09 junho 2012

Alice se foi

sad_anime_111 A cacofonia dos sons noturnos da grande cidade distraia os transeuntes que passavam pelas ruas madrugada afora. Mas um murmúrio chamou a atenção dele. Um choramingo baixo, quase imperceptível. Se sentiu atraído pelo som como uma mariposa pela cegante luz. Alguém devia estar chorando nas proximidades. O som parecia ser feminino, frágil como uma porcelana . A parca luz proveniente dos postes de iluminação não era tão propícia para a busca que o homem desejava realizar. Procurou alguma forma feminina na rua escura, mas nada encontrava. Até que avistou uma silhueta encurvada sentada num sujo paralelepípedo. Ela chorava copiosamente. Suas lágrimas haviam feito a maquiagem em seu belo rosto escorrer e marcar em traços pretos suas bochechas.

Conforme ele se ajoelhou a seu lado, a moça estremeceu. Seu choro ficou mais intenso. Ele notou a roupa que ela vestia, mesmo na fraca luminosidade. Suas vestes diziam que ela havia acabado de sair de uma boate. Mas algo errado deve ter acontecido pois já passavam das 3 e ela se encontrava sozinha numa rua escura e deserta. Ele se aproximou mais um pouco e tentou falar com ela. Seu choro cessou por um instante enquanto levantava seu rosto manchado para encarar o estranho. O medo espalhou pelo seus olhos, sua boca vermelha e bem desenhada se abriu levemente. Ele tentou se desculpar e ofereceu sua ajuda a qual ela recusou com o simples balançar de sua cabeça. Seus cabelos dourados cortados na altura da nuca brilharam no momento que os balançou. Ele olhou fascinado pela beleza da moça.

- Você está bem? Realmente não precisa de ajuda? – Insistiu ele mais uma vez ao ver que ela negava mais uma vez.

Ela voltou a abaixar a cabeça e suas lágrimas aumentaram. Ele estava perdido na confusão da moça. Não conseguia entender nada do que estava acontecendo. Ele foi interrompido de suas divagações quando percebeu que ela murmurava algo. Um nome repetidamente. Como num lamento aos mortos as palavras saiam de sua boca. Ele tentou por mais de uma vez entender o que ela dizia, mas o choro ininterrupto dificultava. Ele exalou profundamente tentando manter a calma.

Ela suspirou e olhou para o rosto do homem agachado a sua direita. Ela percebeu o ar de preocupação que exalava. Os olhos verdes a encaravam intensamente. As sobrancelhas dele franziam conforme as perguntas passavam por sua mente. Sua boca levantou-se um pouco num singelo sorriso encorajando-a a falar.

- Alice se foi!- Ela disse sem fôlego. – Se foi e jamais irá voltar...

Ele então largou a jaqueta de couro que segurava e se atreveu a jogar um dos braços ao redor da indefesa mulher que balbuciava as mesmas palavras que para ele eram sem sentido. Ele a manteve segura em seu abraço espontâneo e simples e a sentiu relaxar um pouco.

- Moro no final dessa rua. Estava vindo da casa de um amigo e se você deixar talvez possa te ajudar. Venha comigo e poderá se aquecer um pouco e ligar para alguém vir busca-la. – ofereceu ele

Ela pensou um pouco. Na verdade, muito. Mas o medo de estar na rua a noite era maior que ir até a casa desse estranho. Não era confiável. Mas o que mais ela poderia fazer. Estava completamente desesperada e perdida.

Ele a encaminhou até seu apartamento no fim da rua principal. Abriu a porta do prédio como um perfeito cavalheiro e disse baixinho:

- Por sinal, chamo-me Icaro.

Ela olhou naqueles esperançosos olhos verdes e nada disse. Deixou-o a conduzir até o apartamento onde ele ofereceu algo para beber. Ela negou a água com açúcar e pediu uma dose de vodka. Enquanto bebiam, ela tentou contar parte de sua história para o seu salvador.

Ela era de uma cidade interiorana e acabara de se mudar para a casa de uma amiga. Estava há apenas 2 meses em São Paulo e deparara-se com uma realidade completamente diferente. Sentia-se num mundo diferente. Um mundo que girava ao redor de festas, bebidas, sexo e drogas. Tentou esclarecer que nunca havia sido uma usuária de drogas pesadas, apenas da maconha que compartilhava com os amigos. Ela riu ao repetir a palavra. Esses eram seus amigos na cidade grande. Estranho como em poucos meses podemos chamar as pessoas erradas de amigos.

