02 novembro 2010

Jack Barbazul

barbazulEra uma vez, há muito tempo, quando o Brasil ainda tinha um Imperador, um casal de prósperos fazendeiros, Dona Maria e Seu Félix Torres de Medeiros. Eles tinham quatro filhos: uma menina e três meninos. A menina, a mais velha dos quatro filhos, era muito feia. Os pais tentavam ver em Cláudia algo que pudessem enaltecer, mas era difícil: o ralo cabelo de um louro pálido, a pele marcada por inúmeras verrugas, os dentes tortos, que apodreceram muito antes do esperado, além da triste sina de mancar da perna esquerda, faziam com que a tentativa não tivesse muito sucesso. Aos quinze anos, a moça era conhecida como “Cláudia, a coxa”. A menina cresceu, ciente de sua feiúra, pois ninguém a deixava esquecer disso.
Quando ela completou quinze anos, sua mãe engravidou novamente e, meses depois, deu à luz a uma linda menina. “Essa será diferente! Posso ver sua beleza desde agora!”, dizia para si mesma, comparando as duas filhas. Ao pensar naquilo, viu surgir diante de si uma mulher que proferiu as seguintes palavras:


— Sou a Fada Madrinha de sua filha que acabou de nascer! Ouve bem meus conselhos, para que a pequena tenha uma vida feliz!
E aproximando-se do bercinho da menina falou, diante de Dona Maria:
— Será a perfeição em forma de pessoa. Mas ouve bem o que vou dizer: para ser feliz ela deverá se casar com o homem mais estranho que já viu em sua vida, um estrangeiro que virá de muito longe, de além mar! Este homem sim, saberá valorizar sua beleza. Não precisará procurar por ele, pois ele baterá à vossa porta!

08021201_blog_uncovering_org_belezaCom o passar dos anos, as palavras maternas e as da Fada se materializaram: Rosália era a moça mais linda que qualquer pessoa já tinha visto: os cabelos loiros da cor do trigo, os olhos azuis da cor do céu, a pele alva e perfeita, o sorriso capaz de emocionar, as mãos delicadas, a voz melodiosa como o canto dos pássaros! Não havia como não comparar: como Cláudia e Rosália podiam ser irmãs? Como?Faltava agora aparecer o tal homem estranho... Intimamente, Dona Maria não desejava um casamento daqueles para Rosália, queria-a casada com um bom moço, tão belo quanto ela. Por outro lado, tinha medo de que a filha não fosse feliz.
Os três filhos homens do casal já tinham formado suas famílias e ido morar em suas próprias fazendas quando Seu Félix faleceu de um ataque do coração. A mãe ficou só com as duas filhas na propriedade da família. Ela não se importava muito com o que Cláudia fazia com o seu tempo livre.

A filha mais velha costumava passar algumas noites em um orfanato onde era voluntária, cuidando das crianças e Dona Maria não se incomodava. Ia e voltava sozinha, em uma carruagem. Esse deveria ser o destino de Cláudia, pensava Dona Maria: viver para a caridade, pois certamente não se casaria. O tempo em que não estava no orfanato, Cláudia devotava-o todo a Rosália, era tal qual um anjo-da-guarda, uma companheira para todos os momentos.
Um dia estavam Dona Maria e Rosália sentadas debaixo do alpendre da casa, bordando, quando viram um homem estranho se aproximar, tão estranho que até possuía uma barba azul! Ele desceu de seu cavalo, fez uma reverência e começou a falar:


— Boa tarde! Chamo-me Jack Barbazul Knife e venho de longe, dos Estados Unidos da América, mas minha mãe nasceu aqui. Moro no Brasil há dez anos e mudei-me para esta vila recentemente. Para minha alegria, descobri que é aqui que mora a única mulher nesse mundo que há de me fazer feliz!
Rosália e Dona Maria estremeceram. A primeira, porque não tinha gostado nem um pouco do jeito daquele homem: grande, com cabelos pretos ensebados, presos na nuca e a barbicha azul reluzente. Não, ele não se parecia em nada com o príncipe que sonhara para si! A segunda, porque teve a certeza de que era aquele homem o tal estranho que a Fada tinha mencionado. E que criatura estranha! Além da feiúra, o desgraçado fedia!
— O que desejas aqui, Sr. Barbazul?
— Desejo pedir a mão de vossa filha mais nova em casamento! Amo-a, desde que a vi sair da igreja, na missa de domingo.
— Não, mamãe, não! - suplicou Rosália, gritando. - Eu não quero me casar com esse homem!
Dona Maria começou a chorar. Estava dividida, mas a Fada dissera...
— Dar-vos-ei a resposta em três dias, precisarei pensar. - pediu a senhora, tristemente.
— Eu retornarei, com a certeza de que meu pedido será aceito! Sou um homem riquíssimo, capaz de realizar todos os desejos daquela a quem eu desposar!
E foi-se embora, deixando Rosália em prantos, nos braços da mãe. Quando Cláudia retornou, ao cair da tarde, a mãe contou tudo à filha mais velha. Também contou sobre a aparição da Fada Madrinha e do que havia profetizado, algo que não havia contado a ninguém até então. Cláudia parecia encantada com o fato da irmã mais moça ter uma Fada Madrinha. Ela, pelo visto, não tivera a mesma regalia!
— Se o destino de Rosália deve ser esse, minha mãe, de minha parte prometo-te que, se quiseres, poderei ir viver com Rosália quando ela se casar! Serei tal qual uma guardiã, protegendo-a! Deixarei até mesmo minhas atividades no orfanato para estar com ela todo o tempo! - assegurou Cláudia à mãe.
A mãe tranquilizou-se um pouco mais e, no dia combinado, lá estava Jack Barbazul Knife de volta à fazenda dos Torres de Medeiros. As três mulheres o aguardavam no alpendre.
— Concedo-vos a mão de Rosália, minha filha mais nova, porém com a condição de que minha filha mais velha, Cláudia, acompanhe-a quando forem morar em vossa casa.
— Muito justo. Aceito a condição! Obrigado, Senhora, farei de sua filha a mais amada entre as mulheres! Adianto que não desejo esperar muito tempo. Farei correr os proclamas imediatamente.

Jack partiu rápido, para providenciar tudo o que fosse necessário à união com Rosália.
Cláudia consolou a irmã, dizendo que o tal Jack certamente haveria de ter qualidades que compensariam aquela aparência.

— Acalma-te, irmã... Para tudo dá-se um jeito. Se ele te ama, com certeza fará o que pedires! Aquele fedor sairá com banhos aromáticos, aposto. Algo poderá ser feito também para retirar aquele sebo do cabelo... Se ele cortar a barbicha sempre, quem dirá que ela é azul? Ele não parece ser como eu, no meu caso não há remédio, sou feia e assim morrerei!
— Cláudia, tens razão... Se é esse o meu destino, tentarei cumpri-lo, fazendo o que me sugeriste... Mas não sejas tão dura contigo mesma! Se não tens a beleza exterior, certamente és bela no amor que devotas aos entes a quem deseja o bem! Estou feliz de tê-la ao meu lado!
Enfim, em poucos dias casaram-se. Não houve uma grande festa, Jack levou as duas irmãs para sua fazenda e a vida de Rosália como Senhora Barbazul Knife começou, sem o povo entender como uma mãe tivera a coragem de dar a própria filha em casamento a um homem como aquele.
— Nem mesmo é católico! Passa longe da porta da igreja! Quem sabe não foi uma promessa desesperada? Viram como escarrava quando a carruagem deles passou por aqui? - comentavam os moradores.


Meses depois a vila, antes tão calma, tornou-se agitada com as notícias que chegavam da capital da província. Crimes horrendos começaram a acontecer, sem nenhuma explicação. Durante seis noites de lua cheia, separadas por um intervalo de poucos dias, seis cortesãs foram brutalmente assassinadas em São Paulo: todas evisceradas, os úteros arrancados e, o pior, todas degoladas, sem que nenhuma das seis cabeças tivesse sido encontrada. A notícia de que um assassino de cortesãs agia em São Paulo deixou o povo daquela vila amedrontado: estariam seguros ali, separados por apenas uma hora de viagem da capital?


— Ao menos sabemos que ele ataca somente cortesãs, as moças de família estão a salvo!- foi o comentário feito por um moralista.

Rosália passava muito tempo sozinha com a irmã, pois o marido tinha negócios a tratar em outras cidades. Rosália não entendia o porquê, depois de pouco mais de dois meses, do marido não demonstrar a mínima intenção em consumar o casamento. Até fazia questão de que dormissem em aposentos separados. Como ela não tinha conseguido ainda fazer com que Jack Barbazul modificasse seus hábitos de higiene, Rosália não reclamava daquela condição. Ainda mantinha a pureza virginal, para sua felicidade. Jack era bem mais velho que ela, ele poderia morrer... E ela estaria livre! Uma ideia passou a ocupar sua mente todo dia, sempre que o via fazer uma refeição: ele comia como um porco! E se o envenenasse, lentamente? Já não tinha cumprido a vontade da mãe e da Fada Madrinha? Só não sabia como faria aquilo, pois Cláudia a vigiava em todos os momentos, salvo quando estava dormindo. Se saísse na calada da noite, talvez conseguisse encontrar algum veneno! Talvez uma das mucamas pudesse ajudá-la nesse sentido. Antes, porém, precisava estar muito segura de que não seria descoberta. Mucamas não lhe pareciam confiáveis. Deveria tentar então contar com Cláudia para o que planejava? Seria tão fiel a irmã, a ponto de ser sua cúmplice?

