21 setembro 2010

O grande embate

O Sol brilhava esbranquiçado e escaldante naquela região poeirenta e esquecida por Deus. Perdido, em meio do agreste, um celeiro insuspeito, abandonado, salvo por algumas corujas e morcegos, agitava suas janelas e portas, como se acenasse ao vento alaranjado daquela tarde cheia de vento sujo.

Ignorando a pintura descascada e o mau estado geral do lugar, dois homens vestidos com roupas elegantes sorriram ao abrir a porta do cadafalso escondido sob uma pilha de feno e infestado de escorpiões.

– É aqui – disse o mais alto dos dois, esmagando alguns artrópodes com as botas - eu tenho certeza que achamos! Veja, os sinais estão por toda parte: cruzes quebradas, manchas de sangue, palavras de blasfêmia escritas na parede e em Romeno!

– Romeno? Tem certeza? Isso significa que... Oh, Deus! É melhor desistirmos, vamos fugir antes que ele nos descubra.

– Não! Não perdi os últimos anos de minha vida em pesquisas, à toa. Gastei boa parte da fortuna que meu pai me deixou: subornando, contratando detetives, místicos e todo tipo de gentalha. Fuja agora e eu o mandarei atrás de ti.

Desceram as escadas apodrecidas e encontraram um caixão suspenso sobre cavaletes de madeira nobre. O esquife estava coberto de inscrições misteriosas e de desenhos horrendos de origem pagã.

– Ajuda-me a enrolar o caixão com esta estola Papal. Fixemos cruzes e páginas da Bíblia sobre cada centímetro da superfície do túmulo do maldito. Vá, vá lá fora e prepare o guincho da caminhonete: nossa carga preciosa já está pronta pra partir!

E foi assim, sem maior cerimônia, sem pompa ou circunstância, que levaram o caixão do conde na boléia sacolejante de um pequeno caminhão.
*** 


José acordou com a pior das ressacas naquela manhã. Com muito esforço, levantou o torso magro e extremamente arranhado, descolando os lençóis do sangue que insistia em mantê-lo preso ao leito. Sua cabeça girava e o estômago borbulhava como se os esgotos do Inferno houvessem resolvido transbordar sua acidez corrosiva de uma só vez.

Correu até o banheiro e vomitou, copiosamente. Ergueu a cabeça, ainda com os olhos cheios de lágrimas e travou, no momento em que iria dar descarga. Cheio de nojo, com o auxílio de um pedaço de papel, retirou de dentro do sanitário: uma pata de cachorro (talvez um dobermann, considerando o tamanho e a cor) e um dedo humano, ainda ostentando um belo e caro anel de rubi.

– Não! Não outra vez! Mas a cigana me garantiu que a maldição havia sido afastada. De que valeu tanto trabalho e despesa? Ela me paga! Ela me paga!

Batidas educadas à porta de seu quarto o obrigaram a se recompor. Secou a boca e o suor da testa com uma toalha e foi atender. Quem seria a esta hora da manhã?

– Senhor José de Andrade Ferreira? – perguntou um homem que vestia roupas talvez mais adequadas para um baile de gala.

– Sim, sou eu. O que vo...

Nunca conseguiu completar a frase. Um disparo de uma arma não letal o fez cair ao chão, se debatendo no ritmo das centenas de milhares de volts do taser. Segundos depois, uma injeção de anestésico em seu pescoço o fez dormir.

O segundo pacote já fora coletado
***

 
O Conde Drácula acordou dentro de seu esquife, alertado pelos ruídos estranhos do lado de fora. Com um movimento rápido, rompeu a madeira de lei da tampa do caixão, que se partiu em mil farpas, como se fosse papel e expôs o rosto fantasmagórico e as presas longas e infectas. Seus olhos de imediato arderam e ele se protegeu com a capa, enfiando-se de volta no fundo do caixão. Havia algo de errado, muito errado! Seus instintos nunca o enganariam: não era mais dia, como a luz ainda poderia o queimar?

– Bem-vindo, Conde! Fico contente que tenha acordado. Espero que tenha feito uma viagem confortável desde aquele celeiro poeirento e infestado onde o senhor escolhera para se esconder.

– Como ousas, mortal? Devorarei o teu coração, arrancarei tuas tripas e te estrangularei com elas, porém despedaçarei teus filhos antes! Isso! Far-te-ei observar o padecimento deles, será lento, agonizante: pagar-me-á muito caro por esta afronta!

