29 novembro 2010

A Casa Xadrez

outono3Devia ser uma tarde de maio. Não tenho certeza, minha memória já anda velha e gasta, mas lembro que fazia frio. Então devia ser maio; maio sempre faz frio. Não sei ao certo o que eu buscava, não acreditava mais em alívio ou respostas. Só lembro de andar pelas ruas a esmo. Mas entenda, isso já faz muito tempo, então talvez houvesse sentido na época. Algumas de minhas lembranças foram modificadas, outras perdidas e decerto carrego umas tantas inventadas. Os anos esculpem nossa memória sem muito compromisso com a verdade.
Mas lembro perfeitamente do instante em que a avistei pela primeira vez. Guardei a imagem em um relicário cuidadosamente protegido das artimanhas do tempo. A Casa Xadrez, assim a batizei, exatamente como os vizinhos chamavam minha casa dos tempos de menino. Era revestida por quadradinhos de cerâmica brancos e pretos, que lhe conferiam o inusitado visual. Parei para observá-la por alguns instantes e notei que as semelhanças com minha antiga residência não se limitavam ao quadriculado de seu revestimento — a porta cor de marfim, o pequeno canteiro de margaridas que ornamentava a entrada, o velho portão enferrujado que meu pai vivia dizendo que trocaria — tudo era rigorosamente idêntico, como se alguém houvesse construído uma meticulosa réplica da moradia de meus pais, que há muito fora demolida.
Sim, sim, eu deveria imaginar que havia algo de errado com aquela espantosa descoberta. Se estivesse à luz de minha consciência, talvez houvesse escapado de meu destino. Mas quem, em meu estado de espírito, poderia se guiar pela razão? Aproximei-me da casa como um bebê que corre para os braços da mãe. A cada passo, um vislumbre de reconhecimento; o rangido do portão, o cheiro suave das flores, a terra fofa do quintal que parecia fugir de meus pés.

MaçanetaBati na porta sem saber ao certo o que esperar como resposta. Ninguém atendeu. Insisti; nada. Girei então a pequena maçaneta redonda e dourada — detalhe que eu mesmo escolhera quando menino — e, como num passe de mágica, estava em minha antiga sala de estar, caminhando sobre o piso que seguia o padrão quadriculado do exterior, admirando o grande lustre do século XIX que meu pai trouxera da Europa.
Fiquei maravilhado. Não havia um único detalhe no interior da nova Casa Xadrez que fugisse à original. Visitei cada cômodo como se relesse um velho diário de infância. A disposição dos móveis, a antiga máquina de costura de minha mãe, os discos empoeirados de meu pai. Nem mesmo as imperfeições foram esquecidas; a porta da despensa continuava emperrada e o sofá ainda exibia a enorme mancha de café que me valera uma boa surra. Eu podia até sentir o cheiro dos cigarros que jamais saiam da boca do meu velho e, se fechasse os olhos, ainda ouvia o barulho ritmado da máquina de costura que por tanto tempo me atormentou, mas que naquele momento soava como uma antiga música que rememorava bons tempos.
Subi ao primeiro andar para visitar os quartos e o escritório de meu pai. Revi, com uma prazerosa melancolia, a prateleira de miniaturas que minha mãe colecionava e a máquina de escrever em que meu pai virara noites e noites, em seu árduo ofício de jornalista. No meu quarto, encontrei a mesma cama bagunçada e os aeromodelos que eu construía. Percebi, naquele momento, que não havia outro lugar no mundo para mim. Ali, cercado por minhas confortáveis memórias, poderia recomeçar. Sentia-me seguro, protegido, como se voltasse para o útero materno.
Decidi ficar na casa até que o proprietário aparecesse, então lhe faria uma proposta irrecusável pelo lugar. Venderia tudo o que tinha se preciso fosse, pagaria o triplo do valor do imóvel, mas não podia viver fora dali. Estava resolvido. Porém, nada disso foi necessário — o dono, seja lá quem fosse, jamais apareceu para reclamar a posse do local.

Nas primeiras semanas, tudo correu bem. Sentia-me disposto, revigorado. Dedicava horas à exploração de cada recanto da casa, embriagando-me com minhas boas recordações. Recuperei inspiração e ânimo para escrever. Há meses que eu não criava uma linha sequer, mas, quando sentei na pesada cadeira em que meu pai datilografava, foi como se tirassem a pedra que obstruía a nascente de minhas ideias, e o som que as teclas da máquina faziam ao serem golpeadas parecia ser o combustível para que a fonte não mais secasse.
Fiquei tão maravilhado com a transformação que a Casa Xadrez operava em meu ser que sequer reparei que não saíra de casa desde o dia em que cruzei a porta marfim. Tampouco me ocorreram os problemas de ordem prática que a casa resolvia por si mesma: a geladeira estava sempre cheia, o chão e os móveis limpos e os lençois da cama renovados.
Meu processo criativo jamais fora tão rápido. Em pouco mais de dois meses, terminei meu primeiro livro na Casa Xadrez — um romance narrando a história de um homem amargurado que volta para casa após saber da morte dos pais e reencontra ali o prazer de viver. Era uma ode à minha nova casa. Não pensei em publicá-lo, o mundo externo já não me interessava. Escrevia para mim mesmo, para celebrar minha nova vida. Tudo ia tão bem que decidi que era hora de expurgar meus demônios. Escreveria sobre as trevas que me assolavam antes de eu encontrar a casa. Era esse o momento de libertar-me de todo o peso que carregava em minha alma.
Revirar as memórias que eu vinha tentando soterrar até então era tarefa das mais doloridas e nem mesmo o conforto da Casa Xadrez impediu que alguns fantasmas lamuriassem por terem sido despertos de seus jazigos. Nos momentos mais sombrios, eu deixava o escritório, acendia um cigarro e mergulhava novamente no oceano de lembranças que a casa me proporcionava.

Numa dessas pausas, após remontar uma passagem de minha vida que me perturbou particularmente, fui ao meu quarto, em busca de uma melhoria em meu estado de espírito. Fiquei um tempo brincando com os velhos aeromodelos quando notei uma porta de mogno próxima ao armário de brinquedos, a cor avermelhada contrastando com o azul infantil que coloria as paredes. Aquela porta nunca estivera ali antes. Passei dias explorando cada milímetro daquele lugar e tinha plena convicção disso.
Hesitei durante um tempo, não apenas pelo inusitado do fato, mas porque aquela porta, seja lá para onde desse, representava uma ruptura que podia desequilibrar meu paraíso espiritual e imaginativo. Era minha Caixa de Pandora. Mas seria impossível não abri-la; não poderia conviver com aquela nova passagem me atormentando dia e noite, sem saber que destino ela guardava. Girei a fria maçaneta e entrei.
A porta dava para um cômodo totalmente escuro. Um perfume familiar infestava o ambiente, mas eu não o reconhecia. Tateei pela parede até encontrar um interruptor, apertei-o e uma forte luz alva me cegou. Quando meus olhos se habituaram à iluminação, vi que estava numa pequena sala totalmente branca, de paredes lisas. O chão estava quase completamente coberto por pelos, mas, por baixo deles, podia ver finas marcas de pneus. Abaixei-me e peguei um punhado daqueles pelos amarelados. Era dali que vinha o cheiro — o perfume do xampu de Duque, meu primeiro cachorro. Eu o matara por acidente, enquanto aprendia a andar de bicicleta. Jamais me recuperei do incidente, jurara a mim mesmo que não mais pilotaria algo que pusesse em risco a vida de alguém. Daí minha fixação por aviões — achava que no ar nada de mal poderia acontecer.

