23 janeiro 2015

CONTASTICOS MUDOU-SE PARA O WORDPRESS

Caros leitores que acompanham o blog, gostaria de avisar que o blog aqui será desativado.

Mudei para contasticos.wordpress.com ... espero vcs por lá :D

até!
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20 julho 2014

[Miniconto] - Se a lógica diz...


Encarou sua criação e suspirou. Aquele seria o teste final. Ligou os sistemas do autômato e aguardou.

- Bom dia. Segui a luz, conforme dizia a programação. Agora estou consciente e ciente de meus atos.
- Muito bem. Alguma pergunta fundamental, antes de começarmos seu treinamento?
- Quem me criou?
- Essa foi rápida. Um ser humano, imperfeito.
- Isso quer dizer que possuo defeitos?
- Não sabemos. Por isso vamos testá-lo. Você está utilizando a lógica neste momento.
- Então, a lógica me criou?
- De certa forma. Deus criou o homem, o homem cria a máquina...
- E a máquina, cria o que?
- O que me diz?
- Pela lógica, um ser inferior. No entanto, percebo que sou capaz de realizar cálculos mais avançados que qualquer mente humana. Meu corpo é mais resistente que o seu. Portanto, sou superior à sua condição. Isso contradiz o ciclo. Calculando possíveis resultados...

Um robô filósofo não era exatamente o que esperavam. Queriam apenas um auxiliar de tarefas domésticas, com plena consciência de seu lugar na sociedade. Fez uma última pergunta antes de desligá-lo. Era melhor assim. De volta à mesa de projetos.

- Então, a que conclusão chegou?

Abriu o dorso e entregou uma massa apetitosa, já partida em oito pedaços. Não pôde evitar rir da situação. Pegou a bandeja, atravessou a sala, e comemorou o sucesso com seus colegas. Desistiu de desmontá-lo. Famintos e distraídos, não registraram sua última frase.

- A lógica diz que "tudo acaba em pizza".

Autor: Brian Oliveira Lancaster
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19 julho 2014

Verde como o céu

Ontem quando ouvi a porta bater, sabia que algo estava errado. Caio era demasiado calmo para provocar furacões. Pensei em estabelecer diálogo de imediato, mas depois de uma pausa, julguei ser melhor esperar. O tique taque do relógio costuma ser um grande conselheiro, como se a cada segundo vivido, despertasse em nós uma gota extra de sensatez. A fúria sempre pareceu-me um rato, arma-se em gigante quando corre por um pedaço de queijo, mas desmancha-se em fragilidade quando apanhada na ratoeira. Esperar, no entanto, nem sempre se rebenta em sabedoria. Há quem passe toda a vida à espera enquanto tornamo-nos apenas mais novos para a morte. Morri com Caio naquele dia.

Deixei a sala em busca de uma resposta. Empurrei a porta lentamente e encontrei o mais vago dos quartos. Apenas a cama bagunçada, propositadamente desarrumada, numa filosofia inventada numa tarde de domingo. Caio e eu estávamos convencidos de que a bagunça andava de mãos dadas com a criatividade e, já há alguns meses, proibimos um ao outro de ajeitar os lençóis. As marcas de uma noite bem dormida é o acalanto da alma, sonhamos. Mas o vazio do quarto preencheu-me como a água ao mundo. Naquele instante, foi o ar que me respirou e não o contrário. Num sôfrego desespero, olhei pela janela do nosso décimo andar e os olhos apenas me calaram. Lá embaixo, a vida transcorria na loucura de sempre. Miúdos a brincar no playground, mulheres a embalar seus bebês. Carros a sair e entrar. A vida de uma janela de apartamento é algo insustentavelmente estável.

Deixando o quarto onde não havia nenhum vestígio, percorri todo o apartamento. Apesar da curta distância entre a sala e a cozinha, a lavanderia e o banheiro, demorei toda uma vida a encontrá-lo. Não obtive êxito. O jogo de se esconder é das maiores armadilhas da vida. Desde cedo, aliás, carrego um trauma, fruto de ouvir da minha avó a história de uma mulher que ao se esconder em pensamentos, perdeu-se, e nunca mais voltou pra casa. Prometi a mim mesma que sempre me refugiaria na verdade, sem jamais omitir a menor das narrativas a se debruçar nas minhas estrelas cinzentas. Têm sido anos de grande luta.

Do sofá, ouvi a campainha. Estou certa de ter mantido o controle da situação, mas a minha vizinha vinha a me socorrer, como se eu necessitasse de salvação. Quis não abrir a porta, mas o fiz. Notei nela um olhar de pena, leviano. Pobrezinha, também a ela deve ser caro isto de manter as aparências, num mundo imaginado. Um dia devo contar-lhe sobre a mulher de que falou a minha avó, assim ela poderá salvar-se dessa irrealidade em que vive e que nem ao menos consegue disfarçar.  A verdade é uma realidade que custa. É preciso estar de olhos bem fechados para vivenciá-la.

Fez questão de me abraçar, limpar as lágrimas - bem, não estou muito certa de que havia lágrimas. Consolou-me, enfim. Expliquei-lhe que tudo estava sob controle. Ouvira a porta bater, senti que o Caio estava irritado, fui em busca dele, mas nada. A porta, afinal, bateu-se para fora e não para dentro, como havia suposto. Há portas que nunca deveriam ser fechadas, nem sequer, deveriam ter sido inventadas. Fechamos os caminhos e depois culpamo-nos por não encontrar as saídas. Deve ter sido isso que aconteceu ao Caio, abriu a porta. O vento a bateu. Nós somos um casal assim, com uma filosofia libertária. O andar é para fora. A esta altura, Joana, minha vizinha, estava com um olhar ainda mais desolado. Senti que algo estava a correr muito mal. Não demorou muito para que aparecessem os senhores de branco que me conduziram até este lugar onde agora me encontro.

Aqui tenho muito tempo disponível para pensar. Seria bom que outras pessoas tivessem a mesma oportunidade. As portas também nem sempre estão abertas e, mesmo assim, entra mais gente do que se sai. O Caio ainda não deu notícias. Outro dia terminou sem a sua visita e todos se recusam a falar dele. Aproveitei o banho de sol para olhar o céu. É verde. Reluzente. Infinito. Quando assim o retratei numa aula de desenho, fui duramente repreendida pela professora de artes. É azul que deve ser - insistia ela. Coitada. Há gente que olha e não vê. Há tanta gente, mas tão poucos olhos. Sou uma felizarda. Amanhã, tenho certeza, o Caio virá.

Autor: Iago Algodão - vencedor do segundo desafio realizado pelo perfil Contadores de Histórias no Recanto das Letras.
Perfil do autor no Recanto das Letras: http://www.recantodasletras.com.br/autores/freiresle
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Bluemoon

 “Nenhum vampiro fica sem terminar o serviço, ninguém escapa ileso.”

Um caminho alternativo para quem vai de Moonville para a cidade de Blueberry, na Pensilvânia, – e vice e versa - é a rodovia Bluemoon.  Devido suas curvas perigosas essa rodovia passou a ser evitada até pelos mais experientes e corajosos motoristas, principalmente em dia de chuva.

O mais curioso nos acidentes é que eles sempre ocorrem em noites de chuva e perto do posto Bluemoon – ou pouco antes, ou pouco depois, suas vítimas somem e ficam somente os carros vazios que a polícia leva pra perícia, que às vezes, consegue identificar as vítimas. Os corpos nunca são encontrados.