Enquanto ela contava ele fixava seus olhos nos brilhantes olhos amarelos dela. Agora na luz ele percebia as íris rajadas de verdes, uma perfeita coloração. Até que ele realizou que ela ainda estava com o rosto manchado de sua maquiagem. Ele a interrompeu por apenas um momento oferecendo um lenço de papel. Aproximou o lenço do rosto polido como o mais branco marfim e carinhosamente limpou os resquícios da maquiagem borrada que escorrera pelas bochechas. Os olhos de ambos se encontraram por um breve momento e o tempo congelou. Faíscas surgiram do contato de sua pele no rosto delicado dela. E como tivessem levado uma descarga elétrica se afastaram bruscamente e ela retomou sua história.

Ela estudava publicidade e tinha apenas 20 anos, mas sua vida mudou completamente ao participar ativamente das festas. Sua vida era melhor agora dizia a amiga. “Agora você é uma mulher e vive em São Paulo, aproveite a vida e tudo o que a cidade oferece” diziam seus amigos. Mais uma vez riu, um riso amargo que Icaro percebeu. Sua voz era doce, mas trazia uma profunda tristeza. Icaro a interrompeu mais uma vez:

- Quem é Alice? Ela morreu?

“Alice”, ela repetiu e de repente mais algumas lágrimas rolaram por seu rosto perfeito. Alice era uma jovem decidida, forte e que veio a São Paulo em busca de seus sonhos. Uma pessoa doce e bonita que fazia de tudo pelos amigos e a família. Uma alma carente de amor, mas que sabia amar a todos sem distinção. Ela não aguentou a pressão. Enlouqueceu, seus sonhos foram destruídos e pisados como folhas secas. Sua auto estima arrasada. Sua alma ficara em pedaços.

- Ela se foi! Nunca mais irá voltar! – ela sussurrou entre lágrimas.

Icaro ficou um momento em silêncio tentando absorver a história. Ele simplesmente não via uma ligação entre as duas. Seria Alice a tal amiga com quem a bonita mulher a sua frente morava? Seria Alice uma outra amiga? E quem seria essa misteriosa jovem que ele não parava de admirar?

Ela aceitou o silêncio dele, e aproveitou para servir-se de outra dose de vodka. Ela não podia contar toda a verdade para ele, ou podia? Ela encontrou mais uma vez aquelas esmeraldas e percebeu o quanto atraída estava por aquele homem. Ele é bonito, de fato. Alto, mais ou menos com 1,90 e braços e abdome bem definidos por baixo da camisa justa azul clara. Ela suspirou. Esse Icaro era lindo e mais que tudo gentil e doce com ela. A aceitara num momento de fragilidade e não tentara nenhum avanço indecoroso. Ela olhou para o rosto dele mais uma vez. Seu rosto era bem definido e sua barba estava por fazer. Não podia ser mais lindo.

- Você está bem? – a voz rouca dele a tirou do transe hipnótico causado por aqueles belos olhos.

- Não. Pois Alice não está comigo. Hoje percebi que ela se foi realmente. A mataram. Eles acabaram com ela. – exclamava a jovem.

anime amor casal beijo apaixonado menin menino paixão amor nós - Como assim?!? Calma, respira fundo. Me ajude a entender tudo o que disse. Estou aqui para te apoiar – ele se aproximou dela e a abraçou firmemente.

Ela desabou em seu abraço. Deixou o calor do corpo dele confortá-la. Ele sussurrou coisas doces em seu ouvido. Ele estava lá para apoiá-la. Icaro tentava protege-la de um mau qual desconhecia. Ela sentiu quando ele acariciou a linha de sua mandíbula com um dedo. O toque era mágico, prometia curas, amor e proteção. Tudo que ela mais desejava. Ele levantou levemente o pescoço dela e tocou os lábios com os seus. O beijo foi suave, mas o desejo por trás era inegável. Em pouco tempo ambos estariam entregues a uma paixão arrebatadora.

- Você não me disse seu nome... – ele disse ao retomar fôlego após o beijo.

- Eu não sabia quem eu era naquela hora. Mas pode me chamar de Alice.

Autora: Juliana M.

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