Saí da sala desorientado, entre lágrimas e tropeços. A dor daquela lembrança me valeu uma noite ardendo em febre. Meu refúgio fora maculado por uma mancha sangrenta que eu fizera questão de enterrar em meu passado. A paz que outrora a Casa Xadrez me oferecia agora se transformara em pânico — que outras passagens ela poderia conter? Onde elas me levariam? Eu estava novamente à mercê das memórias de que fugia até então.
No dia seguinte voltei ao quarto e constatei que a porta vermelha não estava mais lá. Percorri o restante da casa; tudo parecia ter voltado ao normal. Porém, a sensação de desconforto não me abandonou. A cada passo que dava, em cada cômodo que entrava, pressentia que algo estava prestes a acontecer, como se a casa me espreitasse em busca do momento certo para uma nova estocada.
Decidi sair um pouco de casa, caminhar pela rua, fumar um cigarro e espairecer a mente. Foi só nesse momento que percebi que não saia de casa há meses. Olhei ao meu redor, perplexo, imaginando como tudo se mantera em ordem até então. Mas não estava disposto a divagar por muito tempo e atravessei a sala a passos largos, repentinamente ansioso para ter contato com o mundo exterior.
Quando cheguei à porta marfim, senti meus músculos travarem — sim, aquela deveria ser a porta que me daria acesso ao jardim de margaridas, mas a maçaneta era ovalada e negra. Alguma memória devastadora deveria me esperar para além daquela porta, mas resolvi abri-la mesmo assim. Porém, o que encontrei foi algo que superava totalmente minhas expectativas — a mesma sala que acabara de atravessar. Não que a sala anterior houvesse desaparecido; permaneci estático na porta por alguns instantes, olhando para as salas idênticas.
combinadodesalasEra como se eu estivesse dentro de um espelho, olhando imagem e reflexo.
Não havia outra coisa a fazer a não ser atravessar essa nova sala, em busca da maçaneta dourada. A vertigem da situação me enjoava e o padrão xadrez do piso começou a me deixar tonto. Parei por um momento, em busca de ar. Ergui a cabeça e notei, aterrorizado, que na nova sala não repousava o antigo lustre. Em seu lugar, rodando vagarosamente, estava um gigantesco móbile para berços, ornamentado por aviões de brinquedo. Era o móbile que eu construíra para o berço de Lara.
Meu estômago se contraiu com violência e eu senti que perderia os sentidos. Antes que eu viesse a desfalecer, disparei em direção à nova porta marfim, ainda esperançoso em encontrar a saída. Mas a porta me levou à outra réplica da sala. Atravessei-a sem olhar ao redor. E o destino era outra sala idêntica. Devo ter atravessado mais de dez vezes a mesma sala até finalmente cair, exausto, o rosto encharcado por suor e lágrimas.
Não sei ao certo se adormeci ou desmaiei, só posso afirmar que no outro dia acordei em minha cama, agasalhado em minhas cobertas, tudo perfeitamente em ordem. Mas a Casa Xadrez não mais me enganaria. Eu precisava fugir dali. Estava disposto a fazer qualquer coisa, enfrentar as artimanhas da casa — destruí-la se preciso fosse — mas eu não podia viver sob o peso de meu passado, ou da loucura a que ele me levaria.
Foi então que a tormenta começou. A casa não me deixava partir. As janelas não se abriam, nem era possível quebrá-las; as pessoas que passavam pela rua não podiam me ver ou ouvir. Com o tempo percebi que a paisagem do lado de fora mudava constantemente, embora eu não pudesse precisar se a casa alterava o seu entorno ou a minha percepção. Também não havia um padrão para dia e noite. Por vezes ficava mergulhado em trevas por semanas, noutras, o sol parecia jamais se pôr.

Tentar encontrar a porta de saída era uma tarefa inútil. A casa criava novos cômodos, replicava outros, construía labirintos intransponíveis. Sempre que eu chegava à porta marfim, não era a maçaneta dourada que me esperava. Percebi que também não havia como destruí-la. Eu podia quebrar o que quer que fosse, a casa reconstruía assim que eu virasse as costas. Nem mesmo minha tentativa de incendiá-la trouxe algum resultado.
Quanto mais eu tentava fugir daquele lugar, mais a casa me castigava. Minhas piores lembranças saltavam das portas, das gavetas, do fundo dos armários. A Casa Xadrez, que imaginei ser minha salvação, mostrou-se o mais cruel de todos os infernos — uma prisão assombrada pelos piores fantasmas que um homem pode carregar — os fantasmas de seu passado.
Passaram-se anos sem que houvesse um dia sequer em que eu não buscasse uma forma de ludibriar a casa e libertar-me de meu cativeiro. Com o tempo, a esperança foi me abandonando, junto com qualquer sentimento que ainda pudesse habitar em minha alma. As memórias ruins, que a casa desencavava de meu peito e esculpia ao meu redor, quase não me afetavam. Eu somente vagava pela casa, olhando pelos cantos, buscando um pequeno brilho dourado que me trouxesse de volta à vida.
Quando eu já imaginava que nada de novo poderia acontecer — ou me afetar — a casa me mostrou a última de suas revelações. Eu estava no quarto dos meus pais, observando as miniaturas que minha mãe colecionava, tentando imaginar o significado que cada uma possuía para ela. Fui tirado de minhas elucubrações por um estrondo ensurdecedor, um trovão vindo do teto. Algo devia ter atingido a Casa Xadrez. As paredes estremeceram furiosamente, vários móveis foram ao chão, espelhos se espatifaram. Eu me encolhi no chão, sem saber o que esperar. Talvez finalmente a casa estivesse morrendo.

