21 setembro 2010

O grande embate

O Sol brilhava esbranquiçado e escaldante naquela região poeirenta e esquecida por Deus. Perdido, em meio do agreste, um celeiro insuspeito, abandonado, salvo por algumas corujas e morcegos, agitava suas janelas e portas, como se acenasse ao vento alaranjado daquela tarde cheia de vento sujo.

Ignorando a pintura descascada e o mau estado geral do lugar, dois homens vestidos com roupas elegantes sorriram ao abrir a porta do cadafalso escondido sob uma pilha de feno e infestado de escorpiões.

– É aqui – disse o mais alto dos dois, esmagando alguns artrópodes com as botas - eu tenho certeza que achamos! Veja, os sinais estão por toda parte: cruzes quebradas, manchas de sangue, palavras de blasfêmia escritas na parede e em Romeno!

– Romeno? Tem certeza? Isso significa que... Oh, Deus! É melhor desistirmos, vamos fugir antes que ele nos descubra.

– Não! Não perdi os últimos anos de minha vida em pesquisas, à toa. Gastei boa parte da fortuna que meu pai me deixou: subornando, contratando detetives, místicos e todo tipo de gentalha. Fuja agora e eu o mandarei atrás de ti.

Desceram as escadas apodrecidas e encontraram um caixão suspenso sobre cavaletes de madeira nobre. O esquife estava coberto de inscrições misteriosas e de desenhos horrendos de origem pagã.

– Ajuda-me a enrolar o caixão com esta estola Papal. Fixemos cruzes e páginas da Bíblia sobre cada centímetro da superfície do túmulo do maldito. Vá, vá lá fora e prepare o guincho da caminhonete: nossa carga preciosa já está pronta pra partir!

E foi assim, sem maior cerimônia, sem pompa ou circunstância, que levaram o caixão do conde na boléia sacolejante de um pequeno caminhão.
*** 


José acordou com a pior das ressacas naquela manhã. Com muito esforço, levantou o torso magro e extremamente arranhado, descolando os lençóis do sangue que insistia em mantê-lo preso ao leito. Sua cabeça girava e o estômago borbulhava como se os esgotos do Inferno houvessem resolvido transbordar sua acidez corrosiva de uma só vez.

Correu até o banheiro e vomitou, copiosamente. Ergueu a cabeça, ainda com os olhos cheios de lágrimas e travou, no momento em que iria dar descarga. Cheio de nojo, com o auxílio de um pedaço de papel, retirou de dentro do sanitário: uma pata de cachorro (talvez um dobermann, considerando o tamanho e a cor) e um dedo humano, ainda ostentando um belo e caro anel de rubi.

– Não! Não outra vez! Mas a cigana me garantiu que a maldição havia sido afastada. De que valeu tanto trabalho e despesa? Ela me paga! Ela me paga!

Batidas educadas à porta de seu quarto o obrigaram a se recompor. Secou a boca e o suor da testa com uma toalha e foi atender. Quem seria a esta hora da manhã?

– Senhor José de Andrade Ferreira? – perguntou um homem que vestia roupas talvez mais adequadas para um baile de gala.

– Sim, sou eu. O que vo...

Nunca conseguiu completar a frase. Um disparo de uma arma não letal o fez cair ao chão, se debatendo no ritmo das centenas de milhares de volts do taser. Segundos depois, uma injeção de anestésico em seu pescoço o fez dormir.

O segundo pacote já fora coletado
***

 
O Conde Drácula acordou dentro de seu esquife, alertado pelos ruídos estranhos do lado de fora. Com um movimento rápido, rompeu a madeira de lei da tampa do caixão, que se partiu em mil farpas, como se fosse papel e expôs o rosto fantasmagórico e as presas longas e infectas. Seus olhos de imediato arderam e ele se protegeu com a capa, enfiando-se de volta no fundo do caixão. Havia algo de errado, muito errado! Seus instintos nunca o enganariam: não era mais dia, como a luz ainda poderia o queimar?

– Bem-vindo, Conde! Fico contente que tenha acordado. Espero que tenha feito uma viagem confortável desde aquele celeiro poeirento e infestado onde o senhor escolhera para se esconder.