– Sempre tão pomposo, conde! Sem nunca perder a pose, não? – riu o homem misterioso – Hoje você não comanda aqui, velho chupador de sangue. Ó apavorante visão da morte, sedutor de pudicas senhoritas virginais. Ha, ha! Como você pôde sentir, luzes ultravioletas estão acesas e, se por acaso ousar sair, queimará como se passeasse ao Sol do meio-dia num dia de verão em pleno Vale da Morte. Estamos somente aguardando a hora certa, guarde bem suas forças! Logo a Lua cheia apontará no céu e você poderá dar vazão a sua fúria.

– Lua cheia? E por acaso me tomas por algum maldito lobisomem, verme desprezível? Tira-me daqui e concordarei em dar-te uma morte rápida. Afinal, onde estou?

– Olhe, senhor conde – disse, divertido - Observe com cuidado o ambiente ao seu redor.

Com muito esforço, Drácula ajustou seus olhos e conseguiu algum foco: estava numa espécie de estádio ou arena e havia, sim, havia um homem magro e seminu algemado no extremo oposto onde seu esquife se encontrava.

– Eu tenho um batalhão de atiradores com bestas armadas de setas banhadas em água benta. Há um número igual de metralhadoras armadas com balas de prata. Logo, não tente nada estúpido!

– Como?! Por quê?

Como resposta, o grito dos espectadores feriu seus ouvidos. “Combate! Combate!”, vociferavam, fazendo as arquibancadas tremerem.

Minutos depois, a Lua finalmente surgiu no alto do céu e prateou o corpo frágil do homem acorrentado. Logo este começou a convulsionar em uma agonia crescente, cheia de gritos doloridos e de estertores alucinantes. Sua pele esticava-se e cobria-se de pelos lupinos, músculos delineavam-se sob o som de ruptura de outros tecidos que se deformavam, garras, dentes e ódio irracional cresciam a olhos vistos. A cabeça achatou-se, enquanto a boca projetava-se, formando um focinho, as orelhas recuaram e subiram eretas até o alto da cabeçorra, os olhos ambarinos e cheios de fogo faiscavam.

As luzes ultravioletas foram apagadas, no momento exato em que a fera rompeu seus grilhões, como se estes fossem feitos de ar.

“Sangue!”, “Eu aposto no lobisomem! Mais cem mil no lobisomem, bookmaker!”, “Mata, mata, mata!” – ribombava de forma caótica a turba em êxtase.

 
– Senhoras e senhores! Pela primeira vez na história, os predadores supremos, os inimigos eternos. Um é uma força da natureza: incontrolável e selvagem. O outro é o mal encarnado, a astúcia sob forma de homem. Quem vencerá o embate? O vampiro ou o lobisomem? Façam suas apostas!
Drácula saltou em direção a platéia, arrancando gritos de terror, mas um fosso cheio de solo abençoado o fez recuar e cair no meio da arena. O lobisomem saltou e desabou pesadamente sobre o vampiro, urrando, salivando sua ira, enquanto suas garras se fechavam sobre sua garganta pálida.

Girando o corpo de forma completamente não natural, o conde livrou-se de ter o rosto devorado, abriu as mãos que o estrangulavam e saltou sobre os ombros da criatura. O lobo corcoveava, como um touro bravio, rolando e saltando, num esforço inútil para se livrar do vampiro.

Drácula sussurrou algo no ouvido do homem-lobo e mergulhou seus dentes amarelos nas veias ferventes do pescoço peludo. A criatura gritou, uivou, num tom tão alto que vidros e tímpanos se romperam. Com uma torção mais forte, o vampiro quebrou-lhe o pescoço e a besta desfaleceu, caindo como uma avalancha sobre o solo poeirento da arena.

A multidão gritava em delírio: “Marmelada!”, “Ganhei, ganhei! Estou rico!”, “Trapaça! Quero meu dinheiro de volta!”. Muitos vaiavam, quando as luzes ultravioletas foram acesas de novo, obrigando o vampiro a entrar no esquife e permitindo que uma equipe retirasse o corpo inerte do homem-lobo.

*** 
Numa câmara subterrânea, cercado de crucifixos, luzes especiais e com estacas automáticas apontadas de todos os lados, o vampiro alimentava-se do sangue de um porco que acabara de abater. A humilhação de ter que comer uma refeição tão baixa e impura quase o fez chorar.

Repentinamente, uma voz conhecida soou no sistema de alto-falantes. Um homem muito bem trajado o observava de cima de uma cúpula transparente, que cobria a tal sala subterrânea.

