10 junho 2010

Sorte




Treze sempre fora o número de sorte de Valdomiro dos Santos: nascera no dia treze de abril e era o décimo-terceiro filho de Dona Candinha, que Deus a tenha.

Valdomiro era um tipo magro, mulato-claro, de dentes muito brancos e de rosto bonito. Dona Candinha dizia que ele tinha cara de artista de TV, que ele era muito bem apessoado, que venceria na vida.

Bem que Dona Candinha fez todo o possível por suas crianças. Isto dentro de suas condições, é claro. Fez todos irem ao Colégio Municipal Nossa Sra. de Nazaré, onde também poderiam merendar duas vezes antes de voltar para casa. Trazia roupa, calçado e brinquedos usados, que as patroas doavam ou que ela conseguia na paróquia de Alcântara. Se desdobrava com os dois salários-mínimos ganhos à custa de muita faxina como diarista. Não tinha chuva, febre ou dor no corpo que a segurassem em casa. Não havia preguiça no velho corpo.

Ia à feira somente na hora da xepa. Pão duro de hoje, virava pudim-de-pão amanhã; resto de carne assada, bolinho. Botava água no feijão, fazia mingau de banana, colhida por sorte na estrada, ensopadinho de mamão verde: era uma valente, a mulher. Cavou poço no quintal junto com os filhos mais velhos e os vizinhos, puxou gato do poste da rua, bateu laje, plantou horta nos fundos do terreno.

Dentro de casa, o chão de vermelhão estava sempre polido de tão encerado. As caminhas feitas de madeira de caixote de maçã, cobertas de caprichadas colchas de retalhos e o retrato de Jesus no Monte das Oliveiras, nunca empoeirado. Era um lar humilde sim, mas de gente de bem. De gente que não tinha medo de arregaçar as mangas e trabalhar, ainda que o mundo fosse injusto lá fora.

Mesmo cansada e mal sabendo juntar as letras, acompanhava e cobrava a feitura das lições de casa e fazia a meninada rezar sempre antes de dormir.

Moravam todos no Morro da Coruja, um lugarejo perdido, afastado do centro de São Gonçalo, Rio de Janeiro. Cheio de ruas de barro, de terrenos baldios, de mato com cobras e de esgoto correndo em valetas que davam num valão que enchia nas chuvas.

Viviam ali numa comunidade que era pobre e honesta até que os traficantes do Morro dos Diabos resolveram abrir uma “boca” no lugar.

Dona Candinha, já velha com seus quase sessenta anos, dava conselho: “Não se metam com quem não presta. O que vem fácil, vai fácil.”

Mas como influenciar uma geração inteira que via na TV os tênis sofisticados? Os carros, os videogames, os celulares, o sucesso de quem tem dinheiro? Como conformar-se em ter que juntar meses de economia, em ter que deixar de comer margarina no pão, para poder comprar um sapato melhor ou uma calça jeans “de marca”?

No dia que Valdomiro faria treze anos, Candinha fizera um bolo de fubá e preparou duas jarras de refresco de caju. Convidou os amiguinhos e os vizinhos, estavam todos esperando por ele. Seria uma festa-surpresa.

Mal sabia Valdomiro que a polícia estava subindo o morro naquele dia treze. Tampouco sabia que a boca-de-fumo ficava na mesma viela onde sua casa se encontrava.

Os meganhas foram recebidos com chumbo grosso pelos traficantes e devolveram na mesma moeda. Logo uns três capangas da quadrilha caíram mortos. Muitos barracos foram furados de bala, muita gente ficou assustada e Dona Candinha, caiu baleada dentro de casa.

“Foi os 
puliça”, Valdomiro escutou a vizinha falar. “Eles subiram o morro atirando pra todo lado. Os pessoá da boca respeita os morador. Foi os puliça, tudo dedo nervoso, pipocando os berros pra cima de todo mundo, sem ligar pra ninguém, só proquê nós é pobre!”

