14 dezembro 2011

Metade cheio ou metade vazio?

dani-copo

Mateus Terminus, já acostumado a receber os mais estranhos casos, surpreendeu-se ao receber um convite inusitado de seu colega desafiando-o a resolver um antigo enigma que gerava discussões muitas vezes desnecessárias. O ponto de encontro era o conhecido bar Órion (local que de “bar” só tinha o nome); um restaurante freqüentado somente por convidados importantes ou que possuíam cargos elevados no Complexo de Estudos Astronômicos da Terra Unida.
Terminus, com seu típico jeito de ser, detestava aqueles “engravatados”, mas não perdia a chance de resolver um caso independente de que espécie fosse. Afinal, sempre acabava envolvido de qualquer forma em conspirações absurdas. Esta era uma delas.
- Muito bem. Estou aqui. Qual é o caso?
- Este.
Um de seus conhecidos encheu um copo pela metade com o mais fino vinho oferecido pela casa. Após sentir o aroma característico da mais pura uva, largou o copo e perguntou.
- Eu e meus amigos aqui estamos com uma terrível dúvida.
Terminus suspirou e disse.
- Eu também estou começando a esboçar uma terrível dúvida. O que estou fazendo aqui mesmo?
- Deixe de ser rabugento. Nossos clientes estão muito interessados em descobrir se este copo está metade cheio ou metade vazio. Qual a sua opinião?
- Eu vou embora...
- Não pode. Estes são SEUS clientes. Eles exigem uma resposta.
- Eu mereço... Muito bem. O líquido está exatamente na metade do copo. Mas isto porque ele está de pé. Se eu colocar esta tampa e deitá-lo, o líquido cobrirá as duas metades, mas um novo espaço superior surgirá. Duas novas metades? Talvez. Se eu virar ele de cabeça para baixo, a metade vazia passará a ficar cheia e a parte cheia, vazia. Duas novas variáveis na mesma metade? Provável. Se eu pegar este copo e girar com força, um pequeno redemoinho surgirá no centro forçando o líquido a se deslocar para as extremidades. Um espaço vazio dentro de um espaço cheio? Se eu sacudir este copo, os espaços vazios mudarão de lugar o tempo todo. Se considerarmos que não há realmente um vazio, pois ali estaria o vácuo, o copo inteiro estaria cheio e apenas uma parte deles estaria preenchido com moléculas mais maleáveis. Resumindo: quatorze variáveis em um copo que pode estar nos dois estados ao mesmo tempo. Um paradoxo improvável existente na inexistência do infinito interno do finito, onde a metade de um é igual a dois, contrariando a expansão original e ao mesmo tempo crescendo exponencialmente para o círculo interior, tornando o espaço vazio cheio e o espaço cheio um ponto vazio no infinito. Com isso em mente chegamos a apenas uma conclusão.
Os clientes finalmente acordaram do “princípio de coma induzido” que os afetou momentaneamente e olharam para seu amigo, esperando alguma reação.
- Mas, então, que conclusão é esta? Afinal, qual o correto: metade cheio ou metade vazio?
- A resposta mais correta, levando em conta todos os fatores mencionados é apenas uma.
Mateus Terminus pegou seu casaco, segurou o copo e tomou o vinho em um gole só. Antes de sair pela porta, disse:
- Depende do tamanho do copo.
A porta fechou. Os clientes se entreolharam enquanto seu amigo ria consigo mesmo e terminava sua bebida.
- Eu não disse? Ele é perfeito para o que vocês precisam.
- Tem razão. Obrigado, senhor Carlos. Iremos entrar em contato com o Secretário de Defesa Espacial da Terra Unida agora mesmo...

Autor: Brian Oliveira Lancaster

 
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