– Boa noite, conde! O senhor já conhece a minha voz, porém não fomos formalmente apresentados. Chamo-me Enrico Van Helsing, herdeiro do clã dos famosos caçadores de vampiros. Espero que esteja muito confortável em nossas instalações e que recupere logo suas forças. Em breve você poderá enfrentar um Yeti, Banshees ou até a cobra gigante de fogo da Amazônia. Meus homens estão espalhados pelo mundo, buscando aberrações como você, para futuros e muito lucrativos embates. Sinceramente, fiquei muito surpreso com sua vitória ontem. Perdi um bom dinheiro apostando no lobisomem, mas tenho que lhe dar os parabéns.

– E o que fizeram com o corpo do lupino? Cremaram?

– Por que o súbito interesse nisto? Vocês não são inimigos naturais? Óbvio que não o cremamos, é algo muito raro e valioso. Congelamos e vamos empalhar. Ficará ótimo no salão de meu castelo na Escócia. Talvez você venha a fazê-lo companhia também, se não se sair tão bem nos próximos combates, conde gladiador!

As gargalhadas debochadas foram subitamente interrompidas por uma algazarra de ruídos desesperados, que ecoou através do sistema de áudio. Tudo ficou muito silencioso e a pesada porta, que dava acesso à área externa da câmara, voou, espatifando-se contra a parede, esmagando alguns homens. O lobisomem adentrou a sala, com fogo nos olhos e sangue nas garras.
 
– Disparem, homens! Usem balas de prata, rápido! O maldito não morreu.

Projéteis voaram como abelhas raivosas, picando a carne do homem-fera. No entanto, o monstro não arrefeceu o ataque, continuando a despedaçar todos os soldados, com extrema facilidade. Quando logrou abater todos os homens, a fera aproximou-se de Enrico e, do alto de seus três metros de altura, agachou-se e falou junto ao seu ouvido:

– Solta-o, agora!

O hálito podre e quente da fera e o tom roufenho e áspero de sua voz foram demais para o elegante senhor: Enrico, com enorme desgosto, sentiu as fezes involuntariamente descendo por suas pernas e penetrando em suas meias e sapatos finos.

Obediente, apertou alguns botões do painel, levantou algumas alavancas e as estacas se recolheram, as luzes se apagaram e as cruzes foram cobertas por portas metálicas.

– Mas como?! – gemeu Enrico, quando Drácula ascendeu até a sala e o encarou com os olhos mortiços – Balas de prata deveriam tê-lo matado! – choramingou - Não compreendo!

– Não é óbvio? – sorriu o conde – O lobisomem agora também é, em parte, um vampiro. Combinamos isto na arena de combate, ainda que a meu contragosto e dele também.

– Nunca o perdoarei por esta afronta, Van Helsing – rosnou o homem-lobo – Eu, um maldito sanguessuga!

– Amigo – disse o vampiro, sorrindo ao lupino – deixemos nossas desavenças de lado. Teremos uma noite cheia à nossa frente. Tomemos a estrada, enquanto nosso convidado nos conta, com extrema boa vontade, onde estudam seus filhos, onde vivem seus pais, sua esposa e seus melhores amigos, seus cães, seus cavalos, tudo o que ele ama. Querido Enrico, tive até uma bela ideia inspirado em você: creio que você também ficará formidável empalhado em seu castelo na Escócia. Afinal, eu já estava cansado de me esconder numa habitação que não correspondia a minha nobreza.

Pouco depois, a limusine ganhou a estrada com sua carga exótica de passageiros e virou à esquerda, para tomar a avenida principal, rumo à vingança.

Autor: Rubem Cabral
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Mentiras, mentiras!

Jamais! Não, não foi assim que tudo ocorreu! Não dêem crédito às versões distorcidas e recontadas à exaustão por aí: conheçam os fatos reais, escutem da boca de quem não tem motivos para mentir.

É verdade que nunca fui muito bem quisto e é sabido por muitos, de minha natureza de comer carne: gamo, marmotas, coelhos, esquilos. Às vezes, uma ovelha ou rês, quando tenho sorte. Satisfazer meu apetite significa sacrificar a vida de animais que são vistosos e agradáveis aos olhos da maioria, mas, é como eu lhes disse antes: não vou mentir para ganhar simpatia. Sou um lobo e ajo conforme meus instintos. Não vou fingir que me alimento de palha ou de cenouras, para que acreditem em minha história, para me pintar com cores mais agradáveis aos seus olhos. Creiam-me: nunca devorei pessoa alguma! Ou melhor, nunca o fiz intencionalmente.

