07 julho 2013

|Micro Conto| Refeição Rápida

Podia sentir o cheiro de sangue, que aguçava mais sua fome. Ia em direção a fonte, feito um trem bala.
Um rapaz estava ferido, fora baleado, provavelmente vítima de um assalto.
- Me ajude. - falou com a voz fraca e desmaiou.
- Claro - respondeu com um sorriso diabólico.
Mordeu o pescoço e drenou o que restava de vida, parte de sua fome estava saciada. Limpou a boca, jogou o corpo sobre os ombros e desapareceu na escuridão.

Autora: Milly
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04 julho 2013

Chegarão chuvas suaves (Ray Bradbury)


Na sala de visitas, o relógio-falante cantou: Tique-taque, sete horas, hora de levantar, hora de levantar, sete horas!, como se tivesse medo que ninguém quisesse. A casa matinal estava deserta. O relógio tiquetaqueou, repetindo seu som no vazio. Sete e nove, hora do café, sete e nove!
Na cozinha, o fogão exalou um suspiro sibilante e lançou do seu aquecido interior oito fatias de pão, perfeitamente torradas, oito ovos fritos ao ponto, dezesseis tiras de toucinho, duas xícaras de café e dois copos de leite gelado.
— Hoje são 4 de agosto de 2026 — disse uma segunda voz, do teto da cozinha — na cidade de Allendale, Califórnia. — Repetiu a data três vezes para fixá-la na memória. — Hoje é o aniversário do Senhor Featherstone. Hoje é o aniversário de casamento de Tilita. É o dia de pagar as contas de seguro, água, gás e luz.
Em algum lugar das paredes, relés estalaram e fitas de memória deslizaram sob olhos elétricos.
Oito e um, tique-taque, oito e um, hora do colégio, hora de trabalhar, depressa, depressa, oito e um!, mas as portas não bateram, os tapetes não receberam as leves marcas de saltos de borracha. Chovia lá fora. A caixa do tempo, pregada na porta da rua, cantava tranqüilamente: “Chuva, chuva, vá em bora. Hoje é dia de capas e de galochas... “ E a chuva caía sobre a casa vazia, ecoando.
Fora, a garagem soou ergueu sua porta para mostrar o carro à espera. Depois de passado um tempo, a porta abaixou.
Às oito e meia, os ovos estavam murchos e as torradas feito pedra. Um utensílio de alumínio jogou-os na pia, onde um jato de água quente turbilhonante lançou-os numa gar ganta de metal, que os digeriu e atirou num mar distante. A louça suja foi colocada numa lavadora quente e emergiu seca c reluzente.
Nove e quinze — cantou o relógio — hora da limpeza.
Pequenos camundongos-robôs saíram de orifícios nas paredes. As habitações formigaram com os pequenos animais de limpeza, todos de borracha e metal. Esbarraram em Cadeiras, fazendo girar seus detectores, alisando os tapetes, sugando suavemente o pó escondido. Depois, como invasores misteriosos, pularam para suas tocas. Seus rosados olhos elétricos apagaram-se. A casa estava limpa.
Dez horas. O sol apareceu por trás da cortina de chuva. A casa erguia-se, solitária, numa cidade de ruínas e cinzas. Fora o único imóvel a resistir. De noite, a cidade arruinada emitia um clarão radioativo que podia ser visto a quilômetros de distância.
Dez e quinze. Os irrigadores do jardim giravam em chuviscos dourados, enchendo o suave ar da manhã com respingos de luminosidade. A água fustigou os vidros das janelas, escorrendo pelas paredes carbonizadas do oeste, onde a casa havia perdido sua pintura branca. Toda a fachada oeste da casa estava preta, com exceção de cinco lugares. Ali, a silhueta em branco de um homem cortando a grama. Aqui, como numa fotografia, uma mulher, curvada, apanhando flores. Um pouco mais longe, com os vultos gravados a fogo em madeira, num titânico instantâneo, um garotinho com os braços levantados. Mais em cima, a forma de uma bola atirada, e de fronte dele uma garota, com as mãos erguidas para apanhar um bola que nunca iria cair.
As cinco manchas de tinta — o homem, a mulher, as crianças e a bola — permaneceram. O resto era uma fina camada de carvão.
A suave chuva que os irrigadores produziam caia em fios luminosos.
Até aquele dia, como a casa tinha sabido conservar sua paz! Com que cuidado perguntava: “Quem está aí? Qual é a senha?” e, não obtendo resposta das raposas solitárias e dos gatos chorões, fechava suas janelas e corria as cortinas, numa preocupação de solteirona com a própria proteção, que atingia às raias da paranóia mecânica.
