29 agosto 2010

A filha de Oxum e o orixá guerreiro



Humanos. Ao longo dos séculos não mudaram muito. Quase nada, vá lá. Sempre os achei frágeis, contendo todos os defeitos possíveis, talvez por isso eu os ame tanto. Como mãe que sou, eu, Iemanjá, digo com toda a certeza que meu amor é imenso, infinito, e sei amar cada filho imperfeito meu a meu modo, da forma como sinto que deve ser amado, seja ele ou ela mortal, ou orixá.
Nós, orixás, também não somos um espelho da perfeição. Vários de nós já tiveram seus dias no Aiye, ou na Terra, para melhor entenderem. Sim, alguns já foram humanos. Desses dias passados, há resquícios de vícios e paixões, vinganças e amores. Dizem que tudo, com o tempo, vai-se embora em algum momento. Só que Iroko, o Tempo, é impotente quando se trata do amor... Quando o amor é verdadeiro, esse para sempre nos acompanha.
Isso aconteceu com Ogum, o senhor das guerras, aquele que combate sem medo e a tudo vence. Este meu filho mais temido teve seu escudo quebrado pelo amor. Um amor impossível, mas belo; estranho, mas verdadeiro. Na época, veementemente fui contra, apesar de não impedi-lo de seguir pelo caminho que escolheu. Ogum foi livre para decidir o que fazer desse amor e o fez, tanto quanto lhe foi possível, porém não sem pagar um preço muito alto.  Hoje, tantas e tantas luas depois, contarei esse episódio, visto ter sido belo, apesar de trágico. Graças a Iroko, tão poderoso, a lembrança ficou apenas dentro do peito de Ogum, e de lá provavelmente não mais sairá. Se puderes perder um “cadinho” de tempo, filho ou filha minha, saberás de toda a história...
Certa vez, muito tempo atrás, Ogum perdeu a vontade de trabalhar com seus metais, não quis mais forjar suas armas. Isso fez com que os homens não conseguissem mais usar o metal e o fogo para guerrear. O fio da navalha não cortava mais. As bombas não explodiam. E nos sacrifícios, como usar as facas? Havia alguma coisa errada e os humanos não sabiam o motivo daquilo. Enquanto o mistério não era desvendado, o jeito encontrado pelos homens foi usar paus e pedras para combaterem na guerra.
 
Ogum
Quem era filho de terreiro, quem vivia nos ilês, já tinha descoberto o motivo daquilo: era Ogum, que tinha desaparecido de repente. Mesmo não se podendo fazer oferendas em virtude do que acontecia, chegou até a mim um clamor para que intercedesse pelos humanos. Os mortais pediam que eu fizesse com que meu amado filho guerreiro os perdoasse de alguma coisa que eles não sabiam o que era, mas que fariam o que Ogum desejasse para que tudo voltasse ao normal.
Depois de vários dias encontrei-o sentado à beira-mar, contemplando a imensidão de meu reino. Foi com meus passos lentos e ondulantes como as ondas daquela tranquila tarde que caminhei até onde ele estava.
— Que houve, meu filho? Qual é o motivo de tanta inquietação, a ponto de tirar as armas de metal e de fogo dos homens?
Antes de se explicar, Ogum aninhou-se na barra de meu longo vestido feito de incontáveis gotas do oceano. Enquanto se explicava, pôs-se a fitar o céu, o olhar perdido em Orun.
— O motivo é um só, minha mãe, e me acompanha desde os tempos de Irê. Naquele tempo, apaixonei-me por Ejá, uma linda princesa de uma das sete aldeias que compunham Irê. Ela correspondeu ao meu amor, mas fomos separados pela ira de seu noivo, que a matou quando descobriu que eu a levaria embora comigo para fazer dela a minha mulher. E agora eu a encontrei. Meu amor vive novamente, uma linda mortal, mais linda do que qualquer outro ser a quem eu tenha visto com meus olhos, uma bela filha de Oxum. E está noiva de um filho seu, minha mãe.
— Ogum, meu filho! - afaguei-lhe as mãos ásperas, em alguns pontos chamuscadas pelo fogo com o qual tanto lidava. — Pode ser que tu tenhas encontrado Ejá, mas agora essa mortal não é mais aquela a quem amaste. Se ela está de volta ao Aiye, tanto tempo depois, é porque tem um destino a cumprir. E tu também tens, precisa voltar ao teu trabalho, os homens estão apreensivos com teu sumiço...
— Perdão, mãe querida. Se me queres bem como uma mãe quer sempre bem a um filho, há de entender essa fraqueza que sinto agora e não posso acalmar. Sinto que é mais forte do que eu, do que o próprio fôlego que me foi dado por Olorum. É amor o que sinto e o que me atormenta, querida mãe. O amor por uma mortal, a mais linda que já vi em todo o Aiye, em toda a Terra e que Iroko não conseguiu tirar de dentro de mim, estava apenas adormecido esse tempo todo!
Estremeci, a ponto de fazer sete ondas quebrarem com toda a força contra as rochas próximas a nós.
 
