainha atravessou o portal, desaparecendo e levando consigo o corpo de Rosália e as sete cabeças. Quando tudo se fechou, Jack e Cláudia se beijaram. Tinham cumprido a missão, iniciada há tanto tempo!
— Precisamos ir embora agora! Desaparecer! - disse Cláudia.
— Já pensei em tudo. Vamos partir, há um navio indo para a Inglaterra, saindo do porto daqui a dois dias. Deixaremos uma carta, dizendo que fomos embora nós três, como se sua irmã estivesse conosco.
— Inglaterra? A ideia é deveras interessante!
“Interessante e esperta és tu, Cláudia”, era o que pensava Jack Barbazul Knife naquele momento. Ela podia ser feia. Seu pescoço, porém, era lindo. O mais lindo que já vira em sua vida. E os dois viveram felizes, por um tempo. Um breve tempo, por sinal!

Autora: Bia Machado

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21 setembro 2010

O grande embate

O Sol brilhava esbranquiçado e escaldante naquela região poeirenta e esquecida por Deus. Perdido, em meio do agreste, um celeiro insuspeito, abandonado, salvo por algumas corujas e morcegos, agitava suas janelas e portas, como se acenasse ao vento alaranjado daquela tarde cheia de vento sujo.

Ignorando a pintura descascada e o mau estado geral do lugar, dois homens vestidos com roupas elegantes sorriram ao abrir a porta do cadafalso escondido sob uma pilha de feno e infestado de escorpiões.

– É aqui – disse o mais alto dos dois, esmagando alguns artrópodes com as botas - eu tenho certeza que achamos! Veja, os sinais estão por toda parte: cruzes quebradas, manchas de sangue, palavras de blasfêmia escritas na parede e em Romeno!

– Romeno? Tem certeza? Isso significa que... Oh, Deus! É melhor desistirmos, vamos fugir antes que ele nos descubra.

– Não! Não perdi os últimos anos de minha vida em pesquisas, à toa. Gastei boa parte da fortuna que meu pai me deixou: subornando, contratando detetives, místicos e todo tipo de gentalha. Fuja agora e eu o mandarei atrás de ti.

Desceram as escadas apodrecidas e encontraram um caixão suspenso sobre cavaletes de madeira nobre. O esquife estava coberto de inscrições misteriosas e de desenhos horrendos de origem pagã.

– Ajuda-me a enrolar o caixão com esta estola Papal. Fixemos cruzes e páginas da Bíblia sobre cada centímetro da superfície do túmulo do maldito. Vá, vá lá fora e prepare o guincho da caminhonete: nossa carga preciosa já está pronta pra partir!

E foi assim, sem maior cerimônia, sem pompa ou circunstância, que levaram o caixão do conde na boléia sacolejante de um pequeno caminhão.
*** 


José acordou com a pior das ressacas naquela manhã. Com muito esforço, levantou o torso magro e extremamente arranhado, descolando os lençóis do sangue que insistia em mantê-lo preso ao leito. Sua cabeça girava e o estômago borbulhava como se os esgotos do Inferno houvessem resolvido transbordar sua acidez corrosiva de uma só vez.

Correu até o banheiro e vomitou, copiosamente. Ergueu a cabeça, ainda com os olhos cheios de lágrimas e travou, no momento em que iria dar descarga. Cheio de nojo, com o auxílio de um pedaço de papel, retirou de dentro do sanitário: uma pata de cachorro (talvez um dobermann, considerando o tamanho e a cor) e um dedo humano, ainda ostentando um belo e caro anel de rubi.

– Não! Não outra vez! Mas a cigana me garantiu que a maldição havia sido afastada. De que valeu tanto trabalho e despesa? Ela me paga! Ela me paga!

Batidas educadas à porta de seu quarto o obrigaram a se recompor. Secou a boca e o suor da testa com uma toalha e foi atender. Quem seria a esta hora da manhã?

– Senhor José de Andrade Ferreira? – perguntou um homem que vestia roupas talvez mais adequadas para um baile de gala.

– Sim, sou eu. O que vo...

Nunca conseguiu completar a frase. Um disparo de uma arma não letal o fez cair ao chão, se debatendo no ritmo das centenas de milhares de volts do taser. Segundos depois, uma injeção de anestésico em seu pescoço o fez dormir.

O segundo pacote já fora coletado
***

 
O Conde Drácula acordou dentro de seu esquife, alertado pelos ruídos estranhos do lado de fora. Com um movimento rápido, rompeu a madeira de lei da tampa do caixão, que se partiu em mil farpas, como se fosse papel e expôs o rosto fantasmagórico e as presas longas e infectas. Seus olhos de imediato arderam e ele se protegeu com a capa, enfiando-se de volta no fundo do caixão. Havia algo de errado, muito errado! Seus instintos nunca o enganariam: não era mais dia, como a luz ainda poderia o queimar?

– Bem-vindo, Conde! Fico contente que tenha acordado. Espero que tenha feito uma viagem confortável desde aquele celeiro poeirento e infestado onde o senhor escolhera para se esconder.

– Como ousas, mortal? Devorarei o teu coração, arrancarei tuas tripas e te estrangularei com elas, porém despedaçarei teus filhos antes! Isso! Far-te-ei observar o padecimento deles, será lento, agonizante: pagar-me-á muito caro por esta afronta!

– Sempre tão pomposo, conde! Sem nunca perder a pose, não? – riu o homem misterioso – Hoje você não comanda aqui, velho chupador de sangue. Ó apavorante visão da morte, sedutor de pudicas senhoritas virginais. Ha, ha! Como você pôde sentir, luzes ultravioletas estão acesas e, se por acaso ousar sair, queimará como se passeasse ao Sol do meio-dia num dia de verão em pleno Vale da Morte. Estamos somente aguardando a hora certa, guarde bem suas forças! Logo a Lua cheia apontará no céu e você poderá dar vazão a sua fúria.