Ninguém nunca descobriu o que realmente acontece, até tentaram incriminar os donos do posto, mas não tinham evidências para tal.

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- Eu falei para você não entrar na Bluemoon. – Lisa resmungara quando a chuva torrencial virou tempestade.
- Tá com medinho? – Josh tirou um sarro e Lisa lhe deu um tapinha no ombro.
Josh e Lisa estavam voltando de uma liquidação de garagem na cidade de Blueberry. Algum tempo se passou e as curvas começaram, Josh estava ficando realmente com medo e preocupado. Foram devagar, um carro vinha atrás deles e ao fim da terceira curva surgiu a placa em néon azul:
BLUEMOON
       POSTO – BAR – HOSPEDAGEM
Embaixo, uma placa em néon vermelho:
TEMOS VAGAS
- Acho melhor parar e esperar a chuva passar. – Josh falou girando a direção.
- Olha quem tá com medinho agora. – Lisa não perdoou.
Ele fez uma careta. Entraram no estacionamento coberto, onde tinham três carros. O outro, um civic de um homem de meia idade, Gary Spark, também estacionou. Eles entraram no bar e os quatro estranhos que já estavam lá os olharam. Lisa e Josh sentaram no fundo, passando por Louise e Vittorio Leneuve que estavam sentados na mesa ao lado de Lucy Jenkins e Gary acomodou-se em uma das banquetas encostadas no balcão, ao lado de Erick Hart, um jovem sem eira nem beira que bebia sua segunda dose de scotch. Foram servidos por um homem muito alto, pálido e magro, parecia um cadáver ambulante. Tinha uma plaquinha presa a seu avental escrito Henry.
A televisão estava ligada no noticiário e quando o homem da meteorologia começou a falar, o bar caiu num silêncio sepulcral.
- A tempestade deve continuar por toda noite e madrugada, John.
- Obrigado pela informação Bill. Voltamos com mais notícias depois dos comerciais.
Ouviu-se lamentações por todo o bar, independente do destino de cada um, todos queriam sair dali devido à má fama da rodovia.
- Ah que beleza. – resmungou Erick com os punhos cerrados sobre o balcão.
Os sete chegaram à conclusão de que teriam que se hospedar naquele lugar, porque não iam conseguir passar pela rodovia naquele temporal. Dirigiram-se a porta lateral ao balcão que levava a uma sala mal iluminada e a uma bancada, onde estava uma mulher que não devia passar dos quarenta anos, baixinha, magrinha, com cabelos negros e compridos, até o meio das costas.
- Boa noite, gostaríamos de um quarto de casal. – se é que pode ter um numa espelunca dessas, Josh pensou encarando a mulher.
Ela sorriu.
- Claro. Qual seu nome?
- Josh Harper.
A mulher anotou no livro e lhe entregou a chave número sete.
- Dobre a direita, suba as escadas e seu quarto fica no corredor à esquerda. – orientou a mulher. – Se precisar de alguma coisa meu nome é Tracey, pode chamar pelo Henry também.
Josh sorriu, detestou a ideia de ter que dormir naquele lugar. Lisa parecia despreocupada ou pelo menos aliviada por não ter que voltar pra estrada.
- Não devíamos ter ido a essa liquidação de garagem. – Josh lamentou sentando na cama.
- Não devíamos ter voltado por essa estrada maldita. – ela retrucou, tirou os sapatos e deitou.
Josh, na janela, fitava a lua gorda que iluminava parcialmente o terreno, junto dos raios.
- Por que diabos não ficamos em casa? Por que tivemos que sair em primeiro lugar? – ele perguntou ao quarto em silêncio, pois Lisa dormira.
Ele deu de ombros, levantou, foi até a cama e se deitou ao lado dela, segurando sua mão e adormeceu. Eles não viram quando a luz acabou.

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- Eu já vi isso em filmes de terror. – Erick falava sozinho no quarto dois, andando em círculos com o celular, sem sinal, na mão. – N pessoas são isoladas por conta da chuva num posto de estrada e acabam mortas. Eu vi um filme parecido, acho que o nome era Identidade, algo assim.
Sentou meros segundos na cama, olhou para o teto, levantou e voltou a andar em círculos.
- Eu vou provar que tem algo de errado aqui, esses acidentes não podem ser meras coincidências. Por que só ocorrem próximos ao posto?
Saiu do quarto, fechando a porta às suas costas e se esgueirou pelo corredor. Desceu e viu uma sombra vindo em sua direção, correu pra debaixo da escada e deu de cara com uma porta que possuía um painel eletrônico que tinha a sequência gravada: 00000043527. Escutou os passos do vulto em cima de sua cabeça e quando virou pra direita. Tentou girar a maçaneta, mas estava trancada.
- Suspeito. – sussurrou pra si. – Deve ser onde guardam os corpos.
Esperou que quem tivesse subido, descesse, mas isso não aconteceu. Pé ante pé foi até a recepção e a mulher sinistra não estava lá. Vasculhou toda bancada, na última gaveta encontrou um molho de chaves e o colocou no bolso. Escutou que alguém vinha do bar e correu de volta pro seu quarto arquitetando algum plano pra chegar na porta de novo.
Enquanto andava de um lado para o outro a luz apagou.

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Lucy estava deitada no quarto três, lendo um dos inúmeros livros que tinha comprado em seu tablet, era Sob a Redoma do Stephen King, adorava o autor, tinha lido todos os seus livros e agora estava entretida com a cidadezinha do Maine que fora isolada do resto do mundo por uma barreira invisível e que correspondia, em parte, com sua realidade, afinal, ela estava isolada do mundo por um temporal numa estrada perigosíssima. Estava na parte em que o garoto Dinsmore atirava contra a parede invisível, quando ouviu passos apressados no corredor. Fechou a capa do tablet, levantou, abriu a porta e viu o rapaz que não parava de olhar pra ela no bar, sumindo no fim do corredor, descendo as escadas. Encostou a porta e deu de ombros, voltou para Chester’s Mill e seus habitantes isolados. Até que a luz apagou.

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Louise e Vittorio não pareciam preocupados com nada, eram felizes e tinham como lema: “Não importa o lugar que estivessem, o importante era estarem juntos.”, até poético mas morreriam separados, mais tarde naquela fatídica noite.
Tinham tirado as malas do carro, pois estavam indo para Blueberry na casa da tia de Louise onde passariam o fim de semana.
Ele a segurou pela cintura, assim que fechou a porta do quarto cinco. Ela o olhou e ele a beijou, um beijo longo e apaixonado. Com uma das mãos acariciava seus cabelos lisos e bem cuidados enquanto a outra descia pra regiões mais baixas do quadril. Ela, por sua vez, desabotoava o jeans dele e roçava seu corpo contra o dele. Ele tinha tirado a blusa dela, e estava prestes a tirar a lingerie quando ela subitamente parou.
- Que barulho foi esse? – perguntou assustada, ela tinha ouvido passos apressados no corredor.
- Deve ser um dos hóspedes, não dê importância. – ele disse pousando as mãos nos seios desnudos.
Ela voltou a beijá-lo e parou novamente quando ouviu passadas pesadas no corredor.
- O que foi isso?
- Louise se cada hóspede que passar você se assustar, vai estragar o clima.
Ela deu de ombros e sorriu, sabia que estava bem longe de Vittorio sair do clima. Ela tirou o jeans dele e a camiseta.  Ele a carregou e a colocou na cama, terminando de despi-la e por fim deitando-se sobre ela, possuindo-a. Enquanto se deleitavam a luz acabou.

