06 julho 2010

História de Monstro


Me lembro muito bem do dia que conheci o escroto, o filho de uma égua do José de Arimatéia. Tava eu esperando a chuva da tarde passar, traçando um x-caboquinho aloprado no lanche do Pinguço; tão caprichado de tucumã que chega saía pros lados, quando o disgramado deu as caras. Fez cara de quem tivesse pegado um abuso do lugar e falou:

– Tem hambúrguer, misto-quente ou qualquer porcaria que não leve tucumã?

Reparei que ele puxava nos esses, falou mixxxxto. Muito chinfra este carioca querer tirar de bonzão por estas bandas, pensei. O tarado tava vestido feito caçador de filme: de bota por cima das calças, facão na cintura, todo vermelho e suado, tipo gringo desacostumado com o calor da floresta. Pinguço nem piscou, falou que só tinha x-caboquinho e rala-rala e que no máximo dava pra fazer um queijo-quente tirando a fruta.

José concordou, Pinguço botou o pão na chapa e o sujeito veio puxar papo comigo.

– Tô procurando um mateiro, algum sujeito que conheça bem a região. Tô querendo sair pra caçar lá pelas bandas da reserva dos Parintintins. Você não conhece nenhum não?

– Vixe Maria! – falei espantado – Márrapá, tem tanta caça por aqui, por que o senhor vai se meter nesta lonjura? Inda mais que é proibido caçar praquelas bandas.

– Olha, o que eu quero caçar só tem por lá. Eu pago bem, vou alugar uma voadeira pra descer pelo rio Madeira, não fica tão longe indo assim.

Quando escutei que ele pagava bem, do jeito que eu andava a perigo, sem babita no bolso fazia tempo, nem pensei duas vezes:

– Mano, nem índio da região conhece aquela mata que nem eu. Fui caçador, seringueiro e garimpeiro por lá. Consigo me virar no mato: faço barraca com folha de paxiúba, capaz de guentar qualquer pau d’água; caço e, sem pavolice nenhuma, mando muito bem cozinhando também. Não adianta nem cascaviar por aí: contrata eu que o senhor não vai se arrepender.

O caboco me olhou cabreiro, teve ter desconfiado da minha cara chupada, ficou no chove-não-molha por um minuto e falou:
– Quinhentos reais por quatro dias. Eu compro toda a comida e forneço o material. Feito? – e esticou o braço oferecendo a mão pra eu apertar.

Eu não ganhava quinhentos nem num mês inteiro, mas chorei um pouco porque não comi coquinho nem nada.

– Fecha por setecentos, meu grande? – e sorri o sorriso mais descarado que eu tinha na minha coleção.

– OK, feito! Qual é teu nome? – disse ele, amarrando a cara.
– Michael Rikson. –falei - Mas o pessoal todo me chama de Mike.

O caboco riu e apertou minha mão, achei que eu tava cagado de tão sortudo, mal sabia o que viria a acontecer depois.

***
No dia seguinte, encontrei o Arimatéia na margem do rio. Travoso que ele só, não me deu muita trela de início, mas eu, que nasci no bodozal, bem sei me virar com qualquer bicudo. E vou te contar uma coisa; aquilo que era voadeira! Nada destas porcarias requenguelas que tem por aí. Era uma puta voadeira, toda equipada de todas as modernidades.

A gente foi descendo o rio, a manhã ainda tava fresca e eu ia explicando tudo pro caboco.

Tá vendo lá no pé de buriti? Aquilo é caba. É pior que abelha ou marimbondo, uma picada e o sujeito fica entrevado um dia inteiro com febre. Ah, cuidado, esta parte aí do rio é cheia de candiru. Não conhece? Pô, o povo tem mais medo do que de piranha. Não pode mijar na água que o lazarento sobe pela pimba e...Ali, junto daquele igarapé, aquilo é cauxi, dá uma coceira infeliz, deixa o caboco todo empolado.
E o tempo todo fui falando e o Arimatéia só escutando sem dar pissica. Depois de umas oito horas, chegamos à reserva dos Parintintins.

Batemos perna por umas duas horas e o tempo começou a fechar. Chegamos numa clareira onde deve ter existido alguma taba antiga e montamos as barracas.

A chuva desceu de com borra, batendo forte nas lonas. Zé Arimatéia acendeu um lampião e começou finalmente a conversar comigo.