– Lua cheia? E por acaso me tomas por algum maldito lobisomem, verme desprezível? Tira-me daqui e concordarei em dar-te uma morte rápida. Afinal, onde estou?

– Olhe, senhor conde – disse, divertido - Observe com cuidado o ambiente ao seu redor.

Com muito esforço, Drácula ajustou seus olhos e conseguiu algum foco: estava numa espécie de estádio ou arena e havia, sim, havia um homem magro e seminu algemado no extremo oposto onde seu esquife se encontrava.

– Eu tenho um batalhão de atiradores com bestas armadas de setas banhadas em água benta. Há um número igual de metralhadoras armadas com balas de prata. Logo, não tente nada estúpido!

– Como?! Por quê?

Como resposta, o grito dos espectadores feriu seus ouvidos. “Combate! Combate!”, vociferavam, fazendo as arquibancadas tremerem.

Minutos depois, a Lua finalmente surgiu no alto do céu e prateou o corpo frágil do homem acorrentado. Logo este começou a convulsionar em uma agonia crescente, cheia de gritos doloridos e de estertores alucinantes. Sua pele esticava-se e cobria-se de pelos lupinos, músculos delineavam-se sob o som de ruptura de outros tecidos que se deformavam, garras, dentes e ódio irracional cresciam a olhos vistos. A cabeça achatou-se, enquanto a boca projetava-se, formando um focinho, as orelhas recuaram e subiram eretas até o alto da cabeçorra, os olhos ambarinos e cheios de fogo faiscavam.

As luzes ultravioletas foram apagadas, no momento exato em que a fera rompeu seus grilhões, como se estes fossem feitos de ar.

“Sangue!”, “Eu aposto no lobisomem! Mais cem mil no lobisomem, bookmaker!”, “Mata, mata, mata!” – ribombava de forma caótica a turba em êxtase.

 
– Senhoras e senhores! Pela primeira vez na história, os predadores supremos, os inimigos eternos. Um é uma força da natureza: incontrolável e selvagem. O outro é o mal encarnado, a astúcia sob forma de homem. Quem vencerá o embate? O vampiro ou o lobisomem? Façam suas apostas!
Drácula saltou em direção a platéia, arrancando gritos de terror, mas um fosso cheio de solo abençoado o fez recuar e cair no meio da arena. O lobisomem saltou e desabou pesadamente sobre o vampiro, urrando, salivando sua ira, enquanto suas garras se fechavam sobre sua garganta pálida.

Girando o corpo de forma completamente não natural, o conde livrou-se de ter o rosto devorado, abriu as mãos que o estrangulavam e saltou sobre os ombros da criatura. O lobo corcoveava, como um touro bravio, rolando e saltando, num esforço inútil para se livrar do vampiro.

Drácula sussurrou algo no ouvido do homem-lobo e mergulhou seus dentes amarelos nas veias ferventes do pescoço peludo. A criatura gritou, uivou, num tom tão alto que vidros e tímpanos se romperam. Com uma torção mais forte, o vampiro quebrou-lhe o pescoço e a besta desfaleceu, caindo como uma avalancha sobre o solo poeirento da arena.

A multidão gritava em delírio: “Marmelada!”, “Ganhei, ganhei! Estou rico!”, “Trapaça! Quero meu dinheiro de volta!”. Muitos vaiavam, quando as luzes ultravioletas foram acesas de novo, obrigando o vampiro a entrar no esquife e permitindo que uma equipe retirasse o corpo inerte do homem-lobo.

*** 
Numa câmara subterrânea, cercado de crucifixos, luzes especiais e com estacas automáticas apontadas de todos os lados, o vampiro alimentava-se do sangue de um porco que acabara de abater. A humilhação de ter que comer uma refeição tão baixa e impura quase o fez chorar.

Repentinamente, uma voz conhecida soou no sistema de alto-falantes. Um homem muito bem trajado o observava de cima de uma cúpula transparente, que cobria a tal sala subterrânea.

– Boa noite, conde! O senhor já conhece a minha voz, porém não fomos formalmente apresentados. Chamo-me Enrico Van Helsing, herdeiro do clã dos famosos caçadores de vampiros. Espero que esteja muito confortável em nossas instalações e que recupere logo suas forças. Em breve você poderá enfrentar um Yeti, Banshees ou até a cobra gigante de fogo da Amazônia. Meus homens estão espalhados pelo mundo, buscando aberrações como você, para futuros e muito lucrativos embates. Sinceramente, fiquei muito surpreso com sua vitória ontem. Perdi um bom dinheiro apostando no lobisomem, mas tenho que lhe dar os parabéns.

– E o que fizeram com o corpo do lupino? Cremaram?

– Por que o súbito interesse nisto? Vocês não são inimigos naturais? Óbvio que não o cremamos, é algo muito raro e valioso. Congelamos e vamos empalhar. Ficará ótimo no salão de meu castelo na Escócia. Talvez você venha a fazê-lo companhia também, se não se sair tão bem nos próximos combates, conde gladiador!

As gargalhadas debochadas foram subitamente interrompidas por uma algazarra de ruídos desesperados, que ecoou através do sistema de áudio. Tudo ficou muito silencioso e a pesada porta, que dava acesso à área externa da câmara, voou, espatifando-se contra a parede, esmagando alguns homens. O lobisomem adentrou a sala, com fogo nos olhos e sangue nas garras.
 
– Disparem, homens! Usem balas de prata, rápido! O maldito não morreu.