O pandemônio durou alguns minutos, depois tudo voltou à calmaria. Ergui-me e olhei ao redor, sem conseguir distinguir o que sentia, tamanho era o tempo em que não sentira nada. Saí do quarto; uma escada aparecera no corredor. Durante todos esses anos, nunca surgira um segundo andar. Então onde daria a escada? No teto? Estaria a casa me oferecendo uma chance de sair? Os questionamentos circulavam em minha mente enquanto eu vencia, lentamente, os degraus.
sótaoQuando cheguei ao topo, vi que estava numa espécie sótão. Por toda parte havia destroços de um pequeno avião, um ultraleve. Eu já estivera em meio a esses mesmos destroços antes, mas inconsciente. Caminhei por eles, as lágrimas me escapando pelo rosto, embora eu não me sentisse triste, apenas vazio. Perto de um pedaço grande de uma das asas, encontrei o corpo de Irene. Um corte profundo lhe retalhava o rosto, mas ainda era bonita. Tomei-a em meus braços e beijei-lhe os lábios frios. Em seguida encontrei Lara. Ela estava caída de bruços, o cabelo castanho manchado de sangue. Usava o vestido azul que eu lhe dera de natal. Não tive coragem de virá-la, apenas pedi desculpas e saí. Naquele dia entendi que a casa jamais me deixaria ir embora.
Hoje já estou velho e fraco. Não odeio a Casa Xadrez; o ódio demanda muito esforço e estou cansado demais para alimentá-lo. A casa para mim é como uma velha companheira que aprendi a me acostumar com o tempo. Acredito que não tornarei a ver o mundo lá fora — e nem sei se o mereço. Às vezes ainda perambulo pelos cômodos, correndo os olhos pelos cantos, em busca da velha maçaneta dourada. Mas — me pergunto — e se a encontrasse, ainda seria capaz de cruzar mais uma porta?





Autor: Felipe Falconeri
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27 novembro 2010

Quem vence a guerra é quem tem a melhor estratégia

“Toda guerra tem seu preço que é a morte de pessoas inocentes.”

vampira

Sophie era alta, magra, cabelos negros e compridos, tinha um nariz fino, uma boca pequena e uma sobrancelha bem desenhada. Sua aparência era de uma garota meiga, carinhosa, tímida e atenciosa, no entanto ela escondia um segredo sombrio.
Trabalhava em uma loja de conveniências em um posto de gasolina vinte e quatro horas, à beira da estrada nos arredores da pequena cidade.
Conan era o gerente do posto. Alto, gordinho, cabelos castanhos e bagunçados. Um homem muito simpático e sorridente.
Chegou a troca de turno, era uma hora da madrugada. Sophie e Conan pegaram suas coisas e se despediram de Claire e Bob. Sophie como sempre recusou a carona de Conan, pois costumava ir a pé para casa, passando vez ou outra por algumas florestas e terrenos abandonados.
Caminhando mata adentro e perdida em seus pensamentos, ela se depara com restos do que pareciam ser sete vampiros. Ela ficou irada com tal cena, deu meia volta e foi pedir carona à beira da estrada. Um carro, parou a sua frente.
    - Boa noite! – ela falou gentilmente. – será que o senhor podia me dar uma carona até a minha casa? – completou com um sorriso.
    - Claro, entre. – o motorista respondeu.
    Ela sentou no banco de trás.  O motorista se virou para Sophie.
    - Onde você mora? – perguntou.
    - Próximo da saída 27.
    Enquanto dirigia, Sophie leu os pensamentos do homem que revelou a verdadeira intenção dele. “Garota gostosa, vai ver o que vou fazer com você quando chegarmos na rota 27”. Sophie não gostou do pensamento do sujeito e se posicionou de um jeito que um humano qualquer refletiria no espelho retrovisor. Alguns minutos depois, o homem percebeu algo errado com sua passageira. Ele olhava no retrovisor e ela não aparecia no espelho, contudo quando olhava para trás ela estava lá. Parou o carro bruscamente.
    - O que diabos é você? – ele perguntou horrorizado.
    Ela percebeu que seu plano tinha dado certo. Sem responder e em uma velocidade incrível ela foi para o banco da frente. Os olhos dela estavam pretos e os do homem arregalaram. Ele tentou sair do carro e ela o segurou com força.
    - Aonde pensa que vai, querido? – ela satirizou.
    - Me larga criatura do inferno.  – ele disse desesperado.
    - Ah, não posso deixar alguém tão suculento como você sair assim, além do mais você irá comprometer minha verdadeira identidade. Seu sangue deve ser muito bom, deixe-me prová-lo. – ela falou se aproximando da veia saltada do pescoço do homem.
    Ele tentou se desvencilhar e ela começou a espancá-lo, deixando-o inconsciente, porém vivo, pois ela ouviu os batimentos cardíaco dele, o que aumentou mais ainda a sua sede de sangue. Com o homem desacordado ela investiu contra o pescoço dele, bebendo daquele líquido rubro que satisfazia-lhe a fome. Após constatar que o homem realmente estava morto ela jogou seu corpo inerte no banco traseiro, ocupou o lugar que outrora era daquele pobre homem e dirigiu até a mansão de Christopher. Pelo caminhou encontrou um homem muito bonito pedindo carona. Sophie deixou-o entrar e ele sentou no banco do carona.
    - Para onde você vai, querido? – ela perguntou gentilmente.
    - Eu vou um pouco a frente da saída 27.
    Enquanto ela dirigia o passageiro examinava o carro e notou o corpo do homem no banco traseiro e pelo sangue espalhado na roupa, deduziu que ele estivesse morto e se sobressaltou perante a situação. Sophie percebeu e parou o carro.
    - O que foi?
    - O que aconteceu com o homem que está no banco traseiro? – ele perguntou inseguro.
    - Nada, só está dormindo, provavelmente bêbado.
    - E esse sangue todo é o que então?
    “Garoto curioso demais, droga”, Sophie pensou. “Vou ter que agir agora”, concluiu.
    Ela não respondeu e empurrou a cabeça dele contra o vidro, fazendo-o bater o nariz e ficar inconsciente. Ela aproveitou e bebeu o sangue dele, matando-o. O corpo dele foi fazer companhia para o outro morto no banco traseiro.
    Na saída 27 ela tinha que subir uma serra. Alguns quilômetros antes da mansão ela parou o carro e carregou os corpos até o barranco, deixando-os cair na imensidão escura. Ela seguiu dirigindo e finalmente chegou ao seu destino.
   