– É o seguinte, Mike; eu preciso te contar uma coisa.
– Pode falar, meu grande.
– Primeiro, dá um tempo nestas gírias porque não entendo esta porra de dialeto. Não sou mano, não sou grande, entendido? A gente veio caçar aqui, nesta exata região, porque houve um avistamento aqui. Coisa confiável, penso eu.
– Avistamento? Do que o senhor ta falando? – respondi, melindrado.
– Um Mapinguari.
Minha cabeça deu dez voltas em um segundo. Mapinguari?! Isto é história pra boi dormir, é lenda dos índios. Daqui a pouco vai querer caçar um Boitatá ou Curupira. Será que o homem não bate bem da cachola?

– Isto não existe, seu Arimatéia. É lenda deste povo burro e sem cultura.

O caboco não falou nada. Tirou um computador da mochila, ligou e me entregou na mão.

– Olha estas fotos, Mike. E me diz o que que é.

Eu olhei pra tela e não acreditei. Tinham umas fotos de um bicho peludo, enorme, de pelo vermelho. Parecia um bicho-preguiça maceta, porrudo feito uma árvore.

– Isto é alguma peça que pregaram no senhor. Não vê que este bicho não existe?

Zé Arimatéia tirou o computador da minha mão, futricou, fuçou e me mostrou outras fotos.

– Sabe o que é isto? – disse ele me mostrando a foto de um lagarto desconforme, do tamanho de um homem. – É um Dinonicossauro. Cacei na divisa do Acre com a Bolívia. Eu caço e coleciono o que dizem que não existe. Nós vamos caçar um Mapinguari. Ponto.

– E como vamos achar um bicho difícil destes neste mundo de floresta?
– Quem tirou a foto pra mim, acertou o bicho com um RFID.
– Erreefeaidi?
– Isso. Eu posso monitorar onde o bicho está por este aparelho de rádio.
– Eu não entendo uma coisa. Se alguém marcou o bicho pro senhor, por que o caboco não matou o Mapinguari?
– Você ta louco, Mike? Eu, somente eu, posso ter o privilégio de caçar estes monstros. Ninguém mais. E eu não vim aqui pra matar uma raridade destas. Vim pra levar comigo.

O ronco do trovão engrossou, ficou um breu do lado de fora, Arimatéia deu o papo por encerrado e eu fui tratar da janta.

***
Ficamos dois dias enfiados na mata, seguindo o aparelho do Arimatéia. Na manhã do terceiro dia, sacudi o caboco da rede.

– Acorda, mano. Quer dizer, acorda. Sente só que piché esquisito! Escutei uns barulhos estranhos lá fora também.

Uma inhaca de bicho morto, acho que até pior, parecia gambá com mijo de gato e carniça, vinha de algum lugar entre as árvores, tipo uns cem metros donde acampamos.

Zé saiu com o aparelho na mão e correu de volta para a barraca.

Saiu de lá com o maior trabuco que eu já vi. Botou umas balas no bicho que pareciam bananas de tão grandes.

– Ué, mas o senhor não falou que não ia matar? – perguntei.
– Precisamente. – respondeu o anhangá, tremendo feito vara verde.

A catinga ficou mais forte, chega queimava às ventas e ardia os olhos. Escutamos um grito alto, parecia uma visagem do outro mundo. Uma árvore pequena foi quebrada e o Mapinguari apareceu.

Se eu dissesse que ele era feito uma preguiça macetona, com quase uns três metros, andando puta nas patas de trás, não te daria idéia do que apareceu.

Peguei minha espingarda e o Zé me fez abaixar.

– Só eu que atiro aqui, entendeu? – falou baixinho – Você só atira se eu mandar.

O bicho farejou a gente, se abaixou e veio correndo de quatro, rapidola feito uma suçuarana.

Zé deu três tiros seguidos e o monstro, que faz os indiozinhos se mijarem de medo, desabou feito uma árvore podre.

Eu já dar os parabéns pro Zé, quando escutamos um grito fininho, feito um choro de criança. Um choro destes bem sentidos, cheio de soluço.

Do meio da mata, dois outros Mapinguaris apareceram. Deviam ter pouco mais de um metro de altura. Chegaram junto do corpo do maior e ficaram se esfregando, gritando de dar dó.

– Feito eu te falei, vou levar vivo o bicho que marcaram pra mim. – falou o Zé, baixinho.

Pegou outra arma e disparou um dardo. Um dos bichinhos berrou e saiu andando em círculos e depois deitou. Zé chegou junto do corpo do monstro maior, deu um tiro no filhote que sobrou e botamos o monstrinho adormecido dentro de uma gaiola.