A casa estremecia com qualquer som. Se um pardal roçava numa vidraça, a cortina fechava-se ruidosamente. O pássaro, assustado, saía voando! Não, nem mesmo um pássaro podia tocar na casa!
A casa era um altar com dez mil acólitos, grandes, peque nos, servindo, atendendo em grupos. Mas os deuses haviam partido e o ritual da religião continuou absurdamente inútil.
Meio-dia.
Um cão ganiu, trêmulo, na varanda da frente.
A porta da rua reconheceu o latido do cão e abriu-se. O cão, antigamente grande e forte, era agora só ossos cobertos de feridas. Entrou na casa, deixando um rastro de lama. Atrás dele, chiavam os camundongos furiosamente, zangados por terem de limpar a lama e por causa da falta de compostura.
Pois assim que um pedaço de folha penetrava por baixo da porta, logo os painéis da parede se abriam e os camundongos de cobre surgiam como relâmpagos. O pó, o cabelo ou o papel inconveniente eram apanhados por minúsculas mandíbulas de aço e carregados para os orifícios. Nestes, havia canos descendentes que os depositavam no porão, onde eram atirados na boca de um ciciante incinerador, instalado como um sinistro Baal num canto escuro.
O cachorro subiu as escadas, latindo histericamente em cada porta, acabando por compreender, como já acontecera com a casa, que só o silêncio permanecia ali.
O cão farejou o ar e arranhou a porta da cozinha. Por trás da porta, o fogão estava fazendo panquecas, que enchiam a casa de um fabuloso cheiro de tostado e de maple.
Deitado na porta, com o focinho espumando, farejando, o cão tinha os olhos virados para o fogo. Começou a girar em círculos, mordendo a própria cauda, rodopiando freneticamente, e morreu. Ficou estendido na sala durante uma hora.
Duas horas, cantou uma voz.
Percebendo, finalmente, o cheiro quase imperceptível de decomposição, regimentos de ratos saíram sussurrando suave­mente como folhas amarelecidas arrastadas por um vento de tempestade.
Duas e quinze.
O cão desaparecera.
No porão, o incinerador brilhou subitamente e expeliu pela chaminé redemoinhos de fagulhas.
Duas e trinta e cinco.
Das paredes do pátio, surgiram mesas de bridge. Baralhos esvoaçaram e formaram montes, numa chuva de figuras. Martinis se manifestaram num balcão de carvalho, acompanha dos de sanduíches de salada de ovos. Ouviu-se música.
Mas as mesas ficaram silenciosas e as cartas intocadas.
Às quatro, as mesas dobraram-se, como enormes borboletas, e voltaram para seus nichos nas paredes de lambris.
Quatro e meia.
As paredes do quarto das crianças brilharam. Animais adquiriram forma: girafas amarelas, leões azuis, antílopes rosados, panteras lilases, cabriolando numa subs tância cristalina. As paredes eram de vidro colorido e cheio de fantasias. Filmes ocultos deslizaram sobre carretéis bem azeitados, e as paredes adquiriram vida. O chão do quarto foi preparado para assemelhar-se a um campo ondulante de ce reais, por onde corriam baratas de alumínio e grilos de ferro. No ar morno e parado, adejavam borboletas de delicadas asas vermelhas transparentes, entre o penetrante perfume de pega das de animais! Ouvia-se o barulho semelhante a um grande enxame de abelhas amarelas dentro de colméias e o preguiçoso ronronar de um leão. E também o galope dos okapis, o murmurar da chuva suave sobre a mata, bem como o de outros animais, caindo sobre o capim seco do verão. Agora as paredes se transformaram em planícies intermináveis de pastagens ressequidas e num céu infinito e quente. Os animais se afas taram pelas passagens espinhosas à procura de mananciais. Era a hora das crianças.
Cinco horas. A banheira encheu-se de água cristalina e quente.
Seis, sete, oito horas. A louça do jantar apareceu como um passe de mágica e no estúdio, um clique. Na estante, de fronte da lareira, onde brilhava um fogo acolhedor, apareceu um charuto, fumegante, com quase um centímetro de cinza, esperando.
Nove horas. As camas aqueceram seus circuitos ocultos, pois as noites estavam frias.
Nove e cinco. Uma voz falou do teto do estúdio:
— Senhora McClellan, que poema quer ouvir esta noite? A casa continuou silenciosa.
A voz finalmente disse:
— Já que não tem preferência, escolherei um poema ao acaso. — Ouviu-se uma música suave, como fundo para a voz. — Sara Teasdale (Poetisa americana (1884-1933). (N.doT.)). Se não me engano, sua preferida..