Oxum
— Ogum, como podes deixar isso acontecer? Tu, que já viveste tantos embates, tantas guerras, sempre vitorioso, como podes estar perdido por uma simples mortal? E como podes dizer que essa mortal é a mais linda criatura que já viste? Que Oxum ou Iansã não nos ouçam, a segunda muito mais que a primeira! — argumentei, não deixando de sentir uma pontinha de ciúmes, já que via que ele classificava aquela mortal até mesmo mais bela que sua própria mãe.
 — Talvez seja este o único combate em que fui vencido, minha mãe. Perdoe a fraqueza desse filho, perdoe!
— E como foi que isso aconteceu?
Há muito tempo eu deixara de entender as impetuosidades de meus filhos. Por mais que fizesse, eles sempre agiam conforme seus desejos. Restava a mim, como mãe, apenas os pacientes atos de escutar e zelar, rogando sempre a Oxalá a sabedoria para agir da melhor forma quando um deles suplicasse por meu auxílio. Só que eles estavam passando dos limites! Agora era Ogum, e se depois Oxóssi e Exu também resolvessem aventurar-se por amor entre os mortais? A demanda estaria feita, seria inevitável!
— Outra noite, estava eu em um ilê de filhos teus e de Oxum, ocupando meu assentamento, quando vi passar pelos portões da casa aquela a quem meu coração pertence. Nesse instante, não percebi mais nada, apenas Ejá. Apesar de agora ela ter cabelos dourados e pele muito branca, destacando-se entre as pessoas de pele morena em seu porte físico, única não somente por isso, e sim mais por causa de um brilho que emanava de si, iluminando tudo ao redor, pude reconhecê-la! Tinha o mesmo porte de princesa dos tempos de Irê...
Enquanto ouvia o relato de meu filho, não tive dúvidas: ele, o deus da guerra, estava perdido de amores. Por um momento, eu mesma cheguei a sentir a força do sentimento daquele a quem sempre denominavam cruel e impiedoso, mas que sabia ser apaixonado, tão vibrante quanto tinha sido em sua vida terrena, quando ele próprio fora um mortal.
— Sinto pelas tuas palavras que não adiantará usar as minhas para convencer-te. Uso-as então para rogar a ti que não prejudiques mais meus filhos terrenos, eles precisam do metal não somente para combater, mas também para a colheita, para os transportes... Volta a teu trabalho e eu irei ter com Iroko e pedir que ele faça com que os humanos esqueçam esse episódio com o tempo. Se possível, pedirei a ele também que tente obter êxito com relação a ti, já que eu, tua própria mãe, não consegui!
Ogum se levantou, como se estivesse carregando em seus ombros todo o peso do mundo. Abraçou-me, com um sorriso triste nos lábios.
— Ao menos posso atender um pedido teu, minha mãe. Estou indo para o meu trabalho. Agora, quanto a Ejá, digo que não me separarei dela. Não impedirei seu casamento com teu filho, mas não mais a deixarei. E quando ela partir do Aiye, não será Omulu quem a receberá, mas sim eu, para levá-la comigo, pois quando ela estiver no Orun, certamente se recordará de mim e retribuirá meu amor com toda a certeza.
Deixei que ele se fosse, caminhando sem olhar para trás. Eu ainda estava pensando em tudo o que Ogum dissera quando, de repente, senti que das águas do mar saíam estranhas fagulhas. Era Iansã, eu tinha certeza, ela provavelmente tinha escutado nossa conversa, ou parte dela. Agora, pelo visto, não conseguia mais se conter.
— Epa-hei, Oyá! Apareça, sei que és tu! - ordenei.
Quando a rainha dos ventos e das tempestades se materializou diante de mim, estava tremendo de raiva. Mesmo com a respiração alterada, ela tentava manter o controle, mas sem muito sucesso.
— Odo-iá, Iemanjá! Já que não adianta esconder nada de ti, digo só uma coisa: Ogum vai pagar por essa afronta!
— O que dizes? Por que achas que Ogum está a te afrontar? Por acaso, apesar de tudo o que aconteceu e do seu amor declarado por Xangô, ainda sentes alguma coisa por meu filho?
Iansã gargalhou, fazendo com que raios caíssem perto de nós, causando o ribombar de trovões. Os vapores que subiam do oceano se transformaram em ventania impiedosa, extinguindo a calmaria no reino de meu pai Olokun.
— As contas a serem acertadas entre mim e Ogum são grandes, muito grandes! Não admito que ele diga que uma simples mortal é o mais belo ser que ele já viu! Como ele ousa dizer isso, depois de ter vivido comigo? Essa é a maior afronta que já recebi! Quero, exijo respeito dele! Exijo! - gritou Iansã, descontrolada, desaparecendo em meio aos raios, deixando apenas o eco de sua indignação no ar.
Ao menos no oceano, a calmaria ressurgiu.
Tentei agir, interferindo no que tinha permissão. Fui ao ilê e mostrei nos búzios que um perigo muito grande se aproximava daquela casa. Aquele meu filho mortal, de nome Gilberto, noivo da bela moça, teria que ter muita coragem para tentar evitar o que poderia acontecer aos dois.
Por causa de meu aviso, o casamento acabou sendo adiado, mais por insistência do noivo, pois Ejá, que em sua vida atual se chamava Clara, não partilhava da mesma crença que ele, a moça estava até pensando que aquilo tudo era uma desculpa para não haver casamento nenhum.
E durante muitas luas tudo pareceu ter voltado ao normal: Ogum trabalhava e guerreava, Iansã comandava os ventos e lidava com os eguns, os homens viviam suas vidas, esquecidos do estranho incidente graças a Iroko. Tudo como sempre. O tempo passou e o novo dia escolhido como data do casamento de Clara e Gilberto finalmente chegou. De tão impaciente que estava a noiva, que dizia que era tudo desculpa do rapaz aquela história de “aviso dos orixás para tomar cuidado”, Gilberto cedeu e confirmou a nova data.
Um sábado, dia consagrado a mim e a Oxum, foi o dia escolhido para a união de nossos filhos. Uma cerimônia na praia tinha sido preparada com todo o cuidado. Muitas flores, muita música, muita alegria. Então por que eu sentia como se algo não estivesse bem? Meu coração não se acalmava e eu não conseguia encontrar Iansã em lugar algum. Infelizmente, só a encontrei na hora da cerimônia.

