14 dezembro 2011

O gato que sabia atravessar paredes

Tabitha,-Maine-Coon

Orion era um gato muito inteligente, não somente por ter o nome de uma constelação, mas também por possuir uma habilidade fora do comum que surpreendia seu dono cada vez que era utilizada. Era difícil não notar sua presença. Sua tonalidade laranja com rajados amarelados chamava a atenção de qualquer um que apreciasse um felino da raça “Maine Coon”.
Sua habilidade especial fora descoberta por acaso em certa noite de verão. Não gostavam que ele saísse de casa após as nove horas, pois ele tinha a mania irritante de sumir e deixar seu dono preocupado. Aliás, ele permitia que cuidassem dele e o considerassem como propriedade. Mas, na verdade, ele é que havia adotado aquela família. Em sua mente ele era o verdadeiro dono daquelas pessoas e da casa em que morava.
Naquele dia todas as janelas e portas estavam fechadas. Estava tudo muito tranqüilo. Os únicos sons que podiam ser ouvidos provinham do ventilador da sala e do computador no quarto. Aquele som de "pás" girando era bem irritante aos seus ouvidos. Queria sair dali e passear, mas como faria isso se haviam trancado todas as portas e janelas?
Foi então que aconteceu. Ninguém percebeu quando, mas após um tempo sentiram falta da mascote. Onde aquele gato travesso havia se metido? No guarda-roupa? Não. No balcão de sapatos? Não. Embaixo da cama? Não. Escondido em algum canto se preparando para "dar o bote?" Também não.
Ao olhar pela janela avistou o gato deitado no pátio, um pouco desorientado, como se estivesse perdido. O que durou apenas alguns segundos. Logo se levantou, esticou as patas e partiu para mais um passeio noturno. Como aquele gato havia saído? Verificaram calmamente cada porta e janela. Tudo trancado. Era certo que aquele gato era mais esperto do que imaginavam - havia descoberto uma maneira de sair de casa sem utilizar os meios convencionais.


Como isso ocorreu mais vezes, sua habilidade acabou se aperfeiçoando. Após algumas noites instalaram uma câmera de vídeo para gravar suas peripécias. Precisavam descobrir como ele conseguia fazer aquilo. Agora bastava apenas aguardar e verificar o arquivo mais tarde.
Verificaram calmamente a gravação. Havia um ponto em que parecia ocorrer um salto na imagem e instantes depois, o gato aparecia lá fora. Poderia ser algum defeito no chip ou alguma queda de luz momentânea. Mas não era. Aquilo ocorreu mais vezes e seu dono chegou a uma conclusão absurda de que seu gato sabia atravessar paredes. Mas isto era impossível, além de muito improvável. Não deixaria este "caso" sem respostas. A partir dali vigiaria seu mascote vinte e quatro horas por dia.
Mas não foi preciso tanto. No outro dia, quando tudo estava fechado novamente, Orion não pôde se desvencilhar de um abraço carinhoso e demorado de sua parte. Após um tempo começou a ficar irritado e a olhar fixamente o pátio lá fora. Aí aconteceu.
Primeiro uma sensação de estática tomou conta de seu dono. Depois seu peso diminuiu. Por fim, um estranho calafrio percorreu seu corpo. Em seguida, desapareceu... Lá fora estava um gato de olhos bem abertos olhando-o fixamente através do vidro da janela fechada. Não havia mais nada em seus braços. Aquilo era possível? Como havia feito isso? Mesmo assim, isto já explicava muita coisa.
Procurou saber de onde havia saído aquele gato especial. Lembrava apenas de tê-lo adotado ao passar por uma veterinária. Engraçado que ele poderia ter saído de lá "com seu poder" se realmente quisesse. Mas não o fez. Será que procurava um lar? Bem que desconfiava que houvesse algo de diferente naquele gato que de uma hora para outra estava fora da pequena jaula em que se encontrava preso e aparentava deixar sua veterinária enlouquecida. Mas era certo que não havia sido criado por eles. Quem será que havia deixado um gato tão especial em uma simples veterinária?
Acabou descobrindo que este gato havia fugido de um centro tecnológico de ciências avançadas. Mas não pertencia a ninguém. Apenas costumava andar por lá. Em todo caso resolveu cuidar melhor de sua propriedade especial. Voltou para casa e começou a estudá-lo. Inevitavelmente criou pequenas armadilhas que divertiam o gato, enquanto ele filmava sua habilidade extraordinária. Caixas fechadas não eram páreas para ele. Sempre dava um jeito de sair. O interessante é que tudo ocorria em um piscar de olhos. Nada de luzes e "efeitos especiais", apenas uma leve distorção magnética no pequeno raio de ação de seu teletransporte.


Aquilo deixou de ser divertido para se tornar intrigante. Era fato que aquela mascote era alvo de alguma experiência bem sucedida. Talvez ainda estivessem procurando por ele. Mesmo tendo plena consciência disso, não gostava de pensar em desfazer-se dele. Já era praticamente um membro da família.
O que não iria durar por muito tempo...
Em algumas semanas a veterinária já estava cercada por agentes federais e do campus. Como ele iria esconder seu amigo? Era correto fazer isso? Aliás, será que ele ficaria quieto e escondido "dentro" de alguma coisa? Começou a procurá-lo. Devia estar lá fora como sempre fazia. Mas não estava. Avistou um dos agentes que se dirigia para sua casa. Entrou novamente e revirou tudo. Nada. Havia sumido.
Prestou informações relevantes ao agente, mas ressaltou que não sabia onde ele estava. Quando indagado sobre o motivo, o agente disfarçou e agradeceu a colaboração. Era algo muito fantástico para ser exposto assim, de forma tão banal. Desceu as escadas e foi embora. Aonde aquele gato maluco havia se escondido?
(...)
image001Passou-se um mês desde os últimos acontecimentos e tudo voltara ao normal. O gato permanecia desaparecido (ou havia finalmente voltado para sua casa original), mas não saia da memória de seus donos. O que teria acontecido?
Sentindo a falta de uma mascote por perto, logo adotaram outro gato extremamente semelhante ao gato anterior. Relataram isso a veterinária, que não se lembrava de já ter doado um gato para aquela família – fato estranho.
(...)
O “novo” Orion se adaptou rapidamente a sua nova família. Era brincalhão, esperto e muito curioso. Cresceu... E também seu desejo por aventuras. Certo dia foi achado dentro do centro tecnológico de ciências avançadas por uma veterinária – que o abrigou temporariamente em sua casa. Ele literalmente a enlouquecia (o que a levou a deixá-lo disponível para adoção). Foi assim que sua família o reencontrou.
Aquela cena lhes era familiar. “Dejavú” pensou. Seria o gato um “gatilho” para este estranho fenômeno inexplicável? Ao chegar em casa, uma surpresa o aguardava. Deu de cara com o gato desaparecido. Este, por sua vez, soltou um miado de agradecimento e desapareceu bem em sua frente, tornando-se invisível aos poucos. O gato em seu colo olhou-o atentamente por alguns segundos.
Exclamou em seguida:
- Querida! Estávamos enganados!
- Sobre o quê?
- Não temos um gato que sabe atravessar paredes... E sim, um gato que sabe viajar no tempo!
Como se aquilo fizesse mais sentido do que tudo que já havia ocorrido...

Autor: Brian Oliveira Lancaster

 
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