29 novembro 2010

A Casa Xadrez

outono3Devia ser uma tarde de maio. Não tenho certeza, minha memória já anda velha e gasta, mas lembro que fazia frio. Então devia ser maio; maio sempre faz frio. Não sei ao certo o que eu buscava, não acreditava mais em alívio ou respostas. Só lembro de andar pelas ruas a esmo. Mas entenda, isso já faz muito tempo, então talvez houvesse sentido na época. Algumas de minhas lembranças foram modificadas, outras perdidas e decerto carrego umas tantas inventadas. Os anos esculpem nossa memória sem muito compromisso com a verdade.
Mas lembro perfeitamente do instante em que a avistei pela primeira vez. Guardei a imagem em um relicário cuidadosamente protegido das artimanhas do tempo. A Casa Xadrez, assim a batizei, exatamente como os vizinhos chamavam minha casa dos tempos de menino. Era revestida por quadradinhos de cerâmica brancos e pretos, que lhe conferiam o inusitado visual. Parei para observá-la por alguns instantes e notei que as semelhanças com minha antiga residência não se limitavam ao quadriculado de seu revestimento — a porta cor de marfim, o pequeno canteiro de margaridas que ornamentava a entrada, o velho portão enferrujado que meu pai vivia dizendo que trocaria — tudo era rigorosamente idêntico, como se alguém houvesse construído uma meticulosa réplica da moradia de meus pais, que há muito fora demolida.
Sim, sim, eu deveria imaginar que havia algo de errado com aquela espantosa descoberta. Se estivesse à luz de minha consciência, talvez houvesse escapado de meu destino. Mas quem, em meu estado de espírito, poderia se guiar pela razão? Aproximei-me da casa como um bebê que corre para os braços da mãe. A cada passo, um vislumbre de reconhecimento; o rangido do portão, o cheiro suave das flores, a terra fofa do quintal que parecia fugir de meus pés.

MaçanetaBati na porta sem saber ao certo o que esperar como resposta. Ninguém atendeu. Insisti; nada. Girei então a pequena maçaneta redonda e dourada — detalhe que eu mesmo escolhera quando menino — e, como num passe de mágica, estava em minha antiga sala de estar, caminhando sobre o piso que seguia o padrão quadriculado do exterior, admirando o grande lustre do século XIX que meu pai trouxera da Europa.
Fiquei maravilhado. Não havia um único detalhe no interior da nova Casa Xadrez que fugisse à original. Visitei cada cômodo como se relesse um velho diário de infância. A disposição dos móveis, a antiga máquina de costura de minha mãe, os discos empoeirados de meu pai. Nem mesmo as imperfeições foram esquecidas; a porta da despensa continuava emperrada e o sofá ainda exibia a enorme mancha de café que me valera uma boa surra. Eu podia até sentir o cheiro dos cigarros que jamais saiam da boca do meu velho e, se fechasse os olhos, ainda ouvia o barulho ritmado da máquina de costura que por tanto tempo me atormentou, mas que naquele momento soava como uma antiga música que rememorava bons tempos.
Subi ao primeiro andar para visitar os quartos e o escritório de meu pai. Revi, com uma prazerosa melancolia, a prateleira de miniaturas que minha mãe colecionava e a máquina de escrever em que meu pai virara noites e noites, em seu árduo ofício de jornalista. No meu quarto, encontrei a mesma cama bagunçada e os aeromodelos que eu construía. Percebi, naquele momento, que não havia outro lugar no mundo para mim. Ali, cercado por minhas confortáveis memórias, poderia recomeçar. Sentia-me seguro, protegido, como se voltasse para o útero materno.
Decidi ficar na casa até que o proprietário aparecesse, então lhe faria uma proposta irrecusável pelo lugar. Venderia tudo o que tinha se preciso fosse, pagaria o triplo do valor do imóvel, mas não podia viver fora dali. Estava resolvido. Porém, nada disso foi necessário — o dono, seja lá quem fosse, jamais apareceu para reclamar a posse do local.

Nas primeiras semanas, tudo correu bem. Sentia-me disposto, revigorado. Dedicava horas à exploração de cada recanto da casa, embriagando-me com minhas boas recordações. Recuperei inspiração e ânimo para escrever. Há meses que eu não criava uma linha sequer, mas, quando sentei na pesada cadeira em que meu pai datilografava, foi como se tirassem a pedra que obstruía a nascente de minhas ideias, e o som que as teclas da máquina faziam ao serem golpeadas parecia ser o combustível para que a fonte não mais secasse.
Fiquei tão maravilhado com a transformação que a Casa Xadrez operava em meu ser que sequer reparei que não saíra de casa desde o dia em que cruzei a porta marfim. Tampouco me ocorreram os problemas de ordem prática que a casa resolvia por si mesma: a geladeira estava sempre cheia, o chão e os móveis limpos e os lençois da cama renovados.
Meu processo criativo jamais fora tão rápido. Em pouco mais de dois meses, terminei meu primeiro livro na Casa Xadrez — um romance narrando a história de um homem amargurado que volta para casa após saber da morte dos pais e reencontra ali o prazer de viver. Era uma ode à minha nova casa. Não pensei em publicá-lo, o mundo externo já não me interessava. Escrevia para mim mesmo, para celebrar minha nova vida. Tudo ia tão bem que decidi que era hora de expurgar meus demônios. Escreveria sobre as trevas que me assolavam antes de eu encontrar a casa. Era esse o momento de libertar-me de todo o peso que carregava em minha alma.
Revirar as memórias que eu vinha tentando soterrar até então era tarefa das mais doloridas e nem mesmo o conforto da Casa Xadrez impediu que alguns fantasmas lamuriassem por terem sido despertos de seus jazigos. Nos momentos mais sombrios, eu deixava o escritório, acendia um cigarro e mergulhava novamente no oceano de lembranças que a casa me proporcionava.

