07 fevereiro 2011

Chuva de Madalena

menina na chuvaNunca vi ninguém chover tão lindo como Madalena. Aliás, nunca tinha visto ninguém chover, essa é que é a verdade. E nunca nem vi depois, nesses anos todos. Mas sendo Madalena, claro que havia de ser uma linda chuva, daquelas que o sertão nunca tinha visto, não senhor. Chuva sem explicação, que de explicação a vida tá cheia. Madalena choveu. E pronto... Só. Deixando saudade nesse peito aqui, uma saudade-irmã de um amor, o único que há de existir aqui dentro. Cabe mais nada no peito não.

Eu me lembro bem. Lembro que era um dia já que ninguém mais se lembrava de como era a chuva. Todo mundo esperando. SECA-NO-SERTÃOQuem ficou para esperar, pois teve gente que não aguentou não, foi-se. Em busca de água. Em busca de um lugar onde a água nunca secasse, onde a garganta nunca ficasse seca.
Agradeço que a família da Madá não se foi com eles. Pelo menos sei que destino ela teve e antes disso, pude ficar um cadinho mais ao seu lado. Pena que não tive coragem de contar pra ela do meu amor-menino. Às vezes achava que ela sabia e que gostava de mim também.
E foi justamente no dia em que criei coragem de contar desse amor, de revelar mesmo, que tudo aconteceu. Madá, saindo da igreja, com aquele véu de santa cobrindo os cabelos. Madá, do lado da mãe, parou no meio da praça, na frente da igrejinha, sorrindo um sorriso largo, só pra mim. Madá parecia só esperar pelas minhas palavras. Madá...
Sem mais nem menos, do cabelo negro e comprido dela começou a minar água. Uma água que não se sabe de onde vinha. Ouvi sua mãe gritar, mais ainda quando a água começou a pingar dos dedos da menina. Madalena não podia falar, se abrisse a boca se afogava com a água que escorria pelo seu rosto cheio de formosura.

No começo pingos, depois água corrente, mais do que a gente via sair da bica. Ninguém sabia o que fazer, a cidade inteira ficou acompanhando a chuva da Madá. Eu nunca tinha visto tanta água de uma vez, a não ser no ribeirão, que não existia mais. Colocavam tinas, latas, baldes, mas não findava.
E ela ficou ali, chovendo... Eu fiquei ao lado dela, só olhando, nem fome sentia. Mas não era só eu. Era gente rezando, a mãe viúva conversando com a menina, sem ter resposta. Era quase a cidade inteira.
Três dias, contadinhos. Foi o tempo que Madalena choveu sem parar. No terceiro dia, parecia que sua pele estava se evaporando... Madalena estava virando água também, tentava explicar o professor de ciências. “O corpo dela está virando vapor d’água”, dizia. Isso me irritava. Nunca tinha gostado daquele cabra, ainda mais agora, que achava explicação tão fácil para a minha Madá, que ia sumindo.
No terceiro dia também foi que chegou um carro grande, disseram que era gente da televisão. Tinham vindo entrevistar o povo sobre a chuva da Madalena. Não conseguiram foto da menina. Madalena já quase não tinha mais pele, parecia uma sombra. Antes de armarem o equipamento, a sombra tinha virado uma nuvenzinha. E a nuvenzinha se desmanchou, todinha. Choro, grito, orações. Pra onde tinha ido a menina?
nuvemdechuvaDe repente, o trovejar. As nuvens, negras como nunca, se juntando. O vento frio fazendo todo mundo estremecer.
E a chuva caiu. Do céu. Chuva de Madalena, da água que tinha saído dela e evaporado, foi outra explicação do professor. Todo mundo saiu correndo atrás de mais baldes, tinas, latas... A gente da televisão entrou correndo no carro e foi-se embora.

Eu fiquei, me banhando com a água dela, bebendo, sentindo escorrer pela garganta... A água doce da minha Madalena. Uma hora olhei pro chão, vi ali uma pedrinha quase transparente, parecendo feita de água. Tinha uma forma de um “M”, bem pequeno. juro por tudo que é mais sagrado. O “M” de Madalena. Talvez uma parte dela? Todo mundo teria a água, mas aquela pedrinha, minúscula, aquela seria só minha. Gosto de pensar que foi um presente da Madá pro menino que esperou tempo demais pra dizer que a levaria sempre no seu coração.zoom-enquanto-a-chuva-nao-vem...-22
E nunca mais deixou de chover por essa região aqui toda. Vez em quando, até o ribeirãozinho transborda, pra nossa alegria. Quando isso acontece, a meninada sai gritando pela enxurrada: “Chuva de Madá! Chuva de Madá!” E eu fico alegre nessa minha velhice, porque vejo que eles acreditaram na minha história... Às vezes, até eu não acredito. Quando isso acontece, tiro do bolso a pedrinha. Aquela mesma, que um dia, quando eu me for, vai ficar de presente para uma de minhas netas, a Madalena...