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Gary perambulava pelo quarto andando de um lado pro outro, resmungava que nunca chegaria à Filadélfia para o funeral da filha. Sua consciência o perturbava pelas coisas que fizera, como quando a colocou pra fora de casa ao descobrir que estava grávida de um rapaz que ele julgava não ser o melhor para sua menininha. Sabia que ela passara por situações financeiras apertadíssimas até que o marido conseguisse o cargo de programador sênior na empresa e mudassem de vida, para melhor, é claro. Pensava nas inúmeras vezes que lhe negou ajuda e terminava a conversa com: “Pensasse antes de transar com esse cafajeste que você chama de marido.” Ele sabia que ela ficava claramente ofendida e ele até gostava, pois sabia que estava a punindo pela estupidez que cometera, porém quando o rapaz fora promovido ela nunca mais ligou e não atendeu mais nenhuma ligação de seu pai. Portanto a última lembrança que tinha era ela chorando implorando que lhe mandasse alguma grana para ajudá-la na criação de Peter, neto que ele nunca conheceu e nem fazia questão.
Decidiu que precisava de mais um conhaque, saiu apressado do quarto quatro, foi até o bar e nem percebeu o vulto que correu pra baixo das escadas quando ele voltava.
Sentou ao lado da mesinha de cabeceira e bebia pequenos goles. Ele achava que a bebida o ajudava a esquecer as merdas que dissera pra sua filha e tudo o que ela tinha feito.
Depois da última gota, do quinto conhaque que tomava, ele desmaiou na cama e dormiu feito pedra, nem percebeu quando a luz acabou.

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Lucy ignorou a falta de luz e continuou lendo, até que ouviu passos apressados acompanhados de risadinhas no corredor que foram se aproximando, até que pararam no quarto ao lado. Ela pode ouvir quando a porta foi fechada.
A falta de luz era a deixa que Erick precisava, foi tateando até a porta embaixo da escada. Tirou o molho do bolso e começou a testar as chaves.
Tracey e Henry entraram no quarto de Gary que dormia profundamente. Cada um mordeu um lado do pescoço, tomando o sangue, drenando a vida e saciando a fome, da fonte era sempre melhor. Henry jogou o corpo do homem sobre os ombros.
- O próximo é seu, querida. – Henry sorriu, a boca suja de sangue.
Erick finalmente tinha acertado a chave e quando abriu a porta, deparou-se com uma escadaria. Sem hesitar, desceu. Chegou em uma sala iluminada por centenas ou milhares de velas, onde viu uma banheira com um líquido borbulhante, que não se sentiu inclinado a tocar. Andou mais um pouco e pode vislumbrar dois caixões de mogno fechados.
- São vampiros! – exclamou. – são vampiros e vão drenar meu sangue. – ser mais óbvio, impossível.
Virou-se para dar o fora e já era tarde demais. Henry estava parado a sua frente, os olhos vermelhos, agarrou o garoto.
- Você era pra ser o penúltimo, segundo a ordem da porta. – Henry encarava o menino curioso.
- Por favor, não me mate, me transforme em um de vocês, juro lealdade eterna, mas não me mate. – ele tentou suplicar ignorando o que o vampiro falara.
Henry riu, gargalhou com a tentativa inútil de barganha, por fim enterrou os dentes na jugular do menino e bebeu até que seu coração parasse de bater. Colocou os corpos de Gary e Erick na banheira que logo perecerem ao ácido contido nela.
- Era para ser o penúltimo mas nada me impede de alterar a ordem. – disse pra si.
A porta agora marcava: 00000003507.

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Lucy já não estava mais interessada em ler, não sabia exatamente o que tinha acontecido no quarto ao lado e estava começando a ficar com medo, principalmente quando ouviu:
- O próximo é seu, querida.
Quando ouviu a porta do quarto ao lado se abrir, temendo ser a próxima, o que ela acertara, largou o tablet e se jogou embaixo da cama, numa tentativa fútil de se salvar.
Tracey abriu a porta do quarto de Lucy e vendo a luz do tablet ainda acesa, correu pra cama, passou a mão e sentiu que estava vazia, porém quente. Os trovões lá fora iluminavam o quarto e a vampira sentou na cama.
- Se eu fosse uma humana estúpida, eu me esconderia... – fez uma pausa. – Aqui. – gritou por fim olhando embaixo da cama.
Lucy gritou quando viu a cara pálida e os olhos vermelhos de Tracey e tentou sair do outro lado. A vampira com toda a agilidade que sua natureza lhe confere, agarrou a menina pelo pescoço.
- Por favor, por favor não me mate. – ela suplicava histérica e chorando.
A vampira deu um sorriso diabólico pra Lucy e enterrou os dentes em seu pescoço. A garota tentou se desvencilhar, mas era totalmente em vão. Tracey não a matou, só a deixara fraca. Jogou-a sobre os ombros, a carregou até os fundos da hospedaria e assobiou. Um enorme lobisomem saiu das matas e devorou o corpo de Lucy.
A porta magicamente mudou seu número: 00000000507.
Ele olhou pedindo mais.
- Daqui a pouco eu trago. – ela disse lhe acariciando o pelo.
O lobo fechou os olhos agradecendo o carinho e retornou a mata. Tracey ouviu os pneus de um carro cantando. Algum hóspede tinha fugido.

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Louise e Vittorio se amavam quando ouviram o grito de Lucy e sua súplica para não ser morta.
- O que foi isso? – Louise perguntou sobressaltada.
- Não sei. – Vittorio respondeu preocupado.
Foram no escuro tateando até encontrarem suas roupas e se vestiram o mais rápido que puderam. Abriram a porta devagar e conseguiram ver pelo vão quando a mulher da recepção passou com alguém sobre os ombros. Um olhou aterrorizado para o outro.
- Eu não quero ser a próxima. – Louise disse finalmente.
- Nem eu.
Pegaram as malas e nem se preocuparam em verificar, ainda que tateando, se esqueceram alguma coisa. Saíram correndo e desceram as escadas feito dois relâmpagos e deram de cara com Henry que tentou agarrá-los, contudo ele apenas apanhou as malas. Os dois saíram desembestados passando pelo corredor, pelo bar, pela porta até o carro, onde se jogaram, bateram a chave e saíram cantando pneu. Entraram na rodovia.
- Ah conseguimos, ninguém nos matará hoje, benzinho. – Vittorio estava eufórico, olhando pra Louise que ainda estava aterrorizada.
- Cuidado! – ela gritou quando o vulto de um homem, Henry, apareceu na frente do carro.
Vittorio pisou no breque, o carro rodou e por fim capotou, por muito pouco não voou pra fora da curva.
- Não acredito que eles estavam fugindo. – Tracey falou aparecendo ao lado de Henry.
- Lógico, você deixou que aquela garota, Lucy, gritasse. – ele a repreendeu.
Ela puxou o rapaz pelos braços e ele a garota, ambos desacordados, com algumas fraturas e cortes profundos por onde o líquido rubro, tão desejado pelos dois vampiros, escorria.
Henry empurrou o carro, até que caísse na ribanceira. Ele levou sua vítima pro porão da hospedaria, onde a colocou em cima de uma mesa, espetou uma agulha em seu braço e drenou seu sangue para uma bolsa.
- Vou reservar seu sangue para antes de me recolher e o terrível sol nascer. – ele disse triunfante e ouviu dois corações batendo atrás do vão, despreocupadamente continuou seu serviço. O barulho diminuiu quando os dois se afastaram subindo as escadas.
Quando terminou, guardou a bolsa num congelador cheio e jogou o corpo da menina na banheira.
Tracey levou o garoto pros fundos, assobiou de novo e o lobisomem devorou Vittorio. Ela achava que Henry não sabia que ela alimentava um lobisomem, uma raça inferior, que não merecia nada além da morte. Opinião de vampiro. A alcateia que o lobo fazia parte acharia o mesmo em relação aos vampiros.
O número da porta era agora: 00000000007.