Werewolf_by_GinasaA mansão tinha um aspecto abandonado com um jardim arruinado. Com uma força descomunal ela abriu o portão emperrado, passou pelo jardim e foi surpreendida por dois lobisomens. Ela atacou-os e correu para dentro da mansão. Ao entrar percebeu que o interior negava o aspecto pavoroso do lado de fora, à direita era a sala de estar com sofás vermelhos posicionados em “L”, na frente de uma lareira acesa, à esquerda ficava a cozinha e a despensa e em cima tinha os quartos. Passou pela sala de estar e foi até a sala de jantar, bem requintada, com móveis de madeira maciça e objetos de ouro, adornavam aquele cômodo. Na ponta da comprida mesa de jantar estava Christopher desfrutando de um banquete, rico em carne. Ele era alto, magro, tinha cabelos negros e curtos, olhos azuis, vestia uma calça preta com uma blusa branca justa que modelava seus músculos. Ao me ver franziu o cenho.
    - O que seus vira-latas sarnentos andaram aprontando, Christopher? – Sophie perguntou irada.
    - Não sei do que você está falando. A propósito, boa noite Sophie.-  ele respondeu calmamente.
    - Ah, boa noite! Não se faça de cínico. Então como você explica os vampiros estraçalhados que encontrei na floresta?
    - E o que você quer que eu faça? – perguntou displicente.
    - Que tal, colocar uma coleira nesses seus vira-latas?
    - Não nos chame de vira-latas. – ele retrucou irado, cerrando o punho direito na mesa. – sua vampira nojenta.
    Na velocidade dos vampiros ela pegou-o pelo pescoço e derrubou-o de costas no chão.
    - Então, não se meta com a minha espécie. – ela bradou.
    - Me solta sanguessuga. – ele arranhou seu peito e empurrou-a.
    Ela colocou a mão na ferida que jorrava sangue e doía muito.
    - A próxima eu não vou errar seu pescoço. – ele falou nervoso.
    - Você está provocando uma guerra em que os lobisomens irão sucumbir. Esteja dia 7 de julho no centro da cidade, às vinte e duas horas.
    - É o que veremos, estaremos lá.
Ela saiu batendo os pés. E Christopher ficou pensativo “Até parece que os vampiros vão vencer a gente, somos mais fortes e mais espertos. Essa vadia verá do que sou capaz”.
    A guerra evitada por séculos estava prestes a acontecer, no centro de uma cidade pequena, com o intuito de causar impacto. Sophie pensou no acordo feito entre seu pai e o pai de Christopher, mas com os lobisomens atacando os vampiros, esse acordo estava rompido e organizou o maior exército de vampiros jamais visto, todos armados com armas carregadas com balas de prata. Ela tinha em mente de que os militares interviessem e exterminassem os lobisomens, afim de que os vampiros se livrassem dessa espécie que ameaça a existência deles.
    Na data marcada, Sophie chegou atirando e derrubando alguns lobisomens. Christopher deu a ordem à centenas de lobisomens que o obedeciam:
    - Matem cada um desses vampiros fétidos que dividem a terra conosco.
   
combinelobomaisvamp

Os lobisomens com tochas nas mãos, partiram pra cima dos vampiros que atiravam compulsivamente. Os humanos que estavam dormindo acordaram com o barulho dos tiros. Tentaram fugir ao ver o que estava acontecendo, mas foram capturados por vampiros e lobisomens, sendo os mais fracos servindo de alimento e os fortes transformados. Casas foram destruídas com o peso dos lobisomens que vez ou outra eram lançados pelos vampiros.
    Os humanos que tinham passado despercebidos pelos “monstros”, tentavam fugir da cidade e avisar as autoridades. O exército foi acionado e não demorou a chegar. Em primeira instância o exército não sabia de que se tratava de uma guerra entre vampiros e lobisomens, e pensou que os vampiros eram humanos se defendendo dos monstros, e passaram a atacar os lobisomens com bombas.
    Muitos lobisomens e vampiros morreram. Sophie era muito ágil e esquivava com facilidade dos golpes de Christopher, que tinha que desviar das balas de prata. Christopher acertou um golpe no abdômen de Sophie, atravessando-o, ela caiu, por sorte não foi decepada, uma bomba provinda do exército caiu entre ela e Christopher, lançado-os em direções opostas. Ela notou que Christopher estava distraído com a fumaça da bomba e não estava vendo-a, Sophie aproveitou tal oportunidade e atirou acertando seu coração.
    Ele morreu e ela foi ajudar os vampiros que estavam em desvantagem, matou outros tantos lobisomens e levou vários arranhões. Sophie e seus vampiros precisavam se esconder, pois estava prestes a amanhecer e eles iriam desaparecer.
- Vamos voltar! – ela gritou. – está amanhecendo.
    Os lobisomens agora teriam uma vantagem, o sol, portanto tentaram impedir que os vampiros fugissem. O exército que não entendeu o motivo dos supostos humanos estarem se retirando, atiraram contra os lobisomens, que os perseguiam.
    Alguns vampiros se esconderam em construções abandonadas, outros fugiram para a mata. Sophie se escondeu em um galpão abandonado no meio da floresta. Ela acordou às dezessete horas do dia seguinte. O sol já estava se pondo e não podia mais matá-la. Ela não sabia o que tinha acontecido durante o dia. Então ela subiu em uma pedra, com as armas em punho e avistou a cidade, alguns prédios tinham desmoronado, outros resistiram às bombas do exército, que já tinha se retirado, e não era possível ver nenhuma pessoa ou lobisomem. Sophie descobriu, que muitos lobisomens sucumbiram nas mãos do exército, outros sobreviveram, vivendo escondidos e os humanos que outrora fugiram, voltaram a pequena cidade para reconstruir suas vidas.

Autora: Milly Pellegrini

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19 novembro 2010

Mirra

meninaajoelhada

“Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que às vezes poderíamos ganhar pelo medo de tentar.”
"Quanto maior a dificuldade, tanto maior o mérito em superá-la. (H W Beecher)"

Ler aquelas frases espalhadas pelo quarto não me incentivavam nem um pouco. Eu olhava e tinha vontade de reduzi-las a migalhas. O quarto pintado de lilás me causava náuseas, pedras espalhadas por pontos estratégicos e aquele cheiro nauseabundo de mirra me deixava irritada, não sei como era possível alguém suportar permanecer naquele local. No criado mudo vejo o livro do momento “O poder da paciência”, levanto as sobrancelhas assustada, nada é pior que livros de auto – ajuda . As cortinas esvoaçantes escondem o dia nublado, eu adoro dias assim sinto me renovada. Ainda na porta do quarto leio mais uma destas frases que com certeza estragam meu dia, cada letra contem uma cor e um desenho patético que ajuda a coisa toda ficar pior. Por pouco não arranco aquilo, mas serei paciente. Saio do inferno colorido, do lado de fora sinto cheiro de café fresco, como é doce este cheiro. Caminho devagar até a cozinha e sou surpreendida por uma mão conhecida.
—Não mocinha, nada disto, você não pode! -Diz uma voz delicada que retira a xícara da minha mão.
—Maninha o que houve com você? –Alguém de voz jovial bate de leve em meu ombro.

