07 junho 2010

De Memórias Partidas

Quando ele abriu os olhos, não sabia dizer bem onde estava. Era um lugar fechado, pequeno, abafado. E balançava muito! Ficou nauseado de tanto que chacoalhava. Respirou com dificuldade, sentindo um ar aquecido entrar-lhe nas narinas e lutar para penetrar os pulmões destruídos por cinco décadas de cigarro. Tentou pensar o que fizera antes de estar ali. A imagem não se formava bem na mente. Era como um corredor. Havia outra pessoa, cujo rosto estava apagado como se uma neblina o cobrisse. Conversavam, mas as vozes não se faziam ouvir.

Levantou-se devagar, pois as articulações não eram mais tão fortes. Estava escuro, e só conseguia distinguir o que havia à volta porque os olhos logo se adaptaram. Parecia um elevador. De fato, muito pequeno. Mal cabia ali. Era redondo, como uma cápsula, e se movia para baixo em velocidade mínima. Tocou a parede, sentindo nos dedos um vidro transparente. Procurou nos bolsos o isqueiro que usava para acender os cigarros, mas não havia ali o maço. Talvez já tivesse acabado. De qualquer forma, apertou o gatilho, e a chama do isqueiro iluminou tudo em volta.

Havia uma janela de vidro, pela qual mal dava para enxergar alguma coisa, por conta do movimento de descida. O resto da parede do elevador cilíndrico era feito de cimento batido, com um aspecto sujo. Seus olhos até captaram uma barata errante, tentando se esconder da luz repentina. Deteve-se à janela e tentou observar o que havia além. Não muito longe do vidro se estendia uma corda de metal, talvez de outro elevador semelhante. E apenas isso.

Antes que ele tirasse os olhos do vidro, porém, notou algo estranho. Era uma pessoa, lá fora. Pendurada na corda. A rápida imagem em movimento não se formou por completo, mas teve certeza que vira uma mulher, nua e sem cabelos, que se segurava à corda com um braço e, no outro, mantinha uma criança, próxima ao seio. Encostou-se ao vidro e olhou para cima. A imagem desapareceu de forma rápida, pois ironicamente o elevador começava a ganhar velocidade, em sua descida ininterrupta.

Mesmo assim, viu que mãe e filho, ambos carecas, ele com lábios rasgados sobre o seio sangrante dela, o encaravam.

Assustou-se e recuou, zonzo, tentando entender o que era aquilo. Como uma mulher carregaria um filho pelas cordas de um elevador? Não fazia o menor sentido. Controlou a respiração e ergueu outra vez o isqueiro, ativando a chama trêmula. Os olhos se perderam no vidro silencioso. A imagem se dissolvera, e não voltaria. Com a sensação de estranhamento, não conseguia tirar da cabeça aquele olhar que os dois lhe impuseram. Forçou-se a aceitar que imaginara aquilo tudo. Só que o cérebro fora ainda mais cruel.

Em poucos segundos, mais uma pessoa surgiu além do vidro. Era um anão, pendurado à corda metálica por algemas que prendiam seus braços, fazendo-o pender. Do rosto enrugado desciam cabelos brancos e uma barba longa. Não conseguiu ver mais que isso, pois a velocidade já estava intensa. Quis tirar os olhos do vidro, quis se agachar como se assim se protegesse, mas paralisou. O anão idoso também o olhava, antes de desaparecer a metros por segundo. Era uma expressão agressiva, um ódio que trespassava a janela.

Quando se refez do choque, apagou o isqueiro. Não mais queria olhar. Apenas sentou e ali fechou os olhos, tentando encontrar um jeito de esquecer o que vira. Não saberia dizer quanto demorou assim, ou há quantos minutos ou horas o elevador descia. Perdera-se no tempo com a mesma intensidade com que se desencontrara no espaço, e agora só implorava ao elevador que parasse.

E, enfim, parou, com uma batida rude. Sobressaltado, ele aguardou até a parede com a janela se mover, permitindo que saísse. Escapou do elevador, e a porta de cimento se fechou. Tudo continuava muito escuro e, apesar disso, assustou-se quando um rosto surgiu no vidro, do lado de dentro do elevador, de onde acabar de sair. Era um homem, com metade da face destruída por um orifício certamente feito por uma arma de grosso calibre. Gemia, sem conseguir falar, apenas o encarando com dor.

O rosto ensangüentado se encostou à janela e logo o corpo escorregou para baixo, desaparecendo. Então, o elevador se afastou.

Em meio ao breu, ele conseguia ouvir um gotejar repetitivo. Tinha medo de acender o isqueiro, depois de tudo. Tentou caminhar com passos tortos, embalado pelo tilintar de sabe-se lá o quê, mas terminou por tropeçar, quase caindo. Recuou e decidiu por fim usar o isqueiro. Acendeu, e a pequena chama conseguiu iluminar todo o corredor úmido.