Projéteis voaram como abelhas raivosas, picando a carne do homem-fera. No entanto, o monstro não arrefeceu o ataque, continuando a despedaçar todos os soldados, com extrema facilidade. Quando logrou abater todos os homens, a fera aproximou-se de Enrico e, do alto de seus três metros de altura, agachou-se e falou junto ao seu ouvido:

– Solta-o, agora!

O hálito podre e quente da fera e o tom roufenho e áspero de sua voz foram demais para o elegante senhor: Enrico, com enorme desgosto, sentiu as fezes involuntariamente descendo por suas pernas e penetrando em suas meias e sapatos finos.

Obediente, apertou alguns botões do painel, levantou algumas alavancas e as estacas se recolheram, as luzes se apagaram e as cruzes foram cobertas por portas metálicas.

– Mas como?! – gemeu Enrico, quando Drácula ascendeu até a sala e o encarou com os olhos mortiços – Balas de prata deveriam tê-lo matado! – choramingou - Não compreendo!

– Não é óbvio? – sorriu o conde – O lobisomem agora também é, em parte, um vampiro. Combinamos isto na arena de combate, ainda que a meu contragosto e dele também.

– Nunca o perdoarei por esta afronta, Van Helsing – rosnou o homem-lobo – Eu, um maldito sanguessuga!

– Amigo – disse o vampiro, sorrindo ao lupino – deixemos nossas desavenças de lado. Teremos uma noite cheia à nossa frente. Tomemos a estrada, enquanto nosso convidado nos conta, com extrema boa vontade, onde estudam seus filhos, onde vivem seus pais, sua esposa e seus melhores amigos, seus cães, seus cavalos, tudo o que ele ama. Querido Enrico, tive até uma bela ideia inspirado em você: creio que você também ficará formidável empalhado em seu castelo na Escócia. Afinal, eu já estava cansado de me esconder numa habitação que não correspondia a minha nobreza.

Pouco depois, a limusine ganhou a estrada com sua carga exótica de passageiros e virou à esquerda, para tomar a avenida principal, rumo à vingança.

Autor: Rubem Cabral
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Mentiras, mentiras!

Jamais! Não, não foi assim que tudo ocorreu! Não dêem crédito às versões distorcidas e recontadas à exaustão por aí: conheçam os fatos reais, escutem da boca de quem não tem motivos para mentir.

É verdade que nunca fui muito bem quisto e é sabido por muitos, de minha natureza de comer carne: gamo, marmotas, coelhos, esquilos. Às vezes, uma ovelha ou rês, quando tenho sorte. Satisfazer meu apetite significa sacrificar a vida de animais que são vistosos e agradáveis aos olhos da maioria, mas, é como eu lhes disse antes: não vou mentir para ganhar simpatia. Sou um lobo e ajo conforme meus instintos. Não vou fingir que me alimento de palha ou de cenouras, para que acreditem em minha história, para me pintar com cores mais agradáveis aos seus olhos. Creiam-me: nunca devorei pessoa alguma! Ou melhor, nunca o fiz intencionalmente.

Saibam, portanto, que há cerca de mil anos eu vivia na Floresta Ancestral: nada comparável às matas ralas que vocês conhecem hoje em dia. Falo de árvores centenárias, de troncos retorcidos e largos como catedrais, de raízes profundas e de copas tão altas que bloqueavam a luz do Sol completamente. Lembro-me bem destes recônditos remotos, úmidos e escuros, cujo solo jazia ainda não conspurcado por pés humanos. Trago à tona de minha memória este tempo, quando o pecado ainda era jovem, quando as lendas e mitos poderiam ser conhecidos em carne e osso. Esta era uma era muito diferente, quando a magia ainda se manifestava de forma inequívoca, em que a racional lâmina de Occam ou as crenças do Cristianismo não a haviam expulsado para outras paragens.

Certa manhã, eu saíra no encalço de uma corsa e aventurei-me mais à borda do meu mundo, muito além do que normalmente me atreveria. Farejei de longe o odor azedo das casas de um vilarejo e o cheiro de muitos cabelos ensebados e de peles nuas, como lobos sarnentos. Arrepiei meu pelo e segui cauteloso, preparado para fugir ou me defender. O rastro da corsa desapareceu dentro de um riacho límpido, longe dali. Parei para beber e vi: perdida, já em plena floresta, uma casa. Pareceu-me uma construção formidável; erguida sobre grossas toras escuras e coberta de palha muito bem amarrada e trançada. Nunca simpatizei com vocês humanos, e posso soar saudosista, mas mesmo então vocês eram melhores: mais vigorosos, hábeis e amorais.

Pois então, saiu de tal residência uma mulher alta, de longos cabelos brancos e rosto encantador, e esta veio em minha direção. Escondi-me numa moita e admirei cada movimento elegante dela, que caminhou até o riacho para se banhar. Tal mulher não era como muitos do seu povo; havia certa graça em seus gestos, como se estes fossem ensaiados, como se ela bailasse ao som de uma música que somente ela ouvia. Despiu-se, para meu deleite, e a observei, cheio de assombro e desejo. A água fria despejada sobre seus seios túrgidos, arroxeando seus mamilos e correndo apressada por suas carnes fartas, apenas para logo desaparecer, no monte de pelos crespos e olorosos, que coroava o encontro de suas pernas, verdadeiros pilares de alabastro. Óleos de flores, que a mulher trouxera num frasco, foram espalhados por sua pele, transmutando-a então num bosque inteiro em flor, em prados verdejantes e em montes de folhas outonais.

Quando ela se foi, eu retomei entristecido meu caminho de volta à mata. Eu tinha consciência de que eu era apenas um animal torpe e faminto, uma fera que não poderia conhecer o calor daquele corpo. Uma criatura inferior, condenada a sempre errar pelos caminhos lamacentos, incapaz de conhecer a glória que ela escondia entre suas pernas.
***

Melancólico, meti-me cada vez mais fundo na floresta, onde os que têm um pingo de juízo não ousariam pisar. A noite chegou e a Lua cheia iluminava debilmente meu caminho, em pleno território mágico, onde somente as criaturas da faerie comandavam.