porta_fechadaUma das coisas que intrigava Rosália era uma sala que vivia sempre fechada e somente Jack Barbazul tinha a chave. Ele passava muito tempo ali, sozinho, sem deixar que ninguém entrasse nela além dele. Quando ele retornava de uma viagem, era para lá que se dirigia em primeiro lugar.
Iniciava-se o mês de março e Jack começou a se preparar para viajar novamente. Daquela vez, chamou Rosália para lhe fazer um pedido:

— Rosália, desta vez demoro mais dias para voltar. Deverei ficar o mês todo fora. Aqui estão todas as chaves da casa, caso necessite abrir uma das portas. Peço-te, porém, que não use esta chave prateada. É a chave que abre minha sala particular, onde somente eu devo entrar, compreendes? Deixo as chaves contigo para que eu não corra o risco de perdê-las nessa longa temporada fora. Se resolveres desobedecer-me eu saberei, estejas certa! Adianto-te que, caso isso aconteça, tu e tua irmã serão severamente punidas, entendeste?
— Sim, senhor meu marido. - assentiu Rosália, abaixando a cabeça, em sinal de obediência.
Jack Barbazul partiu, deixando as irmãs sozinhas com os criados.


Conforme os dias passavam, a curiosidade de Rosália só aumentava. Aquela porta fechada, misteriosa, fazia nascer em sua mente uma curiosidade maior a cada dia. Já fazia mais de uma semana que o marido partira e ela não resistiu, por fim. Disse a si mesma que apenas abriria a porta, olharia para dentro, veria como era a sala e a fecharia novamente. Assim tentou fazer, porém quando abriu o cômodo, um vento gelado tal qual a morte pareceu escapar de lá, quase fazendo-a desistir. Estava muito escuro e ela não conseguia enxergar nada. Pegando um candelabro com uma vela acesa entrou, prometendo a si que seria por apenas um minuto. Não mais que um rápido minuto. Haviam, nessa sala, apenas uma cadeira e uma mesa, muito comprida. Em cima da mesa, diversos apetrechos, cuja serventia Rosália desconhecia. Estranhos, pareciam objetos usados por médicos. Ao olhar para sua esquerda, viu a cortina que cobria quase toda a parede. Uma cortina vermelha. O que teria atrás dela? Um quadro muito valioso, talvez? “Só mais alguns segundos”, pensou ela, afastando a cortina com cuidado. Porém, tão grande foi seu susto que, na tentativa de abafar seu grito, deixou o candelabro cair ao chão, fazendo com que um pequeno incêndio começasse. Rosália controlou as chamas, porém uma parte da cortina tinha ficado danificada, com as pontas enegrecidas.

— Senhor! Não pode ser verdade...


Diante dela, em três prateleiras, estavam seis cabeças de mulher, dispostas duas a duas. Todas com os olhos abertos, petrificados. Todas sorrindo, um sorriso que devia ter sido produzido por Jack, com as ferramentas estranhas. Todas sorriam exatamente igual!
Saiu correndo, nem pensando se tinha colocado a cortina no lugar. Agora não importava mais. Precisava sair dali o quanto antes. Avisaria Cláudia de sua descoberta e as duas iriam para a casa da mãe e depois, contariam às autoridades o que ela tinha visto. Encontrou Cláudia lendo na biblioteca:


— Minha irmã, precisamos sair daqui. Jack, ele... É ele o assassino, o matador de cortesãs, o ladrão de cabeças femininas, ou sei lá como o chamam. É ele!
— O que dizes? Como...
— Sim, Cláudia, é ele! Abri a tal sala misteriosa, com a chave prateada. Estão lá, as seis cabeças... Ele faz algo com elas, tem muitos objetos lá dentro estranhos... E ele vai saber que o desobedeci, a cortina ficou chamuscada quando deixei a vela cair... Vamos sair daqui agora, não posso continuar nesse lugar. Vamos, por favor! — falava a moça, sem controle.
— Sim, claro que vamos... Vá ao meu quarto, pegue uma valise que tenho lá, dentro do armário. É mais cômodo para carregarmos apenas o necessário, não podemos usar os baús de seu quarto. Nem pensemos em roupa nenhuma agora. Onde está o molho de chaves? Dê-me para que eu possa verificar se tu fechaste mesmo a porta da sala...
— Sim, eu nem sei se a fechei... Cláudia, estou apavorada! Esse homem... Ainda bem que nós nunca... Nunca... - disse Rosália, em desespero, entregando as chaves à irmã.
Rosália foi ao quarto de Cláudia e abriu o armário, procurando pela valise. Foi sem demora que ouviu o barulho da porta se fechando atrás de si e sendo trancada por fora.
— Cláudia?
Correu para tentar abri-la, mas estava mesmo trancada.
— Cláudia! Cláudia! Foste tu? Deixe-me sair!
Ouviu a voz da irmã do lado de fora:
— Eu deixarei que saia na hora certa. Não adianta gritar, Rosália. Aguarda tua hora.

