08 maio 2010

Coração Sombrio

Felippe era um garoto deprimido. Na escola, não tinha amigos. Em casa era rejeitado por seus pais e por seus irmãos. Walter seu irmão mais velho era o preferido do pai, Peter o caçula era o protegido da mamãe, e ele, Felippe era o filho do meio, o que ficava com os restos. Os anos foram passando, e Felippe alimentava um certo ódio de sua família e de praticamente todos a sua volta. Certa noite, quando ele tinha 15 anos foi visitado por alguém que ele ainda não conseguia ver. O ser se
identificou como uma criança de 10 anos cujo nome era Ari. Ari passou a ser seu novo amigo e todos os dias os dois conversavam e brincavam juntos. Três meses depois Ari contou que seus seis irmãos queriam vir brincar com Felippe. 

Na noite seguinte Ari voltou acompanhado de seus irmãos, o primeiro era o qual Ari era mais apegado e chamava-se Vejain, logo atrás vinha Azerava, Lagu vinha mais adiante, depois Airuxul, logo mais estava Devaida e a caçula Preçigua. Felippe não via os irmãos de Ari, mas ouvia suas vozes. Felippe logo fez amizade com os irmãos de Ari, porém sem perceber, conforme os dias iam passando ele ficava cada vez mais sem vontade de fazer nada. Uma preguiça tomava conta dele que muitas vezes ele não levantava da cama de manhã para tomar o café, quem dirá ir para a escola. Apesar da preguiça ele vivia em frente ao espelho de seu quarto analisando sua feições e como melhorá-las e se tornar mais bonito. Das poucas vezes que saía ele ia a um bordel, o qual pagava com a mesada que ele tanto brigou para ter. No bordel ele bebia, fumava e aprontava todas com as meninas, nem parecia um garoto de 15 anos, parecia que estava possuído. Ainda sem noção de suas atitudes ele passou a comer como um condenado, como se tivesse passado fome a vida toda, muitas vezes comia tanto que não deixava para os irmãos e lógico acabava apanhando pela falta de modos, mas nem ligava, pois tinha seus 7 amigos. No dia do aniversário de seu irmão mais velho, ele não gastou um tostão para comprar-lhe um presente, coisa que ele fazia todo ano apesar de ser rejeitado e também não o fez para nenhum outro membro de sua família em datas comemorativas. Coisa que com a mesada ele sempre fazia, pois apesar de todas as dificuldades Felippe tinha um bom coração. Felippe se tornou um garoto pão duro e amargo. A situação começou a piorar quando Felippe passou a sentir um sentimento estranho pelos seus irmãos e começou a se questionar por que seus irmãos tinham tudo e ele não. Por que motivo ele sempre foi o rejeitado? Esse sentimento cresceu e então ele invejava tudo o que os dois irmãos tinham, até que esse
sentimento mudou de inveja para ira e em uma noite ele pegou uma faca na cozinha e cortou a garganta dos dois irmãos. No dia seguinte seus pais acordaram e se depararam com a cena horrível e correram para o quarto de Felippe. Ele os esperava com a faca em punho. Seu pai entrou e quando o viu com a faca ensangüentada na mão, ele começou a gritar e se aproximar de Felippe que com a ira que ainda o tomava desvencilhou um golpe no abdômen de seu pai, fazendo-o sangrar, ele sangrou até a
morte. Sua mãe estava horrorizada e implorou por sua vida. Felippe apesar da ira, se conteve e acatou ao pedido da mãe, pois por incrível que pareça ele sentiu pena dela. Largou a faca e ela o abraçou, apesar
do receio. Ela ligou para a polícia que não tardou a chegar. 

