13 dezembro 2011

O gato de Schrödinger

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Pela primeira vez acompanhava atentamente a trajetória dos ponteiros do relógio da praça central. Faltavam apenas cinco segundos para o meio-dia e para o ressoar característico das cinco badaladas do sino dourado que havia sido restaurado recentemente. O sino tocou.


Foi aí que tudo teve início.


Permaneci sentado no banco da praça enquanto os eventos se desenrolavam. Começou em uma pequena escala. A calçada em minha frente apresentou uma rachadura, provavelmente pela ação do solo (afinal, desde que o homem começou a pavimentar as ruas, este foi deixando de respirar e entregue à própria sorte). Em seguida as raízes da árvore centenária do outro lado da rua se moveram. Não era apenas movimento. Estavam crescendo. A raiz maior encontrou uma “saída” e se dirigiu às vias de trânsito. Ignorei o jornal e levantei.
Uma raiz brotou embaixo de um automóvel desequilibrando seu eixo dianteiro e fazendo o motorista perder a direção. A batida foi leve, mas como o trânsito permanecia intenso, não houve espaço para um tempo de resposta dos outros motoristas. Após alguns acidentes inevitáveis, a rua permaneceu congestionada e o “engavetamento” ocorreu.


Havia uma linha férrea e um metrô próximo à praça – os quais foram alertados imediatamente após estes acontecimentos. Mas com a atual velocidade em que o trem se encontrava, era impossível pará-lo a tempo. Os freios de emergência foram acionados. O maquinista fez isto o mais rápido possível. Mas não o suficiente.


Devido à pressão, o vagão central saiu dos trilhos. Sem direção acabou “rasgando” bruscamente a parede de um prédio em construção. A estrutura inteira ficou comprometida. O guindaste de concretos oscilou. Os últimos vagões assentaram e finalmente pararam de se mover. A inércia havia cessado, mas não seus efeitos colaterais. Um rugido horrível ecoou pela praça.
A zona de equilíbrio foi quebrada e o guindaste iniciou sua queda em direção à catedral. Uma chuva de vidros estilhaçados produziu um efeito caleidoscópio que paralisou por alguns segundos todas as pessoas ao redor. O show do arco-íris artificial cessou e todos começaram a prestar atenção ao gigantesco sino que agora despencava da torre destruída em direção à avenida central.
Inúmeras árvores foram derrubadas devido ao seu peso. Percebi que estava no caminho de sua fúria descontrolada. Aproximava-se rápido. Não sei bem o motivo, mas minha mente iniciou uma recapitulação dos fatos ocorridos: rachaduras no chão aparecendo do nada, raízes crescendo a uma velocidade absurda, acidente de carro desencadeando um congestionamento, este congestionamento atingindo a via férrea, trens descarrilando e atingindo um prédio em construção, guindaste deste prédio atingindo a catedral, queda do sino que se dirigia ao centro dos eventos.
gato_preto_com_manchas_brancas-1280x960Em meio ao “caos organizado” ao redor de um raio central desconhecido, percebi que estava envolvido em uma experiência – se bem que o mais correto era chamar de “fenômeno”. O gigantesco sino se aproximava de seu alvo principal: Eu. Aquelas badaladas nunca mais sairiam dos recônditos obscuros de minha consciência. Não conseguia me mexer. Num último relance compreensível, antes que a adrenalina tomasse conta de mim, pensei ter visto o vulto de um pequeno gato preto com manchas brancas.


Foi aí que tudo terminou.


(...)


Pela primeira vez acompanhava atentamente a trajetória dos ponteiros do relógio da praça central. Faltavam apenas cinco segundos para o meio-dia e para o ressoar característico das cinco badaladas do sino dourado que havia sido restaurado recentemente.
De alguma forma, aquela cena parecia familiar. Quando fui pegar o jornal para ir embora, notei que um pequeno felino adorável, de cor preta e algumas manchas brancas, dormia calmamente em cima dele. Resolvi deixá-lo com sua cama improvisada. Pensei em voz alta: “Se ele ainda estivesse ali quando eu voltasse, quem sabe poderia adotá-lo? Mas qual era a chance de encontrá-lo novamente? Uns cinqüenta por cento?
A orelha do gato levantou.
Faltavam apenas cinco segundos para o meio-dia. O sino tocou. Todos os cidadãos daquela cidade perderam cinco segundos de suas vidas para sempre. Ou não. Será que um dia perceberiam? Mas qual seria a chance disto ocorrer? Sem um observador externo, seria impossível. Voltou a dormir profundamente, sabendo que logo em seguida encontraria um lar.

Autor: Brian Oliveira Lancaster

 
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