Os convidados estavam todos na praia, reunidos em volta dos dois jovens. Em meio às ondas, eu observava. Não conseguia ver meu Ogum em nenhum lugar, o que teria acontecido? Teria ele desistido de ficar perto de Clara para protegê-la? Talvez não quisesse assistir ao casamento dos dois...
Iansã
Meu pensamento foi interrompido por um clarão vindo de Orun. Foi do céu também que vi surgir Iansã, movimentando-se para formar os ventos mais fortes que pudesse. As pessoas, na areia, tentavam se proteger, escondendo o rosto e correndo para algum lugar coberto, ou para fora da praia. Os raios começaram a cair.
Consegui proteger Gilberto a tempo, desviando um raio fulminante que fatalmente o atingiria. Fiz com que ele adormecesse e criei uma barreira para que nada o machucasse. Não tive tempo de salvar Clara, infelizmente.
Assisti, desesperada, ao seu corpo sendo arrastado no ar, como uma boneca de pano. Vi também quando Iansã aproximou-se dela, mantendo Clara suspensa, gargalhando antes de desaparecer em meio às nuvens escuras de onde não cairia uma gota de chuva. A ventania cessou e Clara foi ao chão, em um impacto repentino com a areia. Já estava morta.
No ar, a risada de Iansã ecoava em meio ao barulho dos trovões, enquanto na areia as pessoas ainda estavam confusas, não entendendo a ira repentina da rainha dos ventos. Do que estaria ela se vingando?
Quando Gilberto acordou, caiu em prantos sobre o corpo de Clara, a única que perdera a vida. Afaguei sua cabeça, tentando acalmá-lo o quanto pudesse, pois da forma como estava era bem capaz que cometesse uma insanidade.
Nessa hora Ogum surgiu, desesperado. Ao deparar-se com a cena, vociferou:
— Aquela desprezível! Eu a amaldiçoarei por todos os dias enquanto fizer parte do Reino de Olorum!
Dirigindo-se a mim, explicou:
— Ela me jogou dentro de uma tempestade de ventos, mãe, para que eu não tivesse como impedi-la de fazer o que fez!
— Mesmo se tu viesses, ela o faria da mesma maneira, Ogum! Oyá estava com o coração cheio de raiva! Não foi capaz de esquecer o que disseste naquele dia, tempos atrás...
— Ejá! Eu cuidarei dela agora...
— Ogum, ela deve seguir com Omulu, sabes bem. — lembrei-o. — E Iansã é quem a conduzirá...
— Nunca! Não deixarei que Iansã a machuque mais do que já machucou! Omulu não irá me contrariar!
Nem bem disse aquilo, vimos o espírito de Clara começando sua caminhada para encontrar Omulu. Ogum colocou-se em frente a ela, impedindo seu caminhar:
— Ejá, venha, tu irás comigo agora...
Clara não entendeu as palavras de Ogum, atordoada ainda que estava de tudo o que tinha acontecido. Não sabia nem mesmo que não pertencia mais ao Aiye, olhava para os lados, buscando desesperadamente por Gilberto.
— Ejá? Não entendo... Meu nome é Clara... Onde está Gilberto?
— Venha, Ejá, cuidarei eu mesmo de ti. Não me reconheces? Sou eu, Ogum!
Quando Clara pareceu compreender as palavras de Ogum, arregalou os olhos, amedrontada, soltando um grito.
— Ogum? Se é Ogum mesmo, por que eu o estaria vendo? Onde está meu noivo? Quero saber onde ele está!
Clara não conseguia me ver, nem ver a Omulu, que se aproximava de nós, com passadas vagarosas. Sem nada dizer, ele parecia esperar que uma decisão fosse tomada. Tentei mais uma vez interceder.
— Filho, não vês que isso tudo não daria certo? Vocês dois, tu e Clara, ou Ejá, ambos não teriam paz nenhum dia em que estivessem juntos! Achas que Iansã se deu por vingada apenas com o que fez hoje? Se achas que sim, não conheces verdadeiramente tua ex-esposa! Como pensas que seriam os dias de Clara ao teu lado? E os teus dias, ao lado dela? Deixe-a seguir o caminho dela, por Oxalá!
Ogum balançava a cabeça, não querendo aceitar o cenário sombrio do futuro que eu jogava diante dos olhos dele.
— Ogum, ouve tua mãe que lhe pede, ficarei até de joelhos diante de ti, se isso for preciso para que aceites as minhas palavras em teu coração! Iansã interrompeu o destino de Clara. Será preciso que ela volte ao Aiye daqui a um tempo para terminar o que é necessário ao lado de Gilberto. Deixa-a acompanhar Omulu agora. Se Ejá está destinada a ser tua companheira um dia, aguarde a chegada desse dia. Não causes mais tristeza ao coração dela, que agora ama a Gilberto de verdade e precisará ficar por um tempo longe dele. — Continuei tentando fazer com que meu filho desistisse daqueles pensamentos insensatos.
Ogum abaixou a cabeça e chorou, convulsivamente. Omulu demonstrou que era hora de partir levando Clara, já se esgotara completamente o tempo dela naquele mundo. Reverenciou a mim e a Ogum, começando sua caminhada.
— Espere, filho de Nanã! - pediu meu filho. — Atende ao meu pedido: deixe-me acompanhá-los até os portões de teu reino... E impeça que Iansã esteja lá...