Olho furiosa para as duas e me retiro da cozinha. Obrigo-me a retornar para o inferno colorido. Revejo a decoração, o tapete floral perto da cama eu não havia notado. Uma canção melosa começa a fluir, o cheiro de mirra aumenta. Olho ao redor e misteriosamente tudo começa a ficar escuro, estou nua, começo a me apavorar. O dia nublado se foi, ouço apenas um lamento persistente. Apoio a mão nas paredes, não existe abertura, quero sair daqui, por favor. Ponho as mãos no rosto e o desespero toma conta de mim, tento andar, mas não existe espaço para isto. As paredes estão me sufocando, serei esmagada aqui. Respiro fundo e solto o ar, não funciona. As paredes estão se aproximando, elas vão me esmagar, preciso sair. Grito com a plena força dos meus pulmões, o lamento aumenta e eu grito mais alto que ele, ele persiste e eu começo a sentir dor na garganta. O lamento se torna insuportável e então eu paro de gritar. Aos poucos ele vai diminuindo. Sento e abraço meus joelhos, permaneço imóvel e o lamento some por completo, um silêncio perturbador envolve minha mente.
—Mãe não existe mesmo nada que possamos fazer? –A voz jovial fala num sussurro.
—Não filha, ela deve fazer tudo sozinha, as coisas só melhoram de dentro para fora. –A voz da mãe sai desta vez com menos docilidade.
—Tenho pena de minha irmã, a senhora viu como ela estava vestida? Será que esta terapia está fazendo efeito? – Diz a irmã com o olhar fixo na xícara da mãe.
—Deve estar querida, não viu como ela retornou para o quarto assim que falei com ela?
—Sim, ela parecia em transe quando eu a toquei. – A irmã contornava a borda da xícara com o indicador.

A mãe suspira e olha para o relógio, sente saudades de sua filha sorridente. A irmã se levanta e devagar vai até o quarto, entreabre a porta e olha com carinho para Lara. A moça esta sentada com as pernas cruzadas em forma de lótus, de seus lábios rosados sai um lamento quase indecifrável.
incensoO incenso de mirra queima vigoroso, criando uma atmosfera mística. A janela entreaberta revela um dia ensolarado, convidativo. O vento bate de leve nos adornos entoando um som calmante, ela inspira o ar com vontade, soltando-o devagar, sem pressa. O lamento cessa, ela abre os olhos e descruza as pernas. Levanta-se devagar, troca a roupa e sai.
—Como se sente mana? –Pergunta a irmã curiosa
—Obrigada Lóris, seu toque ajudou-me muito hoje. –Responde Lara sem sorrir

A garota caminha para a cozinha, cumprimenta a mãe com um beijo e dirige-se para a geladeira. Toma um copo de leite gelado e sai despedindo-se da mãe e jogando um beijo para a irmã . Pega a bolsa e sai para a realidade. Em sua mente alguém sofre sozinho, incompreendido. Ela trancou por mais alguns momentos aquele baú, caminha decidida e sem pensar na outra. Trancada em sua própria prisão ela finge ter algo que jamais possuirá.

Autora: Val

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08 novembro 2010

Campanha: Blogueira Educada ... faça parte também!!!

Caros leitores essa postagem não é um conto, nem um relato... é algo que deve ser exercido por todos e que vale a pena divulgar ... !


Campanha da Blogueira Educada. Se você também quer aderir tal campanha acrescente o selo abaixo em seu blog com o link para a postagem das 15 dicas da arte de comentar nos blogs.



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03 novembro 2010

Boa Noite

mae-lendo-filhoMamãe costumava me contar histórias para dormir. Toda noite, sentada em uma velha cadeira de balanço ao lado da minha cama, lia um capítulo de um livro grosso e sem desenhos, enquanto afagava meus cabelos, até eu cair no sono. É, assim que era. Mas então, um dia, mamãe parou de ler para mim. Papai disse que ela havia viajado para muito longe. Fiquei triste por ela não ter me levado, e acho que ele também, porque o vi chorando várias vezes. Daquela noite em diante, tive que dormir sem história nenhuma.
Seguiram-se meses, e nada de mamãe voltar. Papai já quase não ficava em casa, e, quando aparecia, carregava normalmente um cheiro forte, enquanto falava e andava de um jeito engraçado. Não gostava quando ele voltava assim. Quase sempre, apanhava. Nas noites em que percebia a mudança, corria para o meu quarto, fechava a porta e fin-gia ter dormido. Na maioria das vezes, funcionava.
Pai e filho 2Em um desses dias, perguntei a ele onde mamãe estava. Só pude sentir sua mão se chocando com meu rosto. Com a panca-da, cai e perdi um pedaço do meu dente. No dentista, papai disse que cai da escada. Nunca tinha visto ele bravo assim. Decidi não falar mais sobre a mamãe com ele.
Com o tempo, eu o via cada vez menos, havendo noites em que papai nem dormia em casa. Foi em uma delas que acordei com um barulho no andar de baixo. Decidi ver se era ele que havia chego. Segui devagar até a porta do quarto, abrindo-a uns três dedos para olhar pela fresta recém criada. Não conseguindo ver muita coisa, sai em direção ao corredor, seguindo para a escada que daria na sala de estar. Tudo estava muito escuro! Preferi não acender a luz para que papai não me visse acordado. Apenas a luz da cozinha e uma parca claridade vinda dos postes da rua faziam a tarefa de iluminar o local. Corri meus olhos pelo lugar todo, mas não achei nada. Foi então que ouvi o barulho de alguém mexendo na louça. Por pouco não voltei para o meu quarto. Tomei coragem, me ajoelhei e fui engatinhando até a porta da cozinha, atravessando a sala.

Quando cheguei perto da cozinha, fiquei imóvel, sentado ao lado da porta com o ouvi-do esperando alguma coisa, mas nada veio. Coloquei então aos poucos minha cabeça para dentro do cômodo, e foi ai que a vi. Era ela! Mamãe! De pé, parada em frente a pia. Corri em sua direção. Chegando ao seu lado, abracei-a pela cintura. Não foi um abraço normal. Mamãe não era assim fria antes. Mamãe era quente, cheirosa e macia. Sua roupa estava suja e esfarrapada. Nem sapatos estava usando! Ela continuou parada. Dei alguns passos pra trás e a chamei. Nada. Gritei novamente, enquanto puxava a barra do seu vestido. Foi ai que ela olhou para mim. Corri de volta para a porta. Aquela não era a mamãe!
z-mascaraSua pele estava toda cinzenta, com umas manchas escuras. Sua boca era apenas um risco esfumaçado negro, sem dentes, nem língua, nem nada. Seus olhos tinham su-mido, ficando apenas dois vazios. Continuou virada para a pia, mas olhava para mim, e não mexeu mais um músculo sequer. Eu já estava quase sem ar, me comprimindo contra a parede, e assim que consegui mexer de novo minhas pernas, corri até a escada. Che-gando lá, parei e olhei para a porta da cozinha. Passo a passo, a imagem de mamãe ia aparecendo, até que pude ver todo o seu corpo. Lentamente, virou-se em minha direção. Ficamos assim por minutos, apenas ao som da minha respiração e do meu coração. De súbito, seus braços começaram a erguerem-se lentamente, como se oferecesse um abraço. Por um instante, pensei em ir a seu encontro, mas logo mudei de idéia, pois ela partiu em disparada em minha direção, correndo desesperada em meio a tropeços. Subi o mais rápido que pude a escada e me joguei para dentro de meu quarto. Tranquei a porta e sentei no chão com os joelhos próximos ao meu corpo, prendendo minha respiração. Logo pude ouvir os passos arrastados passando ao lado da porta, seguindo o corredor.