Escutei um lamento baixo, em alguma língua que eu não compreendia bem. Segui tal som e encontrei algo extraordinário! Um duende Irlandês – jamais, em hipótese alguma, confie num duende Irlandês – jazia preso numa armadilha mágica para os de sua espécie: uma espécie de gaiola feita de gravetos e cipós, onde colocaram uma moeda de ouro como isca. Certamente, quando encontrado, ele serviria de comida para algum elfo, que o fritaria com cogumelos selvagens.

– Lobo! Ajuda-me aqui! Maldição! Há alho dos feiticeiros e mão de glória nesta armadilha! Truques sujos dos servos de Oberon e Titânia!

– Um olho por um olho, duende! Se eu te ajudar, quero algo em troca.

– Qualquer coisa, eu te suplico!

Quebrei facilmente a gaiola com os dentes e segurei a gola do casaco do duende com delicadeza. Corri para longe daquelas terras ermas e retornei ao meu covil, ignorando os protestos da diminuta criatura.

– Quero ser um homem – disse finalmente ao duende – quero ser alguém formoso, admirável.

– Um homem, lobo? Que tolice! – riu a criaturinha. Quando notou que eu falara sério, continuou: – Pois que o seja! Wolf chun fear: difríocht? Lig an draíocht deireanach go dtí an chéad tréas!

A criatura falou em gaélico, idioma do qual eu só conhecia rudimentos. Fiquei esperando algo acontecer e somente então observei o quanto eu estava alto, sobre como o duende se apequenara repentinamente. Olhei para baixo e reparei no corpo forte que eu agora habitava. Notei também uma pilha de roupas elegantes que surgira sobre o solo.

Embora eu considere que os humanos sejam criaturas esteticamente desagradáveis, o duende cumprira com sua palavra, como pude confirmar ao ver meu reflexo na superfície espelhada de um lago depois: eu era o mais belo dos homens. Muito mais alto do que a média, de olhos e cabelos claros e traços finos que completavam a figura perfeita, quase irreal, que eu me tornara.

Satisfeito, libertei o duende, que não tardou em desaparecer na floresta. Vesti, pela primeira vez na vida, roupas e caminhei, ainda aprendendo a me equilibrar sobre as patas traseiras, até a casa da dama que ganhara meu coração.

Bati à porta e apresentei-me como um cavaleiro que fora assaltado. Ofereci meus serviços em troca de comida e pousada. De início, muito desconfiada, a mulher permitiu-me somente dormir em seu celeiro. Com o passar dos dias, ganhei sua confiança, ao mostrar-me disposto em executar qualquer serviço extenuante. Cortei lenha, cuidei dos animais, consertei ferramentas e utensílios.

Cerca de dez dias depois, enquanto eu me banhava no rio ao fim de uma tarde calorenta, meus sentidos de lobo alertaram-me: eu estava sendo observado. Sorri na direção da mulher, que envergonhada espreitava-me dentre as folhas da mata e a convidei para que se banhasse também.

Ela hesitou, ainda que por alguns segundos, não obstante saiu de seu esconderijo. Segurou minha mão, que eu ofereci para que ela pudesse se apoiar e permitiu que eu a abraçasse. Seu cheiro de ervas e flores inebriava-me, o calor que emanava de sua pele, fez-me desejar devorá-la em largas dentadas. Porém, contentei-me em apenas erguê-la e segurá-la pelas ancas, enquanto meu corpo instintivamente buscava a comunhão com o dela.

Passamos juntos uma semana de completa felicidade, mais nus do que vestidos, habitando muito mais o leito de seu quarto do que qualquer outro lugar da propriedade.
*** 

– Arruma-te, querido! Minha neta visitar-me-á. Ela sempre vem no primeiro dia do mês.

– Neta? – surpreendi-me – Tu nunca falaste de uma neta.

– Casei-me muito nova, com apenas quatorze anos. Apressa-te! Temos que organizar a casa, quero que causes uma boa impressão.

Por volta da hora do almoço, bateram à porta. Fui atender e fiquei desnorteado: uma adolescente linda como um botão de flor, trajando um curioso capuz vermelho, retribuía meu olhar inquisidor.

– Vovó está? Quem é o senhor? – indagou, encarando-me sem medo, olhos nos olhos.

Apresentei-me e logo todos nós estávamos conversando e rindo à mesa, bebendo vinho e devorando um belo assado que eu preparara especialmente para a ocasião.

Meio bêbado de bom vinho, senti uma mão pressionar minha coxa sob a mesa e olhei para minha dama, censurando tal atrevimento diante da neta. Para minha surpresa, meu amor tinha as duas mãos junto de seu prato.

Fingi que nada ocorrera e afastei a mão da pequena, que já ameaçava escalar em direção de meu púbis.

– Minha filha vive aconselhando esta menina, mas não há jeito! Insiste em vestir esta capa vermelha, cor que não combina com uma moça direita – contou-me aos cochichos meu amor, enquanto a moça retirava a louça da mesa.

Como já disse muitas vezes, não tenho intenção de mentir. Poderia afirmar que a culpa foi da mocinha de capuz vermelho, que fui levado inocente à triste conclusão que ainda vou narrar a vocês, mas não! Desde o momento que a vi, a desejei: carne jovem envolvendo minha carne, gemendo ante minhas investidas, fingindo não querer, enquanto apenas desejava mais. Amava minha dama querida, certamente, mas não hesitaria em ser um joguete sexual de sua neta, cujo olhar faiscante e malicioso só não era notado pela avó.