Autora: Bia Machado

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06 fevereiro 2011

Perfeição

aprendendoMais uma sexta-feira que seria diferente. Com que ansiedade ele havia esperado essa noite chegar! No fim da tarde saíra do escritório um pouco mais cedo, fora ao supermercado e chegara em casa pronto para jantar com a mulher e os dois filhos.
— Papai, papai, olha o meu desenho...
— Pai, amanhã vamos ao estádio, não vamos?
— Querido, o molho está como você gosta?
Tudo perfeito, devidamente encaixado, cada coisa em seu lugar. Tinha uma bela família, um bom emprego, uma bela casa...O que faltava? Ele sabia o que era: emoção. Faltava sentir o sangue correndo rápido nas veias, mais do que o normal. Faltava o coração batendo rápido, como num frenesi louco. Faltava loucura, loucura que alimentasse sua alma e fizesse com que ele acreditasse que era humano, que estava vivo.
Despediu-se da esposa com um beijo. Ela estava linda, perfumada. Assim que voltasse de seu compromisso, faria amor com ela.
— Não vou me demorar.- ele prometeu.- Não durma antes de eu chegar, está bem?
michael-c-hall1Deixou o carro em um estacionamento no centro e foi caminhando até um barzinho com som ambiente. Não se podia negar que era um homem bonito em seus quarenta anos, bronzeado, que se cuidava. Assim seria mais fácil conseguir seu intuito.
Tinha que ser uma mulher sozinha, para que ninguém reparasse neles assim que saíssem dali. Escolheu aquela que seria a dona de seus desejos mais íntimos por aquela noite. Durante alguns momentos, ela seria única e ele tinha certeza de que serviria totalmente aos seus propósitos.
Branca, de longos cabelos castanhos. Gostava de variar. Na próxima semana seria uma morena, ou uma loira. Mas de uma coisa ele não abria mão: tinha que ser linda, escultural.
Ela estava sozinha, desprotegida, da forma como o excitava. Queria carinho, ansiava pela segurança e pelos momentos que eles poderiam passar juntos.

Não sabia como, sempre conseguia convencê-las a ir ao apartamento dele, um local que secretamente mantinha para o seu passatempo. Valia a pena pagar o aluguel, para desfrutar de momentos tão revigorantes.
Sem esperar muito, eles se entregavam completamente um ao outro. Ela era até mais linda do que a da semana passada, coisa que ele havia duvidado que conseguiria encontrar.
"Agora é só minha, para o que eu quiser...", pensava ele, enquanto ela gemia de forma deliciosa. Demorou-se com ela mais tempo do que o habitual, de tão bom que estava sendo vê-la sentir prazer.
"Serei o último...O último..."
mastersitemovies271837on9Mas ainda não era hora do seu clímax. Não, não daquela forma. Ele precisava de mais, do seu modo. Era preciso sangue, muito sangue. Foi o que fez. Torceu-lhe o pescoço, de forma rápida, para que ela não sentisse dor. E enquanto a esquartejava, finalmente chegava ao seu clímax, somente seu, solitário, da forma como ele mais gostava, fazendo o que lhe dava mais prazer.
Os pedaços colocou no freezer, junto com as partes da outra, a bela morena da semana passada. Já não lembrava mais o rosto dela. Só recordava como a sensação tinha sido boa, revigorante. Passara a semana toda relembrando cada momento, lembranças que o faziam vibrar, sentir-se vivo, renovado.
Agora havia dois corpos cortados no freezer. Precisava pensar em uma forma de se livrar deles, pois não haveria espaço para um terceiro. Pensaria nisso depois, agora ele iria para casa, fazer amor com sua esposa. E, no dia seguinte, iria ao estádio com seu filho.
Para ele, isso era saber viver a vida.

Autora: Bia Machado

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05 fevereiro 2011

Vidência

videncia
Vejo pessoas,
pessoas que os outros não vêem.
Pessoas que vão,
pessoas que vem.
Nasci com um dom
que nem todos tem.
Tenho uma missão
que está guardada
no meu coração
e que na hora certa será revelada
pois é o sentido da minha jornada
da vida.
Vida esta que escolhi,
Vida esta que defini,
Vida esta que tem um destino,
Vida esta que está nas mãos do divino.
De fato, ver gente morta
não é para qualquer um
são pessoas especiais
que Deus marcou.
Marcou para ajudar
os espíritos que a luz não conseguem alcançar.
Marcou para cumprirem sua missão
e aumentar seu grau de evolução.
E no final
só digo uma coisa,
tenho mais medo dos vivos
do que dos mortos.
Autora: Milly Pellegrini
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