Não adiantavam os gritos de Rosália. A janela tinham tábuas por fora, como ela conferiu, ao tentar encontrar uma saída. Do lado de fora, dois escravos da maior confiança montavam guarda. E nenhum dos outros ousaria contar a alguém de fora que a esposa do “Barão” Knife tinha enlouquecido, sob pena de ir para o tronco. Rosália não teve outro destino a não ser esperar, sem entender a atitude da irmã.
No madrugada de 17 de março, precisamente, Jack Barbazul retornou. A porta do quarto onde a esposa estava se abriu e ele entrou, junto com Cláudia. Ele trazia uma valise e, de dentro dela, tirou um facão afiado.

JackEstripador— Na verdade, Rosália, eu sabia que não conseguirias deixar a curiosidade de lado. Isso é um grande defeito das mulheres belas e sensíveis, como tu. Saibas, porém, que teu destino já estava traçado, desde o teu nascimento. Era teu destino servir em um lento e mágico ritual. A sétima mulher, a sétima a ser degolada. A sétima que, diferente das outras, deve ser virgem. O sangue da sétima, ao ser derramado por um varão, deve libertar a Rainha Anoli do mundo das almas errantes. E ela reinará de novo, no Reino de Aknon.
— Piedade, senhor meu marido... Piedade! - suplicou Rosália. Foi quando viu aparecer diante deles aquela que deveria ser a sua Fada Madrinha, pela descrição que a mãe lhe tinha feito. Sim, só podia ser ela, que tinha vindo ajudá-la naquele horripilante momento!
— Rosália, que bom vê-la! - disse a Fada.
— Ajoelha-te diante da Rainha Anoli! - gritou Cláudia, gargalhando.
— Rainha Anoli? Mas ela é... - Rosália não conseguia entender.
— A sua Fada Madrinha? - perguntou a mulher, gargalhando, enquanto se transformava completamente. Seus cabelos cresceram até o chão, tornando-se negros e volumosos. O vestido era negro, colado ao corpo, uma capa vermelha caía de seus ombros, tão vermelha quanto eram os seus olhos impiedosos. - Sinto que tenha descoberto em péssima hora que você não tem fada madrinha! Sinto que tenha descoberto que tua irmã é uma das minhas mais fiéis servas, junto a teu marido, aquele que tomou para si a missão de me devolver ao meu reino! Até que viveste muito, Rosália. O suficiente para ser admirada. Agora, eu tenho milênios à minha frente para serem aproveitados, depois de milênios trancafiada em outra dimensão... Corte-lhe a garganta, agora! Já se passaram exatamente treze horas do eclipse anular solar!
Jack cumpriu a ordem, separando a cabeça de Rosália de seu corpo com apenas um golpe. A Rainha banhou-se no sangue da irmã de Cláudia, enquanto um tremor sacudia o local. Após alguns minutos, um portal de fogo se abriu, a passagem para Aknon, um dos reinos malditos das profundezas. Antes de partir, a Rainha fez um pedido:


— Deixo a cargo dos dois que consigam mais servos para adorarem a mim e ao Reino de Aknon, em algum lugar onde estejam a salvo. Quando tudo estiver pronto, voltarei para dar-vos novas ordens. Adeus!
E a Rainha atravessou o portal, desaparecendo e levando consigo o corpo de Rosália e as sete cabeças. Quando tudo se fechou, Jack e Cláudia se beijaram. Tinham cumprido a missão, iniciada há tanto tempo!
— Precisamos ir embora agora! Desaparecer! - disse Cláudia.
— Já pensei em tudo. Vamos partir, há um navio indo para a Inglaterra, saindo do porto daqui a dois dias. Deixaremos uma carta, dizendo que fomos embora nós três, como se sua irmã estivesse conosco.
— Inglaterra? A ideia é deveras interessante!
“Interessante e esperta és tu, Cláudia”, era o que pensava Jack Barbazul Knife naquele momento. Ela podia ser feia. Seu pescoço, porém, era lindo. O mais lindo que já vira em sua vida. E os dois viveram felizes, por um tempo. Um breve tempo, por sinal!

Autora: Bia Machado

 
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