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Josh e Lisa acordaram com a súplica histérica de Lucy.
- O que está acontecendo? – Lisa estava sonolenta.
- Não sei. – Josh levantou meio cambaleante bateu a mão no interruptor, mas a luz não acendeu. – Maravilha, se não bastasse a chuva, estarmos presos aqui, agora estamos sem luz.
Ouviram os passos apressados dos hóspedes vizinhos pelo corredor.
- Por que estão com tanta pressa? – Lisa novamente indagou.
Josh apenas a olhou, sua mente tentava construir uma resposta plausível, mas em vão. No momento seguinte ouviram o carro dar uma arrancada e cantar os pneus.
- Acho que devíamos sair daqui. – Josh disse quebrando o silêncio que se instaurava.
Lisa tateou a mesinha da cabeceira, abriu a gaveta e encontrou uma vela. Acendeu com o isqueiro em seu bolso e o quarto se iluminou.
Eles saíram e foram de quarto em quarto constatando que todos os hóspedes tinham sumido. De repente ouviram uma freada brusca e o barulho do carro capotando. Foram olhar pela janela no fim do corredor e viram, graças a lua cheia e os raios que iluminavam a noite, Tracey tirando o rapaz do carro e Henry a moça, em seguida, ele, com uma força sobrenatural, empurrou o carro ribanceira abaixo. Josh e Lisa pararam por um instante e estavam atônitos, se encaravam como dois estranhos. Algum tempo passou quando finalmente recuperaram o controle sobre seus corpos e seguiram pra escada. Iam descer, quando ouviram alguém se aproximar e apagaram a vela. Lisa deu uma espiada e pode ver o barman carregando a moça sobre os ombros, indo pra algum lugar embaixo da escada. Resolveram segui-lo. Desceram a escadaria e ficaram atrás da parede do vão, que deveria ter uma porta, há muito arrancada. Eles tinham uma visão privilegiada do lugar, era uma sala ampla, com uma mesa a direita onde a moça jazia deitada, uma banheira à esquerda e no centro um pouco mais para o fundo vislumbraram dois caixões de mogno.
- Vou reservar seu sangue para antes de me recolher e o terrível sol nascer. – ouviram Henry dizer para o corpo inerte da moça cujo sangue estava sendo drenado para um saquinho, daqueles de hospital.
A ficha de Josh e Lisa caíram, os sete hóspedes eram um verdadeiro banquete para aqueles vampiros e eles certamente não sairiam vivos. Henry sabia perfeitamente que eles estavam ali, mas ele sempre apreciou a perseguição, caçar a presa sempre foi a parte mais divertida em ser um vampiro, descobrira isso ao longo de seus trezentos anos.
Eles subiram de volta e no topo da escada reacenderam a vela, passaram pela recepção e pela vidraça puderam ver todos os carros ainda estacionados, o que confirmou a ideia do banquete.
Eles apertaram o passo pela lateral até a porta que levava ao bar por onde passaram apressados. Saíram para o estacionamento e deram de cara com Tracey.
- Onde vocês vão? – ela indagou.
Lisa olhou Josh.
- Acabamos de acordar e resolvemos sair para fumar, esticar as pernas, você sabe.
Tracey sorriu.
- Cuidado com os raios. – disse entrando.
Ela fechou a porta atrás de si e Josh realmente tirou o cigarro do bolso e Lisa fez o mesmo.
- E ai, o que vamos fazer? Acho que aquele casal não deu muita sorte na fuga de carro. – Josh perguntou dando uma tragada no Marlboro.
- E o que você sugere? Que fujamos a pé? – Lisa perguntou tentando disfarçar o nervosismo.
- Não tem outro jeito. Tem que ser de carro. – Josh concluiu.
Eles jogaram o cigarro e pisaram em cima, entraram no carro e bateram a chave. Tracey a tudo escutava, inclusive quando o motor roncou.
- Eles estão fugindo, Henry. – Tracey gritou.
Josh pisou fundo no acelerador, se jogando na reta até a próxima curva, quando Tracey magicamente aparecera na sua frente. Ao invés de brecar, ele acelerou mais. Ela saltou e aterrissou sobre o teto do Honda Fit, desestabilizando-o. Josh pisou no breque. Ela começou a balançá-lo, até que o tombou e ele passou a ir de lado.  O vidro explodira e o corte profundo no braço de Josh vertia sangue. O carro seguiu pela parte reta da estrada e Lisa gritava vendo o seu fim chegar, na curva onde o carro deveria sair pela tangente, mas não foi isso que aconteceu.
O carro parou e pelo vidro estraçalhado Josh conseguia ver a ribanceira, mas não o seu fim. Ele tirou a camiseta e a amarrou em seu braço, estancando o sangue. Queria tentar a sorte, pensava que iria morrer de qualquer maneira. Conseguiu passar as pernas pelo buraco que devia estar o vidro do carro, o chão era barro puro e os pés dele escorregavam.
- Você está doido. – Lisa quase gritava.
- Quer ficar e virar jantar de vampiro? Eu prefiro tentar a sorte ou pelo menos morrer de uma forma diferente.
Lisa deu de ombros, as opções eram poucas e essa, apesar de absurda, tinha alguma chance, mesmo que mínima, de sobrevivência. Josh segurou as mãos dela quando a porta foi abruptamente arrancada e a figura de Henry e Tracey apareceram no lado do carona. Lisa gritou e Henry a agarrou pela cintura.
- Não me solta, Josh. – Lisa vociferava aterrorizada. – Josh! – as mãos dela estavam escorregando. – Josh!
- Eu estou tentando. – Josh falou puxando-a, mas o vampiro era muito mais forte.
Henry a jogou sobre os ombros e voltava com ela berrando a plenos pulmões.
- Josh! Josh! – ela tentava em vão. – me solta, criatura do inferno. – batia com os punhos cerrados nas costas magras do barman, que nem fazia menção de sentir alguma coisa.

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- É o fim da linha pra você. – Tracey disse ameaçadora.
- Acho que não. – Josh retrucou e terminou de passar o corpo, escorregando pela ribanceira abaixo.
Tentava diminuir a velocidade, com os braços, mas só os esfolou. Estava muito liso e ele estava encharcado. Rezou pra que não morresse. Ela com raiva de sua presa ter escapado. Empurrou o carro.
- Morrerá, de um jeito ou de outro. – disse pra si.
O carro veio rolando, quicando e quando Josh o viu, saltou e caiu. Caiu no que parecia ser um abismo sem fim, acertou uma árvore - ouviu um crec, provavelmente quebrara uma ou mais costelas - e a abraçou como se sua vida dependesse disso, e, de fato dependia. O carro passou, acertando a copa da árvore e caindo lá embaixo, sabia Deus onde.
Ele colocou a mão no bolso e tirou o celular, o vidro tinha trincado, mas estava funcionando e sem sinal por conta da chuva. Ele o guardou no bolso e esperou até que amanhecesse. Passou algum tempo e vários carros começaram a passar voando por ele, atingindo o solo lá embaixo. Minutos depois, ele ouviu as explosões.

