29 agosto 2010

A filha de Oxum e o orixá guerreiro



Humanos. Ao longo dos séculos não mudaram muito. Quase nada, vá lá. Sempre os achei frágeis, contendo todos os defeitos possíveis, talvez por isso eu os ame tanto. Como mãe que sou, eu, Iemanjá, digo com toda a certeza que meu amor é imenso, infinito, e sei amar cada filho imperfeito meu a meu modo, da forma como sinto que deve ser amado, seja ele ou ela mortal, ou orixá.
Nós, orixás, também não somos um espelho da perfeição. Vários de nós já tiveram seus dias no Aiye, ou na Terra, para melhor entenderem. Sim, alguns já foram humanos. Desses dias passados, há resquícios de vícios e paixões, vinganças e amores. Dizem que tudo, com o tempo, vai-se embora em algum momento. Só que Iroko, o Tempo, é impotente quando se trata do amor... Quando o amor é verdadeiro, esse para sempre nos acompanha.
Isso aconteceu com Ogum, o senhor das guerras, aquele que combate sem medo e a tudo vence. Este meu filho mais temido teve seu escudo quebrado pelo amor. Um amor impossível, mas belo; estranho, mas verdadeiro. Na época, veementemente fui contra, apesar de não impedi-lo de seguir pelo caminho que escolheu. Ogum foi livre para decidir o que fazer desse amor e o fez, tanto quanto lhe foi possível, porém não sem pagar um preço muito alto.  Hoje, tantas e tantas luas depois, contarei esse episódio, visto ter sido belo, apesar de trágico. Graças a Iroko, tão poderoso, a lembrança ficou apenas dentro do peito de Ogum, e de lá provavelmente não mais sairá. Se puderes perder um “cadinho” de tempo, filho ou filha minha, saberás de toda a história...
Certa vez, muito tempo atrás, Ogum perdeu a vontade de trabalhar com seus metais, não quis mais forjar suas armas. Isso fez com que os homens não conseguissem mais usar o metal e o fogo para guerrear. O fio da navalha não cortava mais. As bombas não explodiam. E nos sacrifícios, como usar as facas? Havia alguma coisa errada e os humanos não sabiam o motivo daquilo. Enquanto o mistério não era desvendado, o jeito encontrado pelos homens foi usar paus e pedras para combaterem na guerra.
 
Ogum
Quem era filho de terreiro, quem vivia nos ilês, já tinha descoberto o motivo daquilo: era Ogum, que tinha desaparecido de repente. Mesmo não se podendo fazer oferendas em virtude do que acontecia, chegou até a mim um clamor para que intercedesse pelos humanos. Os mortais pediam que eu fizesse com que meu amado filho guerreiro os perdoasse de alguma coisa que eles não sabiam o que era, mas que fariam o que Ogum desejasse para que tudo voltasse ao normal.
Depois de vários dias encontrei-o sentado à beira-mar, contemplando a imensidão de meu reino. Foi com meus passos lentos e ondulantes como as ondas daquela tranquila tarde que caminhei até onde ele estava.
— Que houve, meu filho? Qual é o motivo de tanta inquietação, a ponto de tirar as armas de metal e de fogo dos homens?
Antes de se explicar, Ogum aninhou-se na barra de meu longo vestido feito de incontáveis gotas do oceano. Enquanto se explicava, pôs-se a fitar o céu, o olhar perdido em Orun.
— O motivo é um só, minha mãe, e me acompanha desde os tempos de Irê. Naquele tempo, apaixonei-me por Ejá, uma linda princesa de uma das sete aldeias que compunham Irê. Ela correspondeu ao meu amor, mas fomos separados pela ira de seu noivo, que a matou quando descobriu que eu a levaria embora comigo para fazer dela a minha mulher. E agora eu a encontrei. Meu amor vive novamente, uma linda mortal, mais linda do que qualquer outro ser a quem eu tenha visto com meus olhos, uma bela filha de Oxum. E está noiva de um filho seu, minha mãe.
— Ogum, meu filho! - afaguei-lhe as mãos ásperas, em alguns pontos chamuscadas pelo fogo com o qual tanto lidava. — Pode ser que tu tenhas encontrado Ejá, mas agora essa mortal não é mais aquela a quem amaste. Se ela está de volta ao Aiye, tanto tempo depois, é porque tem um destino a cumprir. E tu também tens, precisa voltar ao teu trabalho, os homens estão apreensivos com teu sumiço...
— Perdão, mãe querida. Se me queres bem como uma mãe quer sempre bem a um filho, há de entender essa fraqueza que sinto agora e não posso acalmar. Sinto que é mais forte do que eu, do que o próprio fôlego que me foi dado por Olorum. É amor o que sinto e o que me atormenta, querida mãe. O amor por uma mortal, a mais linda que já vi em todo o Aiye, em toda a Terra e que Iroko não conseguiu tirar de dentro de mim, estava apenas adormecido esse tempo todo!
Estremeci, a ponto de fazer sete ondas quebrarem com toda a força contra as rochas próximas a nós.
 