Candinha caída no chão, a cabeça estourada e sujando o tapete de trapos colorido. Logo ela que adorava tudo arrumadinho, tudo limpinho. Caída ali, com as mãos crispadas feito pés de galinha e o corpo rígido, já ficando frio.

Valdomiro agarrou o corpo da mãe. Chorou, molhou-se todo no sangue daquela que ele julgava uma santa na Terra.

Levantou-se meia hora depois, com a expressão endurecida. Puxou a toalha da mesa: voaram o bolo de fubá e as duas jarras de suco de caju ao chão. Enrolou a mãe na toalha: uma mortalha cheia de desenhos de pratos finos, bichinhos e flores. Cheia de coisas alegres que estavam de alguma forma para sempre fora de seu alcance.

No dia treze, quando fizera treze anos, Valdomiro jurou não mais ser vítima. Não mais ser cordeiro neste mundo de lobos. Quando o relógio bateu treze horas, o Valdomiro de Dona Candinha deixou de existir.

                                                                                                             ***

Daí em diante, Valdomiro ou o Miro da Coruja, como passou a ser conhecido, galgou os cargos que o tráfico oferecia: foi “vapor”, “olheiro”, “fogueteiro” e “mula”.

Foi preso pela primeira vez quando levava uns tijolos de maconha prensada no fundo de um isopor de vender picolé. Soltaram logo ele: era menor e não tinha ficha.

Os anos que se seguiram foram marcados por outras detenções e algumas internações em casas para menores deliquentes. Levou porrada, tentaram violentá-lo. Mais cada nova prisão, cada nova tentativa de domá-lo, só contribuiam em endurecer ainda mais seu caráter.

Com dezoito anos recém-completos, Miro da Coruja foi preso pela décima-terceira vez ao tentar roubar uma turista em Copacabana, que resistiu ao entregar-lhe a carteira e as jóias.

Se fosse preso em São Gonçalo ou Niterói, ele até teria algum respaldo dentro da cadeia. Afinal, ele era conhecido pela malandragem do lugar.

Mas para seu azar, Miro foi preso em uma destas delegacias do Rio, com presos demais aguardando julgamento.

                                                                                                          ***

– Carne nova no pedaço! – escutou Miro, quando foi jogado para dentro da cela.

O lugar não cheirava mal, simplesmente. Fedia de maneira inacreditável: a suor, a restos de comida, a roupas sujas e, principalmente, à fezes fermentadas daquele buraco que servia de sanitário, que ficava no fundo da cela: o “boi”.

Empurraram o garoto para todo lugar. “Aqui não, moleque. Vai lá pro fundo. Quem é merda dorme perto da merda.”

Uns cinquenta homens dentro de uma cela onde poderiam ficar dez. A noite chegou e o jantar foi servido em marmitas que Miro comeu com avidez, sem ligar para as larvas no arroz mal cozido.

Com o fim do turno diurno, muitos policiais foram para casa e somente quem fazia plantão ficou na delegacia.

Um sujeito branco, de cabelos claros e compridos até os ombros e um olho verde e outro azul, saltou do beliche mais alto, o que ficava junto da entrada.

Vestia só uma bermuda jeans e não usava camisa. Caminhou gingando, enquanto os outros presos abaixavam a cabeça e abriam caminho.

Miro olhou para cima e sentiu medo. O homem deveria ter quase um metro e noventa e os músculos saltavam à vista. Tinha várias tatuagens espalhadas pela pele: caveiras, facas e “morte”, com cada letra grafada nos dedos da mão direita.

– Qual é o teu nome, guri? Sabe quem eu sou? Eu sou o bonzão aqui, tá ligado? Já ouviu falar de Tico do Salgueiro? Isso. Isso mesmo. O chefe da Amigos dos Amigos. Tenho ligações com o PCC também, são todos chapas meus. Eu sou bicho solto – disse arregalando os olhos, tentando assustá-lo – Eu mando e desmando nesta porra, entendeu?

