03 novembro 2010

Boa Noite

mae-lendo-filhoMamãe costumava me contar histórias para dormir. Toda noite, sentada em uma velha cadeira de balanço ao lado da minha cama, lia um capítulo de um livro grosso e sem desenhos, enquanto afagava meus cabelos, até eu cair no sono. É, assim que era. Mas então, um dia, mamãe parou de ler para mim. Papai disse que ela havia viajado para muito longe. Fiquei triste por ela não ter me levado, e acho que ele também, porque o vi chorando várias vezes. Daquela noite em diante, tive que dormir sem história nenhuma.
Seguiram-se meses, e nada de mamãe voltar. Papai já quase não ficava em casa, e, quando aparecia, carregava normalmente um cheiro forte, enquanto falava e andava de um jeito engraçado. Não gostava quando ele voltava assim. Quase sempre, apanhava. Nas noites em que percebia a mudança, corria para o meu quarto, fechava a porta e fin-gia ter dormido. Na maioria das vezes, funcionava.
Pai e filho 2Em um desses dias, perguntei a ele onde mamãe estava. Só pude sentir sua mão se chocando com meu rosto. Com a panca-da, cai e perdi um pedaço do meu dente. No dentista, papai disse que cai da escada. Nunca tinha visto ele bravo assim. Decidi não falar mais sobre a mamãe com ele.
Com o tempo, eu o via cada vez menos, havendo noites em que papai nem dormia em casa. Foi em uma delas que acordei com um barulho no andar de baixo. Decidi ver se era ele que havia chego. Segui devagar até a porta do quarto, abrindo-a uns três dedos para olhar pela fresta recém criada. Não conseguindo ver muita coisa, sai em direção ao corredor, seguindo para a escada que daria na sala de estar. Tudo estava muito escuro! Preferi não acender a luz para que papai não me visse acordado. Apenas a luz da cozinha e uma parca claridade vinda dos postes da rua faziam a tarefa de iluminar o local. Corri meus olhos pelo lugar todo, mas não achei nada. Foi então que ouvi o barulho de alguém mexendo na louça. Por pouco não voltei para o meu quarto. Tomei coragem, me ajoelhei e fui engatinhando até a porta da cozinha, atravessando a sala.

Quando cheguei perto da cozinha, fiquei imóvel, sentado ao lado da porta com o ouvi-do esperando alguma coisa, mas nada veio. Coloquei então aos poucos minha cabeça para dentro do cômodo, e foi ai que a vi. Era ela! Mamãe! De pé, parada em frente a pia. Corri em sua direção. Chegando ao seu lado, abracei-a pela cintura. Não foi um abraço normal. Mamãe não era assim fria antes. Mamãe era quente, cheirosa e macia. Sua roupa estava suja e esfarrapada. Nem sapatos estava usando! Ela continuou parada. Dei alguns passos pra trás e a chamei. Nada. Gritei novamente, enquanto puxava a barra do seu vestido. Foi ai que ela olhou para mim. Corri de volta para a porta. Aquela não era a mamãe!
z-mascaraSua pele estava toda cinzenta, com umas manchas escuras. Sua boca era apenas um risco esfumaçado negro, sem dentes, nem língua, nem nada. Seus olhos tinham su-mido, ficando apenas dois vazios. Continuou virada para a pia, mas olhava para mim, e não mexeu mais um músculo sequer. Eu já estava quase sem ar, me comprimindo contra a parede, e assim que consegui mexer de novo minhas pernas, corri até a escada. Che-gando lá, parei e olhei para a porta da cozinha. Passo a passo, a imagem de mamãe ia aparecendo, até que pude ver todo o seu corpo. Lentamente, virou-se em minha direção. Ficamos assim por minutos, apenas ao som da minha respiração e do meu coração. De súbito, seus braços começaram a erguerem-se lentamente, como se oferecesse um abraço. Por um instante, pensei em ir a seu encontro, mas logo mudei de idéia, pois ela partiu em disparada em minha direção, correndo desesperada em meio a tropeços. Subi o mais rápido que pude a escada e me joguei para dentro de meu quarto. Tranquei a porta e sentei no chão com os joelhos próximos ao meu corpo, prendendo minha respiração. Logo pude ouvir os passos arrastados passando ao lado da porta, seguindo o corredor.

Decidi fugir para a casa da vovó Nina. Abri a porta com cuidado, para evitar barulho. Coloquei a cabeça para fora e, pela escuridão, pude ver o vulto de mamãe parado em frente à janela do seu quarto. Olhava para a rua. O quê, eu não sei, mas aproveitei a o-portunidade para ir até a escada. Cada passo parecia ensaiado pra evitar ruídos. Cheguei até a escada com sucesso, e quando já confiante, pisei em falso um degrau, o que acabou fazendo baque alto. Mamãe virou-se imediatamente pra mim, com aqueles buracos no lugar dos olhos, me procurando. Desci trêmulo em direção à porta, enquanto ouvia os passos enlouquecidos de mamãe atrás de mim. Já nos últimos degraus, senti seus dedos frios segurando meu tornozelo. Cai. Tentei me arrastar em direção a porta, mas ela me puxava em sua direção. Aos poucos, seu rosto foi se aproximando do meu. Suas mãos comprimiam o meu peito contra o chão, e logo ela já tinha me dominado usando o peso de seu corpo. Mantinha o seu rosto disforme a poucos centímetros do meu, quando me olhou nos olhos e com sua mão magra começou a brincar com meus cabelos.
“Mamãe?”
maeefilhoEm seguida, só me lembro de sua imagem vindo contra mim. No começo, doeu muito. Minha pele, meus músculos, meus ossos. Tudo parecia machucado, quebrado, torcido. Ai, vieram o vermelho e o frio. Depois, não veio nada. As dores sumiram, o calor voltou. Agora eu podia ver mamãe. A mamãe com olhos, sorrisos e perfume. A mamãe de verdade. Agora já não apanho mais. Agora ela me abraça e brinca com meus cabelos. E todas as noites, tenho histórias para dormir.

Autor: Vítor

 
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