15 dezembro 2011

Amor Imortal

mulher dormindoEu observo você todas as noites.
Vejo quando você chega em casa e procura a chave na bolsa para entrar em seu prédio. Depois, você abre a porta do apartamento, põe o casaco sobre o encosto da cadeira e as compras no balcão da cozinha. Vejo você indo ao banheiro e, pelo reflexo do espelho, tomando uma ducha. Acompanho-a caminhando seminua até seu quarto, pondo sua camisola e assistindo TV na sala. Então, você apaga a luz do quarto e deita-se para dormir.
O que é o fim do dia para você, para mim é apenas o começo.
Como uma névoa, entro por uma fresta na janela e logo estou ao seu lado, na cama, vendo-a adormecida, respiração profunda, pele branca e veias saltando no pescoço.
Aproximo meus caninos da sua garganta, mas não me movo, apenas sinto o seu calor. Não sou daqueles que busca satisfação imediata, tenho paciência, saberei aguardar seu tempo.
Para sobrevivência, busco as prostitutas do porto, dispostas a dar litros e litros de sangue, se fossem necessários, por meros vinte reais. Mas com você é diferente, é mais do isto.
Você deveria me conhecer, já nos vimos várias vezes antes em seus vernissages, foi numa das suas exposições de pintura que me apaixonei por você, tão bela dando entrevista aos repórteres, tão emotiva nas cores que lançou nas telas. Em duzentos anos, eu nunca havia me sentido assim e, desde que a vi pela primeira vez, venho todas as noites até seu quarto, velando seu sono.
Vou lhe contar tudo que ocorrerá nas próximas semanas.
Amanhã, vamos nos esbarrar numa discoteca e você olhará para mim.
— Desculpe-me, mademoiselle — eu lhe direi e você ficará fascinada por meu sotaque francês.
— Já não nos conhecemos? — você me perguntará.
— Eu me lembraria de uma mulher tão linda como você — eu direi, e por mais que seja uma cantada barata, você não se importará.
Conversaremos a noite inteira e você esperará que eu lhe dê um beijo ao nos despedirmos, mas não, beijarei a sua mão e prometerei que nos encontraremos novamente.
Então, na noite seguinte, eu passarei diante da sua porta no mesmo instante em que você chegar do trabalho. Você me verá e se assustará:
— Que coincidência!
— Você mora aqui? — perguntarei.
— Sim, e você?
— Do outro lado da rua. É o destino — direi.
Você me convidará para entrar e beberemos um vinho juntos, mas penso no seu sangue, em meus dentes cravados nas veias de seu pescoço.
Você tomará a iniciativa e me beijará.
— Tem frio? Sua pele está tão gelada.
Mas eu a calarei com outros beijos e logo estaremos nus em seu quarto.
Não posso lhe dar o prazer que você busca. Ser imortal tem as suas desvantagens e você achará que a culpa é sua.
— Não o excito? — você me perguntará.
— Nada disto. O problema é comigo — eu responderei — Mas posso lhe dar um prazer que você nunca sentiu antes — prometerei — Basta que você feche os olhos.
Vampiro83Você obedecerá, arfando, contorcendo-se de excitação, ansiosa para descobrir o que se sucederá. Eu me aproximarei lentamente de seu pescoço delicado, vou lambê-lo e, enfim, rasgar sua pele com meus dentes, beber o seu sangue e você gemerá, tremendo, agarrando os meus cabelos, num misto de gozo e pavor.
Partirei e durante vários dias não a verei. Você terá medo, ficará aterrorizada que eu retorne, mas numa noite solitária, diante da certeza que me ama e que eu a observo, você sussurrará desde sua cama.
— Sinto sua falta...
E eu entrarei em seu quarto e nos amaremos do meu modo particular.
Aos poucos, sua vida mudará. Você deixará de trabalhar, acordará com o pôr do sol e dormirá quando ele nascer, assim como eu.
Sua família e seus amigos ficarão preocupados, tentarão nos afastar. Então serei obrigado a matá-los um por um, começando por seu pai, aquele desgraçado!
E você será toda minha, o tempo todo, a minha escrava!
Como não quero vê-la morrer, deixando-me sozinho, numa noite proporei que você se torne como eu e você aceitará.
Você será amaldiçoada, assim como eu. Jamais verá a luz do sol novamente. Verá o mundo se transformar e todas as pessoas que conhece morrerão, mas você continuará jovem.
Seremos duas criaturas da noite, vagando por este mundo por todo o sempre.
Até que, daqui centenas de anos, você me odiará. E eu me arrependerei de tê-la conhecido.

Autor: Henry Alfred Bugalho

 
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