 
O tempo que Omulu refletiu sobre o pedido de Ogum pareceu eterno. Por fim, ele assentiu, pois se devia eterna gratidão a Oyá, também devia manter-se leal a meu filho. Não lhe negaria aquilo. E que honra seria para Ejá ter Ogum ao seu lado, cuidando seus passos, protegendo-a em seu caminho. Assim foi então, Omulu guiou-os por um caminho diferente, conhecido apenas por ele, para que não encontrassem com Oyá.
Quando retornou, Ogum procurou por mim. Ele voltava para os meus braços, ansiando por consolação, por conforto. Um conforto que somente uma mãe poderia dar a um filho.
E isso se repetiu muitas e muitas vezes. Acontecia toda vez que Ogum escapava e fazia uma visita a sua Ejá. Ela nunca soube que ele, de longe, a observava. Ogum jamais deixou que Oyá se aproximasse dela, embora a deusa tenha tentado, muitas vezes, até que a própria rainha das tempestades esqueceu-se daquela mortal, que um dia ousou ter sido colocada acima de todos os seres pelo coração apaixonado de um orixá. Afinal, havia outras coisas com as quais se preocupar, como manter-se como a preferida de Xangô entre as suas esposas. Por fim, Clara voltou ao Aiye, tempo depois, para finalmente trilhar seu caminho completo ao lado daquele que um dia conhecera por Gilberto. Nasceu em uma linda manhã de terça-feira, justamente em um 23 de abril, dia consagrado ao meu filho mais guerreiro. Agora, ela era mais uma filha de Ogum na Terra.


Autora: Bia Machado 
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14 agosto 2010

Por um pouco de fé

As razões do destino são misteriosas ou, ainda, caprichosas. Todos os dias você conduz seu carro pela estrada reta: deixando o passado para trás, envolto em uma nuvem azulada de monóxido de carbono e poeira, enquanto à frente, o futuro se desdobra sob seus pneus velozes.

Um buraco na estrada e você para e pode conhecer alguém: seu novo amor, um melhor amigo, sua morte, sua salvação. Uma parada num bar, para comprar um maço de cigarros ou tomar um café, pode livrar você de bater numa carreta que vai virar sobre um Fusca, ou pode justamente colocar seu Corsa sob as toneladas de metal fumegante.

Você vive a ilusão da retidão da estrada, sobre ir de A a B, sem coinsciência de que, a cada escolha ou ato seu, a estrada se bifurca, e um novo futuro se arquiteta, talvez aleatoriamente, talvez planejado, quiçá muito antes do tempo sequer existir.

Assim dirigia Jonas Magalhães, o “Magrão”: no trajeto usual de casa até o trabalho. Jornalista responsável pelas matérias de cultura do respeitável O Atual, seguia de A a B, como sempre fazia todos os dias. Homem de aparência jovial, ainda nos seus vinte e tantos anos, era alto e esguio, tinha pele pálida e olhos e cabelos escuros.
Naquela manhã, quente e abafada, ele deixou a Linha Amarela e tomou o acesso da Avenida Brasil, de onde seguiria até Cidade Nova. Parou impaciente num semáforo e observou vários meninos começarem a fazer acrobacias, subindo uns nos ombros dos outros. Um menino, em especial, lhe chamou a atenção: apesar de ser deficiente físico, dava incríveis saltos mortais e depois passava o boné para recolher moedas. Dar esmolas não era algo que Jonas costumava fazer, mas resolveu abrir o vidro e depositou uma moeda brilhante de um Real no chapéu encardido do garoto, que lhe sorriu um sorriso cheio de dentes brancos, em grande contraste à face de ébano, que brilhava, porejada de suor.

– Valeu, chefia!

Jonas seguiu até a Rua do Riachuelo, parou o carro na garagem irregular, que funcionava num terreno perto do prédio onde trabalhava e foi tomar um café, antes de subir.

Comia o costumeiro queijo-quente, empurrado goela abaixo com um copo duplo de café pingado, quando um cheiro nauseabundo assaltou seus sentidos. Virou-se, assustado, e um mendigo, miserável como somente alguns tipos conseguem ser: cabelos longos, brancos e arrepiados, boca sem dentes, murcha, no meio da face chupada e encarquilhada feito um maracujá seco, olhos de quem já havia visto de tudo e mãos- Deus!- mãos que terminavam em dedos imundos, rachados e vermelhos, talvez mordidos por ratos, encimados por unhas marrons e grossas, como cascos.

– Dá o fora, pudim de cachaça! – gritou o balconista.

O velho se encolheu e já ia se retirar, quando Jonas, num ato que até para si causou-lhe surpresa, chamou o idoso.

– Moço, o senhor tá com fome? Chega mais, eu te pago um lanche.

O velho o olhou de volta e o jornalista comoveu-se com sua expressão de alegria. Comprou um hambúrger e um suco e o ancião foi comer, sentado no meio-fio da rua.

Quando o jornalista alcançou a portaria do prédio do jornal, viu pelo canto no olho quando o homem acenou em agradecimento.

***
 Reunião sobre os cadernos especiais. Senhor Leandro Barreto, o redator-chefe, um baixinho invocado, distribuia as tarefas.

– Marisa: você prepara a matéria especial para o Dia dos Pais. Arruma uns famosos que foram pais, entrevista gente que adotou, famílias não convencionais, gays, divorciados, sei lá: dê um jeito.

– Magrão – e o redator tampinha riu consigo mesmo – você fará uma matéria especial sobre o Dia do Folclore.

Quase todos presentes na reunião disfarçaram o riso como puderam, outros nem sequer tiveram tal pudor. “Dia do Folclore” significava escrever sobre o que todo mundo conhecia de cor: de mil trabalhos infantis e dos livros de Monteiro Lobato. E dá-lhe Iara, Saci, Negrinho-do-pastoreio. Nem escola de samba usava ainda tal mote nos desfiles.

– Mas, seu Leandro, isto é como tirar leite de pedra. O dá pra escrever de novo sobre isso?