Logo as visitas da menina de chapeuzinho vermelho tornaram-se então mais freqüentes, sentia-me numa situação inédita e divertida para mim: o velho e temido lobo mau tornara-se a caça, de uma moça por demais atrevida.
No entanto, por mais que eu quisesse, não ousaria trair meu amor. Ao menos, não de forma que ela viesse a saber claramente. Minha hesitação irritava a adolescente do chapéu vermelho e passei a evitá-la.

– Temos que nos encontrar em algum lugar na floresta, meu amor. Ou aproveitar quando minha avó sair – dizia ela.

Todavia, eu apenas tentava ganhar tempo, ignorando os gritos desesperados de meus instintos. Um mês se passou e eu continuava me esquivando.

– Eu já não suporto mais esta situação! Será que esta velha desgraçada não arreda o pé de casa? Já sou quase uma adulta. Minha mãe já era casada e estava grávida quando tinha minha idade. Eu te amo, tu tens que me assumir! – insistia a moça de capuz.

Certo dia, encarregado de ir à vila para comprar víveres e vender alguns produtos, deixei minha dama sozinha em casa.

Retornei ao cair do Sol e, para minha surpresa, somente sua neta se encontrava por lá.

– Vovó teve que ir à casa da minha mãe e passará a noite fora. Fiquei aqui para preparar o jantar para o senhor. Venha! A mesa está servida.

Uma sopeira de guisado, ainda borbulhando, estava sobre a mesa. Fatias de pão preto e manteiga também. Sentamos juntos e nos fartamos do delicioso caldo, rico e escuro, enquanto eu já não evitava os olhares indiscretos da menina.

Segurei a pequena no colo, metemo-nos sob os lençóis e começamos a nos despir.

– Para que estas orelhas tão grandes? – brincou a moça, tocando-me com seus dedos frios.

– Para te escutar melhor! – respondi, imaginando até onde tal jogo iria.

– Para que isto tão grande?

Pisquei os olhos sob a penumbra das cobertas e tudo havia mudado, repentinamente. Só então escutei os gritos alucinados da mocinha, tentando fugir de meus braços, quando notei que eu não era mais um homem e que não tinha mais braços. Como?! Transformara-me outra vez em lobo!
Com seu corpo ainda preso ao meu – este é um detalhe que não me convém comentar “como” – e com a moça ainda gritando a plenos pulmões, fomos surpreendidos pela chegada de um lenhador, armado com um machado.

Libertei-me do corpo da moça e saltei da cama, enquanto o homem bradava:

– Blasfêmia! Maldita seja! É um animal, sua bruxa! Blasfêmia!

Subi no fogão a lenha, para ascender à janela da cozinha e derrubei um grande caldeirão: pedaços diversos da querida avozinha espalharam-se pelo piso. Morta por sua própria neta, por ter ousado disputar o mesmo homem. Eu sou um lobo e posso ser cruel, porém somos bem menos brutais que vocês!

O lenhador golpeou a menina nua: várias e várias vezes. Os gritos dela foram abafados pelos ruídos úmidos e ocos, enquanto ele quebrava seu esterno para alcançar seu coração e o sangue empapava os lençóis de linho. Quando o homem finalmente direcionou sua atenção a mim, eu já corria como um louco para dentro da floresta.
***

Algum tempo se passou até que alguém mais sábio traduziu o gaélico do duende para mim: “De lobo a homem: há alguma diferença? Que a mágica dure somente até a primeira traição”. Duendes são assim: você não pode realmente confiar.

Mais tarde espalharam cartazes oferecendo recompensa para quem conseguisse me matar, porém logrei asilo no reino das faerie, depois que lhes contei minha triste história. Tornei-me então um novo mito ou personagem fantástico, embora hoje em dia nosso reino não faça mais divisa com o reino de vocês.

Distorceram os acontecimentos para ensinar lições às crianças, para acobertarem os crimes da moça de chapeuzinho e do lenhador. Contam agora sobre o lobo mau, a netinha inocente de capuz vermelho, a doce velhinha e o corajoso lenhador.

Cabe a vocês a decisão sobre a quem dar o devido crédito. Eu afirmo: tudo se resumiu em luxúria, falta de sorte e loucura! Peço somente que possam crer, ainda que por um segundo, neste lobo sedutor, num lenhador fanático religioso, numa neta psicopata ninfomaníaca e numa avó, não tão velha e comportada assim.

Já é tarde e preciso ir. Qualquer dia destes, eu conto sobre meu imbróglio com os três porquinhos incestuosos e sodomitas, mas fica para outra vez! Ah, a minha boca nem é tão grande assim!



Autor: Rubem Cabral
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29 agosto 2010