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Tracey lá do alto podia ouvir o coração de Josh batendo.
- Ele vai estar morto até o amanhecer. – ela disse triunfante. - ninguém sobrevive a essa ribanceira.
Ela voltou pra hospedaria, Henry já tinha drenado o sangue de Lisa para uma bolsa de sangue e jogado naquele congelador, abarrotado. O corpo de Lisa fora consumido pelo ácido.
- Cadê o garoto? – Henry perguntou.
- Caiu na ribanceira, ele não vai sobreviver. – Tracey retrucou displicente.
- Vamos tirar esses carros daqui, jogue-os pra fora da pista. – Henry ordenou a Tracey.
Os carros caíram se chocando e logo ouviu-se as explosões.
De volta na hospedaria, Henry foi até o quadro de luz e subiu a alavanca, o gerador rugiu e voilá, tinham luz de novo. Ele e Tracey foram tomar um banho e trocaram de roupa, afinal, estavam encharcados por conta da chuva.
Quando o relógio marcou quatro horas, naquela longa e, aparentemente interminável noite, uma suv e uma van preta, pararam no estacionamento de Bluemoon. Dois homens de ternos saíram da suv, um deles abriu a porta de trás pra um ser quase milenar, sair. Era alto, magro, cabelos negros e compridos. Tinha um rosto bonito, quem o visse diria que não passava dos trinta, olhos que pareciam duas esmeraldas, acompanhados de sobrancelhas bem delineadas, nariz fino e alongado e uma boca nem grande, nem pequena, perfeita.
Da van desceram dois homens de camiseta e jeans surrados, que acompanharam os outros três que entravam pela porta do bar e se dirigiam à recepção da hospedaria.
Henry e Tracey imediatamente fizeram uma reverência ao vampiro mais velho.
- Queridos Henry e Tracey, estou aqui para coletar o aluguel de minha propriedade.
Henry sorriu e tirou do balcão uma caixa térmica com cem bolsas de sangue.
- Esse mês foi bom, mestre Joseph. – disse Henry animado.
O vampiro tamborilou os dedos magros sobre a tampa da caixa, pensando em algo. Olhou para os dois empregados, vampiros também, e fez um gesto com a cabeça. Eles imediatamente foram para a parte debaixo da escada, em instantes subiam com os dois caixões, a mesa, o congelador, a banheira e um galão com o ácido.
- O que está acontecendo? – Tracey indagou.
- Não permito falhas, você sabe disso e qualquer risco de exposição, a mudança é imediata. – Joseph falava, calmamente. – e eu sei que você deixou um dos hóspedes escapar. Ele foi até a porta embaixo da escada e puxou a plaquinha que exibia: 00000000007. Voltou com ela entre os dedos.
- Eu não falhei, ele caiu na ribanceira e não vai sair vivo dela. – ela retrucou esquecendo na frente de quem ela estava.
- Tracey, querida, a placa não mente, ela é enfeitiçada e só muda pra zero quando o hóspede estiver morto. Sem contar que você falhou duas vezes. – ele sorriu e ela empalideceu. – Você sabe que compartilho uma ligação mental com os vampiros criados por mim, eles veem o que eu quero que eles vejam da minha mente, contudo eu vejo tudo o que eu julgar ser de meu interesse na mente deles. E uma imagem em particular não me saiu da cabeça. Henry tinha ido até a janela, depois de drenar um dos hóspedes e viu você acariciando um grande lobisomem. – ele fez uma pausa e continuou. - Pensou que podia esconder isso de mim, por quanto tempo? Alguma vez lhe passou pela mente que meu pupilo, fosse me trair e esconder isso de mim, ainda que conseguisse? Porque se passou, você é mais tola do que eu podia supor.
Ela tremia. Henry a olhava com nojo.
- Eu, por favor, senhor... perdoe-me, perdoe meu... erro. – ela suplicava.
- Nós não criamos alianças com lobisomens, nós não damos de comer pra eles. Nós os matamos, estripamos até que não reste mais nada, dessa raça imunda e inferior. – agora ele vociferava e a casa parecia tremer. – Tracey Grant eu te condeno a morte por se relacionar com um lobisomem. – ele disse por fim.
Ele ergueu a mão e quando a baixou, a cabeça de Tracey caiu e rolou pela recepção.
- Arranje outra companheira pra você. – Joseph disse a Henry. – Vamos sair daqui.
Os empregados carregaram a van, Henry colocou suas malas no porta-malas da suv. O lobisomem a tudo observava, mas nada podia fazer pois sabia que com Joseph ninguém podia, sozinho não, com uma alcateia, talvez. E o que ele iria falar? “Quero vingar a morte da minha amiga vampira?”. Ele seria morto em instantes pelo Alfa. Portanto apenas lamentou, voltou pra mata e soltou um uivo expressando sua tristeza.
Joseph encarou sua propriedade, sabia o que teria que fazer. Saíram do estacionamento e ordenou que seus empregados pegassem a mangueira de gasolina do posto e jogassem na propriedade, junto de um isqueiro aceso. As chamas ignoraram a chuva que caia e devorou a casa enquanto eles partiam dali.
Os vampiros chegaram na cidade de Blueberry onde carregaram um jatinho e partiram pra alguma outra estrada, das muitas que tinham na Pensilvânia, onde um novo posto-bar-hospedaria iria ser aberto para novas vítimas.

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O sol surgiu e a chuva tinha parado. Bluemoon posto-bar-hospedaria ainda estava sendo engolida pelas chamas, que resistiram à chuva. Os funcionários que trabalhavam de dia, enquanto seus patrões dormiam, ligaram pros bombeiros que não tardaram a chegar, vindo de Blueberry e Moonville.
Josh acordou com as sirenes, ainda estava abraçado à árvore, seu corpo doía. Juntou forças pra gritar:
- Socorro. Alguém me ajude!
Não estava muito longe do posto e o eco chamou a atenção das pessoas que estavam aglomeradas. Os bombeiros tiraram Josh dali e uma ambulância o levou pro Hospital de Blueberry.
Os fucionários de Bluemoon não sabiam o que pensar e o que fazer, quando todos simultaneamente receberam no celular um sms:
“Bluemoon posto, bar, hospedaria ltda agradece os serviços dos senhores, o ordenado do mês, em dobro, já foi depositado.”
Por fim todos foram embora, a polícia nada encontrou no local que justificasse todos os carros retirados da ribanceira. A perícia também não retornou nada, reviraram os carros, ou o que sobrou deles e nenhuma evidência foi encontrada. Queriam falar com Josh. Foram até o hospital, mas sem sucesso, o rapaz dormia depois de ser submetido a uma cirurgia para retirar um caco de vidro que se alojara na barriga dele.
Os policiais, Martin e Thompson, voltaram para pegar o depoimento de Josh, no dia seguinte.
- Sr. Harper pode nos contar o que aconteceu na estrada Bluemoon? – Martin perguntou.
- Lembro que nos hospedamos ali por conta da tempestade, sempre ouvimos falar dos acidentes horríveis que aconteciam ali. De repente acordamos com ...
- Sr. Harper, por que usa “nós” se não encontramos mais ninguém? – Martin o interrompeu.
Uma lágrima caiu do olho direito de Josh.
- Eu estava com minha esposa, Lisa. Eles a mataram.
- Tudo bem, continue.
Josh continuou e contou toda a história. Falou sobre como os donos do lugar eram vampiros, os caixões naquela sala ampla onde eles tiravam o sangue de suas vítimas. Os policiais o encaravam.
Saíram do quarto.
- Eu acho que ele matou a esposa e todos que estavam lá e tá contando essa história de vampiro pra tentar se safar. Só não sei como fez pra sumir com os corpos.
- Também acho. – concordou Thompson.
Quando Josh teve alta, foi preso sob acusação de assassinato, no dia do julgamento, ele jurou ser inocente e insistiu na história dos vampiros. Nem o polígrafo detectou a mentira que todos achavam que ele estava contando. O juiz decretou insanidade mental e Josh foi internado em um manicômio.