– Jonas, você é o jornalista mais novo da equipe, logo as “pedreiras” cabem a você. E não me venha com matéria batida, copiada e colada do site de algum folclorista. Quero algo novo, vibrante. Te vira!

O jovem afundou na cadeira e mordeu a tampa da caneta. “Algo novo e vibrante? Que tal meu cacete?”, pensou. E xingou em pensamento, palavrões que fariam corar um pornógrafo da Boca do Lixo.

***
Sentado à sua mesa, Jonas fuçava alguns sites já meio desesperado, relendo e re-relendo o que não era novidade para ninguém.

– Jonas, quero te apresentar nosso novo mensageiro: Upiratan. – disse Dona Dirce, a chefe do RH.

O jornalista saiu do estado de torpor e deparou-se com um rapaz numa cadeira de rodas. Embora muito jovem, Upiratan era hirsuto como um cão. O garoto de rosto raspado e azulado, estendeu-lhe a mão, que também tinha as costas pilosas e escancarou um sorriso de dentes esverdeados. “Política de inclusão social”, pensou Jonas por um segundo.

– Seja bem-vindo, Ubiratan. – disse, apertando-lhe a mão pequenina.

– É Upiratan, seu Jonas. Pode me chamar de “Pira”, todo mundo me chama assim.

– Legal então, Pira! – sorriu de volta, oferecendo o punho fechado para um cumprimento informal.

O rapaz estranhou o excesso de familiaridade, mas retribuiu o gesto, cheio de timidez.

***
Outra manhã quente, outra vez o menino negro fazendo malabarismos no sinal. Outro café da manhã de pé, no balcão do pé sujo da esquina, perto d’O Atual.

– Magrão, sabe o velho? O mendigo pudim de cachaça? – comentou o balconista, esfregando um pano ensebado no balcão, sujando mais do que limpava.

– Ué, claro! O velho que eu paguei o sanduba ontem. O que que houve? – perguntou Jonas.

– Pois é, dá até um aperto no coração. Eu vivia tratando o coitado pior que cachorro. Parece que ele dormia debaixo de uma marquise aqui perto e uns playboyzinhos botaram fogo nele.

– Meu Deus! – exclamou – E ele morreu?

– Pior que não, pelo que li no jornal, tá internado mas não morreu ainda. Às vezes é melhor morrer logo do que sobreviver assim – e balançou a cabeça, desconsolado.

No caminho para a portaria do jornal, Jonas viu a calçada empretecida; apenas uns caixotes que o ancião usava como armários ainda estavam por lá.

Na redação, Pira circulava de cabeça baixa, com a cadeira de rodas empilhada de envelopes. Aprendera também a operar a fotocopiadora e agora vivia indo e voltando com montes de papéis.

– Que foi, ô Pira? Morreu alguém? – perguntou o jornalista.

– Nada não, seu Jonas. É esta notícia do mendigo que queimaram. Por que as pessoas são assim? Ninguém tem mais respeito por nada? Que gente ruim! – exclamou, com a voz embargada.

– Fica frio, Pira. Pô, rapá, você tem que criar uma casca grossa pra viver na cidade. Tem muita gente ruim, mas tem gente que vale à pena também. Levanta a cabeça, garoto. Tu é muito novo pra ficar triste assim.

O menino engoliu o choro e continuou circulando entre as baias, num leva e trás infinito de cópias, faxes e envelopes.

***
 















Sete e meia da noite e o jornalista continuava sua busca infrutífera por novidades sobre o Dia do Folclore. Conseguira marcar uma entrevista com uma velhinha que acreditava que seu vizinho fosse um lobisomem e com um folclorista vetusto. Mas, até agora, seu especial sobre folclore estava tão novo e vibrante quanto um café requentado esquecido numa garrafa térmica.


O menino na cadeira de rodas ainda estava lá: organizando escaninhos, separando correspondências e revistas. Lá fora o tempo fechou: um temporal de fazer medo encheu a rua. Jonas suspirou e continuou trabalhando, fazendo hora extra à força.


Onze e meia da noite, as águas escoaram e Jonas preparou-se para sair. Passou pela sala de fotocópias e viu o menino esquisito, dormindo na cadeira. Bateu na porta e o acordou.


– Pira, tu ainda tá aí? Como é que você vai voltar pra tua casa?


– Ahn, desculpa, seu Jonas. Eu peguei no sono. Não tem mais como eu voltar pra casa mesmo.


– Onde você mora?


– Copacabana. Eu racho uma quitinete com uns amigos por lá. Mas não se incomode não, se não for problema, eu durmo aqui mesmo.


– Cê tá doido, Pira? Vem comigo, eu te dou uma carona. Não, não: nem mais uma palavra!

***
 
Seguiram pelas ruas cheias de lixo arrastado pelas chuvas. Pararam em frente a um prédio decadente, um legítimo “balança-mais-não-cai”, ladeado por duas casas de “shows” para turistas.


– Obrigadão, seu Jonas!


– Me chama de Magrão, Pira. Para com esta história de “seu” Jonas.


O rapaz olhou Jonas, cheio de gratidão. Foi com surpresa que o jornalista escutou seu convite.


– O senhor... Ahn, Magrão, você ainda tá enrolado com aquela história do Dia do Folclore?


– Até você tá sabendo do assunto? – riu ele.


– Eu posso te ajudar. Posso te ajudar mesmo!


– Como? – perguntou, incrédulo.


– Sobe comigo, vou mostrar uma coisa pro senhor.


O jornalista pensou duas vezes, mas o garoto parecia “limpo”, não tinha jeito de bandido, veado ou traficante. Fechou o carro e o ajudou a se sentar na cadeira.


