04 julho 2013

Chegarão chuvas suaves (Ray Bradbury)


Na sala de visitas, o relógio-falante cantou: Tique-taque, sete horas, hora de levantar, hora de levantar, sete horas!, como se tivesse medo que ninguém quisesse. A casa matinal estava deserta. O relógio tiquetaqueou, repetindo seu som no vazio. Sete e nove, hora do café, sete e nove!
Na cozinha, o fogão exalou um suspiro sibilante e lançou do seu aquecido interior oito fatias de pão, perfeitamente torradas, oito ovos fritos ao ponto, dezesseis tiras de toucinho, duas xícaras de café e dois copos de leite gelado.
— Hoje são 4 de agosto de 2026 — disse uma segunda voz, do teto da cozinha — na cidade de Allendale, Califórnia. — Repetiu a data três vezes para fixá-la na memória. — Hoje é o aniversário do Senhor Featherstone. Hoje é o aniversário de casamento de Tilita. É o dia de pagar as contas de seguro, água, gás e luz.
Em algum lugar das paredes, relés estalaram e fitas de memória deslizaram sob olhos elétricos.
Oito e um, tique-taque, oito e um, hora do colégio, hora de trabalhar, depressa, depressa, oito e um!, mas as portas não bateram, os tapetes não receberam as leves marcas de saltos de borracha. Chovia lá fora. A caixa do tempo, pregada na porta da rua, cantava tranqüilamente: “Chuva, chuva, vá em bora. Hoje é dia de capas e de galochas... “ E a chuva caía sobre a casa vazia, ecoando.
Fora, a garagem soou ergueu sua porta para mostrar o carro à espera. Depois de passado um tempo, a porta abaixou.
Às oito e meia, os ovos estavam murchos e as torradas feito pedra. Um utensílio de alumínio jogou-os na pia, onde um jato de água quente turbilhonante lançou-os numa gar ganta de metal, que os digeriu e atirou num mar distante. A louça suja foi colocada numa lavadora quente e emergiu seca c reluzente.
Nove e quinze — cantou o relógio — hora da limpeza.
Pequenos camundongos-robôs saíram de orifícios nas paredes. As habitações formigaram com os pequenos animais de limpeza, todos de borracha e metal. Esbarraram em Cadeiras, fazendo girar seus detectores, alisando os tapetes, sugando suavemente o pó escondido. Depois, como invasores misteriosos, pularam para suas tocas. Seus rosados olhos elétricos apagaram-se. A casa estava limpa.
Dez horas. O sol apareceu por trás da cortina de chuva. A casa erguia-se, solitária, numa cidade de ruínas e cinzas. Fora o único imóvel a resistir. De noite, a cidade arruinada emitia um clarão radioativo que podia ser visto a quilômetros de distância.
Dez e quinze. Os irrigadores do jardim giravam em chuviscos dourados, enchendo o suave ar da manhã com respingos de luminosidade. A água fustigou os vidros das janelas, escorrendo pelas paredes carbonizadas do oeste, onde a casa havia perdido sua pintura branca. Toda a fachada oeste da casa estava preta, com exceção de cinco lugares. Ali, a silhueta em branco de um homem cortando a grama. Aqui, como numa fotografia, uma mulher, curvada, apanhando flores. Um pouco mais longe, com os vultos gravados a fogo em madeira, num titânico instantâneo, um garotinho com os braços levantados. Mais em cima, a forma de uma bola atirada, e de fronte dele uma garota, com as mãos erguidas para apanhar um bola que nunca iria cair.
As cinco manchas de tinta — o homem, a mulher, as crianças e a bola — permaneceram. O resto era uma fina camada de carvão.
A suave chuva que os irrigadores produziam caia em fios luminosos.
Até aquele dia, como a casa tinha sabido conservar sua paz! Com que cuidado perguntava: “Quem está aí? Qual é a senha?” e, não obtendo resposta das raposas solitárias e dos gatos chorões, fechava suas janelas e corria as cortinas, numa preocupação de solteirona com a própria proteção, que atingia às raias da paranóia mecânica.
A casa estremecia com qualquer som. Se um pardal roçava numa vidraça, a cortina fechava-se ruidosamente. O pássaro, assustado, saía voando! Não, nem mesmo um pássaro podia tocar na casa!
A casa era um altar com dez mil acólitos, grandes, peque nos, servindo, atendendo em grupos. Mas os deuses haviam partido e o ritual da religião continuou absurdamente inútil.