Felippe foi levado preso e foi condenado por insanidade mental, o qual deveria passar o resto da vida em um manicômio. Lá ele ficava trancado em um quarto na companhia de seus 7 amigos. Sete meses depois de toda a tragédia os 7 “amigos” decidiram que era a hora para Felippe conhecer suas feições. Um a um foi aparecendo e se tornando nítido. Ari era um monstro horroroso com olhos vermelhos e uma cara de raiva, não tinha braços nem pernas, ele flutuava como um fantasma. Felippe soltou um grito de susto quando o viu. Vejain se mostrou um monstro pior que Ari, pois além dos olhos vermelhos, ele olhava para Felippe com cara de desdém, e exalava uma energia muito negativa, também não tinha pernas, mas tinha braços, para agarrar tudo o que não era dele. Azerava era um monstro marrudo, cujas mãos carregavam um baú que continha um tesouro que ele defendia com unhas e dentes. Lagu era um monstro até engraçado, peludo e gordo. Tinha pernas e braços largos, olhos negros e uma boca enorme. Airuxul era alto, magro, com sete mulheres ao seu redor, uma garrafa de pinga na mão esquerda e um cigarro na mão direita, gargalhava sem parar, como um bêbado. Devaida era talvez o mais simpático dos sete, pois apesar de peludo, tinha os pêlos penteados, e na cabeça um topete feito com gel, usava óculos escuros, tinha pernas e braços e carregava um espelho no qual checava seu look a cada 5 minutos. Preçigua estava dormindo, e foi cutucada por Ari, ela se levantou em uma moleza que dava raiva. Era tão gorda quanto Lagu, porém menos peluda, tinha seus olhos semi-cerrados e bocejava o tempo todo. Ari então falou:

- Agora também vamos dar nossos nomes verdadeiros. Eu sou a Ira.
- Eu me chamo Inveja.
- Eu, sou Avareza.
- Eu me chamo Gula – disse dando um sorriso.
- Haha sou hahaha a Luxúria hahaha.
- Eu sou a Vaidade e se me der licença preciso checar meu visual no espelho.
- E eu sou a Preguiça. – disse entre um bocejo e outro.
Ira tornou a falar:
- Nós te usamos e você nem percebeu, agora você não tem como voltar atrás. Você nos pertence. E será nosso escravo.
- Eu não vou ser escravo de ninguém. – retrucou Felippe.
- Ah vai ser sim. – disse a Gula. – pode começar me dando seu almoço.
- Não. Eu não quero ser seu escravo. Nããão.- Felippe berrava e corria em direção a porta do seu quarto. 

Tentava em vão abri-la e gritava por socorro. Todos os monstros começaram a rir. Felippe foi para sua cama, deitou e tentou fechar os olhos e pensou que quando os abrisse eles sumiriam, mas não, eles ainda estavam lá e riam sem parar dele, Felippe tentou rezar, mas não adiantou nada.
Felippe correu de novo até a porta de seu quarto, e começou espancá-la e chutá-la, implorando por socorro. Um enfermeiro vinha passando e escutou as súplicas do garoto, foi até a porta do rapaz, e pela
gradinha perguntou o que ele queria. Felippe falou desesperado:
- Tem 7 monstros no meu quarto, e eles estão rindo de mim, por favor me tira daqui.
- Olha, você não está no seu juízo perfeito, não tem monstro nenhum ai dentro.
- Teeem siiim, são os monstros dos 7 pecados capitais, eles estão aqui,
rindo de mim, dizendo que vou ser escravo deles, por favor seu
enfermeiro, você tem que acreditar em mim.
- Acalme-se rapaz, vou chamar o doutor, ele saberá o que fazer.
Um psiquiatra veio até o quarto de Felippe e com a ajuda do enfermeiro aplicou um calmante no rapaz que dormiu e só acordou no dia seguinte. Na sessão com o psiquiatra ele contou tudo sobre os monstros que vira na noite passada em seu quarto, que no começo eles se apresentaram como
crianças, mas que na verdade eram monstros que o influenciaram a fazer as atrocidades que o fizeram parar nesse manicômio. Depois de ouvir a história toda o psiquiatra falou:
- Supondo que eu acredite em você e que esses monstros realmente existam, iremos trabalhar uma coisa a partir de hoje, coloque amor no seu coração, pois só assim conseguirá
vencê-los. 