Oxum
— Ogum, como podes deixar isso acontecer? Tu, que já viveste tantos embates, tantas guerras, sempre vitorioso, como podes estar perdido por uma simples mortal? E como podes dizer que essa mortal é a mais linda criatura que já viste? Que Oxum ou Iansã não nos ouçam, a segunda muito mais que a primeira! — argumentei, não deixando de sentir uma pontinha de ciúmes, já que via que ele classificava aquela mortal até mesmo mais bela que sua própria mãe.
 — Talvez seja este o único combate em que fui vencido, minha mãe. Perdoe a fraqueza desse filho, perdoe!
— E como foi que isso aconteceu?
Há muito tempo eu deixara de entender as impetuosidades de meus filhos. Por mais que fizesse, eles sempre agiam conforme seus desejos. Restava a mim, como mãe, apenas os pacientes atos de escutar e zelar, rogando sempre a Oxalá a sabedoria para agir da melhor forma quando um deles suplicasse por meu auxílio. Só que eles estavam passando dos limites! Agora era Ogum, e se depois Oxóssi e Exu também resolvessem aventurar-se por amor entre os mortais? A demanda estaria feita, seria inevitável!
— Outra noite, estava eu em um ilê de filhos teus e de Oxum, ocupando meu assentamento, quando vi passar pelos portões da casa aquela a quem meu coração pertence. Nesse instante, não percebi mais nada, apenas Ejá. Apesar de agora ela ter cabelos dourados e pele muito branca, destacando-se entre as pessoas de pele morena em seu porte físico, única não somente por isso, e sim mais por causa de um brilho que emanava de si, iluminando tudo ao redor, pude reconhecê-la! Tinha o mesmo porte de princesa dos tempos de Irê...
Enquanto ouvia o relato de meu filho, não tive dúvidas: ele, o deus da guerra, estava perdido de amores. Por um momento, eu mesma cheguei a sentir a força do sentimento daquele a quem sempre denominavam cruel e impiedoso, mas que sabia ser apaixonado, tão vibrante quanto tinha sido em sua vida terrena, quando ele próprio fora um mortal.
— Sinto pelas tuas palavras que não adiantará usar as minhas para convencer-te. Uso-as então para rogar a ti que não prejudiques mais meus filhos terrenos, eles precisam do metal não somente para combater, mas também para a colheita, para os transportes... Volta a teu trabalho e eu irei ter com Iroko e pedir que ele faça com que os humanos esqueçam esse episódio com o tempo. Se possível, pedirei a ele também que tente obter êxito com relação a ti, já que eu, tua própria mãe, não consegui!
Ogum se levantou, como se estivesse carregando em seus ombros todo o peso do mundo. Abraçou-me, com um sorriso triste nos lábios.
— Ao menos posso atender um pedido teu, minha mãe. Estou indo para o meu trabalho. Agora, quanto a Ejá, digo que não me separarei dela. Não impedirei seu casamento com teu filho, mas não mais a deixarei. E quando ela partir do Aiye, não será Omulu quem a receberá, mas sim eu, para levá-la comigo, pois quando ela estiver no Orun, certamente se recordará de mim e retribuirá meu amor com toda a certeza.
Deixei que ele se fosse, caminhando sem olhar para trás. Eu ainda estava pensando em tudo o que Ogum dissera quando, de repente, senti que das águas do mar saíam estranhas fagulhas. Era Iansã, eu tinha certeza, ela provavelmente tinha escutado nossa conversa, ou parte dela. Agora, pelo visto, não conseguia mais se conter.
— Epa-hei, Oyá! Apareça, sei que és tu! - ordenei.
Quando a rainha dos ventos e das tempestades se materializou diante de mim, estava tremendo de raiva. Mesmo com a respiração alterada, ela tentava manter o controle, mas sem muito sucesso.
— Odo-iá, Iemanjá! Já que não adianta esconder nada de ti, digo só uma coisa: Ogum vai pagar por essa afronta!
— O que dizes? Por que achas que Ogum está a te afrontar? Por acaso, apesar de tudo o que aconteceu e do seu amor declarado por Xangô, ainda sentes alguma coisa por meu filho?
Iansã gargalhou, fazendo com que raios caíssem perto de nós, causando o ribombar de trovões. Os vapores que subiam do oceano se transformaram em ventania impiedosa, extinguindo a calmaria no reino de meu pai Olokun.
— As contas a serem acertadas entre mim e Ogum são grandes, muito grandes! Não admito que ele diga que uma simples mortal é o mais belo ser que ele já viu! Como ele ousa dizer isso, depois de ter vivido comigo? Essa é a maior afronta que já recebi! Quero, exijo respeito dele! Exijo! - gritou Iansã, descontrolada, desaparecendo em meio aos raios, deixando apenas o eco de sua indignação no ar.
Ao menos no oceano, a calmaria ressurgiu.
Tentei agir, interferindo no que tinha permissão. Fui ao ilê e mostrei nos búzios que um perigo muito grande se aproximava daquela casa. Aquele meu filho mortal, de nome Gilberto, noivo da bela moça, teria que ter muita coragem para tentar evitar o que poderia acontecer aos dois.
Por causa de meu aviso, o casamento acabou sendo adiado, mais por insistência do noivo, pois Ejá, que em sua vida atual se chamava Clara, não partilhava da mesma crença que ele, a moça estava até pensando que aquilo tudo era uma desculpa para não haver casamento nenhum.
E durante muitas luas tudo pareceu ter voltado ao normal: Ogum trabalhava e guerreava, Iansã comandava os ventos e lidava com os eguns, os homens viviam suas vidas, esquecidos do estranho incidente graças a Iroko. Tudo como sempre. O tempo passou e o novo dia escolhido como data do casamento de Clara e Gilberto finalmente chegou. De tão impaciente que estava a noiva, que dizia que era tudo desculpa do rapaz aquela história de “aviso dos orixás para tomar cuidado”, Gilberto cedeu e confirmou a nova data.
Um sábado, dia consagrado a mim e a Oxum, foi o dia escolhido para a união de nossos filhos. Uma cerimônia na praia tinha sido preparada com todo o cuidado. Muitas flores, muita música, muita alegria. Então por que eu sentia como se algo não estivesse bem? Meu coração não se acalmava e eu não conseguia encontrar Iansã em lugar algum. Infelizmente, só a encontrei na hora da cerimônia.