– Eu sei quem é o senhor. Eu também sou do crime, seu Tico. Sou o Miro da Coruja. Pergunta pra qualquer malandro de São Gonçalo ou Niterói, que vão falar bem de mim. Pode perguntar!

– Sei, sei, Miro. – Tico riu e respirou fundo – Miro, o negócio é o seguinte: me armaram uma arapuca e tô preso nesta fossa de merda faz quase um mês. Na seca, sacou? Eu não tenho nada contra você não, entende? Mas a gente tem que aproveitar quando pinta uma chance destas. Um guri novo, cheiroso...

– Porra, que que você tá querendo dizer?! Eu não sou viado não. Eu sou homem e sou do crime. - disse Miro com o dedo em riste - Não se mete comigo, seu Tico! Eu...

Vários dos homens saltaram de seus beliches e abriram caminho até o fundo da cela. Pararam atrás de Tico do Salgueiro e cruzaram os braços, rindo.

– Miro, minha criança formosa. – suspirou Tico, apertando os genitais, nitidamente excitado – Há o jeito fácil e o jeito difícil. Eu tenho esquema com os meganhas da noite, ninguém virá aqui te acudir. Cumé que vai ser? Do jeito fácil ou do difícil? – e abriu um sorriso amplo, cheio de dentes dourados.

                                                                                                        ***

Miro acordou desejando estar morto. Os olhos estavam tão inchados que não os conseguira abrir. Os dentes da frente foram todos quebrados com socos. Sentiu um gosto horrível na boca: um misto de esperma e de sangue coagulado. Não suportou e vomitou sobre o próprio peito e barriga.

Um homem gordo e de voz e trejeitos femininos veio com um balde de água e um pedaço de pano. Começou a limpar o rosto de Miro e a lavar o vômito.

– Você fez besteira de tentar encarar o chefe. Sabe porque te quebraram os dentes? Não? Pra você não morder quando te foderem a boca. Você até tem sorte porque te acharam magro e não tem camisinha hoje na cela. Os chefes não querem se arriscar a pegar a
mardita, sacou? Senão já teriam te arregaçado... O negócio é você se comportar, fica pianinho que eles vão te deixar viver. Se fizer tudo direito, vão até te tratar bem, você até poderá dormir na cama do Tico. Quem sabe? Ser um “fiel” na cadeia não é de todo mal.

Os dias se seguiram com Miro resistindo toda noite e sempre sendo subjulgado. Acordava cada dia em pior estado.

Na terceira noite desde que chegara, escutou um dos presos bater na madeira e dizer: “Amanhã é sexta-feira treze! Disconjuro! Pé-de-pato, mangalô, três vezes”.

Treze! O seu número de sorte. Era um sinal!

Tentou abrir os olhos, mas não conseguiu enxergar nada na escuridão. Saiu tateando o chão com todo o cuidado, para não acordar ninguém. Procurou por horas e seu esforço não foi em vão.

Chegou a noite do dia treze e seu suplício ia se repetir. Sentado no chão, junto do “boi”, com muito esforço conseguiu entreabrir o olho esquerdo e viu, quando Tico se aproximou, desceu a bermuda, abriu-lhe o maxilar à força e empurrou o pênis até quase engasgá-lo.

“Não foi muito fácil achar”, pensou Miro. “Afinal, dera muita sorte mesmo.”

Em sua boca, agora quase nua de dentes, cacos de lâmina de barbear foram diligentemente encaixados, formando uma dentadura torta de metal. O sangue corria das gengivas inflamadas, mas Miro estava muito além da dor.

Antecipando um pouco o prazer, Miro fechou a boca o mais forte que pôde e sacudiu a cabeça para os lados: como um cão.

Tico caiu para trás e se debateu no chão feito uma borboleta cega, aspergindo sangue para todo lado, como um padre quando benze os fiéis.

