21 setembro 2010

Mentiras, mentiras!

Jamais! Não, não foi assim que tudo ocorreu! Não dêem crédito às versões distorcidas e recontadas à exaustão por aí: conheçam os fatos reais, escutem da boca de quem não tem motivos para mentir.

É verdade que nunca fui muito bem quisto e é sabido por muitos, de minha natureza de comer carne: gamo, marmotas, coelhos, esquilos. Às vezes, uma ovelha ou rês, quando tenho sorte. Satisfazer meu apetite significa sacrificar a vida de animais que são vistosos e agradáveis aos olhos da maioria, mas, é como eu lhes disse antes: não vou mentir para ganhar simpatia. Sou um lobo e ajo conforme meus instintos. Não vou fingir que me alimento de palha ou de cenouras, para que acreditem em minha história, para me pintar com cores mais agradáveis aos seus olhos. Creiam-me: nunca devorei pessoa alguma! Ou melhor, nunca o fiz intencionalmente.

Saibam, portanto, que há cerca de mil anos eu vivia na Floresta Ancestral: nada comparável às matas ralas que vocês conhecem hoje em dia. Falo de árvores centenárias, de troncos retorcidos e largos como catedrais, de raízes profundas e de copas tão altas que bloqueavam a luz do Sol completamente. Lembro-me bem destes recônditos remotos, úmidos e escuros, cujo solo jazia ainda não conspurcado por pés humanos. Trago à tona de minha memória este tempo, quando o pecado ainda era jovem, quando as lendas e mitos poderiam ser conhecidos em carne e osso. Esta era uma era muito diferente, quando a magia ainda se manifestava de forma inequívoca, em que a racional lâmina de Occam ou as crenças do Cristianismo não a haviam expulsado para outras paragens.

Certa manhã, eu saíra no encalço de uma corsa e aventurei-me mais à borda do meu mundo, muito além do que normalmente me atreveria. Farejei de longe o odor azedo das casas de um vilarejo e o cheiro de muitos cabelos ensebados e de peles nuas, como lobos sarnentos. Arrepiei meu pelo e segui cauteloso, preparado para fugir ou me defender. O rastro da corsa desapareceu dentro de um riacho límpido, longe dali. Parei para beber e vi: perdida, já em plena floresta, uma casa. Pareceu-me uma construção formidável; erguida sobre grossas toras escuras e coberta de palha muito bem amarrada e trançada. Nunca simpatizei com vocês humanos, e posso soar saudosista, mas mesmo então vocês eram melhores: mais vigorosos, hábeis e amorais.

Pois então, saiu de tal residência uma mulher alta, de longos cabelos brancos e rosto encantador, e esta veio em minha direção. Escondi-me numa moita e admirei cada movimento elegante dela, que caminhou até o riacho para se banhar. Tal mulher não era como muitos do seu povo; havia certa graça em seus gestos, como se estes fossem ensaiados, como se ela bailasse ao som de uma música que somente ela ouvia. Despiu-se, para meu deleite, e a observei, cheio de assombro e desejo. A água fria despejada sobre seus seios túrgidos, arroxeando seus mamilos e correndo apressada por suas carnes fartas, apenas para logo desaparecer, no monte de pelos crespos e olorosos, que coroava o encontro de suas pernas, verdadeiros pilares de alabastro. Óleos de flores, que a mulher trouxera num frasco, foram espalhados por sua pele, transmutando-a então num bosque inteiro em flor, em prados verdejantes e em montes de folhas outonais.

Quando ela se foi, eu retomei entristecido meu caminho de volta à mata. Eu tinha consciência de que eu era apenas um animal torpe e faminto, uma fera que não poderia conhecer o calor daquele corpo. Uma criatura inferior, condenada a sempre errar pelos caminhos lamacentos, incapaz de conhecer a glória que ela escondia entre suas pernas.
***

Melancólico, meti-me cada vez mais fundo na floresta, onde os que têm um pingo de juízo não ousariam pisar. A noite chegou e a Lua cheia iluminava debilmente meu caminho, em pleno território mágico, onde somente as criaturas da faerie comandavam.

Escutei um lamento baixo, em alguma língua que eu não compreendia bem. Segui tal som e encontrei algo extraordinário! Um duende Irlandês – jamais, em hipótese alguma, confie num duende Irlandês – jazia preso numa armadilha mágica para os de sua espécie: uma espécie de gaiola feita de gravetos e cipós, onde colocaram uma moeda de ouro como isca. Certamente, quando encontrado, ele serviria de comida para algum elfo, que o fritaria com cogumelos selvagens.

– Lobo! Ajuda-me aqui! Maldição! Há alho dos feiticeiros e mão de glória nesta armadilha! Truques sujos dos servos de Oberon e Titânia!