Decidi fugir para a casa da vovó Nina. Abri a porta com cuidado, para evitar barulho. Coloquei a cabeça para fora e, pela escuridão, pude ver o vulto de mamãe parado em frente à janela do seu quarto. Olhava para a rua. O quê, eu não sei, mas aproveitei a o-portunidade para ir até a escada. Cada passo parecia ensaiado pra evitar ruídos. Cheguei até a escada com sucesso, e quando já confiante, pisei em falso um degrau, o que acabou fazendo baque alto. Mamãe virou-se imediatamente pra mim, com aqueles buracos no lugar dos olhos, me procurando. Desci trêmulo em direção à porta, enquanto ouvia os passos enlouquecidos de mamãe atrás de mim. Já nos últimos degraus, senti seus dedos frios segurando meu tornozelo. Cai. Tentei me arrastar em direção a porta, mas ela me puxava em sua direção. Aos poucos, seu rosto foi se aproximando do meu. Suas mãos comprimiam o meu peito contra o chão, e logo ela já tinha me dominado usando o peso de seu corpo. Mantinha o seu rosto disforme a poucos centímetros do meu, quando me olhou nos olhos e com sua mão magra começou a brincar com meus cabelos.
“Mamãe?”
maeefilhoEm seguida, só me lembro de sua imagem vindo contra mim. No começo, doeu muito. Minha pele, meus músculos, meus ossos. Tudo parecia machucado, quebrado, torcido. Ai, vieram o vermelho e o frio. Depois, não veio nada. As dores sumiram, o calor voltou. Agora eu podia ver mamãe. A mamãe com olhos, sorrisos e perfume. A mamãe de verdade. Agora já não apanho mais. Agora ela me abraça e brinca com meus cabelos. E todas as noites, tenho histórias para dormir.

Autor: Vítor

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02 novembro 2010

Jack Barbazul

barbazulEra uma vez, há muito tempo, quando o Brasil ainda tinha um Imperador, um casal de prósperos fazendeiros, Dona Maria e Seu Félix Torres de Medeiros. Eles tinham quatro filhos: uma menina e três meninos. A menina, a mais velha dos quatro filhos, era muito feia. Os pais tentavam ver em Cláudia algo que pudessem enaltecer, mas era difícil: o ralo cabelo de um louro pálido, a pele marcada por inúmeras verrugas, os dentes tortos, que apodreceram muito antes do esperado, além da triste sina de mancar da perna esquerda, faziam com que a tentativa não tivesse muito sucesso. Aos quinze anos, a moça era conhecida como “Cláudia, a coxa”. A menina cresceu, ciente de sua feiúra, pois ninguém a deixava esquecer disso.
Quando ela completou quinze anos, sua mãe engravidou novamente e, meses depois, deu à luz a uma linda menina. “Essa será diferente! Posso ver sua beleza desde agora!”, dizia para si mesma, comparando as duas filhas. Ao pensar naquilo, viu surgir diante de si uma mulher que proferiu as seguintes palavras:


— Sou a Fada Madrinha de sua filha que acabou de nascer! Ouve bem meus conselhos, para que a pequena tenha uma vida feliz!
E aproximando-se do bercinho da menina falou, diante de Dona Maria:
— Será a perfeição em forma de pessoa. Mas ouve bem o que vou dizer: para ser feliz ela deverá se casar com o homem mais estranho que já viu em sua vida, um estrangeiro que virá de muito longe, de além mar! Este homem sim, saberá valorizar sua beleza. Não precisará procurar por ele, pois ele baterá à vossa porta!

08021201_blog_uncovering_org_belezaCom o passar dos anos, as palavras maternas e as da Fada se materializaram: Rosália era a moça mais linda que qualquer pessoa já tinha visto: os cabelos loiros da cor do trigo, os olhos azuis da cor do céu, a pele alva e perfeita, o sorriso capaz de emocionar, as mãos delicadas, a voz melodiosa como o canto dos pássaros! Não havia como não comparar: como Cláudia e Rosália podiam ser irmãs? Como?Faltava agora aparecer o tal homem estranho... Intimamente, Dona Maria não desejava um casamento daqueles para Rosália, queria-a casada com um bom moço, tão belo quanto ela. Por outro lado, tinha medo de que a filha não fosse feliz.
Os três filhos homens do casal já tinham formado suas famílias e ido morar em suas próprias fazendas quando Seu Félix faleceu de um ataque do coração. A mãe ficou só com as duas filhas na propriedade da família. Ela não se importava muito com o que Cláudia fazia com o seu tempo livre.

A filha mais velha costumava passar algumas noites em um orfanato onde era voluntária, cuidando das crianças e Dona Maria não se incomodava. Ia e voltava sozinha, em uma carruagem. Esse deveria ser o destino de Cláudia, pensava Dona Maria: viver para a caridade, pois certamente não se casaria. O tempo em que não estava no orfanato, Cláudia devotava-o todo a Rosália, era tal qual um anjo-da-guarda, uma companheira para todos os momentos.
Um dia estavam Dona Maria e Rosália sentadas debaixo do alpendre da casa, bordando, quando viram um homem estranho se aproximar, tão estranho que até possuía uma barba azul! Ele desceu de seu cavalo, fez uma reverência e começou a falar:


— Boa tarde! Chamo-me Jack Barbazul Knife e venho de longe, dos Estados Unidos da América, mas minha mãe nasceu aqui. Moro no Brasil há dez anos e mudei-me para esta vila recentemente. Para minha alegria, descobri que é aqui que mora a única mulher nesse mundo que há de me fazer feliz!
Rosália e Dona Maria estremeceram. A primeira, porque não tinha gostado nem um pouco do jeito daquele homem: grande, com cabelos pretos ensebados, presos na nuca e a barbicha azul reluzente. Não, ele não se parecia em nada com o príncipe que sonhara para si! A segunda, porque teve a certeza de que era aquele homem o tal estranho que a Fada tinha mencionado. E que criatura estranha! Além da feiúra, o desgraçado fedia!
— O que desejas aqui, Sr. Barbazul?
— Desejo pedir a mão de vossa filha mais nova em casamento! Amo-a, desde que a vi sair da igreja, na missa de domingo.
— Não, mamãe, não! - suplicou Rosália, gritando. - Eu não quero me casar com esse homem!
Dona Maria começou a chorar. Estava dividida, mas a Fada dissera...
— Dar-vos-ei a resposta em três dias, precisarei pensar. - pediu a senhora, tristemente.
— Eu retornarei, com a certeza de que meu pedido será aceito! Sou um homem riquíssimo, capaz de realizar todos os desejos daquela a quem eu desposar!
E foi-se embora, deixando Rosália em prantos, nos braços da mãe. Quando Cláudia retornou, ao cair da tarde, a mãe contou tudo à filha mais velha. Também contou sobre a aparição da Fada Madrinha e do que havia profetizado, algo que não havia contado a ninguém até então. Cláudia parecia encantada com o fato da irmã mais moça ter uma Fada Madrinha. Ela, pelo visto, não tivera a mesma regalia!
— Se o destino de Rosália deve ser esse, minha mãe, de minha parte prometo-te que, se quiseres, poderei ir viver com Rosália quando ela se casar! Serei tal qual uma guardiã, protegendo-a! Deixarei até mesmo minhas atividades no orfanato para estar com ela todo o tempo! - assegurou Cláudia à mãe.
A mãe tranquilizou-se um pouco mais e, no dia combinado, lá estava Jack Barbazul Knife de volta à fazenda dos Torres de Medeiros. As três mulheres o aguardavam no alpendre.
— Concedo-vos a mão de Rosália, minha filha mais nova, porém com a condição de que minha filha mais velha, Cláudia, acompanhe-a quando forem morar em vossa casa.
— Muito justo. Aceito a condição! Obrigado, Senhora, farei de sua filha a mais amada entre as mulheres! Adianto que não desejo esperar muito tempo. Farei correr os proclamas imediatamente.