Miro levantou-se, cuspiu o membro mutilado do homem e sacou um estilete que escondera sob a perna: um pedaço tosco de ferro, com um cabo de trapos enrolado ao redor.

O primeiro homem que tentou golpeá-lo, sentiu a lâmina enferrujada penetrar fundo, junto de seu umbigo gordo. Gritou como um porco quando viu um pedaço de tripa saindo pelo buraco. Os outros homens hesitaram, fazendo um círculo que se aproximava e se afastava, conforme Miro golpeava o ar meio às cegas.

A gritaria desta vez chamou à atenção dos guardas. Tiros foram dados para o alto. Os presos se ajoelharam com as mãos à cabeça. Dois policiais entraram e socorreram o homem esfaqueado e Tico, que foram retirados às pressas da cela.

Miro foi colocado em outra cela. Lá os presos o olharam de cima a baixo e um dos homens cedeu-lhe a cama e deitou-se no chão. Conseguira impor respeito, finalmente.

No dia seguinte, um advogado pago pela boca do Morro da Coruja, pagou sua fiança e ele saiu. Eram exatamente treze horas segundo o relógio que havia em frente à delegacia.

O horizonte estava cheio de nuvens castanhas, carregadas de eletricidade. Miro respirou fundo o ar com cheiro de terra molhada, pensou em sua falecida mãe e, finalmente, deu graças à sua sorte.

-FIM-

Autor: Rubem Cabral

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07 junho 2010

De Memórias Partidas

Quando ele abriu os olhos, não sabia dizer bem onde estava. Era um lugar fechado, pequeno, abafado. E balançava muito! Ficou nauseado de tanto que chacoalhava. Respirou com dificuldade, sentindo um ar aquecido entrar-lhe nas narinas e lutar para penetrar os pulmões destruídos por cinco décadas de cigarro. Tentou pensar o que fizera antes de estar ali. A imagem não se formava bem na mente. Era como um corredor. Havia outra pessoa, cujo rosto estava apagado como se uma neblina o cobrisse. Conversavam, mas as vozes não se faziam ouvir.

Levantou-se devagar, pois as articulações não eram mais tão fortes. Estava escuro, e só conseguia distinguir o que havia à volta porque os olhos logo se adaptaram. Parecia um elevador. De fato, muito pequeno. Mal cabia ali. Era redondo, como uma cápsula, e se movia para baixo em velocidade mínima. Tocou a parede, sentindo nos dedos um vidro transparente. Procurou nos bolsos o isqueiro que usava para acender os cigarros, mas não havia ali o maço. Talvez já tivesse acabado. De qualquer forma, apertou o gatilho, e a chama do isqueiro iluminou tudo em volta.

Havia uma janela de vidro, pela qual mal dava para enxergar alguma coisa, por conta do movimento de descida. O resto da parede do elevador cilíndrico era feito de cimento batido, com um aspecto sujo. Seus olhos até captaram uma barata errante, tentando se esconder da luz repentina. Deteve-se à janela e tentou observar o que havia além. Não muito longe do vidro se estendia uma corda de metal, talvez de outro elevador semelhante. E apenas isso.

Antes que ele tirasse os olhos do vidro, porém, notou algo estranho. Era uma pessoa, lá fora. Pendurada na corda. A rápida imagem em movimento não se formou por completo, mas teve certeza que vira uma mulher, nua e sem cabelos, que se segurava à corda com um braço e, no outro, mantinha uma criança, próxima ao seio. Encostou-se ao vidro e olhou para cima. A imagem desapareceu de forma rápida, pois ironicamente o elevador começava a ganhar velocidade, em sua descida ininterrupta.

Mesmo assim, viu que mãe e filho, ambos carecas, ele com lábios rasgados sobre o seio sangrante dela, o encaravam.