Subiram uns dez andares, num elevador de porta pantográfica, tão velho e oscilante que era surpreendente que ainda funcionasse.


O rapaz tirou a chave do bolso, olhou para os lados, no comprido e mal iluminado corredor e levantou-se da cadeira, para abrir a porta. Ignorou o olhar de espanto do jornalista e praticamente o puxou à força, para dentro do apartamento.

***
– Eu posso andar, Magrão. É que meus pés são diferentes e não gosto de chocar as pessoas.

Lá dentro, num cubículo de uns dez metros quadrados, colchonetes estavam encostados à parede e um rapaz negro cozinhava num fogão de duas bocas. Uma TV de quatorze polegadas transmitia o noticiário em meio aos chuviscos e oscilações da recepção de uma antena interna, com palha de aço nas pontas. Uma mesa de plástico branco e dois bancos do mesmo material completavam a decoração.

 
– Chegou tarde, Curupira. Pensei que hoje tu não ia conseguir. Tô fazendo um Miojo, pra variar. Até que rolou uma grana bacana hoje lá no sinal. – disse o rapaz negro, sem se virar.

Pira colocou as mãos ao redor dos cabelos e os puxou, revelando uma cabeleira esverdeada sob a peruca castanha. Tirou os sapatos e elevou os pés descalços, para que o jornalista pudesse ver: invertidos e peludos.

– O que é isso, Pira? – perguntou Jonas – Meu Deus, o que está acontecendo aqui?

Ao escutar a voz do estranho, o rapaz negro parou de preparar a comida imediatamente e pulou até a sala, lépido como um raio.

– Curupira, você enlouqueceu? O que te deu na cabeça pra trazer um humano aqui?

– Ele é diferente. – disse a criatura peluda – Ele é bom e pode nos ajudar.

Saci olhou Jonas de cima a baixo e reconheceu o homem gentil, que lhe dera uma moeda dias antes. Meteu uma mão no bolso do short e começou a pitar muito nervoso um cachimbo de sabugo de milho.

Jonas continuava incrédulo, olhando espantado e sem entender.


– Será que é preciso fazer um desenho, Magrão? Eu sou o Curupira e este aí, é o Saci. O mendigo que foi queimado perto do jornal é nosso amigo também: ele é o Homem do Saco. Chegou a ser colega aqui, no apartamento, mas nos deixou quando seu dinheiro apertou e o orgulhoso cabeça-dura foi viver nas ruas. Nós somos mitos, Jonas. Não podemos morrer e sofremos muito neste mundo estéril que vocês criaram.
O jornalista começou a gargalhar. Mas o riso sumiu, quando o Saci desapareceu num redemoinho, que levantou folhas de papel e poeira no carpete sujo do apartamento.

– Nós podemos ajudar você, Jonas. E precisamos da tua ajuda também.

***


No dia vinte e dois de Agosto, uma reportagem vibrante, cheia de detalhes inéditos sobre os principais mitos do folclore Brasileiro, foi às bancas. O texto do artigo falava sobre a questão da fé, de que os mitos precisavam da crença para que pudessem sobreviver. Jonas convidava os leitores a cantar antigas canções de roda sobre os velhos mitos, quase esquecidos. Explicava ainda como invocar antigos ritos, ensinados por seus novos amigos.

Em diversos recônditos sórdidos, perdidos e espalhados pelo Brasil, o Papa-figo, a Cuca, a Iara, O Boitatá e muitos outros, sentiram um novo ânimo de vida, um sopro revigorante de fé, que lhes trouxe força para vencer suas duras rotinas, disfarçados no mundo dos humanos.

No Hospital Souza Aguiar, um velho mendigo, com mais de setenta por cento do corpo queimado, amanheceu sem uma cicatriz sequer. Os médicos nunca souberam explicar o milagre ou tampouco o sumiço de duas crianças no berçário naquele mesmo dia.

E, numa certa quitinete barata, num prédio de péssima reputação em Copacabana, o diabrete enrolador de crinas de cavalos e o guardião dos animais das florestas, dormiram naquela noite um sono gentil e sonharam outra vez: sobre os bosques que pareciam infinitos, quando então eles eram quase deuses, mantidos vivos pela fé popular.




Autor: Rubem Cabral

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02 agosto 2010

Por causa do mini buraco negro...

Canoa Quebrada - Ceará
Por causa do mini buraco negro, Lenise virou Linese 

Folha de cipó - Caderno Cultural - 20/03/2078
Humberto Donato do Espaço – Da sucursal em Saturno

Vanderlático Galáctico Soares Barbosa era de Canoa Quebrada, paraíso cearense. Terra do calor estafante, do mar quentinho, do turismo disputado. Artesanato caprichado de preço elevado, “quanto mais embolado o sotaque, maior o valor”. Peixe fresco, tipo exportação; camarão até ficar alérgico; pimenta caseira com gota de suor; pele bronzeada, bunda arrebitada. Homem, mulher, família, criança. Cenário de novela, barraca armada, muito vento. Ceará, terra do sol, de trabalhadores da história, para a história. Da figura do cabra homem, desperto na fúria em busca de alento.

O caso é que Vanderlático Galáctico Soares Barbosa carregava nos genes herança paternal de muito apreço pelas coisas do universo. De longe notavam a peculiaridade espacial de sua pessoa. Numa Canoa Quebrada, isolada naturalmente da corrida tecnológica pós-modernista, a maresia sempre ia de encontro ao baixinho sardento, marrento de cabelo mirrado e óculos foscos. Andava lá o doutor, assim chamado pela população minúscula do paraíso.

“Que doutor o quê”! Retrucava Vanderlático.