Eu já cacei muito bicho, já comi muito ovo de tartaruga e até filhote de anta. Já fiz muita maldade de que me arrependo, mas aquilo foi uma tremenda safadeza. Não entendi pra que tanta ruindade, queria ir embora logo dali, receber meu dinheiro e esquecer de tudo.

Levantamos acampamento e fomos numa pernada só, sem conversar até chegar na voadeira.

***

Fizemos o caminho de volta pelo rio e o monstrinho acordou. Começou a gemer de novo e a feder de medo. Arimatéia logo pegou um abuso do bicho e gritou comigo:

– Dá um jeito pra esta coisa parar de gritar, senão vou ter que dopar ele de novo.

Arrumei um bocado de fruta, que eu havia colhido na mata, e fui oferecer pro bichinho. Comeu todo o araçá-boi e os bacuris. Quando inventou de chorar de novo, fui passando a mão de leve na cabeça, até que o coitado dormiu.

Chegamos à noite em Eirunepé, cobrimos a gaiola e o Zé me pagou.
– Vou levar o bicho pra Manaus. Tenho uma casa por lá. Topa ir junto e me ajudar? Afinal, o bicho só fica quieto contigo.
– Melhor não, seu Zé. Eu to bodado pra porra.
– Eu vou de avião. Vou alugar um jatinho. Já voou alguma vez? E fora, é claro, te pago por mais dois dias.

Eu sabia que não devia aceitar, que o disgramado já tinha mostrado que não valia nada, mas eu que sempre andei na pindaíba, sou um fraco quando falam de dinheiro.

Saímos nós no jatinho, naquela noite mesma, sacolejando que nem caminhão velho. Zé se atracou com uma garrafa de uísque, mas eu não quis beber.

***

Pousamos umas horas depois num aeroporto pequeno. Saímos de lá até Adrianópolis, o bairro mais chique de Manaus.

Já era de madrugada quando chegamos numa mansão.

– Bonita a casa, não? Comprei por uma bagatela, é do tempo dos Barões da Borracha. – disse o Zé, todo apavonado.

Um monte de empregados apareceu e eles ajudaram a carregar a jaula do monstrinho. Já havia pensado que podia capar o gato, quando o Zé, meio chapado de uísque, foi me mostrar sua coleção.

Me levou para uma outra casa, atrás da casa maior. Abriu a porta e ligou as luzes. O ar-condicionado tava tinindo de tão frio que estava lá dentro.

A primeira coisa que reparei foi uma coleção de bichos empalhados. Tinha uma família de cachorros listrados.

– Tilacino. O lobo-da-tasmânia. – contou o Zé - Achavam que estava extinto, mas encontraram para mim este casal com dois filhotes faz uns dez anos. É minha aquisição mais cara, tive que subornar muita gente para conseguir trazer até aqui. Ta vendo os pássaros ali na frente? Grebes colombianas, extintas desde 1977, na verdade 1999, quando eu cacei estas belezinhas.

– Eu não entendo, seu Zé. Por que o gosto de acabar com estes bichos?

Ele me explicou, não sei se com estas palavras, eu já havia bebido e minha cachola não é grande coisa. Acho que ele disse:

– Eu simplifico o mundo, Mike. Eu apresso o que vai acontecer no final das contas. É a missão que eu escolhi, deixar o mundo livre de tudo que é acessório. Me diga, para que bichos que não comemos, plantas que não nos servem de nada? Pra que cobra, tuiuiú? Por que não derrubar logo a merda das florestas todas? Planta tudo com trigo, soja e milho. Enche os campos com bois, asfalta o resto, põe shopping e estacionamento. É o meu capricho, usar o meu dinheiro e encontrar os quase extintos e extingui-los de vez, apressar o que o Homem vai fazer de qualquer forma, entendeu? Por isso matei o outro filhote de Mapinguari: trouxe este pra estudar, depois mato e empalho também. Não há porque preservar os perdedores da natureza.

***

Saí da casa do José, aluado, com o coração na mão. Não disse uma palavra no vôo de volta, acho que fiquei em casa trancado por uns dois dias.

Em algum lugar nestas florestas, tem algo mágico, algo especial, de outra época, do tempo que tudo era novo, quando a natureza brincava de experimentar. E o José quer acabar com isto tudo. Porque gosta, porque pode e porque quer.

Ajudei o descarado a caçar um monstro, voltei, e não sei se o monstro não seria outro.

Autor: Rubem Cabral

 
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