Jack partiu rápido, para providenciar tudo o que fosse necessário à união com Rosália.
Cláudia consolou a irmã, dizendo que o tal Jack certamente haveria de ter qualidades que compensariam aquela aparência.

— Acalma-te, irmã... Para tudo dá-se um jeito. Se ele te ama, com certeza fará o que pedires! Aquele fedor sairá com banhos aromáticos, aposto. Algo poderá ser feito também para retirar aquele sebo do cabelo... Se ele cortar a barbicha sempre, quem dirá que ela é azul? Ele não parece ser como eu, no meu caso não há remédio, sou feia e assim morrerei!
— Cláudia, tens razão... Se é esse o meu destino, tentarei cumpri-lo, fazendo o que me sugeriste... Mas não sejas tão dura contigo mesma! Se não tens a beleza exterior, certamente és bela no amor que devotas aos entes a quem deseja o bem! Estou feliz de tê-la ao meu lado!
Enfim, em poucos dias casaram-se. Não houve uma grande festa, Jack levou as duas irmãs para sua fazenda e a vida de Rosália como Senhora Barbazul Knife começou, sem o povo entender como uma mãe tivera a coragem de dar a própria filha em casamento a um homem como aquele.
— Nem mesmo é católico! Passa longe da porta da igreja! Quem sabe não foi uma promessa desesperada? Viram como escarrava quando a carruagem deles passou por aqui? - comentavam os moradores.


Meses depois a vila, antes tão calma, tornou-se agitada com as notícias que chegavam da capital da província. Crimes horrendos começaram a acontecer, sem nenhuma explicação. Durante seis noites de lua cheia, separadas por um intervalo de poucos dias, seis cortesãs foram brutalmente assassinadas em São Paulo: todas evisceradas, os úteros arrancados e, o pior, todas degoladas, sem que nenhuma das seis cabeças tivesse sido encontrada. A notícia de que um assassino de cortesãs agia em São Paulo deixou o povo daquela vila amedrontado: estariam seguros ali, separados por apenas uma hora de viagem da capital?


— Ao menos sabemos que ele ataca somente cortesãs, as moças de família estão a salvo!- foi o comentário feito por um moralista.

Rosália passava muito tempo sozinha com a irmã, pois o marido tinha negócios a tratar em outras cidades. Rosália não entendia o porquê, depois de pouco mais de dois meses, do marido não demonstrar a mínima intenção em consumar o casamento. Até fazia questão de que dormissem em aposentos separados. Como ela não tinha conseguido ainda fazer com que Jack Barbazul modificasse seus hábitos de higiene, Rosália não reclamava daquela condição. Ainda mantinha a pureza virginal, para sua felicidade. Jack era bem mais velho que ela, ele poderia morrer... E ela estaria livre! Uma ideia passou a ocupar sua mente todo dia, sempre que o via fazer uma refeição: ele comia como um porco! E se o envenenasse, lentamente? Já não tinha cumprido a vontade da mãe e da Fada Madrinha? Só não sabia como faria aquilo, pois Cláudia a vigiava em todos os momentos, salvo quando estava dormindo. Se saísse na calada da noite, talvez conseguisse encontrar algum veneno! Talvez uma das mucamas pudesse ajudá-la nesse sentido. Antes, porém, precisava estar muito segura de que não seria descoberta. Mucamas não lhe pareciam confiáveis. Deveria tentar então contar com Cláudia para o que planejava? Seria tão fiel a irmã, a ponto de ser sua cúmplice?

porta_fechadaUma das coisas que intrigava Rosália era uma sala que vivia sempre fechada e somente Jack Barbazul tinha a chave. Ele passava muito tempo ali, sozinho, sem deixar que ninguém entrasse nela além dele. Quando ele retornava de uma viagem, era para lá que se dirigia em primeiro lugar.
Iniciava-se o mês de março e Jack começou a se preparar para viajar novamente. Daquela vez, chamou Rosália para lhe fazer um pedido:

— Rosália, desta vez demoro mais dias para voltar. Deverei ficar o mês todo fora. Aqui estão todas as chaves da casa, caso necessite abrir uma das portas. Peço-te, porém, que não use esta chave prateada. É a chave que abre minha sala particular, onde somente eu devo entrar, compreendes? Deixo as chaves contigo para que eu não corra o risco de perdê-las nessa longa temporada fora. Se resolveres desobedecer-me eu saberei, estejas certa! Adianto-te que, caso isso aconteça, tu e tua irmã serão severamente punidas, entendeste?
— Sim, senhor meu marido. - assentiu Rosália, abaixando a cabeça, em sinal de obediência.
Jack Barbazul partiu, deixando as irmãs sozinhas com os criados.


Conforme os dias passavam, a curiosidade de Rosália só aumentava. Aquela porta fechada, misteriosa, fazia nascer em sua mente uma curiosidade maior a cada dia. Já fazia mais de uma semana que o marido partira e ela não resistiu, por fim. Disse a si mesma que apenas abriria a porta, olharia para dentro, veria como era a sala e a fecharia novamente. Assim tentou fazer, porém quando abriu o cômodo, um vento gelado tal qual a morte pareceu escapar de lá, quase fazendo-a desistir. Estava muito escuro e ela não conseguia enxergar nada. Pegando um candelabro com uma vela acesa entrou, prometendo a si que seria por apenas um minuto. Não mais que um rápido minuto. Haviam, nessa sala, apenas uma cadeira e uma mesa, muito comprida. Em cima da mesa, diversos apetrechos, cuja serventia Rosália desconhecia. Estranhos, pareciam objetos usados por médicos. Ao olhar para sua esquerda, viu a cortina que cobria quase toda a parede. Uma cortina vermelha. O que teria atrás dela? Um quadro muito valioso, talvez? “Só mais alguns segundos”, pensou ela, afastando a cortina com cuidado. Porém, tão grande foi seu susto que, na tentativa de abafar seu grito, deixou o candelabro cair ao chão, fazendo com que um pequeno incêndio começasse. Rosália controlou as chamas, porém uma parte da cortina tinha ficado danificada, com as pontas enegrecidas.