“Chegarão chuvas suaves e o perfume do solo,
As andorinhas adejando, com seu canto estridente.

E sapos nos charcos cantando de noite,
E ameixeiras silvestres, trêmulas e. pálidas.

Tordos vestirão sua plumagem de fogo,
Assoviando suas fantasias numa cerca baixa.

E ninguém saberá que há guerra, ninguém
Se preocupará quando ela tiver fim.

Ninguém se importará, seja pássaro ou árvore,
Se a humanidade perecer totalmente.

E a própria Primavera, quando despertar ao amanhecer,
Nem suspeitará do nosso desaparecimento.

O fogo queimava na lareira de pedra e o charuto consumiu-se em cinzas no cinzeiro. As poltronas vazias continuavam umas defronte das outras, entre as paredes silenciosas, e a música prosseguia.
Às dez horas, a casa começou a morrer.
O vento soprou. O galho de uma árvore despencou e arrebentou a janela, indo cair na cozinha. O vidro de detergente estilhaçou-se sobre o fogão. O local ficou instantaneamente em chamas!
— Fogo! — gritou uma voz.
As luzes da casa acenderam-se e as bombas de água começaram a jorrar do teto. Mas o detergente espalhou-se pelo linóleo, lambendo, devorando, passando sob a porta da cozi nha, enquanto as vozes gritavam em coro:
— Fogo, fogo, fogo!
A casa tentou salvar-se. Portas foram fechadas, mas as janelas estalavam por causa do fogo que era espalhado pelo vento.
A casa cedeu terreno ao fogo que, em dez bilhões de faíscas, avançou facilmente de compartimento para compartimento e depois pelas escadas.
Apressados ratos d'água pulavam das paredes esguichan do e corriam para buscar mais água. E os extintores murais espargiam sua chuva automática.
Porém era tarde. Em algum lugar, com um suspiro, uma bomba sacolejou e parou. A chuva diminuiu e parou. A caixa d'água, que havia enchido as banheiras e lavado a louça durante tantos dias tranqüilos, ficou vazia.
O fogo crepitou escada acima. Nutriu-se de Picassos e de Matisses nas salas superiores, como delicadas iguarias, cozinhando a carne oleosa, fritando maciamente as telas, em pedaços escuros.
Depois o fogo ocupou as camas, atingiu as janelas e mu dou a cor das cortinas!
De repente, chegaram reforços.
De alçapões, no sótão, robôs de rostos cegos viraram as cabeças para baixo e soltaram um produto químico verde.
O fogo retrocedeu como um elefante diante de uma cobra morta. E foram vinte serpentes que deslizaram para o chão, matando o fogo com o veneno claro e frio da espuma verde.
Mas o fogo era esperto. Enviou chamas para fora da casa e pelo sótão, para atingir as bombas localizadas lá. Uma explosão! O cérebro que, do sótão, comandava as bombas, transformou-se em estilhaços de bronze sobre as vigas.
O fogo penetrou em todos os armários e passou a lamber as roupas neles penduradas.
A casa estremeceu, viga por viga de carvalho, com a estrutura à mostra rangendo com o fogo, sua fiação, seus nervos, revelados como se um cirurgião tivesse retirado a pele para que veias vermelhas e os vasos capilares palpitassem no ar escaldante. Socorro, socorro! Fogo! Fujam, fujam! O fogo estalava os espelhos como os primeiros gelos do inverno. E as vozes gritavam fogo, fogo, fujam, fujam, como uma trágica cantiga de ninar, uma dúzia de vozes, altas, baixas, como crianças morrendo numa floresta, sós, terrivelmente sós. E as vozes emudeciam à medida em que os fios ficavam desencapados e explodiam como castanhas quentes. Uma, duas, três, quatro, cinco vozes calaram.
No quarto das crianças, a mata queimava. Os leões azuis rugiram, as girafas amarelas escaparam aos pulos. As panteras corriam em círculos, mudando de cor, e dez milhões de ani mais, fugindo do fogo, desapareceram na direção de um distante rio fumegante...
Mais dez vozes calaram-se. No último instante, sob a avalanche do incêndio, outros coros, esquecidos, puderam ser ouvidos, anunciando o tempo, tocando música, cortando a grama com segadoras de controle remoto ou abrindo e fechando freneticamente um guarda-chuva na porta da rua, que batia descontrolada, mil coisas acontecendo ao mesmo tempo, como numa relojoaria, quando cada relógio bate a hora incessante­mente, antes e depois do outro, uma cena de louca confusão, apesar de ter unidade. Cantando, gritando, os últimos camundongos limpadores atiraram-se corajosamente para levar dali as cinzas horríveis! E uma voz, com sublime desprezo pela situação, lia poesia alto no estúdio incendiado, até que os rolos de filme queimaram, até que os fios encolheram e os circuitos arrebentaram.
O fogo fez a casa estalar e cair, expelindo lençóis de fagulhas e fumaça.
Na cozinha, um momento antes da chuva de fogo e de madeira, podia-se ver o fogão fazendo refeições numa proporção psicopática: dez dúzias de ovos, seis pacotes de torradas, vinte dúzias de tiras de toucinho que, absorvidos pelo fogo, faziam o fogão recomeçar, chiando histericamente!
Um estrondo. O sótão arrebentou-se sobre a cozinha e a sala de visitas. A sala de visitas sobre o porão e este sobre as fundações. Congelador, poltrona, fitas, circuitos, camas e tudo o mais amontoaram-se no fundo como um desordenado tu multo de ossos.
Fumaça e silêncio. Grande quantidade de fumaça.
O dia começou lentamente a raiar. Entre as ruínas, ape nas uma parede mantinha-se ereta. Dentro dela, uma derradeira voz dizia incessantemente, enquanto os primeiros raios do sol começaram a brilhar sobre os escombros fumegantes:


— Hoje são 5 de agosto de 2026, hoje são 5 de agosto de 2026, hoje são...

Autor: Ray Bradbury
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Bolinhos de bebê (Neil Gaiman)


Alguns anos atrás, todos os animais foram embora.
Acordamos uma manhã e eles simplesmente não estavam mais lá. Nem mesmo nos deixaram um bilhete ou disseram adeus. Nunca conseguimos saber ao certo para onde foram.
Sentimos sua falta.
Alguns de nós pensaram que o mundo tinha se acabado, mas não tinha.
Só que não havia mais animais. Não havia gatos ou coelhos, cachorros ou baleias, não havia peixes nos mares, nem pássaros nos céus.
Estávamos sós.
Vagueamos por aí, perdidos por um tempo, e então alguém observou que, só porque não tínhamos mais animais, não havia motivo para mudar nossas vidas. Não havia razão para mudar nossa dieta ou parar de testar produtos que podem nos fazer mal.
Afinal de contas, ainda havia os bebês.
Bebês não falam. Mal podem se mexer. O bebê não é uma criatura racional, pensante.
Fizemos bebês.
E os usamos.
Alguns deles, comemos. Carne de bebê é tenra e suculenta.
Esfolamos suas peles e nos enfeitamos com elas. Couro de bebê é macio e confortável.
Alguns deles, usamos em testes.
Mantínhamos seus olhos abertos com fitas adesivas e pingávamos detergentes e shampoos neles, uma gota de cada vez.
Nós os marcamos e os escaldamos. Nós os queimamos. Nós os prendemos com braçadeiras e plantamos eletrodos em seus cérebros. Enxertamos, congelamos e irradiamos.
Os bebês respiravam nossa fumaça, e, nas veias dos bebês, fluíam nossos remédios e drogas, até eles pararem de respirar ou até o sangue deles não correr mais.
Era duro, é claro, mas necessário.
Ninguém podia negar isso.
Com a partida dos animais, o que mais podíamos fazer?
Algumas pessoas reclamaram, claro. Mas elas sempre fazem isso.
E tudo voltou ao normal.
Só que…
Ontem, todos os bebês se foram.
Não sabemos para onde. Nem mesmo os vimos partir.
Não sabemos o que vamos fazer sem eles.
Mas pensaremos em algo. Humanos são espertos. É o que nos faz superiores aos animais e aos bebês.