Os convidados estavam todos na praia, reunidos em volta dos dois jovens. Em meio às ondas, eu observava. Não conseguia ver meu Ogum em nenhum lugar, o que teria acontecido? Teria ele desistido de ficar perto de Clara para protegê-la? Talvez não quisesse assistir ao casamento dos dois...
Iansã
Meu pensamento foi interrompido por um clarão vindo de Orun. Foi do céu também que vi surgir Iansã, movimentando-se para formar os ventos mais fortes que pudesse. As pessoas, na areia, tentavam se proteger, escondendo o rosto e correndo para algum lugar coberto, ou para fora da praia. Os raios começaram a cair.
Consegui proteger Gilberto a tempo, desviando um raio fulminante que fatalmente o atingiria. Fiz com que ele adormecesse e criei uma barreira para que nada o machucasse. Não tive tempo de salvar Clara, infelizmente.
Assisti, desesperada, ao seu corpo sendo arrastado no ar, como uma boneca de pano. Vi também quando Iansã aproximou-se dela, mantendo Clara suspensa, gargalhando antes de desaparecer em meio às nuvens escuras de onde não cairia uma gota de chuva. A ventania cessou e Clara foi ao chão, em um impacto repentino com a areia. Já estava morta.
No ar, a risada de Iansã ecoava em meio ao barulho dos trovões, enquanto na areia as pessoas ainda estavam confusas, não entendendo a ira repentina da rainha dos ventos. Do que estaria ela se vingando?
Quando Gilberto acordou, caiu em prantos sobre o corpo de Clara, a única que perdera a vida. Afaguei sua cabeça, tentando acalmá-lo o quanto pudesse, pois da forma como estava era bem capaz que cometesse uma insanidade.
Nessa hora Ogum surgiu, desesperado. Ao deparar-se com a cena, vociferou:
— Aquela desprezível! Eu a amaldiçoarei por todos os dias enquanto fizer parte do Reino de Olorum!
Dirigindo-se a mim, explicou:
— Ela me jogou dentro de uma tempestade de ventos, mãe, para que eu não tivesse como impedi-la de fazer o que fez!
— Mesmo se tu viesses, ela o faria da mesma maneira, Ogum! Oyá estava com o coração cheio de raiva! Não foi capaz de esquecer o que disseste naquele dia, tempos atrás...
— Ejá! Eu cuidarei dela agora...
— Ogum, ela deve seguir com Omulu, sabes bem. — lembrei-o. — E Iansã é quem a conduzirá...
— Nunca! Não deixarei que Iansã a machuque mais do que já machucou! Omulu não irá me contrariar!
Nem bem disse aquilo, vimos o espírito de Clara começando sua caminhada para encontrar Omulu. Ogum colocou-se em frente a ela, impedindo seu caminhar:
— Ejá, venha, tu irás comigo agora...
Clara não entendeu as palavras de Ogum, atordoada ainda que estava de tudo o que tinha acontecido. Não sabia nem mesmo que não pertencia mais ao Aiye, olhava para os lados, buscando desesperadamente por Gilberto.
— Ejá? Não entendo... Meu nome é Clara... Onde está Gilberto?
— Venha, Ejá, cuidarei eu mesmo de ti. Não me reconheces? Sou eu, Ogum!
Quando Clara pareceu compreender as palavras de Ogum, arregalou os olhos, amedrontada, soltando um grito.
— Ogum? Se é Ogum mesmo, por que eu o estaria vendo? Onde está meu noivo? Quero saber onde ele está!
Clara não conseguia me ver, nem ver a Omulu, que se aproximava de nós, com passadas vagarosas. Sem nada dizer, ele parecia esperar que uma decisão fosse tomada. Tentei mais uma vez interceder.
— Filho, não vês que isso tudo não daria certo? Vocês dois, tu e Clara, ou Ejá, ambos não teriam paz nenhum dia em que estivessem juntos! Achas que Iansã se deu por vingada apenas com o que fez hoje? Se achas que sim, não conheces verdadeiramente tua ex-esposa! Como pensas que seriam os dias de Clara ao teu lado? E os teus dias, ao lado dela? Deixe-a seguir o caminho dela, por Oxalá!
Ogum balançava a cabeça, não querendo aceitar o cenário sombrio do futuro que eu jogava diante dos olhos dele.
— Ogum, ouve tua mãe que lhe pede, ficarei até de joelhos diante de ti, se isso for preciso para que aceites as minhas palavras em teu coração! Iansã interrompeu o destino de Clara. Será preciso que ela volte ao Aiye daqui a um tempo para terminar o que é necessário ao lado de Gilberto. Deixa-a acompanhar Omulu agora. Se Ejá está destinada a ser tua companheira um dia, aguarde a chegada desse dia. Não causes mais tristeza ao coração dela, que agora ama a Gilberto de verdade e precisará ficar por um tempo longe dele. — Continuei tentando fazer com que meu filho desistisse daqueles pensamentos insensatos.
Ogum abaixou a cabeça e chorou, convulsivamente. Omulu demonstrou que era hora de partir levando Clara, já se esgotara completamente o tempo dela naquele mundo. Reverenciou a mim e a Ogum, começando sua caminhada.
— Espere, filho de Nanã! - pediu meu filho. — Atende ao meu pedido: deixe-me acompanhá-los até os portões de teu reino... E impeça que Iansã esteja lá...