– Como ousas, mortal? Devorarei o teu coração, arrancarei tuas tripas e te estrangularei com elas, porém despedaçarei teus filhos antes! Isso! Far-te-ei observar o padecimento deles, será lento, agonizante: pagar-me-á muito caro por esta afronta!

– Sempre tão pomposo, conde! Sem nunca perder a pose, não? – riu o homem misterioso – Hoje você não comanda aqui, velho chupador de sangue. Ó apavorante visão da morte, sedutor de pudicas senhoritas virginais. Ha, ha! Como você pôde sentir, luzes ultravioletas estão acesas e, se por acaso ousar sair, queimará como se passeasse ao Sol do meio-dia num dia de verão em pleno Vale da Morte. Estamos somente aguardando a hora certa, guarde bem suas forças! Logo a Lua cheia apontará no céu e você poderá dar vazão a sua fúria.

– Lua cheia? E por acaso me tomas por algum maldito lobisomem, verme desprezível? Tira-me daqui e concordarei em dar-te uma morte rápida. Afinal, onde estou?

– Olhe, senhor conde – disse, divertido - Observe com cuidado o ambiente ao seu redor.

Com muito esforço, Drácula ajustou seus olhos e conseguiu algum foco: estava numa espécie de estádio ou arena e havia, sim, havia um homem magro e seminu algemado no extremo oposto onde seu esquife se encontrava.

– Eu tenho um batalhão de atiradores com bestas armadas de setas banhadas em água benta. Há um número igual de metralhadoras armadas com balas de prata. Logo, não tente nada estúpido!

– Como?! Por quê?

Como resposta, o grito dos espectadores feriu seus ouvidos. “Combate! Combate!”, vociferavam, fazendo as arquibancadas tremerem.

Minutos depois, a Lua finalmente surgiu no alto do céu e prateou o corpo frágil do homem acorrentado. Logo este começou a convulsionar em uma agonia crescente, cheia de gritos doloridos e de estertores alucinantes. Sua pele esticava-se e cobria-se de pelos lupinos, músculos delineavam-se sob o som de ruptura de outros tecidos que se deformavam, garras, dentes e ódio irracional cresciam a olhos vistos. A cabeça achatou-se, enquanto a boca projetava-se, formando um focinho, as orelhas recuaram e subiram eretas até o alto da cabeçorra, os olhos ambarinos e cheios de fogo faiscavam.

As luzes ultravioletas foram apagadas, no momento exato em que a fera rompeu seus grilhões, como se estes fossem feitos de ar.

“Sangue!”, “Eu aposto no lobisomem! Mais cem mil no lobisomem, bookmaker!”, “Mata, mata, mata!” – ribombava de forma caótica a turba em êxtase.

 
– Senhoras e senhores! Pela primeira vez na história, os predadores supremos, os inimigos eternos. Um é uma força da natureza: incontrolável e selvagem. O outro é o mal encarnado, a astúcia sob forma de homem. Quem vencerá o embate? O vampiro ou o lobisomem? Façam suas apostas!
Drácula saltou em direção a platéia, arrancando gritos de terror, mas um fosso cheio de solo abençoado o fez recuar e cair no meio da arena. O lobisomem saltou e desabou pesadamente sobre o vampiro, urrando, salivando sua ira, enquanto suas garras se fechavam sobre sua garganta pálida.

Girando o corpo de forma completamente não natural, o conde livrou-se de ter o rosto devorado, abriu as mãos que o estrangulavam e saltou sobre os ombros da criatura. O lobo corcoveava, como um touro bravio, rolando e saltando, num esforço inútil para se livrar do vampiro.

Drácula sussurrou algo no ouvido do homem-lobo e mergulhou seus dentes amarelos nas veias ferventes do pescoço peludo. A criatura gritou, uivou, num tom tão alto que vidros e tímpanos se romperam. Com uma torção mais forte, o vampiro quebrou-lhe o pescoço e a besta desfaleceu, caindo como uma avalancha sobre o solo poeirento da arena.

A multidão gritava em delírio: “Marmelada!”, “Ganhei, ganhei! Estou rico!”, “Trapaça! Quero meu dinheiro de volta!”. Muitos vaiavam, quando as luzes ultravioletas foram acesas de novo, obrigando o vampiro a entrar no esquife e permitindo que uma equipe retirasse o corpo inerte do homem-lobo.

