14 agosto 2010

Por um pouco de fé

As razões do destino são misteriosas ou, ainda, caprichosas. Todos os dias você conduz seu carro pela estrada reta: deixando o passado para trás, envolto em uma nuvem azulada de monóxido de carbono e poeira, enquanto à frente, o futuro se desdobra sob seus pneus velozes.

Um buraco na estrada e você para e pode conhecer alguém: seu novo amor, um melhor amigo, sua morte, sua salvação. Uma parada num bar, para comprar um maço de cigarros ou tomar um café, pode livrar você de bater numa carreta que vai virar sobre um Fusca, ou pode justamente colocar seu Corsa sob as toneladas de metal fumegante.

Você vive a ilusão da retidão da estrada, sobre ir de A a B, sem coinsciência de que, a cada escolha ou ato seu, a estrada se bifurca, e um novo futuro se arquiteta, talvez aleatoriamente, talvez planejado, quiçá muito antes do tempo sequer existir.

Assim dirigia Jonas Magalhães, o “Magrão”: no trajeto usual de casa até o trabalho. Jornalista responsável pelas matérias de cultura do respeitável O Atual, seguia de A a B, como sempre fazia todos os dias. Homem de aparência jovial, ainda nos seus vinte e tantos anos, era alto e esguio, tinha pele pálida e olhos e cabelos escuros.
Naquela manhã, quente e abafada, ele deixou a Linha Amarela e tomou o acesso da Avenida Brasil, de onde seguiria até Cidade Nova. Parou impaciente num semáforo e observou vários meninos começarem a fazer acrobacias, subindo uns nos ombros dos outros. Um menino, em especial, lhe chamou a atenção: apesar de ser deficiente físico, dava incríveis saltos mortais e depois passava o boné para recolher moedas. Dar esmolas não era algo que Jonas costumava fazer, mas resolveu abrir o vidro e depositou uma moeda brilhante de um Real no chapéu encardido do garoto, que lhe sorriu um sorriso cheio de dentes brancos, em grande contraste à face de ébano, que brilhava, porejada de suor.

– Valeu, chefia!

Jonas seguiu até a Rua do Riachuelo, parou o carro na garagem irregular, que funcionava num terreno perto do prédio onde trabalhava e foi tomar um café, antes de subir.

Comia o costumeiro queijo-quente, empurrado goela abaixo com um copo duplo de café pingado, quando um cheiro nauseabundo assaltou seus sentidos. Virou-se, assustado, e um mendigo, miserável como somente alguns tipos conseguem ser: cabelos longos, brancos e arrepiados, boca sem dentes, murcha, no meio da face chupada e encarquilhada feito um maracujá seco, olhos de quem já havia visto de tudo e mãos- Deus!- mãos que terminavam em dedos imundos, rachados e vermelhos, talvez mordidos por ratos, encimados por unhas marrons e grossas, como cascos.

– Dá o fora, pudim de cachaça! – gritou o balconista.

O velho se encolheu e já ia se retirar, quando Jonas, num ato que até para si causou-lhe surpresa, chamou o idoso.

– Moço, o senhor tá com fome? Chega mais, eu te pago um lanche.

O velho o olhou de volta e o jornalista comoveu-se com sua expressão de alegria. Comprou um hambúrger e um suco e o ancião foi comer, sentado no meio-fio da rua.

Quando o jornalista alcançou a portaria do prédio do jornal, viu pelo canto no olho quando o homem acenou em agradecimento.

***
 Reunião sobre os cadernos especiais. Senhor Leandro Barreto, o redator-chefe, um baixinho invocado, distribuia as tarefas.

– Marisa: você prepara a matéria especial para o Dia dos Pais. Arruma uns famosos que foram pais, entrevista gente que adotou, famílias não convencionais, gays, divorciados, sei lá: dê um jeito.

– Magrão – e o redator tampinha riu consigo mesmo – você fará uma matéria especial sobre o Dia do Folclore.

Quase todos presentes na reunião disfarçaram o riso como puderam, outros nem sequer tiveram tal pudor. “Dia do Folclore” significava escrever sobre o que todo mundo conhecia de cor: de mil trabalhos infantis e dos livros de Monteiro Lobato. E dá-lhe Iara, Saci, Negrinho-do-pastoreio. Nem escola de samba usava ainda tal mote nos desfiles.

– Mas, seu Leandro, isto é como tirar leite de pedra. O dá pra escrever de novo sobre isso?

– Jonas, você é o jornalista mais novo da equipe, logo as “pedreiras” cabem a você. E não me venha com matéria batida, copiada e colada do site de algum folclorista. Quero algo novo, vibrante. Te vira!

O jovem afundou na cadeira e mordeu a tampa da caneta. “Algo novo e vibrante? Que tal meu cacete?”, pensou. E xingou em pensamento, palavrões que fariam corar um pornógrafo da Boca do Lixo.