— Senhor! Não pode ser verdade...


Diante dela, em três prateleiras, estavam seis cabeças de mulher, dispostas duas a duas. Todas com os olhos abertos, petrificados. Todas sorrindo, um sorriso que devia ter sido produzido por Jack, com as ferramentas estranhas. Todas sorriam exatamente igual!
Saiu correndo, nem pensando se tinha colocado a cortina no lugar. Agora não importava mais. Precisava sair dali o quanto antes. Avisaria Cláudia de sua descoberta e as duas iriam para a casa da mãe e depois, contariam às autoridades o que ela tinha visto. Encontrou Cláudia lendo na biblioteca:


— Minha irmã, precisamos sair daqui. Jack, ele... É ele o assassino, o matador de cortesãs, o ladrão de cabeças femininas, ou sei lá como o chamam. É ele!
— O que dizes? Como...
— Sim, Cláudia, é ele! Abri a tal sala misteriosa, com a chave prateada. Estão lá, as seis cabeças... Ele faz algo com elas, tem muitos objetos lá dentro estranhos... E ele vai saber que o desobedeci, a cortina ficou chamuscada quando deixei a vela cair... Vamos sair daqui agora, não posso continuar nesse lugar. Vamos, por favor! — falava a moça, sem controle.
— Sim, claro que vamos... Vá ao meu quarto, pegue uma valise que tenho lá, dentro do armário. É mais cômodo para carregarmos apenas o necessário, não podemos usar os baús de seu quarto. Nem pensemos em roupa nenhuma agora. Onde está o molho de chaves? Dê-me para que eu possa verificar se tu fechaste mesmo a porta da sala...
— Sim, eu nem sei se a fechei... Cláudia, estou apavorada! Esse homem... Ainda bem que nós nunca... Nunca... - disse Rosália, em desespero, entregando as chaves à irmã.
Rosália foi ao quarto de Cláudia e abriu o armário, procurando pela valise. Foi sem demora que ouviu o barulho da porta se fechando atrás de si e sendo trancada por fora.
— Cláudia?
Correu para tentar abri-la, mas estava mesmo trancada.
— Cláudia! Cláudia! Foste tu? Deixe-me sair!
Ouviu a voz da irmã do lado de fora:
— Eu deixarei que saia na hora certa. Não adianta gritar, Rosália. Aguarda tua hora.

Não adiantavam os gritos de Rosália. A janela tinham tábuas por fora, como ela conferiu, ao tentar encontrar uma saída. Do lado de fora, dois escravos da maior confiança montavam guarda. E nenhum dos outros ousaria contar a alguém de fora que a esposa do “Barão” Knife tinha enlouquecido, sob pena de ir para o tronco. Rosália não teve outro destino a não ser esperar, sem entender a atitude da irmã.
No madrugada de 17 de março, precisamente, Jack Barbazul retornou. A porta do quarto onde a esposa estava se abriu e ele entrou, junto com Cláudia. Ele trazia uma valise e, de dentro dela, tirou um facão afiado.

JackEstripador— Na verdade, Rosália, eu sabia que não conseguirias deixar a curiosidade de lado. Isso é um grande defeito das mulheres belas e sensíveis, como tu. Saibas, porém, que teu destino já estava traçado, desde o teu nascimento. Era teu destino servir em um lento e mágico ritual. A sétima mulher, a sétima a ser degolada. A sétima que, diferente das outras, deve ser virgem. O sangue da sétima, ao ser derramado por um varão, deve libertar a Rainha Anoli do mundo das almas errantes. E ela reinará de novo, no Reino de Aknon.
— Piedade, senhor meu marido... Piedade! - suplicou Rosália. Foi quando viu aparecer diante deles aquela que deveria ser a sua Fada Madrinha, pela descrição que a mãe lhe tinha feito. Sim, só podia ser ela, que tinha vindo ajudá-la naquele horripilante momento!
— Rosália, que bom vê-la! - disse a Fada.
— Ajoelha-te diante da Rainha Anoli! - gritou Cláudia, gargalhando.
— Rainha Anoli? Mas ela é... - Rosália não conseguia entender.
— A sua Fada Madrinha? - perguntou a mulher, gargalhando, enquanto se transformava completamente. Seus cabelos cresceram até o chão, tornando-se negros e volumosos. O vestido era negro, colado ao corpo, uma capa vermelha caía de seus ombros, tão vermelha quanto eram os seus olhos impiedosos. - Sinto que tenha descoberto em péssima hora que você não tem fada madrinha! Sinto que tenha descoberto que tua irmã é uma das minhas mais fiéis servas, junto a teu marido, aquele que tomou para si a missão de me devolver ao meu reino! Até que viveste muito, Rosália. O suficiente para ser admirada. Agora, eu tenho milênios à minha frente para serem aproveitados, depois de milênios trancafiada em outra dimensão... Corte-lhe a garganta, agora! Já se passaram exatamente treze horas do eclipse anular solar!
Jack cumpriu a ordem, separando a cabeça de Rosália de seu corpo com apenas um golpe. A Rainha banhou-se no sangue da irmã de Cláudia, enquanto um tremor sacudia o local. Após alguns minutos, um portal de fogo se abriu, a passagem para Aknon, um dos reinos malditos das profundezas. Antes de partir, a Rainha fez um pedido:


— Deixo a cargo dos dois que consigam mais servos para adorarem a mim e ao Reino de Aknon, em algum lugar onde estejam a salvo. Quando tudo estiver pronto, voltarei para dar-vos novas ordens. Adeus!
E a Rainha atravessou o portal, desaparecendo e levando consigo o corpo de Rosália e as sete cabeças. Quando tudo se fechou, Jack e Cláudia se beijaram. Tinham cumprido a missão, iniciada há tanto tempo!
— Precisamos ir embora agora! Desaparecer! - disse Cláudia.
— Já pensei em tudo. Vamos partir, há um navio indo para a Inglaterra, saindo do porto daqui a dois dias. Deixaremos uma carta, dizendo que fomos embora nós três, como se sua irmã estivesse conosco.
— Inglaterra? A ideia é deveras interessante!
“Interessante e esperta és tu, Cláudia”, era o que pensava Jack Barbazul Knife naquele momento. Ela podia ser feia. Seu pescoço, porém, era lindo. O mais lindo que já vira em sua vida. E os dois viveram felizes, por um tempo. Um breve tempo, por sinal!

Autora: Bia Machado

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