A filha de Oxum e o orixá guerreiro



Humanos. Ao longo dos séculos não mudaram muito. Quase nada, vá lá. Sempre os achei frágeis, contendo todos os defeitos possíveis, talvez por isso eu os ame tanto. Como mãe que sou, eu, Iemanjá, digo com toda a certeza que meu amor é imenso, infinito, e sei amar cada filho imperfeito meu a meu modo, da forma como sinto que deve ser amado, seja ele ou ela mortal, ou orixá.
Nós, orixás, também não somos um espelho da perfeição. Vários de nós já tiveram seus dias no Aiye, ou na Terra, para melhor entenderem. Sim, alguns já foram humanos. Desses dias passados, há resquícios de vícios e paixões, vinganças e amores. Dizem que tudo, com o tempo, vai-se embora em algum momento. Só que Iroko, o Tempo, é impotente quando se trata do amor... Quando o amor é verdadeiro, esse para sempre nos acompanha.
Isso aconteceu com Ogum, o senhor das guerras, aquele que combate sem medo e a tudo vence. Este meu filho mais temido teve seu escudo quebrado pelo amor. Um amor impossível, mas belo; estranho, mas verdadeiro. Na época, veementemente fui contra, apesar de não impedi-lo de seguir pelo caminho que escolheu. Ogum foi livre para decidir o que fazer desse amor e o fez, tanto quanto lhe foi possível, porém não sem pagar um preço muito alto.  Hoje, tantas e tantas luas depois, contarei esse episódio, visto ter sido belo, apesar de trágico. Graças a Iroko, tão poderoso, a lembrança ficou apenas dentro do peito de Ogum, e de lá provavelmente não mais sairá. Se puderes perder um “cadinho” de tempo, filho ou filha minha, saberás de toda a história...
Certa vez, muito tempo atrás, Ogum perdeu a vontade de trabalhar com seus metais, não quis mais forjar suas armas. Isso fez com que os homens não conseguissem mais usar o metal e o fogo para guerrear. O fio da navalha não cortava mais. As bombas não explodiam. E nos sacrifícios, como usar as facas? Havia alguma coisa errada e os humanos não sabiam o motivo daquilo. Enquanto o mistério não era desvendado, o jeito encontrado pelos homens foi usar paus e pedras para combaterem na guerra.
 
Ogum
Quem era filho de terreiro, quem vivia nos ilês, já tinha descoberto o motivo daquilo: era Ogum, que tinha desaparecido de repente. Mesmo não se podendo fazer oferendas em virtude do que acontecia, chegou até a mim um clamor para que intercedesse pelos humanos. Os mortais pediam que eu fizesse com que meu amado filho guerreiro os perdoasse de alguma coisa que eles não sabiam o que era, mas que fariam o que Ogum desejasse para que tudo voltasse ao normal.
Depois de vários dias encontrei-o sentado à beira-mar, contemplando a imensidão de meu reino. Foi com meus passos lentos e ondulantes como as ondas daquela tranquila tarde que caminhei até onde ele estava.
— Que houve, meu filho? Qual é o motivo de tanta inquietação, a ponto de tirar as armas de metal e de fogo dos homens?
Antes de se explicar, Ogum aninhou-se na barra de meu longo vestido feito de incontáveis gotas do oceano. Enquanto se explicava, pôs-se a fitar o céu, o olhar perdido em Orun.
— O motivo é um só, minha mãe, e me acompanha desde os tempos de Irê. Naquele tempo, apaixonei-me por Ejá, uma linda princesa de uma das sete aldeias que compunham Irê. Ela correspondeu ao meu amor, mas fomos separados pela ira de seu noivo, que a matou quando descobriu que eu a levaria embora comigo para fazer dela a minha mulher. E agora eu a encontrei. Meu amor vive novamente, uma linda mortal, mais linda do que qualquer outro ser a quem eu tenha visto com meus olhos, uma bela filha de Oxum. E está noiva de um filho seu, minha mãe.
— Ogum, meu filho! - afaguei-lhe as mãos ásperas, em alguns pontos chamuscadas pelo fogo com o qual tanto lidava. — Pode ser que tu tenhas encontrado Ejá, mas agora essa mortal não é mais aquela a quem amaste. Se ela está de volta ao Aiye, tanto tempo depois, é porque tem um destino a cumprir. E tu também tens, precisa voltar ao teu trabalho, os homens estão apreensivos com teu sumiço...
— Perdão, mãe querida. Se me queres bem como uma mãe quer sempre bem a um filho, há de entender essa fraqueza que sinto agora e não posso acalmar. Sinto que é mais forte do que eu, do que o próprio fôlego que me foi dado por Olorum. É amor o que sinto e o que me atormenta, querida mãe. O amor por uma mortal, a mais linda que já vi em todo o Aiye, em toda a Terra e que Iroko não conseguiu tirar de dentro de mim, estava apenas adormecido esse tempo todo!
Estremeci, a ponto de fazer sete ondas quebrarem com toda a força contra as rochas próximas a nós.
 