***
Sentado à sua mesa, Jonas fuçava alguns sites já meio desesperado, relendo e re-relendo o que não era novidade para ninguém.

– Jonas, quero te apresentar nosso novo mensageiro: Upiratan. – disse Dona Dirce, a chefe do RH.

O jornalista saiu do estado de torpor e deparou-se com um rapaz numa cadeira de rodas. Embora muito jovem, Upiratan era hirsuto como um cão. O garoto de rosto raspado e azulado, estendeu-lhe a mão, que também tinha as costas pilosas e escancarou um sorriso de dentes esverdeados. “Política de inclusão social”, pensou Jonas por um segundo.

– Seja bem-vindo, Ubiratan. – disse, apertando-lhe a mão pequenina.

– É Upiratan, seu Jonas. Pode me chamar de “Pira”, todo mundo me chama assim.

– Legal então, Pira! – sorriu de volta, oferecendo o punho fechado para um cumprimento informal.

O rapaz estranhou o excesso de familiaridade, mas retribuiu o gesto, cheio de timidez.

***
Outra manhã quente, outra vez o menino negro fazendo malabarismos no sinal. Outro café da manhã de pé, no balcão do pé sujo da esquina, perto d’O Atual.

– Magrão, sabe o velho? O mendigo pudim de cachaça? – comentou o balconista, esfregando um pano ensebado no balcão, sujando mais do que limpava.

– Ué, claro! O velho que eu paguei o sanduba ontem. O que que houve? – perguntou Jonas.

– Pois é, dá até um aperto no coração. Eu vivia tratando o coitado pior que cachorro. Parece que ele dormia debaixo de uma marquise aqui perto e uns playboyzinhos botaram fogo nele.

– Meu Deus! – exclamou – E ele morreu?

– Pior que não, pelo que li no jornal, tá internado mas não morreu ainda. Às vezes é melhor morrer logo do que sobreviver assim – e balançou a cabeça, desconsolado.

No caminho para a portaria do jornal, Jonas viu a calçada empretecida; apenas uns caixotes que o ancião usava como armários ainda estavam por lá.

Na redação, Pira circulava de cabeça baixa, com a cadeira de rodas empilhada de envelopes. Aprendera também a operar a fotocopiadora e agora vivia indo e voltando com montes de papéis.

– Que foi, ô Pira? Morreu alguém? – perguntou o jornalista.

– Nada não, seu Jonas. É esta notícia do mendigo que queimaram. Por que as pessoas são assim? Ninguém tem mais respeito por nada? Que gente ruim! – exclamou, com a voz embargada.

– Fica frio, Pira. Pô, rapá, você tem que criar uma casca grossa pra viver na cidade. Tem muita gente ruim, mas tem gente que vale à pena também. Levanta a cabeça, garoto. Tu é muito novo pra ficar triste assim.

O menino engoliu o choro e continuou circulando entre as baias, num leva e trás infinito de cópias, faxes e envelopes.

***
 















Sete e meia da noite e o jornalista continuava sua busca infrutífera por novidades sobre o Dia do Folclore. Conseguira marcar uma entrevista com uma velhinha que acreditava que seu vizinho fosse um lobisomem e com um folclorista vetusto. Mas, até agora, seu especial sobre folclore estava tão novo e vibrante quanto um café requentado esquecido numa garrafa térmica.


O menino na cadeira de rodas ainda estava lá: organizando escaninhos, separando correspondências e revistas. Lá fora o tempo fechou: um temporal de fazer medo encheu a rua. Jonas suspirou e continuou trabalhando, fazendo hora extra à força.


Onze e meia da noite, as águas escoaram e Jonas preparou-se para sair. Passou pela sala de fotocópias e viu o menino esquisito, dormindo na cadeira. Bateu na porta e o acordou.


– Pira, tu ainda tá aí? Como é que você vai voltar pra tua casa?


– Ahn, desculpa, seu Jonas. Eu peguei no sono. Não tem mais como eu voltar pra casa mesmo.


– Onde você mora?


– Copacabana. Eu racho uma quitinete com uns amigos por lá. Mas não se incomode não, se não for problema, eu durmo aqui mesmo.


– Cê tá doido, Pira? Vem comigo, eu te dou uma carona. Não, não: nem mais uma palavra!

***
 
Seguiram pelas ruas cheias de lixo arrastado pelas chuvas. Pararam em frente a um prédio decadente, um legítimo “balança-mais-não-cai”, ladeado por duas casas de “shows” para turistas.


– Obrigadão, seu Jonas!


– Me chama de Magrão, Pira. Para com esta história de “seu” Jonas.


O rapaz olhou Jonas, cheio de gratidão. Foi com surpresa que o jornalista escutou seu convite.