Assustou-se e recuou, zonzo, tentando entender o que era aquilo. Como uma mulher carregaria um filho pelas cordas de um elevador? Não fazia o menor sentido. Controlou a respiração e ergueu outra vez o isqueiro, ativando a chama trêmula. Os olhos se perderam no vidro silencioso. A imagem se dissolvera, e não voltaria. Com a sensação de estranhamento, não conseguia tirar da cabeça aquele olhar que os dois lhe impuseram. Forçou-se a aceitar que imaginara aquilo tudo. Só que o cérebro fora ainda mais cruel.

Em poucos segundos, mais uma pessoa surgiu além do vidro. Era um anão, pendurado à corda metálica por algemas que prendiam seus braços, fazendo-o pender. Do rosto enrugado desciam cabelos brancos e uma barba longa. Não conseguiu ver mais que isso, pois a velocidade já estava intensa. Quis tirar os olhos do vidro, quis se agachar como se assim se protegesse, mas paralisou. O anão idoso também o olhava, antes de desaparecer a metros por segundo. Era uma expressão agressiva, um ódio que trespassava a janela.

Quando se refez do choque, apagou o isqueiro. Não mais queria olhar. Apenas sentou e ali fechou os olhos, tentando encontrar um jeito de esquecer o que vira. Não saberia dizer quanto demorou assim, ou há quantos minutos ou horas o elevador descia. Perdera-se no tempo com a mesma intensidade com que se desencontrara no espaço, e agora só implorava ao elevador que parasse.

E, enfim, parou, com uma batida rude. Sobressaltado, ele aguardou até a parede com a janela se mover, permitindo que saísse. Escapou do elevador, e a porta de cimento se fechou. Tudo continuava muito escuro e, apesar disso, assustou-se quando um rosto surgiu no vidro, do lado de dentro do elevador, de onde acabar de sair. Era um homem, com metade da face destruída por um orifício certamente feito por uma arma de grosso calibre. Gemia, sem conseguir falar, apenas o encarando com dor.

O rosto ensangüentado se encostou à janela e logo o corpo escorregou para baixo, desaparecendo. Então, o elevador se afastou.

Em meio ao breu, ele conseguia ouvir um gotejar repetitivo. Tinha medo de acender o isqueiro, depois de tudo. Tentou caminhar com passos tortos, embalado pelo tilintar de sabe-se lá o quê, mas terminou por tropeçar, quase caindo. Recuou e decidiu por fim usar o isqueiro. Acendeu, e a pequena chama conseguiu iluminar todo o corredor úmido.

Nas paredes, misturavam-se aos insetos e aos tijolos corpos dependurados. Alguns carbonizados, e em outros faltavam pedaços de carne, de onde sangravam profusamente. Um, inclusive, se mexia, mesmo que lhe tivessem sido arrancados os quatro membros, escorrendo sangue para todos os lados. Este também o encarava com olhos de sofrimento. Voltou a cabeça, para evitar ver aquelas pessoas, e tentando descobrir em quê tropeçara. No chão, estava estendido outro corpo carbonizado. Junto dele, uma menina com metade do corpo despedaçado, segurava uma boneca com a mão ainda sã, e segurando na outra uma granada. Encarou-o, com um olhar sincero, pedindo:

“Por favor, senhor, me ajude. Não sei como brincar com isso”

Evitou a menina, tremendo, e tentou correr para longe. Olhou para trás, para ver se ela o seguia, mas desaparecera, assim como os corpos na parede. Tudo voltara a ser sujo e silencioso. Ele parou, inconformado, encostando-se na parede, com vontade de chorar. Não sabia o que aquilo tudo significava. Mal se reconhecia em meio a tantas imagens distorcidas, confundindo não apenas sua identidade, mas até sua própria natureza. Apagou o isqueiro e colocou as mãos na cabeça, apertando, para controlar a dor que começava a correr para a fronte.

Só se levantou porque ouviu batidas metálicas. Caminhou até o lugar de onde elas vinham, e, isqueiro aceso, se surpreendeu ao ver uma grade, atrás da qual havia pelo menos cinco pessoas totalmente desfoladas. Um deles estava encostado à grade e, segurando uma faca, batia com seu cabo contra o metal da grade.