Oxum
— Ogum, como podes deixar isso acontecer? Tu, que já viveste tantos embates, tantas guerras, sempre vitorioso, como podes estar perdido por uma simples mortal? E como podes dizer que essa mortal é a mais linda criatura que já viste? Que Oxum ou Iansã não nos ouçam, a segunda muito mais que a primeira! — argumentei, não deixando de sentir uma pontinha de ciúmes, já que via que ele classificava aquela mortal até mesmo mais bela que sua própria mãe.
 — Talvez seja este o único combate em que fui vencido, minha mãe. Perdoe a fraqueza desse filho, perdoe!
— E como foi que isso aconteceu?
Há muito tempo eu deixara de entender as impetuosidades de meus filhos. Por mais que fizesse, eles sempre agiam conforme seus desejos. Restava a mim, como mãe, apenas os pacientes atos de escutar e zelar, rogando sempre a Oxalá a sabedoria para agir da melhor forma quando um deles suplicasse por meu auxílio. Só que eles estavam passando dos limites! Agora era Ogum, e se depois Oxóssi e Exu também resolvessem aventurar-se por amor entre os mortais? A demanda estaria feita, seria inevitável!
— Outra noite, estava eu em um ilê de filhos teus e de Oxum, ocupando meu assentamento, quando vi passar pelos portões da casa aquela a quem meu coração pertence. Nesse instante, não percebi mais nada, apenas Ejá. Apesar de agora ela ter cabelos dourados e pele muito branca, destacando-se entre as pessoas de pele morena em seu porte físico, única não somente por isso, e sim mais por causa de um brilho que emanava de si, iluminando tudo ao redor, pude reconhecê-la! Tinha o mesmo porte de princesa dos tempos de Irê...
Enquanto ouvia o relato de meu filho, não tive dúvidas: ele, o deus da guerra, estava perdido de amores. Por um momento, eu mesma cheguei a sentir a força do sentimento daquele a quem sempre denominavam cruel e impiedoso, mas que sabia ser apaixonado, tão vibrante quanto tinha sido em sua vida terrena, quando ele próprio fora um mortal.
— Sinto pelas tuas palavras que não adiantará usar as minhas para convencer-te. Uso-as então para rogar a ti que não prejudiques mais meus filhos terrenos, eles precisam do metal não somente para combater, mas também para a colheita, para os transportes... Volta a teu trabalho e eu irei ter com Iroko e pedir que ele faça com que os humanos esqueçam esse episódio com o tempo. Se possível, pedirei a ele também que tente obter êxito com relação a ti, já que eu, tua própria mãe, não consegui!
Ogum se levantou, como se estivesse carregando em seus ombros todo o peso do mundo. Abraçou-me, com um sorriso triste nos lábios.
— Ao menos posso atender um pedido teu, minha mãe. Estou indo para o meu trabalho. Agora, quanto a Ejá, digo que não me separarei dela. Não impedirei seu casamento com teu filho, mas não mais a deixarei. E quando ela partir do Aiye, não será Omulu quem a receberá, mas sim eu, para levá-la comigo, pois quando ela estiver no Orun, certamente se recordará de mim e retribuirá meu amor com toda a certeza.
Deixei que ele se fosse, caminhando sem olhar para trás. Eu ainda estava pensando em tudo o que Ogum dissera quando, de repente, senti que das águas do mar saíam estranhas fagulhas. Era Iansã, eu tinha certeza, ela provavelmente tinha escutado nossa conversa, ou parte dela. Agora, pelo visto, não conseguia mais se conter.
— Epa-hei, Oyá! Apareça, sei que és tu! - ordenei.
Quando a rainha dos ventos e das tempestades se materializou diante de mim, estava tremendo de raiva. Mesmo com a respiração alterada, ela tentava manter o controle, mas sem muito sucesso.
— Odo-iá, Iemanjá! Já que não adianta esconder nada de ti, digo só uma coisa: Ogum vai pagar por essa afronta!
— O que dizes? Por que achas que Ogum está a te afrontar? Por acaso, apesar de tudo o que aconteceu e do seu amor declarado por Xangô, ainda sentes alguma coisa por meu filho?
Iansã gargalhou, fazendo com que raios caíssem perto de nós, causando o ribombar de trovões. Os vapores que subiam do oceano se transformaram em ventania impiedosa, extinguindo a calmaria no reino de meu pai Olokun.
— As contas a serem acertadas entre mim e Ogum são grandes, muito grandes! Não admito que ele diga que uma simples mortal é o mais belo ser que ele já viu! Como ele ousa dizer isso, depois de ter vivido comigo? Essa é a maior afronta que já recebi! Quero, exijo respeito dele! Exijo! - gritou Iansã, descontrolada, desaparecendo em meio aos raios, deixando apenas o eco de sua indignação no ar.
Ao menos no oceano, a calmaria ressurgiu.
Tentei agir, interferindo no que tinha permissão. Fui ao ilê e mostrei nos búzios que um perigo muito grande se aproximava daquela casa. Aquele meu filho mortal, de nome Gilberto, noivo da bela moça, teria que ter muita coragem para tentar evitar o que poderia acontecer aos dois.
Por causa de meu aviso, o casamento acabou sendo adiado, mais por insistência do noivo, pois Ejá, que em sua vida atual se chamava Clara, não partilhava da mesma crença que ele, a moça estava até pensando que aquilo tudo era uma desculpa para não haver casamento nenhum.
E durante muitas luas tudo pareceu ter voltado ao normal: Ogum trabalhava e guerreava, Iansã comandava os ventos e lidava com os eguns, os homens viviam suas vidas, esquecidos do estranho incidente graças a Iroko. Tudo como sempre. O tempo passou e o novo dia escolhido como data do casamento de Clara e Gilberto finalmente chegou. De tão impaciente que estava a noiva, que dizia que era tudo desculpa do rapaz aquela história de “aviso dos orixás para tomar cuidado”, Gilberto cedeu e confirmou a nova data.
Um sábado, dia consagrado a mim e a Oxum, foi o dia escolhido para a união de nossos filhos. Uma cerimônia na praia tinha sido preparada com todo o cuidado. Muitas flores, muita música, muita alegria. Então por que eu sentia como se algo não estivesse bem? Meu coração não se acalmava e eu não conseguia encontrar Iansã em lugar algum. Infelizmente, só a encontrei na hora da cerimônia.