Sempre muito discreto. Reservado com os vizinhos, quieto na dele, enfurnado dia e noite dentro de casa. E só andava lá nos arredores para recolher pacotes no correio. A cada semana uma encomenda chegava. Uma caixa maior que a outra.

“Ô dotôzinho, que mala é essa”?

“Que doutor o quê”!

Assim, causando o maior burburinho local, passava de lá a cá o Vanderlático. Morava bem o macho rei. Filho de garanhão holandês, que deixou boa quantia de dinheiro antes de sumir de vista. Não se pode dizer que sumiu, pois não chegou mesmo a dar as caras quando nasceu a figurinha do Vanderlático. Vem daí a falta de estrangeirismo do sobrenome. A finada mãe discorria diariamente sobre o pai fugido “Safado, bastardo, estabanado, bandido”, que ele era “ufololólogo”, nas palavras dela. Deve ser daí que encaixou o Galáctico no meio de tanto “ático”.

E o danado se formou com honra e mérito na capital, Fortaleza. Fez faculdade particular e tudo o mais que tem direito, de pós, pós-pós, pós-pós-pós, só não fez doutorado mesmo. Senão até aceitaria a alcunha popular. Na pacata Canoa Quebrada, era ele o trigésimo sexto morador formado com tanta medalhinha no peito. Vanderlático formou-se em engenharia quântica. Foi o que espalhou dona Mercedina pelas quitandas do arredor. Ela também espalhou que dona Néia morreu de desgosto, pois Vanderlático já beirava os quarenta anos e morava em casa, sem nunca namorar.

Está ai, devidamente apresentado o Vanderlático Galáctico Soares Barbosa. O homem ferrenho, com um nome que até já enjoou. Mas o que se deve prestar bastante atenção é na pessoa inda mais reservada, que é justamente Lenise Pataróca. Personagem principal de um evento bem bisonho, de difícil crédito na praça. E o caso é que Lenise vivia sozinha na única casa azul de Canoa Quebrada. Continuação imediata e geminada da casa de Vanderlático. Lenise na azul e ele na amarela. Um colorido bem acertado para a região praiana.

Senhorita Lenise Pataróca era mulher solitária. Já batia na borda da idade da loba, “Ela tem quarenta e quatro” dizia dona Mercedina pelas quitandas do arredor. Nascida em Jequitinhonha, pulou de município a município, nunca muito longe do chavão eterno e deprimente do mineiro: um pão de queijo, um leite quente e um mato no meio do dente.
A família não pode ser explicitada, pois não vamos dar conta de esmiuçar os doze irmãos, os vinte e quatro sobrinhos e toda a cachorrada de estimação. Importante sim é constatar que na sua índole solitária, veio pegar uma cor menos azeda nessa terra de sol, sozinha de tudo e fatidicamente, vizinha do Vanderlático.

Seguia sempre na santa paz, fazendo o que lhe era de mais interesse. E o que lhe subia nas entranhas era a escrita. Lenise Pataróca, autora do sucesso “Sabiá de porcelana”, segue trecho:

“ Pode esmigalhar o reluzente Sabiá. Este recalcitrante pecador sonoro. Na janela púrica de meu quarto, bicando meu cetim perolado. Deste lado estou, onde o prenderei. Aguardo-te, para enjaular a eternidade do seu piar”.


Tenso, maçante e irritantemente parnaso; Lenise fez muito sucesso em Canoa Quebrada. Espalharam-se paródias em todos os cordéis da região. Uma mulher moderna, que soube arrancar o ganha-pão com mais edições destes cordéis, debochados e parnasianos.

O caso é que chegou um dia, terça-feira normal de labuta, que Vanderlático estava a ponto de encerrar seu invento. A partir dos pacotes recebidos, ergueu-se o octaedro parafernal, repleto de fiação. Segue a lista por ordem de colocação: 
Sessenta placas de alumínio, vinte transistores, três microprocessadores, dois cabos super condutores, cinco parabólicas médias, vinte metros de fio de cobre, quatorze interruptores, dois monitores, uma bacia com água, um espelho e uma bateria para caminhões.


Na expressiva construção, que empatava toda a sala de estar, estava o inventor apertando o último parafuso. Puxou o rolo da tomada até a caixa de força e conectou os pólos diretamente na chave de energia. O zunido ecoou do octaedro, seguido de um tremelique espalhafatoso. Na tela do monitor, vários espirais piscavam intermitentes. Vanderlático abriu o livro “Eram os deuses astronautas? de Erich von Däniken” e afundou os óculos foscos numa leitura compenetrada do quinto capitulo.
Enquanto isso, Lenise travava certa batalha materialista com um parágrafo de seu novo trabalho.

“Linda e delicada, ela espreme roupa na beira do rio. Suspirando com sabão de coco no colo do seio farto, aguarda surgir o homem de sua vida, alto, forte e corajoso. O homem que a amará. Quem sabe não seja o Barão Albuquerque Mantiqueira? Suspirou Linese enquanto esfriava as ancas na água doce”.

Os olhos da autora marejavam ao contemplar a personagem. Em sua cabeça, a obra máxima estava já formada. Linese Peixoto, camponesa apaixonada e Albuquerque, temido por todos. Estava espelhando todos os sonhos em tal representação. E o reflexo gritava, obviamente, na troca de letras de seu nome com a fictícia projeção. Baita imaginação que lhe falta, essa é minha opinião. E apesar de toda uma vida de vontade suprimida, permanecia empatada neste trecho e sua escrita não evoluía. A espera pela inspiração rendeu um sonoro baque na parede da sala.

“Que loucura está aprontando o Galáctico?”