Saibam, portanto, que há cerca de mil anos eu vivia na Floresta Ancestral: nada comparável às matas ralas que vocês conhecem hoje em dia. Falo de árvores centenárias, de troncos retorcidos e largos como catedrais, de raízes profundas e de copas tão altas que bloqueavam a luz do Sol completamente. Lembro-me bem destes recônditos remotos, úmidos e escuros, cujo solo jazia ainda não conspurcado por pés humanos. Trago à tona de minha memória este tempo, quando o pecado ainda era jovem, quando as lendas e mitos poderiam ser conhecidos em carne e osso. Esta era uma era muito diferente, quando a magia ainda se manifestava de forma inequívoca, em que a racional lâmina de Occam ou as crenças do Cristianismo não a haviam expulsado para outras paragens.

Certa manhã, eu saíra no encalço de uma corsa e aventurei-me mais à borda do meu mundo, muito além do que normalmente me atreveria. Farejei de longe o odor azedo das casas de um vilarejo e o cheiro de muitos cabelos ensebados e de peles nuas, como lobos sarnentos. Arrepiei meu pelo e segui cauteloso, preparado para fugir ou me defender. O rastro da corsa desapareceu dentro de um riacho límpido, longe dali. Parei para beber e vi: perdida, já em plena floresta, uma casa. Pareceu-me uma construção formidável; erguida sobre grossas toras escuras e coberta de palha muito bem amarrada e trançada. Nunca simpatizei com vocês humanos, e posso soar saudosista, mas mesmo então vocês eram melhores: mais vigorosos, hábeis e amorais.

Pois então, saiu de tal residência uma mulher alta, de longos cabelos brancos e rosto encantador, e esta veio em minha direção. Escondi-me numa moita e admirei cada movimento elegante dela, que caminhou até o riacho para se banhar. Tal mulher não era como muitos do seu povo; havia certa graça em seus gestos, como se estes fossem ensaiados, como se ela bailasse ao som de uma música que somente ela ouvia. Despiu-se, para meu deleite, e a observei, cheio de assombro e desejo. A água fria despejada sobre seus seios túrgidos, arroxeando seus mamilos e correndo apressada por suas carnes fartas, apenas para logo desaparecer, no monte de pelos crespos e olorosos, que coroava o encontro de suas pernas, verdadeiros pilares de alabastro. Óleos de flores, que a mulher trouxera num frasco, foram espalhados por sua pele, transmutando-a então num bosque inteiro em flor, em prados verdejantes e em montes de folhas outonais.

Quando ela se foi, eu retomei entristecido meu caminho de volta à mata. Eu tinha consciência de que eu era apenas um animal torpe e faminto, uma fera que não poderia conhecer o calor daquele corpo. Uma criatura inferior, condenada a sempre errar pelos caminhos lamacentos, incapaz de conhecer a glória que ela escondia entre suas pernas.
***

Melancólico, meti-me cada vez mais fundo na floresta, onde os que têm um pingo de juízo não ousariam pisar. A noite chegou e a Lua cheia iluminava debilmente meu caminho, em pleno território mágico, onde somente as criaturas da faerie comandavam.

Escutei um lamento baixo, em alguma língua que eu não compreendia bem. Segui tal som e encontrei algo extraordinário! Um duende Irlandês – jamais, em hipótese alguma, confie num duende Irlandês – jazia preso numa armadilha mágica para os de sua espécie: uma espécie de gaiola feita de gravetos e cipós, onde colocaram uma moeda de ouro como isca. Certamente, quando encontrado, ele serviria de comida para algum elfo, que o fritaria com cogumelos selvagens.

– Lobo! Ajuda-me aqui! Maldição! Há alho dos feiticeiros e mão de glória nesta armadilha! Truques sujos dos servos de Oberon e Titânia!

– Um olho por um olho, duende! Se eu te ajudar, quero algo em troca.

– Qualquer coisa, eu te suplico!

Quebrei facilmente a gaiola com os dentes e segurei a gola do casaco do duende com delicadeza. Corri para longe daquelas terras ermas e retornei ao meu covil, ignorando os protestos da diminuta criatura.

– Quero ser um homem – disse finalmente ao duende – quero ser alguém formoso, admirável.

– Um homem, lobo? Que tolice! – riu a criaturinha. Quando notou que eu falara sério, continuou: – Pois que o seja! Wolf chun fear: difríocht? Lig an draíocht deireanach go dtí an chéad tréas!