Meio-dia.
Um cão ganiu, trêmulo, na varanda da frente.
A porta da rua reconheceu o latido do cão e abriu-se. O cão, antigamente grande e forte, era agora só ossos cobertos de feridas. Entrou na casa, deixando um rastro de lama. Atrás dele, chiavam os camundongos furiosamente, zangados por terem de limpar a lama e por causa da falta de compostura.
Pois assim que um pedaço de folha penetrava por baixo da porta, logo os painéis da parede se abriam e os camundongos de cobre surgiam como relâmpagos. O pó, o cabelo ou o papel inconveniente eram apanhados por minúsculas mandíbulas de aço e carregados para os orifícios. Nestes, havia canos descendentes que os depositavam no porão, onde eram atirados na boca de um ciciante incinerador, instalado como um sinistro Baal num canto escuro.
O cachorro subiu as escadas, latindo histericamente em cada porta, acabando por compreender, como já acontecera com a casa, que só o silêncio permanecia ali.
O cão farejou o ar e arranhou a porta da cozinha. Por trás da porta, o fogão estava fazendo panquecas, que enchiam a casa de um fabuloso cheiro de tostado e de maple.
Deitado na porta, com o focinho espumando, farejando, o cão tinha os olhos virados para o fogo. Começou a girar em círculos, mordendo a própria cauda, rodopiando freneticamente, e morreu. Ficou estendido na sala durante uma hora.
Duas horas, cantou uma voz.
Percebendo, finalmente, o cheiro quase imperceptível de decomposição, regimentos de ratos saíram sussurrando suave­mente como folhas amarelecidas arrastadas por um vento de tempestade.
Duas e quinze.
O cão desaparecera.
No porão, o incinerador brilhou subitamente e expeliu pela chaminé redemoinhos de fagulhas.
Duas e trinta e cinco.
Das paredes do pátio, surgiram mesas de bridge. Baralhos esvoaçaram e formaram montes, numa chuva de figuras. Martinis se manifestaram num balcão de carvalho, acompanha dos de sanduíches de salada de ovos. Ouviu-se música.
Mas as mesas ficaram silenciosas e as cartas intocadas.
Às quatro, as mesas dobraram-se, como enormes borboletas, e voltaram para seus nichos nas paredes de lambris.
Quatro e meia.
As paredes do quarto das crianças brilharam. Animais adquiriram forma: girafas amarelas, leões azuis, antílopes rosados, panteras lilases, cabriolando numa subs tância cristalina. As paredes eram de vidro colorido e cheio de fantasias. Filmes ocultos deslizaram sobre carretéis bem azeitados, e as paredes adquiriram vida. O chão do quarto foi preparado para assemelhar-se a um campo ondulante de ce reais, por onde corriam baratas de alumínio e grilos de ferro. No ar morno e parado, adejavam borboletas de delicadas asas vermelhas transparentes, entre o penetrante perfume de pega das de animais! Ouvia-se o barulho semelhante a um grande enxame de abelhas amarelas dentro de colméias e o preguiçoso ronronar de um leão. E também o galope dos okapis, o murmurar da chuva suave sobre a mata, bem como o de outros animais, caindo sobre o capim seco do verão. Agora as paredes se transformaram em planícies intermináveis de pastagens ressequidas e num céu infinito e quente. Os animais se afas taram pelas passagens espinhosas à procura de mananciais. Era a hora das crianças.
Cinco horas. A banheira encheu-se de água cristalina e quente.
Seis, sete, oito horas. A louça do jantar apareceu como um passe de mágica e no estúdio, um clique. Na estante, de fronte da lareira, onde brilhava um fogo acolhedor, apareceu um charuto, fumegante, com quase um centímetro de cinza, esperando.
Nove horas. As camas aqueceram seus circuitos ocultos, pois as noites estavam frias.
Nove e cinco. Uma voz falou do teto do estúdio:
— Senhora McClellan, que poema quer ouvir esta noite? A casa continuou silenciosa.
A voz finalmente disse:
— Já que não tem preferência, escolherei um poema ao acaso. — Ouviu-se uma música suave, como fundo para a voz. — Sara Teasdale (Poetisa americana (1884-1933). (N.doT.)). Se não me engano, sua preferida..