– Um olho por um olho, duende! Se eu te ajudar, quero algo em troca.

– Qualquer coisa, eu te suplico!

Quebrei facilmente a gaiola com os dentes e segurei a gola do casaco do duende com delicadeza. Corri para longe daquelas terras ermas e retornei ao meu covil, ignorando os protestos da diminuta criatura.

– Quero ser um homem – disse finalmente ao duende – quero ser alguém formoso, admirável.

– Um homem, lobo? Que tolice! – riu a criaturinha. Quando notou que eu falara sério, continuou: – Pois que o seja! Wolf chun fear: difríocht? Lig an draíocht deireanach go dtí an chéad tréas!

A criatura falou em gaélico, idioma do qual eu só conhecia rudimentos. Fiquei esperando algo acontecer e somente então observei o quanto eu estava alto, sobre como o duende se apequenara repentinamente. Olhei para baixo e reparei no corpo forte que eu agora habitava. Notei também uma pilha de roupas elegantes que surgira sobre o solo.

Embora eu considere que os humanos sejam criaturas esteticamente desagradáveis, o duende cumprira com sua palavra, como pude confirmar ao ver meu reflexo na superfície espelhada de um lago depois: eu era o mais belo dos homens. Muito mais alto do que a média, de olhos e cabelos claros e traços finos que completavam a figura perfeita, quase irreal, que eu me tornara.

Satisfeito, libertei o duende, que não tardou em desaparecer na floresta. Vesti, pela primeira vez na vida, roupas e caminhei, ainda aprendendo a me equilibrar sobre as patas traseiras, até a casa da dama que ganhara meu coração.

Bati à porta e apresentei-me como um cavaleiro que fora assaltado. Ofereci meus serviços em troca de comida e pousada. De início, muito desconfiada, a mulher permitiu-me somente dormir em seu celeiro. Com o passar dos dias, ganhei sua confiança, ao mostrar-me disposto em executar qualquer serviço extenuante. Cortei lenha, cuidei dos animais, consertei ferramentas e utensílios.

Cerca de dez dias depois, enquanto eu me banhava no rio ao fim de uma tarde calorenta, meus sentidos de lobo alertaram-me: eu estava sendo observado. Sorri na direção da mulher, que envergonhada espreitava-me dentre as folhas da mata e a convidei para que se banhasse também.

Ela hesitou, ainda que por alguns segundos, não obstante saiu de seu esconderijo. Segurou minha mão, que eu ofereci para que ela pudesse se apoiar e permitiu que eu a abraçasse. Seu cheiro de ervas e flores inebriava-me, o calor que emanava de sua pele, fez-me desejar devorá-la em largas dentadas. Porém, contentei-me em apenas erguê-la e segurá-la pelas ancas, enquanto meu corpo instintivamente buscava a comunhão com o dela.

Passamos juntos uma semana de completa felicidade, mais nus do que vestidos, habitando muito mais o leito de seu quarto do que qualquer outro lugar da propriedade.
*** 

– Arruma-te, querido! Minha neta visitar-me-á. Ela sempre vem no primeiro dia do mês.

– Neta? – surpreendi-me – Tu nunca falaste de uma neta.

– Casei-me muito nova, com apenas quatorze anos. Apressa-te! Temos que organizar a casa, quero que causes uma boa impressão.

Por volta da hora do almoço, bateram à porta. Fui atender e fiquei desnorteado: uma adolescente linda como um botão de flor, trajando um curioso capuz vermelho, retribuía meu olhar inquisidor.

– Vovó está? Quem é o senhor? – indagou, encarando-me sem medo, olhos nos olhos.

Apresentei-me e logo todos nós estávamos conversando e rindo à mesa, bebendo vinho e devorando um belo assado que eu preparara especialmente para a ocasião.

Meio bêbado de bom vinho, senti uma mão pressionar minha coxa sob a mesa e olhei para minha dama, censurando tal atrevimento diante da neta. Para minha surpresa, meu amor tinha as duas mãos junto de seu prato.

Fingi que nada ocorrera e afastei a mão da pequena, que já ameaçava escalar em direção de meu púbis.

– Minha filha vive aconselhando esta menina, mas não há jeito! Insiste em vestir esta capa vermelha, cor que não combina com uma moça direita – contou-me aos cochichos meu amor, enquanto a moça retirava a louça da mesa.

Como já disse muitas vezes, não tenho intenção de mentir. Poderia afirmar que a culpa foi da mocinha de capuz vermelho, que fui levado inocente à triste conclusão que ainda vou narrar a vocês, mas não! Desde o momento que a vi, a desejei: carne jovem envolvendo minha carne, gemendo ante minhas investidas, fingindo não querer, enquanto apenas desejava mais. Amava minha dama querida, certamente, mas não hesitaria em ser um joguete sexual de sua neta, cujo olhar faiscante e malicioso só não era notado pela avó.

