14 dezembro 2011

Pilhas Alcalinas e Universos Paralelos

General b2wincEu não pertencia àquele lugar. Por mais que tentasse me adaptar às condições atuais, meu organismo insistia em me lembrar do que havia ocorrido alguns dias atrás. O teste fora bem sucedido e finalmente era possível quebrar a barreira que separava as cordas dimensionais. Possuíamos uma máquina portátil que produzia um emaranhado diferenciado na espuma quântica – semelhante ao que ocorria quando era despejado um copo de água sobre espumas de sabão: de um lado permanecia o líquido, do outro, a espuma.
Não vou perder tempo descrevendo os pormenores da máquina, mas posso dizer que através dela podíamos alcançar um universo paralelo e permanecer lá por alguns poucos segundos. O mais intrigante era que o aparelho funcionava apenas com certa quantidade de material alcalino. Seria engraçado se não fosse trágico.
Em uma de nossas primeiras viagens experimentais fui instruído a segurar o aparelho com as duas mãos e deixá-lo encostado no peito. Aconteceu de uma forma tão súbita que pareceu ser apenas uma alucinação seguida de uma leve tontura. As imagens ao meu redor ficaram borradas e no lugar de um complexo científico surgiu um belo parque com alguns jardins suspensos.
Incrível! Mesmo sabendo que aquela visão duraria pouco tempo.


Mas o parque não desapareceu. Olhei para a máquina. O visor holográfico piscava em vermelho. Transportar matéria do tamanho de um corpo humano entre universos deveria ter ocasionado uma sobrecarga inesperada. Mas, tudo bem, bastava sair por aí e arranjar mais algumas pilhas alcalinas.
O céu estava bem colorido naquele dia e me fez esquecer por um momento onde estava. Para quem já havia visto um céu cinza e poluído, aquele era um deleite para meus sentidos. Fui avançando pela área central até chegar a uma bifurcação de formato estranhamente familiar. Olhei para todos os lados procurando entender o que significava e acabei me surpreendendo. As bifurcações formavam perfeitamente o desenho de uma borboleta.borboleta010
Dali pude avistar uma loja com formato engraçado. Parecia torta e era curvada para dentro, contendo vários círculos concêntricos e tão coloridos quanto o céu. Não tive receio de um primeiro contato. Afinal, era o mesmo lugar, só que em outro universo. Aproximei-me de uma forma nada cautelosa, sorri e perguntei se vendiam pilhas alcalinas. A resposta a esta pergunta me levou à situação descrita no início deste relato.


Aquele era um universo que não possuía pilhas alcalinas!
Em compensação, aprendi que naquele universo a ciência não havia sido desenvolvida assim como fora no nosso. Era um mundo dedicado às artes e literatura. Por isso havia tantos desenhos curiosos, exageros de cores, arquiteturas surreais e um povo extremamente culto. Era estranho que um povo dedicado aos estudos não tivesse colocado nada em prática. Não existia uma única invenção cientifica. Será que não existiam livros sobre isso? Ou teria acontecido algo que acabou por interromper seus estudos no ramo? Era o que pretendia descobrir.
Pilhas alcalinas. Nunca achei que um dia minha vida dependesse delas. Isto me lembrava a Teoria do Caos que estava intimamente ligada à Teoria das Cordas. E havia um pouco da Lei de Muphy aí.

(...)


Enfim... Acabei me acostumando ao “modus operandi” deste universo, o que me levou a registrar este relato em papel e a torcer para que um dia alguém lesse e entendesse o que estava escrito.
Como isso não ocorreu, continuei minha busca por respostas.
Encontrei alguns fatos interessantes, como um projeto abandonado de transmissão de pensamentos via ondas de rádio e outro relacionado com viagens à velocidade da luz. Este último tinha um conceito muito intrigante que era ilustrado por uma viagem de trem. Se um trem estivesse viajando à velocidade da luz e um passageiro se deslocasse do último vagão para o primeiro, estaria se movendo mais rápido que ela?
Nikola Tesla photo 2Acabei por descobrir que um senhor recluso, chamado Nikola Tesla, fez uma das maiores descobertas há alguns anos atrás neste universo. Seu invento era tão poderoso que abriu um buraco no contínuo espaço-tempo. O resultado? A ciência foi proibida e a máquina esquecida em um lugar obscuro – o que levou ao desenvolvimento súbito da literatura teórica. Com o tempo, a ciência foi substituída pela arte. Mas não era a arte uma forma de ciência?
Entendi que só foi possível atravessar para este lado devido ao experimento já citado, que tornou a parede entre nossas dimensões mais fina. Imagine a surpresa quando descobri que a máquina nada mais era do que uma pilha gigante! Talvez nossa máquina só funcionasse porque era atraída pelo magnetismo deste lado.
Tudo bem. Mas como iria voltar? Precisava achar esta máquina. Mas por onde começar? Poderia estar em qualquer lugar... Um lugar em que ciência tivesse se transformado em arte...
Lembrei imediatamente da praça central, o primeiro lugar que conheci ao chegar aqui. As asas da borboleta poderiam muito bem ser os ponteiros de um relógio gigante apontando para todas as direções. Todas elas convergiam para um único ponto no meio da praça. Estranho, havia saído de lá...
Voltei ao ponto inicial, onde tudo havia começado. Desta vez coloquei o aparelho no chão, bem no centro da borboleta. Um som estranho, seguido de luzes que iluminaram suas asas, pôde ser observado. As imagens ao meu redor ficaram borradas e no lugar de um belo parque surgiu um complexo científico.
Havia retornado!


Os cientistas ao redor ficaram boquiabertos, enquanto desligavam temporariamente o gigantesco colisor de hádrons. Todos olhavam a pequena máquina que carregava em mãos. Um deles se aproximou cautelosamente e perguntou:
- Como funciona?
- Com pilhas alcalinas, oras!
- Pilhas... Alcalinas??
As risadas ecoaram pelo complexo. Comecei a ficar desorientado. Lembrei-me de ter visto aquele complexo apenas uma vez, mas por poucos segundos. Quando minha imagem desapareceu por completo bem na frente deles, o silêncio tomou conta de tudo. De certa forma compreendi como conhecia tão bem o outro universo. Eu tinha vindo de lá.
As equipes se entreolharam por um breve momento. Levou alguns minutos, que pareceram eternos, para que apenas uma pessoa quebrasse o silêncio total quando indagou novamente:
- Pilhas alcalinas?
(...)
Sim. Esta experiência serviu de base para minha tese intitulada “Pilhas Alcalinas e Universos Paralelos”. Pena que fui o único a colocá-la em prática. Mas algo ainda me intriga. O que seria um “colisor de hádrons?”

Autor: Brian Oliveira Lancaster

 
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