Vamos bolar alguma coisa.

Autor: Neil Gaiman
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02 julho 2013

O demônio do subúrbio



Rio de Janeiro, Engenho de Dentro, 1999.


“Nunca passe pelo Beco do Capeta às sextas, depois da meia-noite”, diziam muito sérios os meninos aos novatos no bairro. Falado assim, fora de algum contexto, isso poderia soar um bocado ameaçador, mas “Capeta” fora só um garoto de onze anos que muito propriamente ganhou o apelido ao jogar uma bombinha de São João – ou um cabeção de nego, a lenda variava – acesa no cabelo da mãe, vingando-se por ela ter escondido o seu Telejogo. Não me recordo do nome real do guri, devia ter nome de velho, em homenagem ao avô, feito Adamastor, Felisberto, Lourival. E nem o Capeta aceitava que o chamassem de qualquer outra coisa senão daquele apelido que lhe caía como luva. No entanto, sei que ele era miúdo para a idade; que tinha olhos saltados, cabeleira cacheada e era magrelo, amarelo e feio como deve ser o próprio demo. Lembro-me também que ninguém ganhava dele na carniça, no jogo de botão, no bate-begue, no bafo-bafo de figurinhas, ou fazia cerol melhor ou mais cortante para as pipas.

“Beco” também não seria uma denominação adequada; na verdade o lugar era uma vila de casas sem saída, na rua onde morávamos, destas antigas dos subúrbios do Rio, cheia de aposentados, com enorme portão de ferro na entrada, ruazinha de paralelepípedos no meio e habitações estreitas de “altos-e-baixos” geminadas, cheias de antúrios, samambaias e comigo-ninguém-pode em vasos nas calçadas que faziam o papel de varandas.

Eu era só um filhote então, você sabe, o tempo é cruel com os cães. “A vela que brilha duas vezes mais forte, brilha pela metade”. Pois é, depois de meros dez anos já somos quase anciões e, com dezenove, feito tenho agora, meio cego, surdo e desdentado, nem se fala... Na época, com apenas sete meses de idade, já era enorme; uma descarrilhada e peluda locomotiva de quatro patas, meio vira-latas, meio Pastor Alemão. Eu era o Bandit, não o medroso cãozinho do Jonny Quest, mas um que arrastava Zezinho e Carlinhos pela correia, driblando os ônibus 606 no meio da rua, caçando gatos, participando das brincadeiras de “polícia e ladrão” e sendo o gandula oficial nos jogos de futebol, sempre trazendo de volta a bola de meia ao “campo” - que era só uma calçada com chinelinhos delimitando as traves do gol.

Minha nossa! Eu me perdi, não? As memórias agora vêm feito uma torrente caudalosa, parecem ter vontade própria. Eu perco fácil o fio... Bem, por que nunca passar pelo beco depois da meia-noite? Hum, isso pede por mais história.

Mudara-se recentemente para o novíssimo e único edifício da rua um garoto comprido, de olhos cor de inverno, de cabelos louros cortados no melhor estilo “reco”; o André “Galego”. Penso que os pais davam mais liberdade às crianças nesse tempo, acho que eram menos preconceituosos também. Pois o pai do Galego tinha um Corcel II do ano, era gerente do Banco Nacional, porém logo o moleque vivia tão encardido e machucado como qualquer dos meninos menos abastados da vizinhança. De fato, o Capeta gostou e desgostou dele tão logo o conheceu; o louro era obviamente outro alfa, outro líder nato de matilha.

Como esperado, em pouco mais de um mês o novo menino já mostrava sua capacidade de liderança ao conduzir a invasão de um cinema falido, de cuja laje todos os guris passaram a soltar pipas, a fumar escondido Minister ou Continental, a competir para ver quem cuspia ou mijava mais longe. Com facilidade o Galego ganhava quase todas as bolas de gude deles, todas as figurinhas, inclusive a rara “baleia” do álbum da Disney. Saltava mais longe e nunca foi “carniça”. E pecado dos pecados: em cinco disputas diferentes cortou e arrematou quatro pipas do Capeta, o nosso campeão dos ares.