No lado de Vanderlático, a parafernália inconstante tremia cada vez mais. As páginas de Erich von Däniken estavam espalhadas por todo o canto. Cálculos e fórmulas incompletas foram riscados nas paredes. Vanderlático resmungava com os pés dentro da bacia de água e de fronte a tela do radar. Em seu rosto, estampava-se a decepção. Toda a labuta dispensada naquele caótico ambiente parecia não estar resultando em nada.

“Falta algo nunca antes tentado”!

A luz da genialidade acendeu sobre o homem. Ansioso, correu para a cozinha na esperança de um químico mágico, toda a cozinha tem químicos constituídos muito utilizáveis para salvar seu invento. E sem muita ponderação agarrou o objeto catalisador de todo o derradeiro fim de caso. Vanderlático voltou ao octaedro, lunaticamente empolgado. Com a convicção de um pós-pós-pós graduado, desarrolhou a tampa da matriz, fonte improvável de força sinistra. Eis a solução desesperada, a grandiosa pérola alimentícia do nordeste: a manteiga de garrafa!

Lenise encarava a parede de sua sala após o enigmático baque. Na tela do computador piscava a barrinha do editor de textos.
“Linese |”

Piscou os olhos e deixou apenas um dedo sobre o teclado. Com o corpo retorcido em direção ao ruído, viu a parede ondular como um lençol ao vento. O ruído contínuo engolfava o ambiente e a cor palha do ondulado passou a esmaecer e então escurecer. Um negrume se apossou do reboco e a casa geminada alquebrava aos poucos num terremoto. Branca e azeda, Lenise era um monumento rígido de medo. A parnasiana nada podia descrever de tão etéreo fenômeno. Fatalmente engolfada pelo buraco negro aberto na parede, ouviu-se neste instante por toda a cidade um potente “Chomp”.

Do jeito que foi tragada, imediatamente foi cuspida. A parede voltou à cor palha e o ruído contínuo havia cessado. A casa permanecia esfarelando no tremor. Na tela do computador somente estava a barrinha piscando.

“Lenise |”

Vanderlático arrombou a porta do lado amarelo e adentrou a sala, todo lambuzado. Através do embaço de seus óculos gordurosos, conversou com a figura sorumbática sentada à sua frente.

“Dona Lenise, temos que sair daqui, o mundo irá desabar. Criei uma máquina de absorção atmosférica. Não to dizendo missa, entenda. Acabei de criar um mini buraco negro. Culpa da maldita manteiga, escute, levante-se, ande! Ô bezerra, desempate”!

Apalpando e puxando o braço dela, Vanderlático discursava apopleticamente.

“A manteiga de garrafa é forte demais. Ultrapassou todos os limites voláteis do meu mecanismo. Pobre de mim que pretendia fazer contato com alienígenas, Marte, Saturno, Júpiter, talvez Vênus... O alemão estava certo, o...”

“Acaso teu nome, oh ser de tamanha ignomínia, é Barão Albuquerque Mantiqueira?”

“Má deixe de munganga mulher, bóra logo!”

Dona Mercedina pousou como uma varejeira malvada na janela.

“ Hum... E esse rala bucho ai, hein? Mais ta que ta, viu? A casa chega é a tremer com o roçado dos dois”.

Dona Mercedina bateu asas pra longe, sem deixar margem pra resposta.

“Meu nome é Linese Peixoto e caso seja tu meu príncipe, deixo me levar aonde quiser!”

Na tela do computador piscava ainda a barrinha.

“EU SOU LENISE PATARÓCA, SEU LOUCO DESGRAÇADO. ME 6*&()_(o*y LESO |”

“Arreia peste!”

Vanderlático chutou o computador pra longe e este se espatifou no piso. A luz do dia invadiu com intensidade a casa e um barulho de maquina ensurdeceu a todos. Lenise ressurgiu de cócoras entre os cacos do computador, encarando sua cria Linese. O teto, que caia ao chão quase por completo, foi desmaterializado de uma vez. O vento rodopiou dentro da casa e Linese gritava:

“Albuquerque, Albuquerque, salve-me! Essa versão vai expirar, compre o original! Salve-me, Albuquerque”!

O cientista largou o braço da mulher-personagem e ergueu as mãos para o céu.

“Sejam bem vindos! O humano dentro de mim saúda o humano dentro de ti!”

“TERRÁQUEO BATRÁQUIO. TEU SINAL IMANTIZOU NOSSO SISTEMA LIMBICO”

Nas alturas recortou-se um buraco negro. E entre o solo e a nave-charuto, foram os três sugados numa espiral. Subiram junto os cacos do octaedro e a garrafa vazia da manteiga. Detalhe para o rótulo que permaneceu grudado no piso:

Manteiga Derretida Bulutrica.

Os conterrâneos de Canoa Quebrada vieram em peso naquele final de tarde. Pescadores remaram em direção a praia e crianças abandonaram as brincadeiras. Cercaram a casa azul e amarela para fofocar. Do suposto balão prateado até o estouro de um botijão de gás, ficara mais conhecida a explicação da testemunha ocular, Dona Mercedina. Só no dia seguinte, numa quitanda dos arredores que ela explicou aquilo que não viu, ou que viu, mas não processou.

“Foi com essas gemas do meu rosto, veja bem, que eu flagrei o dotôzinho todo malamanhado. Tava agarrado com aquela estranha escritora; é sim. Tocaram fogo na casa, e é como falaram os pescadores mesmo. Fugiram num balão prata. Vi uma parte, outra parte sai fugida que eu não sou futriqueira”.

Assim foi o caso. Imortalizou naquela banda uma dezena de talentos no cordel. E despertou novas paixões pelo céu estrelado daquela ponta boa do Brasil. Essa foi minha oportunidade de romancear uma dessas historinhas que li por lá.
 
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Autor: Sérgio Ferrari

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