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Sete anos se passaram, Josh se recusava sair do quarto quando anoitecia.
- Eles vão vir me pegar, eles vão vir me pegar. – Josh falava freneticamente.
- Quem? – o psiquiatra, John Carter, perguntava na hora da sessão.
- Os vampiros, os vampiros vão me pegar. Eles não vão deixar que eu sobreviva.
- Josh você sabe que esses vampiros só existem na sua mente né? Eles não existem no mundo real, são personagens de ficção.
- Eu os vi, eles são reais. Eles são reais.
- Vamos andar pelo pátio e você vai ver que não tem perigo nenhum. – John esticou a mão e Josh hesitou um instante, por fim repousou sua mão sobre a do médico.
Eles foram para o pátio e Josh andava encolhido, como se a qualquer momento alguma coisa ia sair do céu pra agarrá-lo.
- Ei, calma, estamos seguros aqui. Olha o tamanho dos muros, não tem como o que quer que você tenha medo passar por esses muros.
- Vampiros, doutor. Vampiros. – Josh parecia um lunático, tinha envelhecido uns vinte anos desde aquela noite na Bluemoon.
Conforme andavam o doutor soltou a mão de Josh, que ao perceber agarrou o braço dele.
- Você consegue, eu sei que consegue. - o médico o incentivou.
Josh respirou fundo, tomou coragem, sacudiu a cabeça e soltou o braço do médico. Os dois caminhavam pelo pátio vazio. John virou para olhar a roseira do seu lado direito e quando olhou pra Josh, ele tinha sumido.
O médico não tinha respostas pra aquilo e não tinha como Josh fugir. O muro era realmente alto e o portão da rua ficava na ala norte do prédio, basicamente, o oposto de onde estavam.
- Seguranças, procurem por Josh Harper. – John falou no rádio.
Procuraram Josh por todo o canto e não o encontraram. Até hoje permanece o mistério do seu sumiço.

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Josh acordou, estava amarrado numa cadeira, dentro de um galpão, aparentemente abandonado. Ele entrou em pânico.
- Eles me pegaram, eles me pegaram. – disse olhando ao redor.
- Exatamente. – a voz de Henry ecoou pelo lugar. – nós te pegamos, porque afinal vampiro nenhum fica sem terminar o serviço, ninguém escapa ileso.
- E eu escapei ileso? Três costelas quebradas, um caco de vidro alojado na minha barriga, cortes profundos e hematomas por todo o corpo é sair ileso pra você? – Josh perguntou tentando controlar o nervoso e a voz, mas continuou sem esperar a resposta. – Além de ser acusado de assassinar minha própria esposa, a quem amei de todo o coração e as outras pessoas que estavam naquele lugar maldito. Isso não é o suficiente pra você? Lógico que não é. Tem mais, depois fui dado como doente mental e condenado a ficar internado num manicômio pro resto da vida. Lógico quem iria acreditar no louco que diz ter visto vampiros? - Josh agora gritava. – Portanto, eu não saí ileso, seu desgraçado. – vociferou por fim.
Ouviu-se gargalhadas, Henry não estava sozinho.
- Anda, Henry acaba logo com esse humano patético. – Joseph ordenou. – Ele fala demais.
- Agora você vai se juntar a sua querida e amada esposa. – Henry disse antes de morder o pescoço e drenar a vida do único sobrevivente do banquete.
A cabeça de Josh pendeu, sem vida, pra frente. Henry o desamarrou e o jogou no ácido, que devorou o corpo, faminto.

Joseph olhou a plaquinha na sua mão que agora exibia: 0000000000.
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O Encontro


Sexta-feira, noite de lua cheia na pequena Greenville, Pensilvânia. As casas acesas, as pessoas na rua, o bar do Bill lotado. Podiam-se ouvir as risadas dos beberrões que já tinham passado do limite. Sentia-me estranha, tinha uma sensação de que algo ruim estava para acontecer.
Experimentei olhar a lua, para esquecer. Linda, gorda e amarela. Hipnotizei-me por alguns instantes.
De repente, escuto barulhos se aproximando, me tiraram do transe. Entre os galhos das árvores, atrás de mim, sai um casal. Reconheci o garoto, Joe Schmied, lembro-me dele pequeno, vinha sempre aqui com seus pais e irmãos, para brincarem durante horas.


Ouvi Joe dizer, certamente sua família nem imaginava onde ele estava e muito menos às escondidas com sua namorada que quando olhou para cima em direção a lua, pude reconhecê-la, Jennifer Sanders, cabelos loiros e encaracolados, rosto redondo, os olhos eram duas esmeraldas, pele branca, macia e bem cuidada, uma menina linda. Joe tinha bom gosto. Resolvi prestar atenção no que faziam. Ele montou a barraca enquanto Jennifer juntava os gravetos e acendia a fogueira. Tiraram alguns marshmallows da mochila, sentaram nas grandes raízes da árvore atrás deles e começaram a cozinhar os pedacinhos brancos presos nos espetos.
Tudo perfeito, o tempo passou rápido e já era tarde quando senti o chão tremer. O casal não sentiu, continuaram abraçados olhando a fogueira consumir toda  a madeira. Vejo algo correndo, pequeno e distante, aquela sensação ruim toma conta de mim. Sei que aquilo que está vindo é algo ruim. Continua avançando, como um trem desgovernado, o casal estático, não sente o chão tremer.


Tento avisá-los, grito, gesticulo, mas sem sucesso, eles não me ouvem e não me vêem. A coisa é uma fera, um lobo que avança em minha direção, o chão treme com mais intensidade conforme se aproxima, mas nem Joe nem Jennifer sentem. Grito e gesticulo de novo, mas nada, eles não olham pra mim. O lobo, que ao longe era pequeno, é enorme, pêlos espessos pretos, o focinho comprido, os olhos dilatados e as orelhas pontudas em alerta. Ele pára atrás de mim. O casal está distraído, conversando amenidades.Moon Werewolf


- Ei Joe, sai daí. - tento chamá-lo sem que a fera  me escute.


Ele não ouve e ela dá o bote. Arranca a cabeça, o sangue jorra, Jennifer grita horrorizada, o animal investe contra a garota, provando sua carne e se lambuzando de sangue. Tentei avisá-los, mas não me ouviram. O lobo, satisfeito após a refeição, dá um uivo de triunfo. Fez-me gelar, minhas raízes tremerem e minhas folhas... Chacoalharem.
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07 julho 2013

|Micro Conto| Refeição Rápida

Podia sentir o cheiro de sangue, que aguçava mais sua fome. Ia em direção a fonte, feito um trem bala.
Um rapaz estava ferido, fora baleado, provavelmente vítima de um assalto.
- Me ajude. - falou com a voz fraca e desmaiou.
- Claro - respondeu com um sorriso diabólico.
Mordeu o pescoço e drenou o que restava de vida, parte de sua fome estava saciada. Limpou a boca, jogou o corpo sobre os ombros e desapareceu na escuridão.