Aproximava-se o carnaval e os meninos costumavam sair todos de Bate-Bola ou Clóvis, feito diziam os primos deles que viviam em São Gonçalo, terra das cafifas. A vizinha Dona Marilda “Portuguesa” desenhou e pintou unicórnios para as capas de cetim negras e prateadas, e todas as casas da vizinhança cheiravam tal qual mictório público, por causa das “armas”; das bexigas de boi infladas que eram curtidas nas áreas de serviço, sob o Sol forte daquele Fevereiro quente e seco. Zezinho de vez em quando urinava sobre a sua para deixá-la ainda mais fedida, eu às vezes também, sem que ele soubesse. Na sua, Carlinhos passava água com pimenta do reino e sal, para que ardesse na pele ao se bater em alguém – não que ele tivesse a intenção de machucar de verdade, mas porque era coisa que todos os outros meninos faziam.

No sábado de carnaval, ao sair às ruas, naturalmente o Galego já liderava o grupo de bate-bolas e eu só ia seguindo atrás, com uma capa de Batman atada à coleira e uma máscara preta que não me deixava ver direito. Latia e me assustava depois de cada batida das bexigas na calçada e devido aos silvos estridentes dos apitos que os meninos tinham nas bocas. Era divertido ver as crianças pequenas chorando de medo e o pastor da Igreja Batista correr atrás da gente com um pedaço de pau na mão.

Capeta seguia o grupo meio atrasado, obviamente entristecido por agora apenas ser mais um no bando.

Passávamos pela passarela por sobre a estação do trem suburbano para provocar uns garotos vestidos de carrasco do outro lado do bairro, na Rua Goiás. Repentinamente, vimos uma pipa, linda, linda, com rabiola longa, de papel de seda azul e hastes artisticamente vergadas, que caía do céu. Os meninos logo se esqueceram de que era carnaval e nas ruas distantes, outros garotos, fantasiados ou não, com cabos de vassoura ou bambus, correram em nossa direção.

Para a decepção de todos, o “pião” passara por nossas cabeças e fora levado pelo vento de encontro aos cabos de energia do trem. Seria questão de minutos até que os rapazes mais velhos chegassem com varas compridas. Foi então que o Galego disse algo que ele se arrependeria pelo resto de seus dias.

— Tá voada, tá voada! Essa é tua, Capeta! Vai lá que a gente te dá cobertura! Ou vai dizer que tu vai medrar? Que não tem coragem?

“Coragem?”, o louro provocava alguém que levara um camundongo morto para a sala de aula e colocara na cadeira da tímida professora de Português, que finalmente estafou, e fora substituída pela Mara “Megera”, que só no primeiro dia de aula expulsou três da sala. Alguém que costumava tomar banho de piscina e fazer xixi na caixa d’água da casa do temível Seu Coimbra “da bengala”, que fizera um Judas ridículo do mesmo Seu Coimbra num Sábado de Aleluia e pendurara num poste em frente à casa do homem, ficando fazendo caretas e rindo da expressão indignada do pobre quando o vira sair.

Para piorar, os meninos, todos eles, perceberam de longe a provocação, o jogo de disputa pela liderança que ali se formava, feito quando dois cães cheiram os traseiros antes de decidirem se vão morder ou abanar a cauda para um estranho. Começaram com “ihs” e “ahs”, a dizerem bobagens como “chamou o pai de careca, a mãe de cabeluda”. Ainda que indiretamente, citar a mãe desquitada e mal falada do Capeta era o suficiente para tirá-lo do sério.

Por trás da máscara de caveira com cabelo laranja, ele devia estar apavorado, mas não demonstrava. Talvez somente eu, consegui cheirar o medo nele.

            — Vai tomar no cu, Galego! Tá pensando o quê? Eu sou macho! – Respondeu, levantou a máscara e escarrou no chão.

            Subiu e sentou na lateral da passarela com a agilidade e graça dum macaco, chegou a ameaçar ficar de pé sobre os kichutes para demonstrar que não tinha medo. Com a mão direita segurou-se com firmeza ao corrimão da passarela, flexionou as pernas e inclinou o corpo em direção ao vazio, esticando o braço esquerdo e usando a haste de madeira da bexiga para alcançar a pipa.

            O objeto passava a dois ou três centímetros do cabresto da voada, sem lograr alcançá-lo e ele inclinou ainda mais o corpo. Receosos, Carlinhos e Zezinho já aconselhavam que ele desistisse.

            Daí, ele se desequilibrou e, no reflexo de não cair, segurou num cabo de alta tensão. Um estrondo feito um tiro se ouviu e percebi um cheiro horrível de eletricidade no ar. As mangas da roupa de cetim em preto e branco e o cabelo laranja se inflamaram, e o Capeta despencou em chamas feito um anjo caído, até beijar os trilhos que corriam abaixo.