“Chegarão chuvas suaves e o perfume do solo,
As andorinhas adejando, com seu canto estridente.

E sapos nos charcos cantando de noite,
E ameixeiras silvestres, trêmulas e. pálidas.

Tordos vestirão sua plumagem de fogo,
Assoviando suas fantasias numa cerca baixa.

E ninguém saberá que há guerra, ninguém
Se preocupará quando ela tiver fim.

Ninguém se importará, seja pássaro ou árvore,
Se a humanidade perecer totalmente.

E a própria Primavera, quando despertar ao amanhecer,
Nem suspeitará do nosso desaparecimento.

O fogo queimava na lareira de pedra e o charuto consumiu-se em cinzas no cinzeiro. As poltronas vazias continuavam umas defronte das outras, entre as paredes silenciosas, e a música prosseguia.
Às dez horas, a casa começou a morrer.
O vento soprou. O galho de uma árvore despencou e arrebentou a janela, indo cair na cozinha. O vidro de detergente estilhaçou-se sobre o fogão. O local ficou instantaneamente em chamas!
— Fogo! — gritou uma voz.
As luzes da casa acenderam-se e as bombas de água começaram a jorrar do teto. Mas o detergente espalhou-se pelo linóleo, lambendo, devorando, passando sob a porta da cozi nha, enquanto as vozes gritavam em coro:
— Fogo, fogo, fogo!
A casa tentou salvar-se. Portas foram fechadas, mas as janelas estalavam por causa do fogo que era espalhado pelo vento.
A casa cedeu terreno ao fogo que, em dez bilhões de faíscas, avançou facilmente de compartimento para compartimento e depois pelas escadas.
Apressados ratos d'água pulavam das paredes esguichan do e corriam para buscar mais água. E os extintores murais espargiam sua chuva automática.
Porém era tarde. Em algum lugar, com um suspiro, uma bomba sacolejou e parou. A chuva diminuiu e parou. A caixa d'água, que havia enchido as banheiras e lavado a louça durante tantos dias tranqüilos, ficou vazia.
O fogo crepitou escada acima. Nutriu-se de Picassos e de Matisses nas salas superiores, como delicadas iguarias, cozinhando a carne oleosa, fritando maciamente as telas, em pedaços escuros.
Depois o fogo ocupou as camas, atingiu as janelas e mu dou a cor das cortinas!
De repente, chegaram reforços.
De alçapões, no sótão, robôs de rostos cegos viraram as cabeças para baixo e soltaram um produto químico verde.
O fogo retrocedeu como um elefante diante de uma cobra morta. E foram vinte serpentes que deslizaram para o chão, matando o fogo com o veneno claro e frio da espuma verde.
Mas o fogo era esperto. Enviou chamas para fora da casa e pelo sótão, para atingir as bombas localizadas lá. Uma explosão! O cérebro que, do sótão, comandava as bombas, transformou-se em estilhaços de bronze sobre as vigas.
O fogo penetrou em todos os armários e passou a lamber as roupas neles penduradas.
A casa estremeceu, viga por viga de carvalho, com a estrutura à mostra rangendo com o fogo, sua fiação, seus nervos, revelados como se um cirurgião tivesse retirado a pele para que veias vermelhas e os vasos capilares palpitassem no ar escaldante. Socorro, socorro! Fogo! Fujam, fujam! O fogo estalava os espelhos como os primeiros gelos do inverno. E as vozes gritavam fogo, fogo, fujam, fujam, como uma trágica cantiga de ninar, uma dúzia de vozes, altas, baixas, como crianças morrendo numa floresta, sós, terrivelmente sós. E as vozes emudeciam à medida em que os fios ficavam desencapados e explodiam como castanhas quentes. Uma, duas, três, quatro, cinco vozes calaram.
No quarto das crianças, a mata queimava. Os leões azuis rugiram, as girafas amarelas escaparam aos pulos. As panteras corriam em círculos, mudando de cor, e dez milhões de ani mais, fugindo do fogo, desapareceram na direção de um distante rio fumegante...
Mais dez vozes calaram-se. No último instante, sob a avalanche do incêndio, outros coros, esquecidos, puderam ser ouvidos, anunciando o tempo, tocando música, cortando a grama com segadoras de controle remoto ou abrindo e fechando freneticamente um guarda-chuva na porta da rua, que batia descontrolada, mil coisas acontecendo ao mesmo tempo, como numa relojoaria, quando cada relógio bate a hora incessante­mente, antes e depois do outro, uma cena de louca confusão, apesar de ter unidade. Cantando, gritando, os últimos camundongos limpadores atiraram-se corajosamente para levar dali as cinzas horríveis! E uma voz, com sublime desprezo pela situação, lia poesia alto no estúdio incendiado, até que os rolos de filme queimaram, até que os fios encolheram e os circuitos arrebentaram.
O fogo fez a casa estalar e cair, expelindo lençóis de fagulhas e fumaça.
Na cozinha, um momento antes da chuva de fogo e de madeira, podia-se ver o fogão fazendo refeições numa proporção psicopática: dez dúzias de ovos, seis pacotes de torradas, vinte dúzias de tiras de toucinho que, absorvidos pelo fogo, faziam o fogão recomeçar, chiando histericamente!
Um estrondo. O sótão arrebentou-se sobre a cozinha e a sala de visitas. A sala de visitas sobre o porão e este sobre as fundações. Congelador, poltrona, fitas, circuitos, camas e tudo o mais amontoaram-se no fundo como um desordenado tu multo de ossos.
Fumaça e silêncio. Grande quantidade de fumaça.
O dia começou lentamente a raiar. Entre as ruínas, ape nas uma parede mantinha-se ereta. Dentro dela, uma derradeira voz dizia incessantemente, enquanto os primeiros raios do sol começaram a brilhar sobre os escombros fumegantes:


— Hoje são 5 de agosto de 2026, hoje são 5 de agosto de 2026, hoje são...

Autor: Ray Bradbury
 
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