Logo as visitas da menina de chapeuzinho vermelho tornaram-se então mais freqüentes, sentia-me numa situação inédita e divertida para mim: o velho e temido lobo mau tornara-se a caça, de uma moça por demais atrevida.
No entanto, por mais que eu quisesse, não ousaria trair meu amor. Ao menos, não de forma que ela viesse a saber claramente. Minha hesitação irritava a adolescente do chapéu vermelho e passei a evitá-la.

– Temos que nos encontrar em algum lugar na floresta, meu amor. Ou aproveitar quando minha avó sair – dizia ela.

Todavia, eu apenas tentava ganhar tempo, ignorando os gritos desesperados de meus instintos. Um mês se passou e eu continuava me esquivando.

– Eu já não suporto mais esta situação! Será que esta velha desgraçada não arreda o pé de casa? Já sou quase uma adulta. Minha mãe já era casada e estava grávida quando tinha minha idade. Eu te amo, tu tens que me assumir! – insistia a moça de capuz.

Certo dia, encarregado de ir à vila para comprar víveres e vender alguns produtos, deixei minha dama sozinha em casa.

Retornei ao cair do Sol e, para minha surpresa, somente sua neta se encontrava por lá.

– Vovó teve que ir à casa da minha mãe e passará a noite fora. Fiquei aqui para preparar o jantar para o senhor. Venha! A mesa está servida.

Uma sopeira de guisado, ainda borbulhando, estava sobre a mesa. Fatias de pão preto e manteiga também. Sentamos juntos e nos fartamos do delicioso caldo, rico e escuro, enquanto eu já não evitava os olhares indiscretos da menina.

Segurei a pequena no colo, metemo-nos sob os lençóis e começamos a nos despir.

– Para que estas orelhas tão grandes? – brincou a moça, tocando-me com seus dedos frios.

– Para te escutar melhor! – respondi, imaginando até onde tal jogo iria.

– Para que isto tão grande?

Pisquei os olhos sob a penumbra das cobertas e tudo havia mudado, repentinamente. Só então escutei os gritos alucinados da mocinha, tentando fugir de meus braços, quando notei que eu não era mais um homem e que não tinha mais braços. Como?! Transformara-me outra vez em lobo!
Com seu corpo ainda preso ao meu – este é um detalhe que não me convém comentar “como” – e com a moça ainda gritando a plenos pulmões, fomos surpreendidos pela chegada de um lenhador, armado com um machado.

Libertei-me do corpo da moça e saltei da cama, enquanto o homem bradava:

– Blasfêmia! Maldita seja! É um animal, sua bruxa! Blasfêmia!

Subi no fogão a lenha, para ascender à janela da cozinha e derrubei um grande caldeirão: pedaços diversos da querida avozinha espalharam-se pelo piso. Morta por sua própria neta, por ter ousado disputar o mesmo homem. Eu sou um lobo e posso ser cruel, porém somos bem menos brutais que vocês!

O lenhador golpeou a menina nua: várias e várias vezes. Os gritos dela foram abafados pelos ruídos úmidos e ocos, enquanto ele quebrava seu esterno para alcançar seu coração e o sangue empapava os lençóis de linho. Quando o homem finalmente direcionou sua atenção a mim, eu já corria como um louco para dentro da floresta.
***

Algum tempo se passou até que alguém mais sábio traduziu o gaélico do duende para mim: “De lobo a homem: há alguma diferença? Que a mágica dure somente até a primeira traição”. Duendes são assim: você não pode realmente confiar.

Mais tarde espalharam cartazes oferecendo recompensa para quem conseguisse me matar, porém logrei asilo no reino das faerie, depois que lhes contei minha triste história. Tornei-me então um novo mito ou personagem fantástico, embora hoje em dia nosso reino não faça mais divisa com o reino de vocês.

Distorceram os acontecimentos para ensinar lições às crianças, para acobertarem os crimes da moça de chapeuzinho e do lenhador. Contam agora sobre o lobo mau, a netinha inocente de capuz vermelho, a doce velhinha e o corajoso lenhador.

Cabe a vocês a decisão sobre a quem dar o devido crédito. Eu afirmo: tudo se resumiu em luxúria, falta de sorte e loucura! Peço somente que possam crer, ainda que por um segundo, neste lobo sedutor, num lenhador fanático religioso, numa neta psicopata ninfomaníaca e numa avó, não tão velha e comportada assim.

Já é tarde e preciso ir. Qualquer dia destes, eu conto sobre meu imbróglio com os três porquinhos incestuosos e sodomitas, mas fica para outra vez! Ah, a minha boca nem é tão grande assim!



Autor: Rubem Cabral
 
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