A criatura falou em gaélico, idioma do qual eu só conhecia rudimentos. Fiquei esperando algo acontecer e somente então observei o quanto eu estava alto, sobre como o duende se apequenara repentinamente. Olhei para baixo e reparei no corpo forte que eu agora habitava. Notei também uma pilha de roupas elegantes que surgira sobre o solo.

Embora eu considere que os humanos sejam criaturas esteticamente desagradáveis, o duende cumprira com sua palavra, como pude confirmar ao ver meu reflexo na superfície espelhada de um lago depois: eu era o mais belo dos homens. Muito mais alto do que a média, de olhos e cabelos claros e traços finos que completavam a figura perfeita, quase irreal, que eu me tornara.

Satisfeito, libertei o duende, que não tardou em desaparecer na floresta. Vesti, pela primeira vez na vida, roupas e caminhei, ainda aprendendo a me equilibrar sobre as patas traseiras, até a casa da dama que ganhara meu coração.

Bati à porta e apresentei-me como um cavaleiro que fora assaltado. Ofereci meus serviços em troca de comida e pousada. De início, muito desconfiada, a mulher permitiu-me somente dormir em seu celeiro. Com o passar dos dias, ganhei sua confiança, ao mostrar-me disposto em executar qualquer serviço extenuante. Cortei lenha, cuidei dos animais, consertei ferramentas e utensílios.

Cerca de dez dias depois, enquanto eu me banhava no rio ao fim de uma tarde calorenta, meus sentidos de lobo alertaram-me: eu estava sendo observado. Sorri na direção da mulher, que envergonhada espreitava-me dentre as folhas da mata e a convidei para que se banhasse também.

Ela hesitou, ainda que por alguns segundos, não obstante saiu de seu esconderijo. Segurou minha mão, que eu ofereci para que ela pudesse se apoiar e permitiu que eu a abraçasse. Seu cheiro de ervas e flores inebriava-me, o calor que emanava de sua pele, fez-me desejar devorá-la em largas dentadas. Porém, contentei-me em apenas erguê-la e segurá-la pelas ancas, enquanto meu corpo instintivamente buscava a comunhão com o dela.

Passamos juntos uma semana de completa felicidade, mais nus do que vestidos, habitando muito mais o leito de seu quarto do que qualquer outro lugar da propriedade.
*** 

– Arruma-te, querido! Minha neta visitar-me-á. Ela sempre vem no primeiro dia do mês.

– Neta? – surpreendi-me – Tu nunca falaste de uma neta.

– Casei-me muito nova, com apenas quatorze anos. Apressa-te! Temos que organizar a casa, quero que causes uma boa impressão.

Por volta da hora do almoço, bateram à porta. Fui atender e fiquei desnorteado: uma adolescente linda como um botão de flor, trajando um curioso capuz vermelho, retribuía meu olhar inquisidor.

– Vovó está? Quem é o senhor? – indagou, encarando-me sem medo, olhos nos olhos.

Apresentei-me e logo todos nós estávamos conversando e rindo à mesa, bebendo vinho e devorando um belo assado que eu preparara especialmente para a ocasião.

Meio bêbado de bom vinho, senti uma mão pressionar minha coxa sob a mesa e olhei para minha dama, censurando tal atrevimento diante da neta. Para minha surpresa, meu amor tinha as duas mãos junto de seu prato.

Fingi que nada ocorrera e afastei a mão da pequena, que já ameaçava escalar em direção de meu púbis.

– Minha filha vive aconselhando esta menina, mas não há jeito! Insiste em vestir esta capa vermelha, cor que não combina com uma moça direita – contou-me aos cochichos meu amor, enquanto a moça retirava a louça da mesa.

Como já disse muitas vezes, não tenho intenção de mentir. Poderia afirmar que a culpa foi da mocinha de capuz vermelho, que fui levado inocente à triste conclusão que ainda vou narrar a vocês, mas não! Desde o momento que a vi, a desejei: carne jovem envolvendo minha carne, gemendo ante minhas investidas, fingindo não querer, enquanto apenas desejava mais. Amava minha dama querida, certamente, mas não hesitaria em ser um joguete sexual de sua neta, cujo olhar faiscante e malicioso só não era notado pela avó.