*** 
Numa câmara subterrânea, cercado de crucifixos, luzes especiais e com estacas automáticas apontadas de todos os lados, o vampiro alimentava-se do sangue de um porco que acabara de abater. A humilhação de ter que comer uma refeição tão baixa e impura quase o fez chorar.

Repentinamente, uma voz conhecida soou no sistema de alto-falantes. Um homem muito bem trajado o observava de cima de uma cúpula transparente, que cobria a tal sala subterrânea.

– Boa noite, conde! O senhor já conhece a minha voz, porém não fomos formalmente apresentados. Chamo-me Enrico Van Helsing, herdeiro do clã dos famosos caçadores de vampiros. Espero que esteja muito confortável em nossas instalações e que recupere logo suas forças. Em breve você poderá enfrentar um Yeti, Banshees ou até a cobra gigante de fogo da Amazônia. Meus homens estão espalhados pelo mundo, buscando aberrações como você, para futuros e muito lucrativos embates. Sinceramente, fiquei muito surpreso com sua vitória ontem. Perdi um bom dinheiro apostando no lobisomem, mas tenho que lhe dar os parabéns.

– E o que fizeram com o corpo do lupino? Cremaram?

– Por que o súbito interesse nisto? Vocês não são inimigos naturais? Óbvio que não o cremamos, é algo muito raro e valioso. Congelamos e vamos empalhar. Ficará ótimo no salão de meu castelo na Escócia. Talvez você venha a fazê-lo companhia também, se não se sair tão bem nos próximos combates, conde gladiador!

As gargalhadas debochadas foram subitamente interrompidas por uma algazarra de ruídos desesperados, que ecoou através do sistema de áudio. Tudo ficou muito silencioso e a pesada porta, que dava acesso à área externa da câmara, voou, espatifando-se contra a parede, esmagando alguns homens. O lobisomem adentrou a sala, com fogo nos olhos e sangue nas garras.
 
– Disparem, homens! Usem balas de prata, rápido! O maldito não morreu.

Projéteis voaram como abelhas raivosas, picando a carne do homem-fera. No entanto, o monstro não arrefeceu o ataque, continuando a despedaçar todos os soldados, com extrema facilidade. Quando logrou abater todos os homens, a fera aproximou-se de Enrico e, do alto de seus três metros de altura, agachou-se e falou junto ao seu ouvido:

– Solta-o, agora!

O hálito podre e quente da fera e o tom roufenho e áspero de sua voz foram demais para o elegante senhor: Enrico, com enorme desgosto, sentiu as fezes involuntariamente descendo por suas pernas e penetrando em suas meias e sapatos finos.

Obediente, apertou alguns botões do painel, levantou algumas alavancas e as estacas se recolheram, as luzes se apagaram e as cruzes foram cobertas por portas metálicas.

– Mas como?! – gemeu Enrico, quando Drácula ascendeu até a sala e o encarou com os olhos mortiços – Balas de prata deveriam tê-lo matado! – choramingou - Não compreendo!

– Não é óbvio? – sorriu o conde – O lobisomem agora também é, em parte, um vampiro. Combinamos isto na arena de combate, ainda que a meu contragosto e dele também.

– Nunca o perdoarei por esta afronta, Van Helsing – rosnou o homem-lobo – Eu, um maldito sanguessuga!

– Amigo – disse o vampiro, sorrindo ao lupino – deixemos nossas desavenças de lado. Teremos uma noite cheia à nossa frente. Tomemos a estrada, enquanto nosso convidado nos conta, com extrema boa vontade, onde estudam seus filhos, onde vivem seus pais, sua esposa e seus melhores amigos, seus cães, seus cavalos, tudo o que ele ama. Querido Enrico, tive até uma bela ideia inspirado em você: creio que você também ficará formidável empalhado em seu castelo na Escócia. Afinal, eu já estava cansado de me esconder numa habitação que não correspondia a minha nobreza.

Pouco depois, a limusine ganhou a estrada com sua carga exótica de passageiros e virou à esquerda, para tomar a avenida principal, rumo à vingança.

Autor: Rubem Cabral
 
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