Numa dessas pausas, após remontar uma passagem de minha vida que me perturbou particularmente, fui ao meu quarto, em busca de uma melhoria em meu estado de espírito. Fiquei um tempo brincando com os velhos aeromodelos quando notei uma porta de mogno próxima ao armário de brinquedos, a cor avermelhada contrastando com o azul infantil que coloria as paredes. Aquela porta nunca estivera ali antes. Passei dias explorando cada milímetro daquele lugar e tinha plena convicção disso.
Hesitei durante um tempo, não apenas pelo inusitado do fato, mas porque aquela porta, seja lá para onde desse, representava uma ruptura que podia desequilibrar meu paraíso espiritual e imaginativo. Era minha Caixa de Pandora. Mas seria impossível não abri-la; não poderia conviver com aquela nova passagem me atormentando dia e noite, sem saber que destino ela guardava. Girei a fria maçaneta e entrei.
A porta dava para um cômodo totalmente escuro. Um perfume familiar infestava o ambiente, mas eu não o reconhecia. Tateei pela parede até encontrar um interruptor, apertei-o e uma forte luz alva me cegou. Quando meus olhos se habituaram à iluminação, vi que estava numa pequena sala totalmente branca, de paredes lisas. O chão estava quase completamente coberto por pelos, mas, por baixo deles, podia ver finas marcas de pneus. Abaixei-me e peguei um punhado daqueles pelos amarelados. Era dali que vinha o cheiro — o perfume do xampu de Duque, meu primeiro cachorro. Eu o matara por acidente, enquanto aprendia a andar de bicicleta. Jamais me recuperei do incidente, jurara a mim mesmo que não mais pilotaria algo que pusesse em risco a vida de alguém. Daí minha fixação por aviões — achava que no ar nada de mal poderia acontecer.

Saí da sala desorientado, entre lágrimas e tropeços. A dor daquela lembrança me valeu uma noite ardendo em febre. Meu refúgio fora maculado por uma mancha sangrenta que eu fizera questão de enterrar em meu passado. A paz que outrora a Casa Xadrez me oferecia agora se transformara em pânico — que outras passagens ela poderia conter? Onde elas me levariam? Eu estava novamente à mercê das memórias de que fugia até então.
No dia seguinte voltei ao quarto e constatei que a porta vermelha não estava mais lá. Percorri o restante da casa; tudo parecia ter voltado ao normal. Porém, a sensação de desconforto não me abandonou. A cada passo que dava, em cada cômodo que entrava, pressentia que algo estava prestes a acontecer, como se a casa me espreitasse em busca do momento certo para uma nova estocada.
Decidi sair um pouco de casa, caminhar pela rua, fumar um cigarro e espairecer a mente. Foi só nesse momento que percebi que não saia de casa há meses. Olhei ao meu redor, perplexo, imaginando como tudo se mantera em ordem até então. Mas não estava disposto a divagar por muito tempo e atravessei a sala a passos largos, repentinamente ansioso para ter contato com o mundo exterior.
Quando cheguei à porta marfim, senti meus músculos travarem — sim, aquela deveria ser a porta que me daria acesso ao jardim de margaridas, mas a maçaneta era ovalada e negra. Alguma memória devastadora deveria me esperar para além daquela porta, mas resolvi abri-la mesmo assim. Porém, o que encontrei foi algo que superava totalmente minhas expectativas — a mesma sala que acabara de atravessar. Não que a sala anterior houvesse desaparecido; permaneci estático na porta por alguns instantes, olhando para as salas idênticas.
combinadodesalasEra como se eu estivesse dentro de um espelho, olhando imagem e reflexo.
Não havia outra coisa a fazer a não ser atravessar essa nova sala, em busca da maçaneta dourada. A vertigem da situação me enjoava e o padrão xadrez do piso começou a me deixar tonto. Parei por um momento, em busca de ar. Ergui a cabeça e notei, aterrorizado, que na nova sala não repousava o antigo lustre. Em seu lugar, rodando vagarosamente, estava um gigantesco móbile para berços, ornamentado por aviões de brinquedo. Era o móbile que eu construíra para o berço de Lara.
Meu estômago se contraiu com violência e eu senti que perderia os sentidos. Antes que eu viesse a desfalecer, disparei em direção à nova porta marfim, ainda esperançoso em encontrar a saída. Mas a porta me levou à outra réplica da sala. Atravessei-a sem olhar ao redor. E o destino era outra sala idêntica. Devo ter atravessado mais de dez vezes a mesma sala até finalmente cair, exausto, o rosto encharcado por suor e lágrimas.
Não sei ao certo se adormeci ou desmaiei, só posso afirmar que no outro dia acordei em minha cama, agasalhado em minhas cobertas, tudo perfeitamente em ordem. Mas a Casa Xadrez não mais me enganaria. Eu precisava fugir dali. Estava disposto a fazer qualquer coisa, enfrentar as artimanhas da casa — destruí-la se preciso fosse — mas eu não podia viver sob o peso de meu passado, ou da loucura a que ele me levaria.
Foi então que a tormenta começou. A casa não me deixava partir. As janelas não se abriam, nem era possível quebrá-las; as pessoas que passavam pela rua não podiam me ver ou ouvir. Com o tempo percebi que a paisagem do lado de fora mudava constantemente, embora eu não pudesse precisar se a casa alterava o seu entorno ou a minha percepção. Também não havia um padrão para dia e noite. Por vezes ficava mergulhado em trevas por semanas, noutras, o sol parecia jamais se pôr.

