19 novembro 2010

Mirra

meninaajoelhada

“Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que às vezes poderíamos ganhar pelo medo de tentar.”
"Quanto maior a dificuldade, tanto maior o mérito em superá-la. (H W Beecher)"

Ler aquelas frases espalhadas pelo quarto não me incentivavam nem um pouco. Eu olhava e tinha vontade de reduzi-las a migalhas. O quarto pintado de lilás me causava náuseas, pedras espalhadas por pontos estratégicos e aquele cheiro nauseabundo de mirra me deixava irritada, não sei como era possível alguém suportar permanecer naquele local. No criado mudo vejo o livro do momento “O poder da paciência”, levanto as sobrancelhas assustada, nada é pior que livros de auto – ajuda . As cortinas esvoaçantes escondem o dia nublado, eu adoro dias assim sinto me renovada. Ainda na porta do quarto leio mais uma destas frases que com certeza estragam meu dia, cada letra contem uma cor e um desenho patético que ajuda a coisa toda ficar pior. Por pouco não arranco aquilo, mas serei paciente. Saio do inferno colorido, do lado de fora sinto cheiro de café fresco, como é doce este cheiro. Caminho devagar até a cozinha e sou surpreendida por uma mão conhecida.
—Não mocinha, nada disto, você não pode! -Diz uma voz delicada que retira a xícara da minha mão.
—Maninha o que houve com você? –Alguém de voz jovial bate de leve em meu ombro.

Olho furiosa para as duas e me retiro da cozinha. Obrigo-me a retornar para o inferno colorido. Revejo a decoração, o tapete floral perto da cama eu não havia notado. Uma canção melosa começa a fluir, o cheiro de mirra aumenta. Olho ao redor e misteriosamente tudo começa a ficar escuro, estou nua, começo a me apavorar. O dia nublado se foi, ouço apenas um lamento persistente. Apoio a mão nas paredes, não existe abertura, quero sair daqui, por favor. Ponho as mãos no rosto e o desespero toma conta de mim, tento andar, mas não existe espaço para isto. As paredes estão me sufocando, serei esmagada aqui. Respiro fundo e solto o ar, não funciona. As paredes estão se aproximando, elas vão me esmagar, preciso sair. Grito com a plena força dos meus pulmões, o lamento aumenta e eu grito mais alto que ele, ele persiste e eu começo a sentir dor na garganta. O lamento se torna insuportável e então eu paro de gritar. Aos poucos ele vai diminuindo. Sento e abraço meus joelhos, permaneço imóvel e o lamento some por completo, um silêncio perturbador envolve minha mente.
—Mãe não existe mesmo nada que possamos fazer? –A voz jovial fala num sussurro.
—Não filha, ela deve fazer tudo sozinha, as coisas só melhoram de dentro para fora. –A voz da mãe sai desta vez com menos docilidade.
—Tenho pena de minha irmã, a senhora viu como ela estava vestida? Será que esta terapia está fazendo efeito? – Diz a irmã com o olhar fixo na xícara da mãe.
—Deve estar querida, não viu como ela retornou para o quarto assim que falei com ela?
—Sim, ela parecia em transe quando eu a toquei. – A irmã contornava a borda da xícara com o indicador.

A mãe suspira e olha para o relógio, sente saudades de sua filha sorridente. A irmã se levanta e devagar vai até o quarto, entreabre a porta e olha com carinho para Lara. A moça esta sentada com as pernas cruzadas em forma de lótus, de seus lábios rosados sai um lamento quase indecifrável.
incensoO incenso de mirra queima vigoroso, criando uma atmosfera mística. A janela entreaberta revela um dia ensolarado, convidativo. O vento bate de leve nos adornos entoando um som calmante, ela inspira o ar com vontade, soltando-o devagar, sem pressa. O lamento cessa, ela abre os olhos e descruza as pernas. Levanta-se devagar, troca a roupa e sai.
—Como se sente mana? –Pergunta a irmã curiosa
—Obrigada Lóris, seu toque ajudou-me muito hoje. –Responde Lara sem sorrir

A garota caminha para a cozinha, cumprimenta a mãe com um beijo e dirige-se para a geladeira. Toma um copo de leite gelado e sai despedindo-se da mãe e jogando um beijo para a irmã . Pega a bolsa e sai para a realidade. Em sua mente alguém sofre sozinho, incompreendido. Ela trancou por mais alguns momentos aquele baú, caminha decidida e sem pensar na outra. Trancada em sua própria prisão ela finge ter algo que jamais possuirá.

Autora: Val

 
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