Autora: Milly
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04 julho 2013

Chegarão chuvas suaves (Ray Bradbury)


Na sala de visitas, o relógio-falante cantou: Tique-taque, sete horas, hora de levantar, hora de levantar, sete horas!, como se tivesse medo que ninguém quisesse. A casa matinal estava deserta. O relógio tiquetaqueou, repetindo seu som no vazio. Sete e nove, hora do café, sete e nove!
Na cozinha, o fogão exalou um suspiro sibilante e lançou do seu aquecido interior oito fatias de pão, perfeitamente torradas, oito ovos fritos ao ponto, dezesseis tiras de toucinho, duas xícaras de café e dois copos de leite gelado.
— Hoje são 4 de agosto de 2026 — disse uma segunda voz, do teto da cozinha — na cidade de Allendale, Califórnia. — Repetiu a data três vezes para fixá-la na memória. — Hoje é o aniversário do Senhor Featherstone. Hoje é o aniversário de casamento de Tilita. É o dia de pagar as contas de seguro, água, gás e luz.
Em algum lugar das paredes, relés estalaram e fitas de memória deslizaram sob olhos elétricos.
Oito e um, tique-taque, oito e um, hora do colégio, hora de trabalhar, depressa, depressa, oito e um!, mas as portas não bateram, os tapetes não receberam as leves marcas de saltos de borracha. Chovia lá fora. A caixa do tempo, pregada na porta da rua, cantava tranqüilamente: “Chuva, chuva, vá em bora. Hoje é dia de capas e de galochas... “ E a chuva caía sobre a casa vazia, ecoando.
Fora, a garagem soou ergueu sua porta para mostrar o carro à espera. Depois de passado um tempo, a porta abaixou.
Às oito e meia, os ovos estavam murchos e as torradas feito pedra. Um utensílio de alumínio jogou-os na pia, onde um jato de água quente turbilhonante lançou-os numa gar ganta de metal, que os digeriu e atirou num mar distante. A louça suja foi colocada numa lavadora quente e emergiu seca c reluzente.
Nove e quinze — cantou o relógio — hora da limpeza.
Pequenos camundongos-robôs saíram de orifícios nas paredes. As habitações formigaram com os pequenos animais de limpeza, todos de borracha e metal. Esbarraram em Cadeiras, fazendo girar seus detectores, alisando os tapetes, sugando suavemente o pó escondido. Depois, como invasores misteriosos, pularam para suas tocas. Seus rosados olhos elétricos apagaram-se. A casa estava limpa.
Dez horas. O sol apareceu por trás da cortina de chuva. A casa erguia-se, solitária, numa cidade de ruínas e cinzas. Fora o único imóvel a resistir. De noite, a cidade arruinada emitia um clarão radioativo que podia ser visto a quilômetros de distância.
Dez e quinze. Os irrigadores do jardim giravam em chuviscos dourados, enchendo o suave ar da manhã com respingos de luminosidade. A água fustigou os vidros das janelas, escorrendo pelas paredes carbonizadas do oeste, onde a casa havia perdido sua pintura branca. Toda a fachada oeste da casa estava preta, com exceção de cinco lugares. Ali, a silhueta em branco de um homem cortando a grama. Aqui, como numa fotografia, uma mulher, curvada, apanhando flores. Um pouco mais longe, com os vultos gravados a fogo em madeira, num titânico instantâneo, um garotinho com os braços levantados. Mais em cima, a forma de uma bola atirada, e de fronte dele uma garota, com as mãos erguidas para apanhar um bola que nunca iria cair.
As cinco manchas de tinta — o homem, a mulher, as crianças e a bola — permaneceram. O resto era uma fina camada de carvão.
A suave chuva que os irrigadores produziam caia em fios luminosos.
Até aquele dia, como a casa tinha sabido conservar sua paz! Com que cuidado perguntava: “Quem está aí? Qual é a senha?” e, não obtendo resposta das raposas solitárias e dos gatos chorões, fechava suas janelas e corria as cortinas, numa preocupação de solteirona com a própria proteção, que atingia às raias da paranóia mecânica.
A casa estremecia com qualquer som. Se um pardal roçava numa vidraça, a cortina fechava-se ruidosamente. O pássaro, assustado, saía voando! Não, nem mesmo um pássaro podia tocar na casa!
A casa era um altar com dez mil acólitos, grandes, peque nos, servindo, atendendo em grupos. Mas os deuses haviam partido e o ritual da religião continuou absurdamente inútil.
Meio-dia.
Um cão ganiu, trêmulo, na varanda da frente.
A porta da rua reconheceu o latido do cão e abriu-se. O cão, antigamente grande e forte, era agora só ossos cobertos de feridas. Entrou na casa, deixando um rastro de lama. Atrás dele, chiavam os camundongos furiosamente, zangados por terem de limpar a lama e por causa da falta de compostura.
Pois assim que um pedaço de folha penetrava por baixo da porta, logo os painéis da parede se abriam e os camundongos de cobre surgiam como relâmpagos. O pó, o cabelo ou o papel inconveniente eram apanhados por minúsculas mandíbulas de aço e carregados para os orifícios. Nestes, havia canos descendentes que os depositavam no porão, onde eram atirados na boca de um ciciante incinerador, instalado como um sinistro Baal num canto escuro.
O cachorro subiu as escadas, latindo histericamente em cada porta, acabando por compreender, como já acontecera com a casa, que só o silêncio permanecia ali.
O cão farejou o ar e arranhou a porta da cozinha. Por trás da porta, o fogão estava fazendo panquecas, que enchiam a casa de um fabuloso cheiro de tostado e de maple.
Deitado na porta, com o focinho espumando, farejando, o cão tinha os olhos virados para o fogo. Começou a girar em círculos, mordendo a própria cauda, rodopiando freneticamente, e morreu. Ficou estendido na sala durante uma hora.
Duas horas, cantou uma voz.
Percebendo, finalmente, o cheiro quase imperceptível de decomposição, regimentos de ratos saíram sussurrando suave­mente como folhas amarelecidas arrastadas por um vento de tempestade.
Duas e quinze.
O cão desaparecera.
No porão, o incinerador brilhou subitamente e expeliu pela chaminé redemoinhos de fagulhas.
Duas e trinta e cinco.
Das paredes do pátio, surgiram mesas de bridge. Baralhos esvoaçaram e formaram montes, numa chuva de figuras. Martinis se manifestaram num balcão de carvalho, acompanha dos de sanduíches de salada de ovos. Ouviu-se música.
Mas as mesas ficaram silenciosas e as cartas intocadas.
Às quatro, as mesas dobraram-se, como enormes borboletas, e voltaram para seus nichos nas paredes de lambris.
Quatro e meia.
As paredes do quarto das crianças brilharam. Animais adquiriram forma: girafas amarelas, leões azuis, antílopes rosados, panteras lilases, cabriolando numa subs tância cristalina. As paredes eram de vidro colorido e cheio de fantasias. Filmes ocultos deslizaram sobre carretéis bem azeitados, e as paredes adquiriram vida. O chão do quarto foi preparado para assemelhar-se a um campo ondulante de ce reais, por onde corriam baratas de alumínio e grilos de ferro. No ar morno e parado, adejavam borboletas de delicadas asas vermelhas transparentes, entre o penetrante perfume de pega das de animais! Ouvia-se o barulho semelhante a um grande enxame de abelhas amarelas dentro de colméias e o preguiçoso ronronar de um leão. E também o galope dos okapis, o murmurar da chuva suave sobre a mata, bem como o de outros animais, caindo sobre o capim seco do verão. Agora as paredes se transformaram em planícies intermináveis de pastagens ressequidas e num céu infinito e quente. Os animais se afas taram pelas passagens espinhosas à procura de mananciais. Era a hora das crianças.
Cinco horas. A banheira encheu-se de água cristalina e quente.
Seis, sete, oito horas. A louça do jantar apareceu como um passe de mágica e no estúdio, um clique. Na estante, de fronte da lareira, onde brilhava um fogo acolhedor, apareceu um charuto, fumegante, com quase um centímetro de cinza, esperando.
Nove horas. As camas aqueceram seus circuitos ocultos, pois as noites estavam frias.
Nove e cinco. Uma voz falou do teto do estúdio:
— Senhora McClellan, que poema quer ouvir esta noite? A casa continuou silenciosa.
A voz finalmente disse:
— Já que não tem preferência, escolherei um poema ao acaso. — Ouviu-se uma música suave, como fundo para a voz. — Sara Teasdale (Poetisa americana (1884-1933). (N.doT.)). Se não me engano, sua preferida..