Os convidados estavam todos na praia, reunidos em volta dos dois jovens. Em meio às ondas, eu observava. Não conseguia ver meu Ogum em nenhum lugar, o que teria acontecido? Teria ele desistido de ficar perto de Clara para protegê-la? Talvez não quisesse assistir ao casamento dos dois...
Iansã
Meu pensamento foi interrompido por um clarão vindo de Orun. Foi do céu também que vi surgir Iansã, movimentando-se para formar os ventos mais fortes que pudesse. As pessoas, na areia, tentavam se proteger, escondendo o rosto e correndo para algum lugar coberto, ou para fora da praia. Os raios começaram a cair.
Consegui proteger Gilberto a tempo, desviando um raio fulminante que fatalmente o atingiria. Fiz com que ele adormecesse e criei uma barreira para que nada o machucasse. Não tive tempo de salvar Clara, infelizmente.
Assisti, desesperada, ao seu corpo sendo arrastado no ar, como uma boneca de pano. Vi também quando Iansã aproximou-se dela, mantendo Clara suspensa, gargalhando antes de desaparecer em meio às nuvens escuras de onde não cairia uma gota de chuva. A ventania cessou e Clara foi ao chão, em um impacto repentino com a areia. Já estava morta.
No ar, a risada de Iansã ecoava em meio ao barulho dos trovões, enquanto na areia as pessoas ainda estavam confusas, não entendendo a ira repentina da rainha dos ventos. Do que estaria ela se vingando?
Quando Gilberto acordou, caiu em prantos sobre o corpo de Clara, a única que perdera a vida. Afaguei sua cabeça, tentando acalmá-lo o quanto pudesse, pois da forma como estava era bem capaz que cometesse uma insanidade.
Nessa hora Ogum surgiu, desesperado. Ao deparar-se com a cena, vociferou:
— Aquela desprezível! Eu a amaldiçoarei por todos os dias enquanto fizer parte do Reino de Olorum!
Dirigindo-se a mim, explicou:
— Ela me jogou dentro de uma tempestade de ventos, mãe, para que eu não tivesse como impedi-la de fazer o que fez!
— Mesmo se tu viesses, ela o faria da mesma maneira, Ogum! Oyá estava com o coração cheio de raiva! Não foi capaz de esquecer o que disseste naquele dia, tempos atrás...
— Ejá! Eu cuidarei dela agora...
— Ogum, ela deve seguir com Omulu, sabes bem. — lembrei-o. — E Iansã é quem a conduzirá...
— Nunca! Não deixarei que Iansã a machuque mais do que já machucou! Omulu não irá me contrariar!
Nem bem disse aquilo, vimos o espírito de Clara começando sua caminhada para encontrar Omulu. Ogum colocou-se em frente a ela, impedindo seu caminhar:
— Ejá, venha, tu irás comigo agora...
Clara não entendeu as palavras de Ogum, atordoada ainda que estava de tudo o que tinha acontecido. Não sabia nem mesmo que não pertencia mais ao Aiye, olhava para os lados, buscando desesperadamente por Gilberto.
— Ejá? Não entendo... Meu nome é Clara... Onde está Gilberto?
— Venha, Ejá, cuidarei eu mesmo de ti. Não me reconheces? Sou eu, Ogum!
Quando Clara pareceu compreender as palavras de Ogum, arregalou os olhos, amedrontada, soltando um grito.
— Ogum? Se é Ogum mesmo, por que eu o estaria vendo? Onde está meu noivo? Quero saber onde ele está!
Clara não conseguia me ver, nem ver a Omulu, que se aproximava de nós, com passadas vagarosas. Sem nada dizer, ele parecia esperar que uma decisão fosse tomada. Tentei mais uma vez interceder.
— Filho, não vês que isso tudo não daria certo? Vocês dois, tu e Clara, ou Ejá, ambos não teriam paz nenhum dia em que estivessem juntos! Achas que Iansã se deu por vingada apenas com o que fez hoje? Se achas que sim, não conheces verdadeiramente tua ex-esposa! Como pensas que seriam os dias de Clara ao teu lado? E os teus dias, ao lado dela? Deixe-a seguir o caminho dela, por Oxalá!
Ogum balançava a cabeça, não querendo aceitar o cenário sombrio do futuro que eu jogava diante dos olhos dele.
— Ogum, ouve tua mãe que lhe pede, ficarei até de joelhos diante de ti, se isso for preciso para que aceites as minhas palavras em teu coração! Iansã interrompeu o destino de Clara. Será preciso que ela volte ao Aiye daqui a um tempo para terminar o que é necessário ao lado de Gilberto. Deixa-a acompanhar Omulu agora. Se Ejá está destinada a ser tua companheira um dia, aguarde a chegada desse dia. Não causes mais tristeza ao coração dela, que agora ama a Gilberto de verdade e precisará ficar por um tempo longe dele. — Continuei tentando fazer com que meu filho desistisse daqueles pensamentos insensatos.
Ogum abaixou a cabeça e chorou, convulsivamente. Omulu demonstrou que era hora de partir levando Clara, já se esgotara completamente o tempo dela naquele mundo. Reverenciou a mim e a Ogum, começando sua caminhada.
— Espere, filho de Nanã! - pediu meu filho. — Atende ao meu pedido: deixe-me acompanhá-los até os portões de teu reino... E impeça que Iansã esteja lá...

 
O tempo que Omulu refletiu sobre o pedido de Ogum pareceu eterno. Por fim, ele assentiu, pois se devia eterna gratidão a Oyá, também devia manter-se leal a meu filho. Não lhe negaria aquilo. E que honra seria para Ejá ter Ogum ao seu lado, cuidando seus passos, protegendo-a em seu caminho. Assim foi então, Omulu guiou-os por um caminho diferente, conhecido apenas por ele, para que não encontrassem com Oyá.
Quando retornou, Ogum procurou por mim. Ele voltava para os meus braços, ansiando por consolação, por conforto. Um conforto que somente uma mãe poderia dar a um filho.
E isso se repetiu muitas e muitas vezes. Acontecia toda vez que Ogum escapava e fazia uma visita a sua Ejá. Ela nunca soube que ele, de longe, a observava. Ogum jamais deixou que Oyá se aproximasse dela, embora a deusa tenha tentado, muitas vezes, até que a própria rainha das tempestades esqueceu-se daquela mortal, que um dia ousou ter sido colocada acima de todos os seres pelo coração apaixonado de um orixá. Afinal, havia outras coisas com as quais se preocupar, como manter-se como a preferida de Xangô entre as suas esposas. Por fim, Clara voltou ao Aiye, tempo depois, para finalmente trilhar seu caminho completo ao lado daquele que um dia conhecera por Gilberto. Nasceu em uma linda manhã de terça-feira, justamente em um 23 de abril, dia consagrado ao meu filho mais guerreiro. Agora, ela era mais uma filha de Ogum na Terra.


Autora: Bia Machado 
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