            Felizmente algumas pessoas tudo viram e correram à estação, para evitar que ele ainda fosse atropelado por um trem. Dias depois, escutando os meninos, eu soube que ele resistiu por uma semana no hospital, com setenta por cento do corpo queimado e oito fraturas.

            A mãe, Dona Josefa, não suportou bem a perda do filho único, mesmo uma peste feito o Capeta, que cabulava aula e repetia a quinta série pela segunda vez. Trancou-se em casa e, alguns meses depois, morreu do coração enquanto dormia. Na vila, a casa desde então ficou fechada, esperando pelo provável desenrolar de algum inventário financiado talvez por um parente distante.

            Meus donos não perceberam, mas eu passei a ver frequentemente o falecido sentado à porta de sua casa vazia, ainda fantasiado e com os cotovelos apoiados nos joelhos, como se chorasse a morte da mãe. Um dia, ao me notar latindo para ele, acenou e riu, sinistramente, me fazendo correr ganindo para casa com o pelo todo arrepiado.

            Eu não sei o que se passa depois que alguém morre, talvez por um tempo não tenham noção de seu novo estado e vaguem perdidos, pode ser que tentem comunicar-se com os vivos, que tentem retomar às suas rotinas. O fato é que depois da última vez que vi o fantasma do menino, ele desapareceu, mas a sensação de frio, de estranheza, essa permaneceu por lá, feito uma aura escura, uma mácula de sangue que, ainda que bem esfregada, nunca sairia de verdade.

***

            Quase um ano se passou lentamente, como o tempo parece que sempre se arrasta quando somos jovens, traindo-nos e acelerando mais tarde, quando nossa vida na Terra está por acabar. Eu cresci e me interessei pelas lindas cadelas no bairro, correndo em bando atrás de todas em cada cio, voltando sempre magro, com carrapatos ou sarna. Imagino que tenho algumas dezenas de filhotes espalhados por aí. Já os meninos, eles se esqueceram do Capeta, somente às vezes comentavam sobre a valentia sem noção do falecido, e sobre como eu me assustava e latia quando passava frente à casa da família dele, que continuava trancada e inabitada.

            Daí alguém começou com uma história, um boato ou lenda urbana, que o beco fosse assombrado, que ninguém teria coragem de passar a noite por lá, em especial na próxima sexta-feira treze de Fevereiro de 1981, próximo no aniversário da morte do menino.

— Eu passo a noite lá, suas mulherzinhas. Chego meia-noite e passo fantasiado de bate-bola, só pra mostrar que já tenho pelo no saco! Ora, o Capeta morreu porque foi burro, foi só um acidente! – Falou o Galego ao restante do bando, quando começaram a comentar sobre o beco assombrado.

Carlinhos e Zezinho então sugeriram que o louro me levasse junto. Porque eu poderia ver o fantasma e avisar quando ele estivesse lá. De longe, do portão da vila, o bando observaria a prova de valentia do nosso líder.

Como combinado, André Galego deu um jeito de sair à noite – disse aos pais que ia dormir na casa de algum amigo, coisa que não precisou confirmar porque quase ninguém tinha telefone à época -, e levou a fantasia de bate-bola escondida na mochila.

Uma névoa fria e espessa, estranha naquele Fevereiro tão seco, começou a baixar depois das onze da noite. Próximo da meia-noite, alguns gatos cruzando escandalosamente nos telhados, fazendo tanto barulho quanto demônios torturados, fez parte dos meninos desistir do desafio e buscar o calor de suas camas. Faltou luz de repente, mas Carlinhos retornou à nossa casa e voltou com uma vela acesa e entregou ao louro, rapidamente.

Galego continuou firme, sentado à porta da casa do Capeta, vestido com a ridícula roupa de cetim bicolor, sozinho feito um palhaço sem picadeiro e plateia. Para os meninos aglomerados junto do portão da vila, ele era um herói; alguém mais corajoso que o Capitão Aza ou o Ultraseven. Mas eu, sentindo todos os meus ossos gelados por antecipar algo ruim, eu farejava o medo do guri, percebia como ele tremia e fazia um esforço sobre-humano para que ninguém notasse.