Encaravam-no, todos. O que segurava a faca se moveu para abrir a grade e aguardou que o homem entrasse.

Não entrou, de imediato. Ficou quieto, para se certificar de que deveria fazer isso. Os cinco corpos ensaguentados, com suas fendas ópticas rasgadas nos músculos expostos do rosto, pareciam tentar animá-lo. Sentiu, então, quando alguém o empurrou avidamente para dentro, trancando a grade logo em seguida. Recolheu-se, em pânico, para o fundo do cubículo, e se voltou para ver um grande homem, que fechava o portão da cela, e foi embora sem trocar qualquer palavra com eles.

Quando voltou os olhos para os companheiros de cela, não havia nenhum deles. Por outro lado, deparou-se com um homem mais velho, caquético, que também mantinha o olhar sobre si. Com um sorriso que beirava a realidade, ele lhe perguntou:

“O que você fez pra estar aqui?”

“Eu não fiz nada” foi sua resposta, embora nem ele mesmo soubesse ao certo.

“Ninguém fez nada, mas todos fizemos muito” respondeu o velho emagrecido. “Quer saber minha história? Eu era um ginecologista importante em Santa Catarina. Mas decidi me divertir um pouco com minhas pacientes. Comecei a cortar o clitóris de todas as que eu operava, e fiz uma coleção deles. Tenho uma parede cheia de clitóris, dos mais diversos tipos e tamanhos!” riu, ao lembrar. “E você, o que fez?”

Não sabia, de fato. Por um instante, pensou em cada coisa que vira, até chegar ali. O que mais o impressionava eram os olhares. Todos o observavam com olhos piedosos, como se implorassem seu perdão em silêncio. Pensou na menina e sua boneca. Já vira aquilo antes. Não conseguia lembrar quando, mas sabia que vira.

Quando se virou para o ex-médico, não estava mais na cela fria. Era agora uma floresta. Ouvia passos rápidos, esmagando folhas e galhos secos. Viu-se cercado por vários homens vestindo fardas verdes, mas logo eles seguiram adiante. Não eram inimigos. Deu-se conta que também se vestia assim e, pior, trazia nas mãos um fuzil.

Viu-se tirar da cintura uma granada e arremessar com força para longe. Antes de ouvir a explosão, começou a correr para acompanhar os outros militares, e a floresta subitamente se converteu em um longo corredor escuro. Ao seu lado, notou um homem com uma lanterna na mão, iluminando o caminho, e empunhando uma arma apontada às suas costas. Ele falava alguma coisa que, só aos poucos, tornou-se claro:

“... Tenha certeza, depois que se entra, ninguém sai dessa prisão. Nunca. A única forma de escapar daqui é dentro de um caixão. Morto. Haverá muitos outros como você lá embaixo, alguns talvez até mais violentos. Mas duvido que muitos tenham cometido atrocidades como as que você fez” Parou, antes de dizer: “Agora, me dê seus cigarros, porque eles são proibidos”

“O isqueiro também?” ouviu-se falando.

“Pode ficar. O máximo que você fará com ele é tocar fogo no próprio corpo, o que para nós seria um alívio” riu o homem, abrindo então uma porta de pedra circular com uma janela de vidro.

Quando foi entrar no elevador, o homem se viu outra vez dentro da cela, sob o olhar curioso do ex-médico, que murmurou, com uma boca sem dentes:

“Pode me dizer. Conte sua história”

Ouviu um rosnar. Olhou para o lado e, parado por trás da grade da cela, estava um cachorro branco, com os dentes à mostra, encarando-o. Uma das patas do cão havia sido arrancada e, perto de uma orelha, havia um óbvio furo de projétil de arma de fogo.

“Por que tem medo de falar? Não fará diferença. Você não vai ficar pior do que já está”

Observando o cachorro, pensou como o médico estava absurdamente enganado.

***

Autor: Elton Menezes Severo

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