Logo as visitas da menina de chapeuzinho vermelho tornaram-se então mais freqüentes, sentia-me numa situação inédita e divertida para mim: o velho e temido lobo mau tornara-se a caça, de uma moça por demais atrevida.
No entanto, por mais que eu quisesse, não ousaria trair meu amor. Ao menos, não de forma que ela viesse a saber claramente. Minha hesitação irritava a adolescente do chapéu vermelho e passei a evitá-la.

– Temos que nos encontrar em algum lugar na floresta, meu amor. Ou aproveitar quando minha avó sair – dizia ela.

Todavia, eu apenas tentava ganhar tempo, ignorando os gritos desesperados de meus instintos. Um mês se passou e eu continuava me esquivando.

– Eu já não suporto mais esta situação! Será que esta velha desgraçada não arreda o pé de casa? Já sou quase uma adulta. Minha mãe já era casada e estava grávida quando tinha minha idade. Eu te amo, tu tens que me assumir! – insistia a moça de capuz.

Certo dia, encarregado de ir à vila para comprar víveres e vender alguns produtos, deixei minha dama sozinha em casa.

Retornei ao cair do Sol e, para minha surpresa, somente sua neta se encontrava por lá.

– Vovó teve que ir à casa da minha mãe e passará a noite fora. Fiquei aqui para preparar o jantar para o senhor. Venha! A mesa está servida.

Uma sopeira de guisado, ainda borbulhando, estava sobre a mesa. Fatias de pão preto e manteiga também. Sentamos juntos e nos fartamos do delicioso caldo, rico e escuro, enquanto eu já não evitava os olhares indiscretos da menina.

Segurei a pequena no colo, metemo-nos sob os lençóis e começamos a nos despir.

– Para que estas orelhas tão grandes? – brincou a moça, tocando-me com seus dedos frios.

– Para te escutar melhor! – respondi, imaginando até onde tal jogo iria.

– Para que isto tão grande?

Pisquei os olhos sob a penumbra das cobertas e tudo havia mudado, repentinamente. Só então escutei os gritos alucinados da mocinha, tentando fugir de meus braços, quando notei que eu não era mais um homem e que não tinha mais braços. Como?! Transformara-me outra vez em lobo!
Com seu corpo ainda preso ao meu – este é um detalhe que não me convém comentar “como” – e com a moça ainda gritando a plenos pulmões, fomos surpreendidos pela chegada de um lenhador, armado com um machado.

Libertei-me do corpo da moça e saltei da cama, enquanto o homem bradava:

– Blasfêmia! Maldita seja! É um animal, sua bruxa! Blasfêmia!

Subi no fogão a lenha, para ascender à janela da cozinha e derrubei um grande caldeirão: pedaços diversos da querida avozinha espalharam-se pelo piso. Morta por sua própria neta, por ter ousado disputar o mesmo homem. Eu sou um lobo e posso ser cruel, porém somos bem menos brutais que vocês!

O lenhador golpeou a menina nua: várias e várias vezes. Os gritos dela foram abafados pelos ruídos úmidos e ocos, enquanto ele quebrava seu esterno para alcançar seu coração e o sangue empapava os lençóis de linho. Quando o homem finalmente direcionou sua atenção a mim, eu já corria como um louco para dentro da floresta.
***

Algum tempo se passou até que alguém mais sábio traduziu o gaélico do duende para mim: “De lobo a homem: há alguma diferença? Que a mágica dure somente até a primeira traição”. Duendes são assim: você não pode realmente confiar.

Mais tarde espalharam cartazes oferecendo recompensa para quem conseguisse me matar, porém logrei asilo no reino das faerie, depois que lhes contei minha triste história. Tornei-me então um novo mito ou personagem fantástico, embora hoje em dia nosso reino não faça mais divisa com o reino de vocês.

Distorceram os acontecimentos para ensinar lições às crianças, para acobertarem os crimes da moça de chapeuzinho e do lenhador. Contam agora sobre o lobo mau, a netinha inocente de capuz vermelho, a doce velhinha e o corajoso lenhador.

Cabe a vocês a decisão sobre a quem dar o devido crédito. Eu afirmo: tudo se resumiu em luxúria, falta de sorte e loucura! Peço somente que possam crer, ainda que por um segundo, neste lobo sedutor, num lenhador fanático religioso, numa neta psicopata ninfomaníaca e numa avó, não tão velha e comportada assim.

Já é tarde e preciso ir. Qualquer dia destes, eu conto sobre meu imbróglio com os três porquinhos incestuosos e sodomitas, mas fica para outra vez! Ah, a minha boca nem é tão grande assim!



Autor: Rubem Cabral
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