O relógio-carrilhão de alguma casa da vila começou a soar a primeira de doze badaladas. Meu pelo do lombo eriçou, senti frio e vi o Capeta atravessando o muro que fechava a ruela central da vila. Desta vez ele tinha o rosto ferido, como se fora de plástico e houvesse derretido parcialmente. Os olhos brilhavam metalicamente e a cabeleira cacheada estava falhada em várias partes, deixando exposto o couro cabeludo em carne viva. A fantasia de cetim meio carbonizada estava grudada nos braços, peito e pernas.

Comecei a latir e uivar, desesperadamente. Galego levantou-se do degrau junto à porta da casa e urinou-se, sem dizer uma palavra.

            Aparentemente os meninos junto do portão da vila não viram nada, só ficaram sobressaltados devido à barulheira que eu fazia.

            Galego parecia não poder se mexer, tremia e a vela em suas mãos vacilantes criava sombras fantasmagóricas e bruxuleantes.

            — A hora da vingança é a hora mais doce, Galego! Olha, onde estou agora não é nem tão ruim assim, logo, logo poderei seguir pro descanso eterno, feito o Padre Montenegro costumava dizer nas missas, lembra? Mas você, você meio que armou pra mim, né? E eu caí que nem um patinho! Morri porque fui burro, feito você comentou. Burro, eu? Só aqui, de todos os lugares do mundo e somente hoje eu poderia aparecer pra você! Quem é o burro então, hã?! Veja, o que é teu tá guardado, eu já vi o seu futuro. Tu vai queimar também, mas não por uns segundos! Vai queimar toda a eternidade! Ha-ha-ha!

            O louro continuava mudo, tremendo de forma convulsiva. Os olhos viravam nas órbitas, espuma começava a se formar nos cantos de seus lábios muito pálidos.

            — Mas o mais divertido disso tudo, é que eu não posso te fazer mal diretamente, ou iria acabar no mesmo buraco imundo onde você vai morar um dia, ha-ha-ha. Porém, quem precisa? – Ele completou, enfiando uma das mãos sobre a pele solta e elástica que cobria o seu rosto, esticando-a, como se fosse uma máscara de látex. — BU! – Ele gritou.

            O louro ganiu e saiu correndo, deixando, no entanto, a vela cair sobre a manga da fantasia. O cetim rapidamente se inflamou e, quando ele alcançou o portão da vila, mais parecia o Tocha Humana dos quadrinhos do Quarteto Fantástico, embora não houvesse dito “Inflame!”.

            Felizmente um dos meninos encontrou um regador cheio no meio das plantas que os velhos cultivavam nas calçadas e conseguiu apagar as chamas. A gritaria acordou alguns vizinhos e eles correram para telefonar para um hospital do orelhão mais próximo.

            — Será assim, igualzinho, Galego. Mas para sempre, sempre, sempre... – Foram as últimas palavras do Capeta, antes de sumir, aliás, tendo antes piscado amistosamente um de seus olhos cor de metal derretido para mim.

            André Galego sobreviveu às queimaduras de segundo e terceiro grau, apesar de ter ficado coberto de cicatrizes. Não muito depois do incidente, a família mudou-se do Engenho de Dentro para algum destino desconhecido pelos vizinhos. Diziam que ele só conseguia dormir sob o efeito de fortes remédios. Que ficava repetindo: "para sempre” e olhando para o vazio.

***

Mesmo hoje, alquebrado pelo acúmulo dos anos, mais mancando do que propriamente caminhando, ainda sinto frio quando passo defronte a vila, pelo nosso lugar assombrado, pelo Beco do Capeta. Sei que não fui um cão perfeito, mas minhas poucas e pequenas maldades – bifes roubados de cima da pia, um sofá rasgado, um enorme buraco no jardim cheio de flores recém-plantadas, um gato que eu quase matei certa vez - devem me assegurar algum lugar bom no além. Talvez então, quando eu alcançar o outro lado, Adamastor, Felisberto, Lourival, ou seja lá como ele realmente se chamou... Pode ser que então ele me explique direito como funciona a morte e o que vem depois dela, sobre como os mortos conseguem às vezes interagir com os vivos.

Quem sabe, depois, já redimidos de nossas faltas, fantasiados outra vez, portando máscaras, apitos e bexigas de boi fedorentas, não voltaremos todos a brincar, desta vez nos Campos Elísios?

Autor: Rubem Cabral
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