Tentar encontrar a porta de saída era uma tarefa inútil. A casa criava novos cômodos, replicava outros, construía labirintos intransponíveis. Sempre que eu chegava à porta marfim, não era a maçaneta dourada que me esperava. Percebi que também não havia como destruí-la. Eu podia quebrar o que quer que fosse, a casa reconstruía assim que eu virasse as costas. Nem mesmo minha tentativa de incendiá-la trouxe algum resultado.
Quanto mais eu tentava fugir daquele lugar, mais a casa me castigava. Minhas piores lembranças saltavam das portas, das gavetas, do fundo dos armários. A Casa Xadrez, que imaginei ser minha salvação, mostrou-se o mais cruel de todos os infernos — uma prisão assombrada pelos piores fantasmas que um homem pode carregar — os fantasmas de seu passado.
Passaram-se anos sem que houvesse um dia sequer em que eu não buscasse uma forma de ludibriar a casa e libertar-me de meu cativeiro. Com o tempo, a esperança foi me abandonando, junto com qualquer sentimento que ainda pudesse habitar em minha alma. As memórias ruins, que a casa desencavava de meu peito e esculpia ao meu redor, quase não me afetavam. Eu somente vagava pela casa, olhando pelos cantos, buscando um pequeno brilho dourado que me trouxesse de volta à vida.
Quando eu já imaginava que nada de novo poderia acontecer — ou me afetar — a casa me mostrou a última de suas revelações. Eu estava no quarto dos meus pais, observando as miniaturas que minha mãe colecionava, tentando imaginar o significado que cada uma possuía para ela. Fui tirado de minhas elucubrações por um estrondo ensurdecedor, um trovão vindo do teto. Algo devia ter atingido a Casa Xadrez. As paredes estremeceram furiosamente, vários móveis foram ao chão, espelhos se espatifaram. Eu me encolhi no chão, sem saber o que esperar. Talvez finalmente a casa estivesse morrendo.

O pandemônio durou alguns minutos, depois tudo voltou à calmaria. Ergui-me e olhei ao redor, sem conseguir distinguir o que sentia, tamanho era o tempo em que não sentira nada. Saí do quarto; uma escada aparecera no corredor. Durante todos esses anos, nunca surgira um segundo andar. Então onde daria a escada? No teto? Estaria a casa me oferecendo uma chance de sair? Os questionamentos circulavam em minha mente enquanto eu vencia, lentamente, os degraus.
sótaoQuando cheguei ao topo, vi que estava numa espécie sótão. Por toda parte havia destroços de um pequeno avião, um ultraleve. Eu já estivera em meio a esses mesmos destroços antes, mas inconsciente. Caminhei por eles, as lágrimas me escapando pelo rosto, embora eu não me sentisse triste, apenas vazio. Perto de um pedaço grande de uma das asas, encontrei o corpo de Irene. Um corte profundo lhe retalhava o rosto, mas ainda era bonita. Tomei-a em meus braços e beijei-lhe os lábios frios. Em seguida encontrei Lara. Ela estava caída de bruços, o cabelo castanho manchado de sangue. Usava o vestido azul que eu lhe dera de natal. Não tive coragem de virá-la, apenas pedi desculpas e saí. Naquele dia entendi que a casa jamais me deixaria ir embora.
Hoje já estou velho e fraco. Não odeio a Casa Xadrez; o ódio demanda muito esforço e estou cansado demais para alimentá-lo. A casa para mim é como uma velha companheira que aprendi a me acostumar com o tempo. Acredito que não tornarei a ver o mundo lá fora — e nem sei se o mereço. Às vezes ainda perambulo pelos cômodos, correndo os olhos pelos cantos, em busca da velha maçaneta dourada. Mas — me pergunto — e se a encontrasse, ainda seria capaz de cruzar mais uma porta?





Autor: Felipe Falconeri
 
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