– O senhor... Ahn, Magrão, você ainda tá enrolado com aquela história do Dia do Folclore?


– Até você tá sabendo do assunto? – riu ele.


– Eu posso te ajudar. Posso te ajudar mesmo!


– Como? – perguntou, incrédulo.


– Sobe comigo, vou mostrar uma coisa pro senhor.


O jornalista pensou duas vezes, mas o garoto parecia “limpo”, não tinha jeito de bandido, veado ou traficante. Fechou o carro e o ajudou a se sentar na cadeira.


Subiram uns dez andares, num elevador de porta pantográfica, tão velho e oscilante que era surpreendente que ainda funcionasse.


O rapaz tirou a chave do bolso, olhou para os lados, no comprido e mal iluminado corredor e levantou-se da cadeira, para abrir a porta. Ignorou o olhar de espanto do jornalista e praticamente o puxou à força, para dentro do apartamento.

***
– Eu posso andar, Magrão. É que meus pés são diferentes e não gosto de chocar as pessoas.

Lá dentro, num cubículo de uns dez metros quadrados, colchonetes estavam encostados à parede e um rapaz negro cozinhava num fogão de duas bocas. Uma TV de quatorze polegadas transmitia o noticiário em meio aos chuviscos e oscilações da recepção de uma antena interna, com palha de aço nas pontas. Uma mesa de plástico branco e dois bancos do mesmo material completavam a decoração.

 
– Chegou tarde, Curupira. Pensei que hoje tu não ia conseguir. Tô fazendo um Miojo, pra variar. Até que rolou uma grana bacana hoje lá no sinal. – disse o rapaz negro, sem se virar.

Pira colocou as mãos ao redor dos cabelos e os puxou, revelando uma cabeleira esverdeada sob a peruca castanha. Tirou os sapatos e elevou os pés descalços, para que o jornalista pudesse ver: invertidos e peludos.

– O que é isso, Pira? – perguntou Jonas – Meu Deus, o que está acontecendo aqui?

Ao escutar a voz do estranho, o rapaz negro parou de preparar a comida imediatamente e pulou até a sala, lépido como um raio.

– Curupira, você enlouqueceu? O que te deu na cabeça pra trazer um humano aqui?

– Ele é diferente. – disse a criatura peluda – Ele é bom e pode nos ajudar.

Saci olhou Jonas de cima a baixo e reconheceu o homem gentil, que lhe dera uma moeda dias antes. Meteu uma mão no bolso do short e começou a pitar muito nervoso um cachimbo de sabugo de milho.

Jonas continuava incrédulo, olhando espantado e sem entender.


– Será que é preciso fazer um desenho, Magrão? Eu sou o Curupira e este aí, é o Saci. O mendigo que foi queimado perto do jornal é nosso amigo também: ele é o Homem do Saco. Chegou a ser colega aqui, no apartamento, mas nos deixou quando seu dinheiro apertou e o orgulhoso cabeça-dura foi viver nas ruas. Nós somos mitos, Jonas. Não podemos morrer e sofremos muito neste mundo estéril que vocês criaram.
O jornalista começou a gargalhar. Mas o riso sumiu, quando o Saci desapareceu num redemoinho, que levantou folhas de papel e poeira no carpete sujo do apartamento.

– Nós podemos ajudar você, Jonas. E precisamos da tua ajuda também.

***


No dia vinte e dois de Agosto, uma reportagem vibrante, cheia de detalhes inéditos sobre os principais mitos do folclore Brasileiro, foi às bancas. O texto do artigo falava sobre a questão da fé, de que os mitos precisavam da crença para que pudessem sobreviver. Jonas convidava os leitores a cantar antigas canções de roda sobre os velhos mitos, quase esquecidos. Explicava ainda como invocar antigos ritos, ensinados por seus novos amigos.

Em diversos recônditos sórdidos, perdidos e espalhados pelo Brasil, o Papa-figo, a Cuca, a Iara, O Boitatá e muitos outros, sentiram um novo ânimo de vida, um sopro revigorante de fé, que lhes trouxe força para vencer suas duras rotinas, disfarçados no mundo dos humanos.

No Hospital Souza Aguiar, um velho mendigo, com mais de setenta por cento do corpo queimado, amanheceu sem uma cicatriz sequer. Os médicos nunca souberam explicar o milagre ou tampouco o sumiço de duas crianças no berçário naquele mesmo dia.

E, numa certa quitinete barata, num prédio de péssima reputação em Copacabana, o diabrete enrolador de crinas de cavalos e o guardião dos animais das florestas, dormiram naquela noite um sono gentil e sonharam outra vez: sobre os bosques que pareciam infinitos, quando então eles eram quase deuses, mantidos vivos pela fé popular.




Autor: Rubem Cabral

 
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