Nas paredes, misturavam-se aos insetos e aos tijolos corpos dependurados. Alguns carbonizados, e em outros faltavam pedaços de carne, de onde sangravam profusamente. Um, inclusive, se mexia, mesmo que lhe tivessem sido arrancados os quatro membros, escorrendo sangue para todos os lados. Este também o encarava com olhos de sofrimento. Voltou a cabeça, para evitar ver aquelas pessoas, e tentando descobrir em quê tropeçara. No chão, estava estendido outro corpo carbonizado. Junto dele, uma menina com metade do corpo despedaçado, segurava uma boneca com a mão ainda sã, e segurando na outra uma granada. Encarou-o, com um olhar sincero, pedindo:

“Por favor, senhor, me ajude. Não sei como brincar com isso”

Evitou a menina, tremendo, e tentou correr para longe. Olhou para trás, para ver se ela o seguia, mas desaparecera, assim como os corpos na parede. Tudo voltara a ser sujo e silencioso. Ele parou, inconformado, encostando-se na parede, com vontade de chorar. Não sabia o que aquilo tudo significava. Mal se reconhecia em meio a tantas imagens distorcidas, confundindo não apenas sua identidade, mas até sua própria natureza. Apagou o isqueiro e colocou as mãos na cabeça, apertando, para controlar a dor que começava a correr para a fronte.

Só se levantou porque ouviu batidas metálicas. Caminhou até o lugar de onde elas vinham, e, isqueiro aceso, se surpreendeu ao ver uma grade, atrás da qual havia pelo menos cinco pessoas totalmente desfoladas. Um deles estava encostado à grade e, segurando uma faca, batia com seu cabo contra o metal da grade.

Encaravam-no, todos. O que segurava a faca se moveu para abrir a grade e aguardou que o homem entrasse.

Não entrou, de imediato. Ficou quieto, para se certificar de que deveria fazer isso. Os cinco corpos ensaguentados, com suas fendas ópticas rasgadas nos músculos expostos do rosto, pareciam tentar animá-lo. Sentiu, então, quando alguém o empurrou avidamente para dentro, trancando a grade logo em seguida. Recolheu-se, em pânico, para o fundo do cubículo, e se voltou para ver um grande homem, que fechava o portão da cela, e foi embora sem trocar qualquer palavra com eles.

Quando voltou os olhos para os companheiros de cela, não havia nenhum deles. Por outro lado, deparou-se com um homem mais velho, caquético, que também mantinha o olhar sobre si. Com um sorriso que beirava a realidade, ele lhe perguntou:

“O que você fez pra estar aqui?”

“Eu não fiz nada” foi sua resposta, embora nem ele mesmo soubesse ao certo.

“Ninguém fez nada, mas todos fizemos muito” respondeu o velho emagrecido. “Quer saber minha história? Eu era um ginecologista importante em Santa Catarina. Mas decidi me divertir um pouco com minhas pacientes. Comecei a cortar o clitóris de todas as que eu operava, e fiz uma coleção deles. Tenho uma parede cheia de clitóris, dos mais diversos tipos e tamanhos!” riu, ao lembrar. “E você, o que fez?”

Não sabia, de fato. Por um instante, pensou em cada coisa que vira, até chegar ali. O que mais o impressionava eram os olhares. Todos o observavam com olhos piedosos, como se implorassem seu perdão em silêncio. Pensou na menina e sua boneca. Já vira aquilo antes. Não conseguia lembrar quando, mas sabia que vira.

Quando se virou para o ex-médico, não estava mais na cela fria. Era agora uma floresta. Ouvia passos rápidos, esmagando folhas e galhos secos. Viu-se cercado por vários homens vestindo fardas verdes, mas logo eles seguiram adiante. Não eram inimigos. Deu-se conta que também se vestia assim e, pior, trazia nas mãos um fuzil.

Viu-se tirar da cintura uma granada e arremessar com força para longe. Antes de ouvir a explosão, começou a correr para acompanhar os outros militares, e a floresta subitamente se converteu em um longo corredor escuro. Ao seu lado, notou um homem com uma lanterna na mão, iluminando o caminho, e empunhando uma arma apontada às suas costas. Ele falava alguma coisa que, só aos poucos, tornou-se claro:

“... Tenha certeza, depois que se entra, ninguém sai dessa prisão. Nunca. A única forma de escapar daqui é dentro de um caixão. Morto. Haverá muitos outros como você lá embaixo, alguns talvez até mais violentos. Mas duvido que muitos tenham cometido atrocidades como as que você fez” Parou, antes de dizer: “Agora, me dê seus cigarros, porque eles são proibidos”

“O isqueiro também?” ouviu-se falando.

“Pode ficar. O máximo que você fará com ele é tocar fogo no próprio corpo, o que para nós seria um alívio” riu o homem, abrindo então uma porta de pedra circular com uma janela de vidro.

Quando foi entrar no elevador, o homem se viu outra vez dentro da cela, sob o olhar curioso do ex-médico, que murmurou, com uma boca sem dentes:

“Pode me dizer. Conte sua história”

Ouviu um rosnar. Olhou para o lado e, parado por trás da grade da cela, estava um cachorro branco, com os dentes à mostra, encarando-o. Uma das patas do cão havia sido arrancada e, perto de uma orelha, havia um óbvio furo de projétil de arma de fogo.

“Por que tem medo de falar? Não fará diferença. Você não vai ficar pior do que já está”

Observando o cachorro, pensou como o médico estava absurdamente enganado.

***

Autor: Elton Menezes Severo

 
Contásticos © Copyright 2012 - Template Made by Milly Pellegrini