 
O tempo que Omulu refletiu sobre o pedido de Ogum pareceu eterno. Por fim, ele assentiu, pois se devia eterna gratidão a Oyá, também devia manter-se leal a meu filho. Não lhe negaria aquilo. E que honra seria para Ejá ter Ogum ao seu lado, cuidando seus passos, protegendo-a em seu caminho. Assim foi então, Omulu guiou-os por um caminho diferente, conhecido apenas por ele, para que não encontrassem com Oyá.
Quando retornou, Ogum procurou por mim. Ele voltava para os meus braços, ansiando por consolação, por conforto. Um conforto que somente uma mãe poderia dar a um filho.
E isso se repetiu muitas e muitas vezes. Acontecia toda vez que Ogum escapava e fazia uma visita a sua Ejá. Ela nunca soube que ele, de longe, a observava. Ogum jamais deixou que Oyá se aproximasse dela, embora a deusa tenha tentado, muitas vezes, até que a própria rainha das tempestades esqueceu-se daquela mortal, que um dia ousou ter sido colocada acima de todos os seres pelo coração apaixonado de um orixá. Afinal, havia outras coisas com as quais se preocupar, como manter-se como a preferida de Xangô entre as suas esposas. Por fim, Clara voltou ao Aiye, tempo depois, para finalmente trilhar seu caminho completo ao lado daquele que um dia conhecera por Gilberto. Nasceu em uma linda manhã de terça-feira, justamente em um 23 de abril, dia consagrado ao meu filho mais guerreiro. Agora, ela era mais uma filha de Ogum na Terra.


Autora: Bia Machado 
 
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