“Chegarão chuvas suaves e o perfume do solo,
As andorinhas adejando, com seu canto estridente.

E sapos nos charcos cantando de noite,
E ameixeiras silvestres, trêmulas e. pálidas.

Tordos vestirão sua plumagem de fogo,
Assoviando suas fantasias numa cerca baixa.

E ninguém saberá que há guerra, ninguém
Se preocupará quando ela tiver fim.

Ninguém se importará, seja pássaro ou árvore,
Se a humanidade perecer totalmente.

E a própria Primavera, quando despertar ao amanhecer,
Nem suspeitará do nosso desaparecimento.

O fogo queimava na lareira de pedra e o charuto consumiu-se em cinzas no cinzeiro. As poltronas vazias continuavam umas defronte das outras, entre as paredes silenciosas, e a música prosseguia.
Às dez horas, a casa começou a morrer.
O vento soprou. O galho de uma árvore despencou e arrebentou a janela, indo cair na cozinha. O vidro de detergente estilhaçou-se sobre o fogão. O local ficou instantaneamente em chamas!
— Fogo! — gritou uma voz.
As luzes da casa acenderam-se e as bombas de água começaram a jorrar do teto. Mas o detergente espalhou-se pelo linóleo, lambendo, devorando, passando sob a porta da cozi nha, enquanto as vozes gritavam em coro:
— Fogo, fogo, fogo!
A casa tentou salvar-se. Portas foram fechadas, mas as janelas estalavam por causa do fogo que era espalhado pelo vento.
A casa cedeu terreno ao fogo que, em dez bilhões de faíscas, avançou facilmente de compartimento para compartimento e depois pelas escadas.
Apressados ratos d'água pulavam das paredes esguichan do e corriam para buscar mais água. E os extintores murais espargiam sua chuva automática.
Porém era tarde. Em algum lugar, com um suspiro, uma bomba sacolejou e parou. A chuva diminuiu e parou. A caixa d'água, que havia enchido as banheiras e lavado a louça durante tantos dias tranqüilos, ficou vazia.
O fogo crepitou escada acima. Nutriu-se de Picassos e de Matisses nas salas superiores, como delicadas iguarias, cozinhando a carne oleosa, fritando maciamente as telas, em pedaços escuros.
Depois o fogo ocupou as camas, atingiu as janelas e mu dou a cor das cortinas!
De repente, chegaram reforços.
De alçapões, no sótão, robôs de rostos cegos viraram as cabeças para baixo e soltaram um produto químico verde.
O fogo retrocedeu como um elefante diante de uma cobra morta. E foram vinte serpentes que deslizaram para o chão, matando o fogo com o veneno claro e frio da espuma verde.
Mas o fogo era esperto. Enviou chamas para fora da casa e pelo sótão, para atingir as bombas localizadas lá. Uma explosão! O cérebro que, do sótão, comandava as bombas, transformou-se em estilhaços de bronze sobre as vigas.
O fogo penetrou em todos os armários e passou a lamber as roupas neles penduradas.
A casa estremeceu, viga por viga de carvalho, com a estrutura à mostra rangendo com o fogo, sua fiação, seus nervos, revelados como se um cirurgião tivesse retirado a pele para que veias vermelhas e os vasos capilares palpitassem no ar escaldante. Socorro, socorro! Fogo! Fujam, fujam! O fogo estalava os espelhos como os primeiros gelos do inverno. E as vozes gritavam fogo, fogo, fujam, fujam, como uma trágica cantiga de ninar, uma dúzia de vozes, altas, baixas, como crianças morrendo numa floresta, sós, terrivelmente sós. E as vozes emudeciam à medida em que os fios ficavam desencapados e explodiam como castanhas quentes. Uma, duas, três, quatro, cinco vozes calaram.
No quarto das crianças, a mata queimava. Os leões azuis rugiram, as girafas amarelas escaparam aos pulos. As panteras corriam em círculos, mudando de cor, e dez milhões de ani mais, fugindo do fogo, desapareceram na direção de um distante rio fumegante...
Mais dez vozes calaram-se. No último instante, sob a avalanche do incêndio, outros coros, esquecidos, puderam ser ouvidos, anunciando o tempo, tocando música, cortando a grama com segadoras de controle remoto ou abrindo e fechando freneticamente um guarda-chuva na porta da rua, que batia descontrolada, mil coisas acontecendo ao mesmo tempo, como numa relojoaria, quando cada relógio bate a hora incessante­mente, antes e depois do outro, uma cena de louca confusão, apesar de ter unidade. Cantando, gritando, os últimos camundongos limpadores atiraram-se corajosamente para levar dali as cinzas horríveis! E uma voz, com sublime desprezo pela situação, lia poesia alto no estúdio incendiado, até que os rolos de filme queimaram, até que os fios encolheram e os circuitos arrebentaram.
O fogo fez a casa estalar e cair, expelindo lençóis de fagulhas e fumaça.
Na cozinha, um momento antes da chuva de fogo e de madeira, podia-se ver o fogão fazendo refeições numa proporção psicopática: dez dúzias de ovos, seis pacotes de torradas, vinte dúzias de tiras de toucinho que, absorvidos pelo fogo, faziam o fogão recomeçar, chiando histericamente!
Um estrondo. O sótão arrebentou-se sobre a cozinha e a sala de visitas. A sala de visitas sobre o porão e este sobre as fundações. Congelador, poltrona, fitas, circuitos, camas e tudo o mais amontoaram-se no fundo como um desordenado tu multo de ossos.
Fumaça e silêncio. Grande quantidade de fumaça.
O dia começou lentamente a raiar. Entre as ruínas, ape nas uma parede mantinha-se ereta. Dentro dela, uma derradeira voz dizia incessantemente, enquanto os primeiros raios do sol começaram a brilhar sobre os escombros fumegantes:


— Hoje são 5 de agosto de 2026, hoje são 5 de agosto de 2026, hoje são...

Autor: Ray Bradbury
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