A noite, os monstros apareceram em seu quarto de novo, assustando Felippe. Ele tentou não se deixar levar pelo medo e lembrou o que o doutor falara, ter amor no coração. Ele tentou ao máximo, mas
não deu certo e outro escândalo e mais uma dose de calmante. Assim se seguiu por 7 dias. No oitavo dia na sessão com o psiquiatra, ele pediu para o doutor ligar para sua mãe e pedir que ela viesse visitá-lo. Ela demorou a aceitar mas acabou por vir no dia de visitas e Felippe falou:
- Mamãe, se fosse possível os 7 pecados capitais serem gente, como a senhora os imaginaria?
- Felippe, eu não preciso imaginar. É só olhar pra você e pra tudo o que fez. Você é o monstro dos 7 pecados capitais.
- Tudo bem, mãe, entendi. E agora como a senhora imagina o amor?
- Eu imagino uma deusa, sábia e poderosa.
- Obrigado, mãe, era só isso que eu queria saber.
- Mas por que me pergunta isso filho?
- Porque sete monstros horrorosos me perseguem e dizem que me usaram para cometer as atrocidades que outrora eu fizera. Cada um deles carrega um nome dos 7 pecados capitais.
- Filho, deixe de bobagens. Os pecados capitais, são apenas sentimentos, não teriam como existir fisicamente.
- Tudo bem Eu entendo que você me julgue louco depois de tudo o que eu fiz. Agora se me permite irei me retirar, tchau mãe.
Na noite desse dia os monstros apareceram, e Felippe segurou seu medo e começou a pensar no amor que sentiu vendo sua mãe novamente. Uma luz dourada e muito brilhante invadiu o quarto e um anjo se formou a partir dessa luz. Ele virou-se para Felippe e disse:
- Sou o anjo do amor, e Deus, ouviu suas súplicas e seus pedidos inconscientes de perdão,
pelo o que você fez e por esse motivo estou aqui. Vim a mando Dele para te salvar.
Felippe olhou os monstros e agora eles é quem estavam com a expressão de horror. O anjo recitou umas palavras em latim e com seu arco dourado atirou uma flecha em cada um, e eles sumiram, pois a
força do amor era muito maior do que a dos sete juntos.
- Agora Felippe, que você sabe que esses monstros existem e estão a espreita de pessoas de espírito pobre e cabeça fraca, pense sempre no amor e na esperança que eles nunca mais aparecerão para você, nem te influenciarão. Ame sempre e deixe ser amado, abra seu coração e diga as pessoas que você as ama. Com a permissão de nosso Deus eu trouxe três espíritos que querem te ver.
Ao lado do anjo apareceu o pai e os irmãos de Felippe. Lágrimas caíram de seus olhos e disse chorando:
- Pai e meus queridos irmãos, me perdoem pelo o que fiz. Eu os amo muito.
- Nós vimos os monstros que te acompanharam até hoje, e entendemos o porque de suas atitudes. – disse Walter.
- Nós te perdoamos, filho. – disse o pai.
Peter apenas sorriu. E então todos sumiram. Felippe passou a ser uma pessoa amável e melhorou
a cada dia. Até que provou ao juiz que ele poderia voltar ao convívio em sociedade. Felippe voltou para casa de sua mãe e seguiu sua vida, sem nunca mais encontrar os sete pecados capitais.

Moral da história:
Sentimentos podem ser monstros que não percebemos, e em um mundo individualista como o que vivemos, é um prato
cheio para eles atacarem. E somente o amor é o ponto fraco deles. O
amor que em muitas pessoas não existe mais, o que as torna vulneráveis
a esses monstros.

Nota da autora:

Pra mim esses sentimentos e pecados são sim monstros que variam na forma, tamanho e
outros detalhes perante a imaginação ilimitada de cada um. Cada pessoa
tem a capacidade de imaginar como seriam os pecados capitais se eles
pudessem existir como algo concreto, dando um resultado de infinitos
monstros de todos os jeitos possíveis e imagináveis, porém só se
assemelham no ponto fraco, serem derrotados pelo amor e pela esperança.


escrito em 3/03/2010
 

Autora: Miliany Pellegrini

Leia Mais ►
 
Contásticos © Copyright 2012 - Template Made by Milly Pellegrini